Radioactive
1 Prólogo
Notas iniciais
Acordo ao tentar me mexer com dores em todo o corpo. Estou em um lugar desconhecido, onde não importa quem ou o que eu sou. Esta cela mostra o quanto sou perigoso. Nem mesmo há janelas para ver a luz do sol. Não sei onde estou e também quem sou. Sinto em meus ossos as dores de uma guerra e estou com medo de descobrir qual guerra está acontecendo. Estou acorrentado a um passado que desconheço. Sinto cheiro de algo que me é familiar, mas vasculho em minhas poucas memórias que cheiro é aquele.
Ouço algo passar por fora de uma porta que agora percebo. São vozes. Tento prestar atenção no que falam, porém meus pensamentos estão altos demais.
“Cuidado, que ele já deve ter acordado” fala uma voz grossa, que denomino masculina.
“Se ele tentar alguma coisa, faço que nem da última vez” diz a outra voz.
Então eles me conhecem! Talvez possam me ajudar a lembrar. Acordo dos meus devaneios na hora que escuto o barulho de algo se abrindo.
Finalmente abro os olhos e observo a pessoa, cautelosa, vir para perto de mim. Não me contenho de alegria por finalmente alguém vir me ajudar e levanto rapidamente. A pessoa se sobressalta e olha para mim com uma expressão de desprezo.
“Por favor, você pode me dizer onde estou?” Falo calmo, mas quero muito saber.
“Não chegue perto ou não respondo por mim!” Diz ele retirando algo de seu cinto. Já havia visto isso em algum lugar, no entanto, minhas memórias não me ajudam novamente.
“Por favor, só quero saber quem sou!” Me aproximo mais uma vez, ficando a um metro do homem de branco.
“Não chegue perto!” Grita ele.
Seu colega chega na hora. “Me responda, por favor” falo mais uma vez. A última coisa de que me lembro é algo vir em minha direção e se enroscar em meu braço. Logo sinto pontadas em todo meu corpo já dolorido e apago.
***
Acordo novamente, porém, em outro local. Não abro os olhos, mas mantenho meus ouvidos em alerta.
“Ele disse que não sabe onde está ou quem ele é.” Reconheço a voz rapidamente como sendo do homem que me apagou. Sinto a raiva subir em meu corpo, o tornando quente, mas ainda não abro os olhos.
“Ele pode estar mentindo ou realmente falando a verdade.” Diz uma voz mais doce, presumo que seja uma mulher. Sinto algo frio ser posto em minha cabeça e meu corpo estremece. Abro os olhos e observo o local onde me encontro.
Uma sala grande. Estou em um casulo de vidro cercado por fios e pessoas. Todas param de fazer o que lhes foi mandado para me observar. Olho para cada rosto que me observa. Não reconheço nenhum! Vejo o homem que disparou aquela arma em mim, está mais afastado de onde eu estou. Ao lado dele está uma mulher, acho que é a dona da voz doce. Ela olha para mim, porém, não tem as expressões que os outros mostram na face. Seu rosto está brando e me fita com certa curiosidade.
Fico inquieto com o par de olhos castanhos que me observa, tentando imaginar o que se passa em minha mente. Começo a me mexer em minha pequena cela e todos que estão próximo saem de perto. Continuo a olhar para essa mulher tão conhecida, apenas não sei de onde.
A inquietação aumenta a certo ponto que arranco os fios que me ligam a monitores que medem alguma coisa em mim. Ela corta o contato visual comigo e corre para apertar um botão que fica abaixo dos meus pés. Observo cada movimento dela e a vejo apertando um botão.
“Não faça isso, eu quero saber quem eu sou!” Falo, mas é tarde demais. Logo uma fumaça na cor verde começa a subir chegando logo na minha cabeça e adormeço mais uma vez.
Acordo novamente. Já estou cansando disso. Abro os olhos e vejo que estou de volta a minha cela. Agora posso olhá-la melhor. Não é um quarto aconchegante, mas dá para viver. Como disse, não tem janelas, no entanto, não sei como sabia disso. Sento-me na cama para poder analisar meu corpo.
Olho primeiramente para os meus pés, estão inchados como se uma carreta tivesse passado por cima deles. Meus joelhos estão roxos, mas cicatrizando. Minha cabeça roda de tanto desmaiar e talvez pensar no que está acontecendo. Olho meus braços e eles estão bons. Apenas o ferimento da arma de choque daquele homem jaz no meu braço esquerdo, está vermelho, porém não inflamado. Sento-me no chão encostando minha cabeça na cama, fecho os olhos procurando a última memória que tenho.
Depois de um tempo consigo sair da minha cela, estou correndo em um corredor escuro que fica no lado leste.Não sei como fui parar ali. Aperto em um botão fixado na parede esquerda depois de quatro azulejos pretos e uma porta secreta se abre. Uma sala pequena e cheia de teias está cercada por estantes com livros e pergaminhos. Parece ter sido abandonada faz tempo. Entre uma estante e outra há uma mesa com um livro aberto em uma página falando sobre mutação. Não paro para ler. É como se eu tivesse lendo ou lido todos aqueles livros. Passo direto para um lado mais claro da sala e pego uma arma e uma pá. Olho novamente para aquela sala e vejo uma pequena mudança. É como se aquele lugar fosse meu e aqueles livros também. Corro pelas estantes e pego um diário e começo a escrever nele quando ouço algo batendo na parede onde está escondida a porta. Começo a gravar um vídeo.
Abro os olhos. Não sei o que está acontecendo por aqui, mas estou ficando com raiva de tudo e de todos. Fico olhando para um ponto por um tempo indeterminado até quando ouço o clique da porta se abrindo.
Meu corpo fica rígido quando duas pessoas vestidas em ternos caríssimos entram curiosas, me observando. O primeiro é cauteloso nos seus passos. Sempre olhando para qualquer movimento suspeito meu. Sua cabeça é cercada de tatuagens e sua orelha tem alguns brincos. Os olhos sem vida mostram desprezo e nojo. O segundo aparenta ser mais velho. O cabelo grisalho e as rugas me tiram a dúvida. Ele entra sério no meu “quarto” e me encara. De início não diz nada. Apenas olha para mim, tentando tirar algo dos meus olhos.
“Bem… Soube que você não sabe quem é, Doutor.” Fala ele, com tom de deboche, saindo de trás do outro homem.
“Doutor? Você me chamou de Doutor?” Digo. Ele olha para mim surpreso e depois dá um sorriso gelado fazendo me arrepiar na espinha. Seu olhar frio faz minha coluna doer, tiro os olhos dele e fito o chão.
“Ora, ora, ora. Não é que a Doutora tinha razão” diz, dando uma risada que me faz estremecer. “Não vai falar nada não?” Debocha, ele. “Que bom. Então escute: não sei o que está planejando, mas espero que pare logo, porque não brinco e você sabe muito bem disso.” Então vira as costas, mandando o outro homem na sua frente.
“Eu. Não. Sei. Quem. É. Você. Mas mesmo assim, não tenho medo.” Falo e então levanto o rosto e o fito. Ele dá um sorriso raivoso e sai sem falar mais nada.
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