Ela escalou o muro de hera e o pulou sem dificuldade, caiu no chão em uma cambalhota silenciosa, se pondo de pé rapidamente. Ela sabia que o que estava fazendo era invasão, mas não tinha uma real noção se aquilo era errado. Muitas pessoas aprendiam dês de cedo a diferença entre o certo e o errado, mas ela cresceu aprendendo a diferença entre estralar e quebrar um pescoço, entre outras coisas. Ela se aproximou da porta da casa, estava trancada, olhou para os lados e depois para o chão, descobrindo uma trilha de cacos de vidro, ela os seguiu e acabou parando em uma janela quebrada.

Por sorte, a casa estava realmente abandonada, ela podia passar uma noite tranquila ali, ou pelo menos pensava isso, de qualquer forma era melhor dormir ali do que dormir na rua. Para ela era estranho, a casa certamente estava abandonada, o chão e os moveis cobertos de pó, teias de aranha por todo canto, a casa agora brilhava em um tom bege, devido a poeira que havia se levantado. Mas apesar disso, a casa ainda estava repleta de objetos, objetos muito estranhos. Bonecas, espelhos, taças, cartas, potes com folhas e outras coisas dentro, velas e outros objetos estranhos.

Ela olhou para o lado de fora da casa, começava a escurecer e a chuva começara a cair do lado de fora, ela não sabia ao certo onde estava, só sabia onde queria chegar. Fazia dez anos que saíra do México, agora estava voltando para casa com dezesseis anos, sentia saudade da mãe e dos seus dois irmãos mais velhos, também sentia do pai, mas esse nunca mais voltaria. Dois meses antes dela decidir pegar um ônibus e ir embora, seu pai fora assassinado brutalmente por um homem poderoso que vivia na região. Ela decidiu ir embora e buscar ajuda em sua vingança, mas não sabia onde encontrar.

Ela se divertia mexendo nos objetos, sacudindo os potes, pegando nas bonecas e olhando as cartas, uma hora ela parou na frente de uma penteadeira, e se olhou no espelho, fazia tempo que não se via, possuía cabelos negros e ondulados caiam sobre os ombros, sua mãe era latina e seu pais tinha pele clara, já ela nasceu com uma pele não tão clara, mas não podia ser considerada escura e possui lindos olhos castanhos esverdeados. Ela olhou para baixo do espelho e viu uma bonequinha de pano, olhos de botões, ela era muito simpática, tinha um grande sorriso, usava cartola e gravata, e tinha alguns fios vermelhos saindo da cabeça. A garota a segurou com as mãos, e a apertou.

— Você é adorável… — disse ela mexendo na boneca — Podia ir para o México comigo, meus irmãos iriam te adorar! — Ela sorri, apesar de não saber nem se seus irmãos estavam vivos, não sabia se os assassinos de seu pai não tinham voltado para terminar o serviço e eliminar sua família inteira.

A jovem colocou a boneca de volta na penteadeira e se olhou no espelho, agora seus olhos brilhavam com ódio, ela se lembrou de encontrar o pai ensanguentado no chão da sala no meio da noite, a lembrança veio a sua mente com um sentimento de culpa por ter abandonado a família, se é que ela tivesse o direito de os chamar de família, ela havia sido criada por um casal de velhos, ex-mercenários, que lhe fornecia treinamento e estudo, eles aperfeiçoaram suas técnicas de combate, mas não lhe forneciam o amor que sua mãe poderia ter dado, eles apenas a ensinavam a lutar e a matar.

— Não é minha culpa — disse consigo mesma, tentando amenizar o sentimento de culpa — Eu só quero vingança!

Ela sabia que a probabilidade de que o assassino esteja na cadeia, pagando pelos seus atos é grande, mas o que ela realmente queria era causar sofrimento a essa pessoa com as próprias mãos.

A chuva caia pesadamente do lado de fora, um clarão iluminou o céu e logo em seguida veio um trovão, um som estrondoso e potente, aquilo assustou a menina, que deu um pulo e um grito de surpresa se virando para a janela. Quando ela voltou a olhar para o espelho, ela percebeu algo atrás de si, rapidamente ela se virou, levantando a guarda caso tivesse que lutar.

— Se acalme!— Era uma mulher, pele negra, cabelo trançado castanhos que variavam de um tom escuro para um tom claro quase ruivo, seus olhos cor de âmbar que brilhavam como brasa, tinha o rosto coberto por cicatrizes e rugas estranhas — Qual é o seu nome?

— Amelia… — A garota respondeu baixando a guarda mais calma — Está casa é sua? Se quiser eu…

— Não é… Eu passo aqui as vezes, mas algumas coisas são minhas — Ela apontou para a bonequinha, e abriu um sorriso meio macabro — Nós te ouvimos!

— Nós quem? — Amelia franziu o cenho, confusa, e a mulher voltou a apontar para a boneca… Essa ai é louca!, a garota pensou torcendo o nariz.

— Ei, eu ouvi isso! — A mulher riu, ao ver a reação de surpresa no rosto de Amelia — Venha sente-se — A mulher puxou uma cadeira da mesa redonda próxima a penteadeira, esperando a garota se sentar, logo ela puxou outra e se sentou.

Ao se aproximar da mulher, Amelia percebeu que as cicatrizes e rugas eram tatuagens e a tal senhora era muito mais jovem do que aparentou quando a jovem a viu pela primeira vez. Tudo estava cada vez mais confuso, no meio do nada a boneca apareceu em cima da mesa ao lado da vela, que pouco tempo depois a mulher acendeu apenas colocando um dedo acima dela.

— Então você quer matar o assassino do seu pai, não? — A mulher sorria — Posso ajudar, sabia?

— Não preciso de ajuda — A garota respondeu meio grossa, cruzado os braços — Eu fui treinada por dez anos, a matar e a lutar! Ele não tem chances contra mim…

— Você diz isso para se manter segura, mas tem medo, tem medo de falhar — A mulher apoiou a cabeça sobre as mãos olhado para Amelia, e continuou falando em sua voz doce — Eu posso fazer de você infalível, nada ira impedir de alcançar seus objetivos… Você sera a prova de balas!

— Pensa que eu caio nessa? — Ela sorriu, tentando parecer provocadora, olhou para a mulher para ver sua reação, mas apesar de mostrar desinteresse, ela pensava no assunto, será que era aquilo que ela queria? Qual seria o preço?

— Sim eu penso, minha jovem — Dizendo isso a mulher pegou uma adaga e a colocou em cima da mesa. Ela era bonita, possuía um cabo branco, com algumas linhas negras e algumas coloridas que formavam belos desenhos, no topo do cabo havia esculpido uma figura, uma caveira bem conhecida pela jovem.

— Eu conheço ela, é a caveira catrina! Eu passava o dia dos mortos com o meu pai… Mas meu ultimo dia dos mortos eu passei sem ele — Amelia golpeou a mesa com raiva, lembrando do ódio que sentia, certamente faria de tudo para se vingar.

— É bem simples, se recusa minha oferta, pode se levantar e ir embora — A mulher apontou para a porta — Mas se aceitar, pegue a adaga que eu vou te instruir!

Amelia pegou a adaga sem pensar duas vezes, quase ao mesmo tempo que a menina tocou na arma, todas as velas da sala se acenderam e começaram a piscar em varias cores diferentes, mas a garota não se assustou, olhou para a mulher procurando o que fazer.

— A segure firme! — ela ordenou, e Amelia obedeceu — Corte sua mão e deixe o sangue pingar na vela! — ordenou novamente, mas dessa vez a garota não quis obedecer, mas mesmo assim ela cortou sua própria mão deixando o sangue escorrer, ela parecia estar sobre o controle dela.

Amelia tentou largar a faca e sair correndo, mas continuou parada no lugar segurando a faca com força. A mulher se inclinou sobre ela, e sussurrou em seu ouvido uma ultima ordem:

— Coloque a adaga direcionada a seu peito.. — A mulher sorriu e continuou falando em sua voz doce e serena — Aperte ela contra seu coração!

A garota obedeceu. A adaga estava agora enfiada em seu peito, ela abriu a boca para gritar mas não conseguiu, a sensação foi estranha, sentia frio mas era como se estivesse em chamas, sentia uma grande paz, mas era como se estivesse prestes a se desfazer em fúria. Ela fechou os olhos, esperava ver a cara da morte, mas nada aconteceu, ela voltou a abrir os olhos e se levantou, a adaga não estava mais em seu peito.

— Como se sente? — A mulher perguntou sorrindo.

A jovem não respondeu, ela voltou a se olhas no espelho. Não parecia ser ela, claro que usava as mesmas roupas, tinha os mesmos cabelos negros, mas em sua cara ela viu a morte, era a cara de la catrina que podia ver em seu rosto. Ela não acreditou, tocou no próprio rosto para ter certeza se era uma imagem real. A fúria então tomou conta, ela socou o espelho, que se desfez em cacos, que caíram pelo chão. A mulher sorria, ainda estava sentada na cadeira, ela repetira a pergunta, esperando a reação de Amelia.

A garota coletou um dos cacos no chão e se aproximou da mulher, que ainda a observava sorrindo. Esta abriu a boca para perguntar mais uma vez, mas foi interrompida. Amelia enterrou o caco no peito da mulher repetidas vezes.

— Isso responde a sua pergunta? — A garota respondeu sorrindo, sentira prazer em ter feito aquilo. Ela limpou o sangue do rosto e voltou a se olhar nos cacos que ainda restavam no chão e viu que havia voltado ao normal.

— Amelia, Amelia… — A mulher falava com as ultimas forças que lhe restavam — Você… Sabe que tudo tem um preço… Eu lhe tornei perfeita… O sangue deve ser derramado, para o oculto se manter acordado…

Não compreendia, mas não queria compreender, ela deixou a casa e o corpo e foi embora. Quanto antes chegasse em casa melhor, já que tinha assuntos a tratar com um certo homem.