Rainbow

1 Capítulo I - Akemi


Akemi Mizuhara é uma jovem de 15 anos. Ela veio de uma cidade muito pobre, onde sua mãe a sustentava vendendo roupas que ela mesma confeccionava. Depois de juntar muito dinheiro, sua mãe conseguiu comprar um pequeno apartamento em Tokyo em um dos bairros mais pobres. Seu pai e irmão mais velho já não moravam com elas há 3 anos após um divórcio turbulento.

Seu quarto era do tamanho do único banheiro da casa, mas sua mãe sempre tentou ao máximo se empenhar na vida de Akemi: a matriculou na melhor escola. Se sustentavam numa loja de costura e lavanderia. Sua mãe ganhava o suficiente para que não passassem fome e pagassem as contas da casa, mas raramente havia dinheiro para o lazer.

Akemi era estudiosa e conseguiu uma bolsa integral no melhor colégio de Tokyo. Todos os livros, uniformes e materiais escolares foram doados a ela por cortesia da escola por suas excelentes notas e história de vida. Ainda sim, sua mãe não aceitava pensão de seu pai e nem suas visitas. Os dois passaram por momentos muito complicados envolvendo traição e roubo por parte de seu pai. Já seu irmão era um marginal completo: não estudava, não trabalhava e até já se meteu em problemas graves com a polícia. Ele fugiu de casa um pouco antes do divórcio dos seus pais; Akemi acha que ele viajou para o ocidente.

Sua relação com seu irmão foi totalmente problemática: ele já a molestou, a agredia e maltratava sua mãe. Akemi agradece todos os dias por seu irmão ter sumido. Se ele está vivo ou morto, ninguém sabe.

[...]

O primeiro dia de aula de Akemi na escola nova!

— Filha! Acorde! – sua mãe gritou da cozinha.

— Mas já...?

Akemi mal havia dormido de ansiedade. Vestiu seu novo uniforme impecável, arrumou a mochila e foi até a mesa tomar seu café: uma humilde torrada com ovo.

— Não deixe ninguém te zoar, está bem? E se falarem algo...

— Mãe, tudo bem.

— Eu sei, meu amor. Eu sei.

Sua mãe estava claramente preocupada em como Akemi se sairia na escola. Seu maior medo era o bullying. Mesmo assim, nossa jovem japonesa estava tranquila, apesar da ansiedade. Ela não via a hora de finalmente conhecer pessoas da sua idade.

Saiu de casa dando um beijo de despedida em sua mãe. Caminhou por poucos minutos até chegar ao metrô. Em vinte minutos chegou à sua estação e foi até sua escola.

O colégio era grande, bonito e limpo. Nunca havia visto algo tão magnífico. Sua construção antiga remetia às obras barrocas, com estátuas esculpidas em pedra e um enorme chafariz branco na entrada. Antes de passar pelo portão de aço, Akemi ficou uns minutos parada apreciando.

Uma garota a esbarrou, resmungando algo do gênero "sai da frente", mas Akemi ainda estava tão fascinada com seu novo colégio que nem prestou atenção. Quando respirou fundo, finalmente partiu para sua sala. Ao chegar, viu a quantidade imensa de pessoas diferentes conversando e rindo. Apesar de se sentir deslocada e sozinha, era compreensível: aluna nova. Sentou em uma cadeira à frente, ainda tímida. Levou alguns minutos até que alguém a notou.

— Oi! – uma menina de cabelos castanhos, curtos e com uma franjinha lisa apareceu.

— O-Oi. – Akemi não conseguiu deixar de gaguejar.

— Qual é o seu nome?

— Mizuhara Akemi... – Corou.

— Mizuhara-chan! Meu nome é Yumura Naomi. Você é nova? Eu nunca te vi! – a menina era simpática, sorridente e animada.

— Sim, eu sou nova. Me mudei recentemente para Tokyo.

— Puxa, eu também! Você é de onde?

— Kamagasaki¹... – disse envergonhada.

— Nossa...! – Naomi demonstrou espanto. – Eu sou de Okinawa.

— Ouvi dizer que lá é bem bonito. – Akemi tentou mudar de foco pela vergonha.

— É sim, mas eu amo Tokyo! Eu adoro toda essa tecnologia! – sua nova colega, ainda sim, era muito amigável.

Mais três meninas chegaram e rodearam Akemi em sua cadeira.

— Yumi, Lily, Komiko! Essa é a Mizuhara, ela é nova! – Naomi a apresentou a suas supostas amigas.

— Olá! – as três responderam sorrindo.

— Podem me chamar de Akemi... Eu não ligo.

— Então pode me chamar de Naomi! Essa é a Yumiko, essa é a Lily e essa é a Komiko! A Yumi e a Komiko são gêmeas, sabia?

— Eu sou a gêmea mais bonita, claramente. – a Yumi comentou.

— Não é a mais esperta. – sua irmã comentou rindo.

— E a Lily é inglesa! Não é chique? – Naomi falava com os olhos brilhando.

De fato, uma menina de cabelos loiros e olhos verdes não era exatamente a aparência japonesa comum. Lily era, na verdade, idêntica a uma cantora de rock por causa da maquiagem escura³... Já as gêmeas eram muito fáceis de perceber os traços japoneses, principalmente por causa dos cabelos pretos.

— Eu já sou quase daqui. – Lily riu – Meu pai é japonês então sou meio-a-meio.

Suas novas colegas fizeram muitas perguntas e pareciam ser realmente boas pessoas, mas sua conversa foi interrompida por um professor velho e enrugado.

Fizeram sua reverência² e começaram a assistir a aula de matemática. Akemi sempre teve muita facilidade em aprender, principalmente em exatas.

[...]

Depois de uma aula comum, Akemi se reuniu novamente com suas novas colegas. Novamente, mil e um assuntos vieram à tona e ela já havia adorado as meninas. Yumiko tinha medo de fantasmas, Naomi queria ser atriz, Komiko queria fazer um tour pelo mundo e Lily queria casar com um homem lindo. Cada garota era diferente, mas todas eram super amigáveis. Descobriu que Yumi cortou o cabelo bem curto – estilo "Joãozinho" – para ficar diferente da irmã, que tinha o cabelo até abaixo da bunda. Seu restante do dia foi totalmente tranquilo, mas as quatro meninas foram as únicas pessoas que pareceram demonstrar querer conhecê-la.

Em casa, correu para contar à sua mãe como foi seu dia... Até que a viu desmaiada no chão.

— Mãe! Mãe! – Akemi sacudiu sua mãe desesperadamente, mas ela não se mexeu.

Pegou o celular com suas mãos trêmulas e chamou uma emergência. Rapidamente a ambulância chegou e sua mãe foi levada ao hospital. Não foi preciso de cirurgia, mas ela precisou tomar soro e o médico fez alguns exames.

Poucas horas depois, sua mãe acordou. Akemi estava ainda sentada na sala de espera quando o médico apareceu.

— Senhorita Mizuhara, sua mãe está sedada. Ela ficará bem.

— O que aconteceu?

— Ela teve um choque anafilático. Encontramos uma picada de abelha.

Sua mãe era terrivelmente alérgica a abelhas. Akemi sabia disso, mas nunca imaginou que seria tão... Simples.

— Só isso? Ufa... – Não pôde deixar de estar aliviada.

— Escute, caso ela seja picada de novo e não tome o medicamente rapidamente, provavelmente não conseguiremos salvá-la. Guardem adrenalina em casa para caso isso aconteça novamente, tudo bem?

— Tipo... Em uma seringa?

— Sim. É só aplicar no braço que ela se sentirá melhor. Você pode comprar o frasco de adrenalina. Mas, além da alergia, nós achamos algo anormal nos exames.

— Que problema?

— Sua mãe tem se sentido cansada?

— Bom, ela trabalha muito, então sim.

O médico demonstrava certo receio de falar e isso deixou Akemi aflita.

— O que mais? Ela tem alguma coisa?

— Nós acreditamos que sua mãe esteja em uma fase inicial de leucemia⁴.

O mundo de Akemi desabou. Ficou sem palavras.

— Achamos estranho que a pequena picada de abelha sangrasse mais do que deveria, então fiz esses exames. A fase inicial tem cura com quimioterapia.

— Eu... Eu preciso ver minha mãe.

O médico guiou Akemi até sua mãe desacordada. Tudo que ela pensava era em como pagar por seu tratamento⁵.

¹ Kamagasaki é uma cidade situada no sul de Osaka e é conhecida por ser uma "favela". É uma das cidades mais pobres do Japão, tendo uma grande quantidade de moradores pobres, sem teto ou viciados em drogas.

² No Japão, os alunos devem reverenciar os professores antes de começar as aulas. É uma tradição para demonstrar respeito.

³ Apesar de ter deixado a imaginação de vocês leitores viajar, eu baseei seu visual na cantora Taylor Momsen, da banda The Pretty Reckless.

⁴ Leucemia é um tipo de câncer maligno que ocorre nos glóbulos brancos do sangue. Na fase inicial tem cura com quimioterapia e medicamentos.

⁵ O tratamento de câncer é caro. No Brasil, pode chegar a mais de $3.000 reais o preço total (sessões e remédios).

Notas finais
Espero que tenham se interessado por essa história. ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.