Radioactive
1 Prólogo
A poeira radioativa escura interceptava a luz solar e castigava a superfície com o clima desfavorável para vida. Para Halley Foster não fazia diferença. Sempre fora assim desde que ela se lembrava.
Caminhou até a porta exterior e colocou o capacete velho de seu pai. Era um tanto largo, mas Halley gostava de lembrar-se dos velhos tempos quando ainda tinha sua família. A roupa era metade de seu peso e tinha marcas de desgaste em toda a composição. "Marcas de batalha".
Antes de sair consultou seu diário de pulso. Era dia 9 de março do ano de 2330, o diário tinha variados arquivos salvos, Halley só salvava o que realmente era preciso. Desde que começou a prestar serviços para a colônia subterrânea do norte ela deu seu corpo e alma para um projeto que todos acreditavam ser loucura. Sua vida mudou drasticamente depois que ela ganhou o Mérito militar. No fim das contas os cientistas acharam alguém que não tinha mais nada a perder, e esses eram os soldados mais valiosos. Halley se oferecia para todas as missões que levavam a superfície, vistas por todos como uma tentativa explícita de suicídio. Em sua Colônia, todos passavam por todas as etapas de seleção. Basicamente desde crianças até os mais idosos, passavam por testes e aprendizado sobre áreas específicas da Colônia. No começo te ensinam o básico de sobrevivência e tudo sobre a convivência em sociedade. As escolas ensinam o básico com um aprofundamento maior na parte cultural humana. Crianças interessadas em suprir o exército ou que queiram avançar para áreas superiores.
Todos acreditavam não ser possível restaurar o que um dia foi chamado de equilibro natural. Halley não conheceu o mundo nos seus melhores dias. A humanidade estava perto da total extinção e cada dia que passava a colônia ficava mais fraca. A garota já havia lido pouco a respeito da terceira guerra mundial. Não havia dúvidas de que isso era a causa de todos os problemas de seu presente. No entanto pouco se sabia sobre a guerra, os fatos certos eram tirados a prova. Armas químicas e a poeira radioativa leve transformou o planeta em um deserto com poças corrosivas e atmosfera envenenada. Só era possível sair da colônia com trajes grossos e projetados para suportar a densa camada radioativa. Halley odiava a roupa, mas era ela que mantinha poucas polegadas de sua morte certa.
Observou os registros do diário, sua busca na superfície provou ser inútil em todo esse tempo. O campo científico da colônia do Norte acreditava que havia algumas plantas que tinham adquirido resistência com o passar dos anos. E esse tipo de planta era a chave para a salvação de sua miserável raça de vermes imundos.
A conexão do diário iniciou, Halley estava na frente da ultima porta para a saída externa. A voz de um dos cientistas de apoio da colônia a chamou para uma conversa de áudio. Era Gill, o único com quem ela tinha algum tipo de contato dentre os cientistas da colônia.
Eles viviam em áreas restritas aos civis e nunca eram vistos em público. Estavam sempre procurando meios de salvar o que havia restado. O mundo jazia em cacos e ainda assim eles não perdiam esperanças.
–Halley, está aí? Pode me ouvir?
–Posso, Então... Mais um maldito dia não? Como vai a pesquisa Gill?
–Não posso dizer muito, mas conseguimos restaurar grande parte dos genes que estavam faltando de variadas espécies de plantas... No entanto nenhuma parece ser resistente para suportar a radioatividade da superfície.
–Diga algo que eu já não saiba Gill, vocês colocam uma fé cega nesse projeto sem fundamentos... Arriscamos muito mandando soldados para a superfície. A cada dia ficamos fracos e sem suprimentos... e tem também outros imprevistos.
–Está querendo desistir Halley? Logo agora que estamos tão perto?
–Sou a única que ainda aceita ser enviada para a superfície, vocês não tem ninguém... Nossos homens estão cansados e não acho que suportarão outro ataque da colônia do sul.
Halley sabia que a colônia subterrânea do norte não era a única. Existia uma ao sul, no entanto eles não eram nem perto de serem convencidos a uma aliança pacífica. "Uma idiotice... o mundo foi destruído pelas guerras humanas estúpidas, e ainda assim os que restaram brigam entre si".
–Tem a sua ordem Halley, procure pela Planta Matriz... Ou morra tentando.
Halley desligou a conversa, Gill e os cientistas a irritavam demais. A porta se abriu é a garota deu seus primeiros passos para fora do compartimento. Sentiu a densa camada de fumaça radioativa pesar em cada centímetro de seu corpo. O céu tinha cores magníficas e vivas que impressionava a garota. Halley estava acostumada com isso, mas sabia que existiam crianças que não viveriam o suficiente para conhecer o que restava do mundo.
Tinha seus 14 anos quando veio para superfície pela primeira vez. Desde os sete foi lecionada para ser mortal e rápida. As crianças da colônia aprendiam a usar armas cedo. "Um destino cruel... Mas necessário." A guerra ainda acontecia de tempos em tempos. Mas a garota podia ver o que os outros não viam. "Temos mais armas do que pessoas para usá-las... Essa guerra não tem propósito algum.". A Planta Matriz era a maior incógnita de pesquisa para os cientistas da colônia. Um gene inteiro com resistência codificada para si, formando um organismo vivo com características das plantas primordiais capaz de aguentar a radioatividade sem sofrer mutações. Essa descoberta mudaria o curso da história, ou o que restava dela. Gill Duskovitch era um renomado cientista que foi precursor na pesquisa da Planta Matriz. Halley o conheceu há alguns anos durante suas primeiras missões na superfície. Cientistas não se arriscavam a chegar perto da saída da colônia, os soldados faziam tudo, guiados pela inteligência dos homens de jaleco que viviam no anonimato. As pesquisas sobre a radioatividade relatam que a exposição a superfície, mesmo usando o traje adequado, traz riscos biológicos de mutação sentidos nas próximas gerações. Por esse motivo, os soldados que iam a superfície eram terminantemente proibidos de se relacionarem com pessoas saudáveis que viviam na colônia. As doenças radioativas eram pouco conhecidas e muito temidas pelo motivo de não possuírem uma “cura” por assim dizer.
Ela caminhava pelas dunas de areia clara enquanto procurava algo útil. As dunas eram grandes cidades em algum tempo distante, mas ao que ela sabia tudo foi destruído. "Viemos do pó e voltaremos a ele..." O pai costumava dizer. O calor era insuportável, ela suava dentro das vestes grossas. "Preciso acabar logo com isso".
Era fácil perder a noção do tempo na superfície, suas botas afundavam na areia fina. A garota sabia que sem elas estaria sem as pernas agora. O jeito mais fácil de matar um soldado inimigo era danificando seu traje... A poeira radioativa fazia o resto.
Durante os conflitos ela havia matado muitos. Seus tiros eram críticos e certeiros, e não eram eles que tiravam a vida dos oponentes. Halley sabia todos os pontos críticos dos trajes, uma vez danificados era só assistir os corpos sendo dissolvidos no vento. Certa vez danificou o capacete de um soldado do sul, ela conseguiu ouvir seu ultimo grito de vida enquanto sua face derretia com a poeira. "Era apenas um garoto... e eu não tive misericórdia". O pai sempre lhe dizia... "Não hesite em atirar para matar, no mundo em que vivemos não existe misericórdia. No mundo em que vivemos não existe mais humanidade".
Ela podia ver os prédios metálicos de longe, eram altos e simétricos. Alguma cidade havia prosperado em algum tempo naquele lugar. Olhou no mapa e depois no indicador de nível de oxigênio. Ela ainda tinha um tubo e meio. O ar da superfície era tóxico, e não havia plantas para repor o oxigênio. Os tubos de oxigênio mantinham os soldados vivos e estáveis. Gill marcava lugares possíveis em seu mapa todos os dias de caça a planta. Todos eram perda de tempo, mas ela ia assim mesmo. Era possível que tivesse alguma planta perto de algum lençol freático. Halley sabia que esses lugares eram perigosos. As colônias brigavam pela água restante e potável. Os lençóis eram a salvação e a morte ao mesmo tempo. Muita guerra foi travada pela posse deles, mas agora todos estavam cansados... Ou pelo menos isso era o que ela achava.
Halley notou que a areia começou a ficar densa e pastosa... Ela estava perto de algo. Era o lugar mais longe que ela tinha ido até então.
Olhou em volta, o lugar era lamacento e estranho. E não parecia ter vida alguma. Gill interrompeu a busca com uma chamada urgente de voz.
–Halley ... Péssimas notícias, a colônia está sob ataque, você deve voltar imediatamente.... Precisamos de você... Ache a planta
A chamada caiu junto com a conexão. Halley entrou em pânico, tentou retornar... Nada.
Então deu meia volta e foi surpreendida. Uma pessoa de traje tentou acertar sua cabeça com um projétil, mas ela foi mais rápida. Era pequeno e parecia ser uma criança.
–Deite no chão ou eu atiro.- a voz era de um garoto.
–Vai sonhando.
Halley virou e correu, sentiu o calor do projétil raspar em seu braço. Escondeu-se atrás de um pedaço de pedra.
–Socorro!!!- O garoto gritou, ela não entendeu até ver a cena.
A areia úmida estava engolindo o garoto acima dos joelhos, no entanto ainda estava segurando o fuzil. Ela só tinha uma chance.
–Jogue a arma longe e eu te ajudo.
–Nunca!!- A cada movimento a areia engolia o garoto.
–Você quem sabe.
–Espere!!... -ele jogou o fuzil fora do alcance- me ajude a sair daqui.
Halley correu e percebeu que a areia engolia ele rapidamente e estava coberta metade do torso para cima. Estendeu a mão e segurou o garoto. Foi difícil erguer o corpo, mas ela conseguiu. Ele caiu em cima dela até que ela reparou que o garoto estava tremendo.
Olhou para o tubo de oxigênio dele, onde havia algum tipo de raiz envolvendo e impossibilitando a passagem de ar. Halley se deu conta que tinha achado a tal planta, o garoto perdia o ar e morria nos seus braços. Ela olhou seus níveis de oxigênio. Tinha menos da metade e um cheio. Equilibrou a quantia e tirou um tubo de seu traje para substituir o quebrado do garoto. O tubo dele estava cheio de lama quando Halley trocou.
Guardou uma amostra da planta do pântano em sua mochila, e percebeu que o garoto voltou a respirar lentamente.
–O que aconteceu?
–Eu salvei sua vida, duas vezes.
–Obrigado... É...
–Halley.
–Não há de que... Agora faça o favor de voltar para o maldito buraco que saiu e não volte mais aqui.
–Sou Austin, obrigado mesmo Halley, mas não devia ter me matado?
–Se fosse há um tempo e me perguntasse isso eu responderia que sim... Mas hoje nem sei mais o motivo de matar humanos.
–Sou da colônia do sul.
–Aí está um bom motivo... Você me lembra de meu irmão mais novo.
Sentiu a presença de algo e levantou um projétil a atingiu no braço e ela desmaiou... Quando acordou estava em um quarto branco.
Fale com o autor