Os médicos gritavam alarmados e corriam a sua volta sem saber o que fazer, já as enfermeiras choravam assustadas, mas ele não sabia o que acontecia, sabia apenas que o centro da confusão era ele. Ele levantou a cabeça e moveu os membros para ter alguma idéia do que havia acontecido, sua reação inicial foi estranhar, achar que era uma ilusão, que devia ser alguma das drogas que os médicos injetaram nele, mas era real… Seu braço, sua perna, todo o seu lado esquerdo desapareceram.

Alguns homens apareceram, dispensaram os médicos para longe e o levaram, empurrando a maca pelos corredores do hospital. Depois de alguns minutos, eles chegaram em um quarto escuro, e ao acenderem as luzes o garoto pode ver os homens coletando cabos, agulhas e seringas e se aproximarem dele, foi tudo tão rapido, logo pode sentir uma dor agoniante, sentia eles furando sua cabeça, seu peito, seus braços e pernas, coletando amostras e injetando sedativos, o jovem gritava e esperneava, mas ninguém o acudia, e eles continuavam furando e furando, furando, furando…

Justin acordou em grito, mas por sorte estava em sua casa, são e salvo. Era apenas um sonho, ou melhor, uma lembrança. Se passaram quase dez anos dês da explosão e de sua terrível experiência no hospital e a sua vida se resumira a hospitais, exames diários e estudos. Agora era um adulto e as responsabilidades de cuidar da empresa eram suas, já que seu pai acabara falecendo durante a explosão. Se preparou para assumir a empresa desde que acordou de seu coma três anos após a explosão e enquanto estava no hospital, sua tia Lara viera para a cidade cuidar dele e da empresa do irmão, enquanto Justin se preparava para assumi-la. Tivera alta á alguns meses, sua tia ainda estava na cidade mas viajaria naquele mês, ele ficaria sozinho novamente.

De manhã cedo, ele decidiu sair de seu quarto em seu luxuoso apartamento para tomar seu café da manha. Evitara de falar com a sua família desde que saíra do hospital, tia Lara estava hospedada em sua casa e assim como ela, algumas das trabalhadoras da casa estavam preocupadas com ele.

Ele entrou na cozinha e pegou uma maçã verde que o esperava na fruteira, logo se dirigiu a janela. O dia mal se iniciara, o céu estava escuro, mas variava entre um cinza azulado, vermelho e amarelo devido a luz do alvorecer, mas não era bonito, aquele brilho era sujo, feio, devido a poluição da cidade de Harway, que não era mais bonita, como na época em que era criança. Agora as pessoas tinham que limpar o sangue das ruas todos os dias, a cidade estava infestada de bandidos, assassinos e mercenários, não se podia andar sozinho nas ruas nem sobre a luz do dia, certamente estavam passando por tempos sombrios.

Tudo em sua vida parecia ruim. Ele se apoiou no vidro da janela, sua dor de cabeça estava terrível, as lembranças dos homens e a sensação de ter agulhas o furando incansavelmente ainda o dominavam. Ele pós as mãos na face e suspirou.

— Garoto? — Justin se virou e ao ver a linda mulher, sorriu.

— Bom dia, Tia Lara… — Respondeu tristemente.

Era baixa, cabelos negros, lindos olhos verdes. Era a irmã mais nova de Robert, tinha uma filha de seis anos, Grace. Seu marido tinha a deixado quando Lara estava gravida. A filha dela já estava na cidade de Pochester, viajara uma semana atrás, Lara permaneceu em Harway, mas ela viajaria dali a dois dias.

— O que acontece, meu filho? — Ela se senta no sofá, e indica para ele se sentar ao seu lado — Quer conversar?

— Sim… — Ele não queria, mas se sentou na poltrona, sentia medo em se aproximar das pessoas de quem gostava — Depois da explosão aconteceu algo comigo, algo que me modificou… — Ele hesitou, olhou para a senhora com medo de continuar.

— Pode confiar em mim, querido… — Ela disse em sua voz doce e acolhedora.

— Chamaram de O Caso do Menino Dividido ao Meio — Ele hesitou novamente — Eu… Eu posso fazer coisas que as outras pessoas não podem — Ele olhou para sua tia — Eu acho que poderia fazer a diferença e ajudar as pessoas!

— Sei como se sente, filho… Acho que deve ajudar as pessoas, mas tente não se meter em problemas— A senhora colocou a mão no ombro dele — Faça com o seu pai, ele ajudava as pessoas desenvolvendo novas tecnologias e curas para doenças! — Mas seu pai havia se envolvido em problemas, poucas pessoas sabiam disso, mas o amável Bob tinha um passado sombrio e cheio de crimes e mafias, já que ninguém se enriquece em Harway sem roubar um pouco. Lara se levantou e saiu da sala, mas antes de fechar a porta atrás de si ela o olhou por cima do ombro e sorriu.

Ele não era com o seu pai, pelo contrario, ele era capaz de fazer justiça e ajudar as pessoas de outro jeiro. Iria tentar se manter fora disso, mas se fosse agir da outra maneira precisaria de ajuda.

O Loyal's era um bar muito frequentado pelos mercenários, principalmente a noite. Apesar de ser um local repleto de pessoas perigosas e hostis, era uma zona neutra, era mais calma que muitos dos outros bares da cidade, claro, ninguém queria ser banido do Loyal's por ser um dos únicos pontos de encontro entre clientes e mercenários de Harway.

— O que traz você aqui?— Perguntou o homem com quem Justin conversava.

— Bem, Marshall, eu tenho muitas ideias em mente — Justin respondeu sorrindo, usava óculos escuros, mesmo estando em um bar de noite, não queria ser reconhecido — Você deve ter notado que a situação da cidade está bem feia…

— Uma merda, se me permite dizer… — Marshall o interrompeu — Vai me contratar ou não?

— Sim, mas vou te contratar para outro tipo de serviço! — Justin tira algumas manchetes de jornal do bolso, manchete como "Homem com machado derrota um lagarto gigante" ou "Marjado salva a cidade" — É você não é? Alem de ser Mashall o mercenário, você é o mistico Marjado, homem armado com um machado que possui força e habilidades não humanas…

— Sim… Mas o que você tem haver com isso? — Ele fechou os punhos e bateu na mesa, com um sorriso meio irritado nos lábios.

— Não importa… — Ele tira um pequeno maço de notas do bolso, e o entrega a Marshall — Sei que existem outras pessoas com habilidades não humanas que frequentam o Loyal's… Quero que as ache para mim! — Justin parou por um segundo, ao ver uma mulher familiar na bancada do bar — E, você pode chama-la para mim?

— Quem? Chilli?! Ha! Boa sorte... — Ele riu e se levantou — Te vejo em breve para te entregar as informações, se ainda estiver vivo… — Marshall caminhou na direção da bancada do bar, onde estava a mulher, e a cutucou.

Justin observava de longe os dois conversando, mas depois de alguns segundos Marshall se afastou, e a mulher se virou olhando para Justin. Ela não era muito alta, tinha sua idade, cerca de vinte sete anos e vinte oito anos, pele não muito clara, mas certamente não escura, cabelos negros e ondulados que caiam sobre os ombros da mulher, seus olhos cor de âmbar o fitavam. Ela se levantou e caminhou até ele, se vestia em um moletom preto, causa jeans e usava um tênis vermelho.

— Por que não me surpreende te ver por aqui? — Ela sorriu e se sentou na mesa a sua frente — Agora virou mercenário? Aqui no Loyal's é lugar de mercenários e não de riquinhos metidos a besta!

— Tenho uma proposta para você…— Justin ignorou a pergunta dela e começou a vasculhar os bolsos do casaco.

— Acho que é meio cedo para me pedir em casamento… Só nos falamos uma vez! — Ela riu, brincando. Anos atrás, um pouco antes do acidente do reator eles se encontram pela primeira vez. Na época ela estava perturbada e causou muitos estragos devido a suas habilidades em luta, ele conseguiu encobrir tudo.

— Amélia… — Ele olhou diretamente para ela, girando o cartão que tirará do bolso nos dedos.

— Não me chame de Amélia… — Ela respondeu secamente — Sabe como eu gosto de ser chamada…

— Preciso de mais um favor… — Ele tirou algumas notas do bolso e as entregou para a mulher.

— Agora falou minha linguá! — Ela arrancou as notas das mãos de Justin as meteu no bolso do moletom — Fala, quem você quer que eu mate?

—Não… Não quero que mate ninguém — Ele franziu o cenho, negando com a cabeça — Preciso que invada o hospital e roube o relatório do paciente 52 do escritório do Doutor Armado Torres… — Justin falava em um tom de voz mais baixo, tomando cuidado para ninguém ouvir — Me entregue o arquivo amanhã — Ele se levantou e deixou a mesa indo na direção da porta do bar.

Amélia o seguiu, o acompanhando até a porta. Ele havia mudado bastante dês da última vez que se viram, ela se lembrava de um garoto pequeno e magricela, o que via agora era um homem, seus cabelos escuros e bagunçados e levemente volumosos agora balançavam sobre o vento, e seus olhos claros brilhavam mesmo sobre a fraca luz noturna.

— Nossa, imaginava que você fosse se tornar um fracassado… — Ela sorria, colocando as mãos nos bolsos — Além de rico é um gato!

Ele não respondeu, apenas continuou olhando a rua. Amélia não esperava uma resposta, ela falava tanto que já estava acostumada a não receber resposta aos seus comentários.

— Ok… Te vejo amanhã! — Ela meteu colocou o capuz, meteu as mãos no bolso e saiu andando pela rua escura.

Justin permaneceu alguns minutos parado observando a rua, a vontade de agir era cada vez maior, mas iria se conter, não queria decepcionar sua tia, que era sua única família.