O mundo quebra a todos, e depois, muitos ficam mais fortes nos lugares quebrados

Ernest Hamingway

0. PRÓLOGO

SMALLVILLE – DIAS ATUAIS

O contraste não poderia ser mais mordaz. A borracharia ônix da Mercedes esportiva deslizava eficientemente pela gasta estrada do Kansas, interminavelmente cercada de grama seca e desregular.

Damian dirigia impassível, apesar de ultrapassar veementemente o limite de velocidade permitido. Os olhos verdes, desafiadores e inteligentes, eram os mesmos do pai, Bruce Wayne.

Por muitos anos, Damian acreditara que nunca conseguiria encontrar algo em comum com o homem que secretamente carregava o manto do homem-morcego. No entanto, não fazia tanto tempo assim, fora juntamente Ellie que destacara essa sutil semelhança entre os dois.

Por algum motivo, ambas as íris sempre pareciam mais escuras do que realmente eram. Havia certa opacidade. Uma escuridão sombreada pelo cenho constantemente contraído.

O carro passou como um borrão por uma placa velha e pacata fincada ao lado do asfalto. “Bem-Vindo a Smallville” eram os dizeres que a emolduravam pelo que parecia ser uma eternidade.

Quantas vezes havia desprezado aquela cidade? Quantas vezes recusou os convites de Jon para uma visita?

Contudo, lá estava ele, sem protestos e sem desculpas, atravessando as entranhas da América apenas para encontrá-la.

Estava agindo como um maldito adolescente e ele sabia disso. No entanto, por mais estranho que pudesse soar, isso não o incomodava por completo. Haviam coisas que simplesmente o incomodavam mais e que, mesmo relutante, somente agora começava a entender.

Saber o quanto ela estava machucada, por exemplo, o afetava de uma maneira que ele nunca realmente pensou que poderia. Ainda assim, mesmo que de alguma forma completamente misteriosa ele pudesse ter previsto as coisas que aconteceriam, Damian nunca escolheria remediar as escolhas que tinha feito.

O carro silencioso cruzou pelo terreno recluso da fazenda dos Kents. O Sol já estava baixo, com o céu irradiando numa colação rosada-alaranjada única, que nunca poderia ser vista no céu de Gotham.

Damian saiu do carro no mesmo instante em que Jon deixou a casa, mas o amigo chegou até ele antes mesmo que fosse capaz de terminar de fechar a porta.

– Onde ela está? – Perguntou Damian num tom de voz baixo.

— Lá trás com os cavalos – respondeu Jon – Ela está melhor agora, sabe. Passar esse tempo aqui tem sido realmente bom para ela.

— Imagino que sim – foi tudo que Damian quis responder.

Jon o acompanhou em silêncio até o campo aberto. Lá, sentada sob a cerca de madeira, estava a silhueta feminina que ele achava poder ser capaz de reconhecer em qualquer lugar que estivesse.

Quando ela se virou para encará-lo, não conseguiu evitar os pensamentos simultâneos que percorreram os sulcos da sua mente. A maioria deles estava ligada aos acontecimentos da última semana, mas um em especial o atravessou como um raio, completamente involuntário. Era a lembrança de uma citação inicial; a primeira frase de um romance marginal que lera há um par de anos.

Tudo começou como um erro”, tinha dito Bukowski.

E, naquele momento, Damian Wayne achava que o desgraçado escritor não poderia estar mais certo.