Capítulo 1

Connectticutt – 2:00 am (EUA)

8 meses depois...

O vento frio batia em seu rosto como navalhas cortando sua pele, sua respiração pareciam baforadas de gelo seco, latas eram arrastadas pelo vento forte e seco, o local era sombrio.

Para Ademir, aquele local lhe trazia lembranças, lembranças de morte. Ele achava difícil lembrar aquele fatídico dia que mudara completamente sua vida, seu ser. Era um dia em branco para ele, a explosão havia de algum modo, bloqueado sua memória. Por mais que forçasse sua mente, as lembranças que chegavam a ele não passavam se flashs confusos, fatos sem uma sequencia certa. Mas ali, encostado aquele prédio, simplesmente esperando, ele via claramente as consequências do acontecido, como a sua inteligência avançada, seu ínfimo conhecimento nas áreas das ciências e a estranha desenvoltura que seu corpo mostrava para qualquer tipo de atividade física. Agora ele se sentia mais máquina pensante do que humano, pois tinha a mente rápida e avançada como a memória de um computador e a força de qualquer máquina se carga, era capaz de suportar grandes pesos, sem sentir dor alguma, assim como tinha movimentos perfeitos em qualquer esporte que ousasse praticar.

Olhou o relógio mais uma vez na esperança de não ter se adiantado, mas os ponteiros do relógio o desmentiam. Então, com a esperança de que o tempo passasse mais rápido, Ademir começou a andar pelo beco fétido e imundo a procura de algo. Talvez tivesse alguma pista de o que o esperava ali, mas ele nada encontrou além de um mendigo encolhido dentro de uma grande caixa de papelão.

- Chegou cedo. – a voz rouca e seca ecoou pelo beco fazendo com que Ademir virasse para ver o portador dela.

- Rayan. – ele disse para o homem de terno a sua frente. Olhou o relógio mais uma vez. –Também se adiantou, ainda é 00:10h, sendo o combinado 00:30h. –sua voz destilava sarcasmo. Uma defesa natural, levando-se em conta que o homem o pegara de surpresa.

- Ademir – disse o outro no mesmo tom cordial. Ignorou o comentário sarcástico do garoto. – Vejo que está muito bem.

Ademir reprimiu o impulso de gritar quando aquelas cinco palavras foram proferidas. Porque ele não estava nada bem e aquele que proferiu as palavras sabia muito bem disso.

- Não tão bem quanto aparento. – disse após algum tempo de um silêncio que ele usou para reprimir sua raiva. – Afinal, eu te procurei, não? – desafiou se aproximando da entrada do beco.

- Você veio atrás de mim procurando respostas e não de uma cura. — Rayan cerrou os punhos demonstrando que gostava da situação tanto quanto Ademir.

A curta respiração dos dois era tudo o que se ouvia naquele espaço por longos minutos. O silencio se devia ao fato de que eles precisavam escolher suas palavras minuciosamente, pois qualquer frase mal formada poderia leva-los a uma briga letal.

- E o que você tem a me dizer? – Ademir perguntou, por fim.

- Me siga. – disse Rayan, saindo do beco e movendo-se rapidamente pelas ruas desertas da cidade. Ele nem ao menos se deu ao trabalho de verificar se Ademir o seguia.

O garoto o seguia em silêncio enquanto apressava seus passos, que eram abafados pela neve, para conseguir acompanhar Rayan.

Os dois pararam apenas quando chegaram a uma construção antiga, porém vistosa com suas janelas de madeira ornamentadas e a porta entalhada, as sacadas pintadas de um branco impecável, os entalhes na parede que parecia ser feita de gesso, os tons pastéis da fachada e o ar convidativo que ela passava. Com olhos astutos, rápidos, curiosos e apreensivos, Ademir avaliou as estruturas, definindo ser algo aproximadamente do século XVI.

- Entre. – Rayan convidou abrindo a ornamentada porta, cuidadosamente.

Ademir nada disse ao adentrar a casa. Ele apenas se pôs a observar cada detalhe arquitetônico da antecâmara. Admirando cada canto, cada figura esculpida naquela parede adornada de arte barroca. A arte que segundo seu pai, e segundo as fotos que ele via, sua mãe costumava admirar e restaurar antes de dar a luz ao filho e por um fim a sua vida.

Os olhos do garoto estavam atentos a cada detalhe daquela conflituosa arte que dominava o ambiente. As cores, extremamente escuras e extremamente claras que ocupavam um mesmo quadro, anjos e demônios lutando em um mínimo espaço, a divindade com que representavam a figura humana através dos anjos e santos, as criaturas fantásticas, como bruxas e gigantes, os gritos de guerra e liberdade que algumas obras expressavam, a delicadeza e força que as esculturas de gesso possuíam, a exuberância preenchia o ambiente, e os olhos de Ademir avaliavam cada mínimo detalhe das conflituosas obras de arte que representavam a época barroca. Fez a incrível observação de que o ambiente fora feito para ter as paredes simétricas. Tudo o que havia pintado na parede da direita, estava quase igual a da esquerda.

- Calculando as variantes? – Rayan perguntou, sorrindo enquanto se punha a observar os ângulos e incógnitas presentes ali.

- Um lugar quase simétrico. – Ademir respondeu após dois minutos de cálculos.

O espantou estampou-se na face de Rayan. “Como isto é possível?” – ele pensava. – “Fiz o impossível para que todas as partes, para que todas as figuras repetidas ficassem exatamente iguais.

Ademir riu da expressão de desgosto do homem a sua frente.

- Não se preocupe. – falou, “lendo” os pensamentos do dono da casa. – A diferença das partes que deveriam ser idênticas é mínima, questão de milímetros. Digo, tudo está no tamanho das figuras. Algumas maiores que as outras, apenas isso. – Ademir riu.

- Não imagina como isso me deixa aliviado. – Rayan colocou as mãos nos ombros de Ademir a passou a conduzi-lo pela casa. – Meu avô era um verdadeiro perfeccionista, acredito que herdei isso dele, não admito grandes diferenças em coisas que foram feitas para ser iguais.

- Semelhantes. –disse Ademir, corrigindo-o. Ele se sentia poderoso ao ter tanto conhecimento.

- Como?

- Semelhantes. – repetiu vagarosamente. – Nada é igual neste mundo. Algumas coisas são apenas semelhantes. Pode ser que a semelhança seja grande, mas cada coisa é única. Um bom exemplo é o de irmãos gêmeos, que podem ser idênticos na aparência, porém cada um possui um DNA único.

Rayan se surpreendia com a forma segura com que o garoto deixava escapar de suas observações. O menino, jovem, com olhos que pareciam ter a profundidade do oceano e a sabedoria de toda uma vida, o rosto e a inocência de uma criança e aparência de um homem, com seu sobretudo pesado e o chapéu Fedora, assim como seu pai usava. Aquele garoto perecia saber de mais coisas que as outras pessoas de sua idade. Era mais sensível, mais cuidadoso… Rayan ousaria dizer que ele caminhava para ser um homem extremamente sábio.

Pendurou o casaco e o chapéu nos ganchos atrás da porta da casa e seguiu o anfitrião pela luxuosa casa.

Mas, apesar das palavras firmes e confiantes, Ademir se sentia oprimido e observado pelas inúmeras obras de arte que lotavam os corredores que passavam. Quadros que pareciam ter movimentos confusos, os olhos das figuras pareciam o seguir, assim como os olhos brancos vazios das esculturas de gessos... As figuras se mexiam sem uma direção exata, o deixando ainda mais desorientado... Ele não conseguia mais saber para onde ia!

- Está tudo bem? – Rayan perguntou assim que viu a cor se esvair da face do garoto.

- Tudo sob controle. – ele respondeu, cerrando os dentes com o intuito de cessar o fluxo de informações matemáticas que seus olhos captavam ali.

Vendo a mentira na face de Ademir, Rayan pegou-o pelo braço e o arrastou pelos corredores da mansão até uma grande, lisa e pesada porta de madeira. Abriu um compartimento na parede, que ninguém havia de reparar se não prestasse muita atenção, pois a mesma estava parcialmente escondida por uma escultura e por ser da mesma cor da parede, se misturava muito bem ao ambiente.

- Secretum tempore explicandis humanae vitae manifestationem cerebro¹. – Rayan sussurrou se aproximando desse compartimento secreto, pouco antes da porta se abrir revelando um verdadeiro paraíso científico.

1 – Frase em latim. Significado: O Segredo da vida será revelado no momento em que desvendarmos o cérebro humano.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.