Rainbow Hair
1 Capítulo Único
Notas iniciais
XOXO.
E lá estava ela novamente, a pele branca, as bochechas rosadas, olhos negros, e os cabelos, como sempre majestosos, chacoalhando em seu rabo de cavalo cor de arco-íris enquanto corria atrasada para pegar o ônibus que a levaria para a escola; a mesma escola que eu ia, nosso mesmo destino, nossa rotina monótona pelos últimos três anos do colegial.
Sempre a observei, de longe, sem coragem de me apresentar, sempre observei a maneira como ela balançava a cabeça e sorria ao som da música que tocava no seu mp3 cor de rosa, a música que eu nunca soube qual era, e que provavelmente nunca saberia.
A quem estou tentando enganar? Nem ao menos seu nome eu sabia, ou onde morava, que barzinho frequentava aos fins de semana, nem se frequentava, de fato, algum barzinho nos fins de semana. A única coisa que eu sabia era que ela fazia parte do 3ºB, turma que ficava ao lado da minha: 3ºA. Fora isso, não sabia de mais nada, nunca a vi falar com ninguém na escola, estava sempre sozinha, sem nenhum amigo, isolada em seu mundo; no entanto, não parecia ser infeliz, pelo contrário, vivia sorrindo, com seus fones emanando música em seus ouvidos, com seu Mp3 rosa que parecia um portal para um mundo que era só dela; mundo que há tempos venho tentando criar coragem para entrar.
A garota dos cabelos cor de arco-íris me hipnotizava, quando ela passava, não conseguia parar de encarar-lhe; eu poderia dizer que estava apaixonado, no entanto como uma pessoa pode se apaixonar por alguém que nem ao menos conhece? Eu não tinha a explicação e em nenhum dos inúmeros livros que falam de amor em que eu pesquisei, havia resposta.
Então eu me pego pensando naquele dia, o dia em que eu estive mais próximo de poder conhecê-la:
Eu estava correndo no corredor das salas, atrasado para minha aula de francês, quando esbarrei em alguém derrubando todos os livros que a pessoa carregava; abaixei e, ao apanhar os livros, encarei os all stars pretos surrados que envolviam pés pequenos cujo dona imaginei ser um garota, quando olhei para cima, meus olhos só se direcionavam para a chuva de cores sobre sua cabeça. Ela me olhou e sorriu quando entreguei-lhe os livros, sussurrou um “obrigada” e saiu, eu apenas a observei partir, e nem ao menos um pedido de desculpas direcionei a ela; aquela havia sido a única vez em que eu tivera uma chance de falar com ela, no entanto, eu me vi hipnotizado pelo colorido de suas madeixas e deixei aquela chance passar diante de meus olhos.
Nunca me perdoei por deixar essa chance escapar, no entanto, me faltava coragem para falar com ela, perguntar como ia seu dia, saber mais como era ela, ou algo do gênero; me sentia um tremendo covarde por isso. Vivia me perguntando se ela ao menos sabia da minha existência, ou se lembrava do acontecido naquele dia, mas as chances eram mínimas, já que ela parecia tão bem assim, sozinha.
Talvez o grupo de amigos dela esteja fora do território da escola, talvez ela não faça amizade com as pessoas da escola por achar desnecessário todo esse drama adolescente e essa onda de hormônios que insiste em inundar todo ambiente em que pessoas de nossa idade se encontram. Talvez ela julgue ser madura demais para as pessoas de mente tão pequena que se encontram na escola.
Mas eu nunca saberia se minhas hipóteses estavam certas ou se estavam erradas.
Pois amanhã seria o dia de nossa formatura, e muito provavelmente eu não a veria de novo.
***
Agora deitado em minha cama, me pego mais uma vez imaginando qual seria o trajeto que ela leva para chegar em casa.
O dia na escola foi bem agitado, fizemos algumas fotografias para colocar no livro do ano da escola, – finalmente eu estaria na enorme página dedicada aos formandos – conferimos mais uma vez se nossa lista de universidades em que gostaríamos de ingressar estava correta, – só saberíamos em qual entramos, quando fôssemos receber nosso diploma na cerimônia de formatura que aconteceria amanhã, sexta-feira – havia garotos correndo para todos os lados para convidar as garotas para o baile de formatura que aconteceria no sábado a noite – E adivinhem só? Eu não chamei ninguém. Não porque ninguém fosse aceitar, mas na verdade porque a única pessoa a qual eu queria levar ao baile, muito provavelmente não sabe que eu existo, e talvez nem liga para esse negócio de baile.
Olhei o relógio de meu criado mudo que marcava meia noite, ajeitei-me nas cobertas e preparei-me para dormir. Afinal, as dez da manhã eu deveria estar na escola, todo engomadinho na beca de formatura, com aquele chapeuzinho que todos fazem questão de jogar para cima.
Voltei a pensar nos cabelos coloridos de meu amor platônico, e com esse pensamento adormeci.
***
Eram exatamente 9:30min quando eu acordei com minha mãe me chacoalhando desesperada e gritando para eu me apressar. Havia ido dormir com a porta trancada e como ela não conseguia me acordar apenas gritando, teve que pedir ao vizinho para vir aqui e arrombar a porta do meu quarto. Que mãe arromba a porta do quarto do próprio filho? A minha. Ela era o tipo de mulher de quarenta anos que aparentava ter vinte e tinha espírito de cinquenta, vai entender.
Meus pais se divorciaram quando eu tinha 15 anos, porque meu pai traía minha mãe com a secretária – típico, e um tanto clichê, não? – Porém isso não fez de mim um adolescente problemático, pelo contrário, eu amadureci consideravelmente, por ter que confortar minha mãe quando estava triste, ajudar ela nas tarefas de casa e aturar os filhos da atual esposa do meu pai – a secretária, mesmo – que eram um bando de neandertais.
Levantei aos pulos da cama e corri para o banheiro, tomando meu banho extra rápido e vestindo minha roupa igualmente depressa. Desci para a sala de estar onde minha mãe estava pronta para colocar a beca em mim, quando o fez, subi para o meu quarto peguei meu celular e meu chapeuzinho – nunca aprendi o nome desse negócio – e me olhei no espelho.
Veio aí meu primeiro pensamento sobre ela do dia: “Como seria vê-la nessa beca? Vê-la vestida como todos, sem suas roupas exóticas multicoloridas e seus coturnos e all stars surrados?”
***
Ao chegar no pátio da escola, onde aconteceria a cerimônia, fui atingido por um ser de quase dois metros de altura mais conhecido como meu melhor amigo, ele era capitão do time de basquete da escola, mas não era como os outros que haviam deixado a “fama” subir a cabeça.
Ouvi um burburinho e ao me virar vi um amontoado de pessoas olhando para algo que estava do outro lado da rua e, ao direcionar meu olhar para o local que os outros inúmeros olhos apontavam, eu a vi. Ela estava deslumbrante em sua beca vermelha coberta de lantejoulas da mesma cor, e adivinhe? Seu par de coturnos surrados saltava para fora da beca enquanto ela caminhava ao atravessar a rua. Seu chapeuzinho, também coberto de lantejoulas vermelhas voou de sua cabeça multicolorida e ela abaixou-se graciosamente para pegá-lo.
Foi quando eu vi aquilo de aproximando.
Um carro abarrotado de adolescentes bêbados estava indo em sua direção. Ninguém havia notado a presença do automóvel, mas eu sim, e a primeira coisa que fiz foi correr e gritar “cuidado” mas ela não ouviu, então eu corri o mais rápido que pude jogando-me a sua frente e empurrando-a para longe no exato momento em que o carro iria atingi-la.
Senti o choque contra minhas costas e o ar saltar de meus pulmões, ouvi inúmeros passos vindo em minha direção, mas só conseguia enxergar uma coisa. A garota estava de joelhos ao meu lado e pedia freneticamente para eu não fechar os olhos, pedia que eu ficasse com ela. No entanto só consegui dizer uma coisa:
- S-seu nome... – falei com muita dificuldade. A dor dentro e fora do meu corpo já se tornava insuportável.
- Íris, meu nome é Íris. Fique aqui comigo está bem? Não feche os olhos, não feche.
Senti uma lágrima sua tocar minha bochecha e um formigamento se deu no local.
Íris, realmente fazia jus a sua personalidade. Ao arco-íris que pertencia a suas madeixas.
Minha bochecha continuava a formigar e de repente senti-me mais leve.
Íris. Íris.
E, com o pensamento dedicado a seu nome, a visão de seu rosto lindo, seus olhos encarando os meus e aquela sensação que tomava minha bochecha, eu apaguei.
Notas finais
- 1000 beijos de uma garota que sonha em ser escritora
Fale com o autor