Rabiscos
1 Capítulo Único
Mais uma linha chegara ao fim. Mais um emaranhado de letras, vírgulas e pontos organizados para dar coerência. Mais um pensamento eternizado em uma folha de papel. Mais uma vez onde a mente de Pedro se permitia voltar no tempo. Mais uma tentativa perdida para tentar escrever o que sua mente preparou. Mais um suspiro de derrota.
Mais uma linha sobre o texto.
Não conseguia nada. Por mais metáforas, metonímias, comparações e outras figuras de linguagem que utilizasse, nada parecia ser o suficiente para expressar tudo o que a sua alma saudosista sentia naquele momento. Às vezes Peter gostaria de não carregar a negritude que viera de seus pais, porque sentia uma pressão de todas as pessoas para tentar ser algo que valesse a pena. Aqueles editores, homens brancos e ricos, querendo nada abaixo do melhor, e o puxando para níveis de trabalho quase desumanos para ver defeitos onde não havia nenhum. Seus “manos”, de mesma cor, mas não com as mesmas oportunidades, colocando em seus ombros uma responsabilidade de ser o melhor possível para a comunidade, mais um peso que tinha de carregar. Já não basta-me os olhares de nojo que recebo, não preciso de gente que supostamente me entende me tratando com a mesma percepção daqueles brancos da editora., pensou, exausto.
Com um suspiro, Peter se levantou da cadeira, que rangia contra o chão de mármore com os arrastões feitos. Jogou a pena sobre a mesa, agradecendo pelo fato de não ter quebrado. Seus pés descalços passaram pelos diferentes cômodos de sua casa, mas sempre levando arrepios quando caminhava sobre a frieza do mármore. No inverno era realmente um momento péssimo para se ter aquele tipo de piso.
Ele se arrastou até a janela do quartinho de escrever e apoiou os dois braços em seu parapeito, tomando cuidado para não deixar os vasos com delicadas flores brancas caírem. Com seus olhos castanhos, percorreu toda a avenida até onde conseguia enxergar. Pessoas das mais diversas etnias andavam na rua ao mesmo tempo, mas as pessoas brancas não se dignavam a misturar-se com as que não eram. No ponto de ônibus, perto da linha de pedestres, havia uma divisão com uma placa em cima de cada uma, e por mais que não pudesse ler daquela distância, Peter não era idiota. Sabia muito bem do que se tratava e onde deveria sentar, naquele mundo que ainda não havia superado a igualdade genética de pessoa branca e de uma pessoa negra.
Viver no sul dos Estados Unidos não fora uma ideia de sua mãe. Como Peter era o único filho dela, Maria pôde dedicar todo o seu tempo e dinheiro para ajudar o filho, inclusive rezando todas as noites para aceitarem sua bolsa estudantil. Por mais que o norte fosse verdadeiramente mais aceito e incluso, como sua própria mãe dizia, ninguém o parava de perseguir os seus sonhos. Até hoje ele recebia cartas de casa, sempre com um novo “parabéns pelos estudos” de maneira emocionada. Uma mulher, com quase 50 anos, vendo o único filho estudar e morar a quilômetros de distância de casa deveria ser um mar de saudades e tristeza, especialmente naqueles tempos de segregação racial.
Peter olhou para o relógio. Nove da manhã. Decidiu que era uma boa hora para tomar café da manhã. Saiu do quarto de escrever e foi até a sala, onde seu adorado casaco preto estava pendurado junto com seu chapéu de mesma cor. Os vestiu pacientemente, pegou as chaves que estavam em cima da mesa em frente ao sofá branco e saiu de casa, sem saber se estava pronto para mais uma rodada de segregação do resto do mundo.
Desceu as escadas devagar, tomando o cuidado de não cair naqueles pequenos espaços para encaixar os pés grandes que tinha. Era mais uma das desvantagens de se calçar 13 naquele país. Quando chegou à portaria, olhou para o porteiro, um senhor latino e gordo de quase 60 anos que lia o jornal com uma cara de desgosto. Quando levantou a cara, ele deu um pequeno sorriso e Peter retribuiu com um cumprimento com o seu chapéu.
Quando saiu da portaria, pôde ver o jardim bem cuidado, a grama verde e levemente molhada da chuva de ontem, as flores roxas crescendo em uma bola de pétalas, pólen e abelhas e o brotinho que plantaram ontem, delicadamente plantado em um vaso grande. Peter pôde apenas assumir que, daqui há alguns anos, se transformaria em uma árvore.
Ao sair, fez questão de trancar o portão. Por mais que seus pés estivessem concentrados em fazer uma caminhada reta e no chão, sua cabeça avoou-se para as nuvens, puxando momentos de sua vida no norte. Dos campos de futebol americano improvisados na lama, unindo crianças de várias raças a olhares racistas que nunca atingiriam sua pueril vontade de ganhar do outro time. Das idas às lojas de doce da região com sua mãe, onde terminava se empanturrando de balas antes mesmo que pudesse dividir com o resto de seus amigos. Da sua primeira namorada, aos 12, com quem ficou até os 14, quando ela teve de se mudar para longe. Da primeira vez em que, andando sozinho pela rua com as mãos nos bolsos do casaco, foi confundido com um bandido e quase foi pra cadeia, apenas não indo porque mostrou a identidade para os dois policiais mais brancos que a lua. Da carta de admissão em uma universidade americana, das lágrimas de felicidade, das de tristeza pela história que deixaria pra trás. Da ida ao aeroporto, onde depois de mais um abraço apertado de Maria, Peter caminhou para o avião, sem olhar para trás, sem ver que todos que vieram para se despedir choravam de emoção.
Tentando apagar as memórias da cabeça para evitar a queda das lágrimas formadas em seus olhos, Peter olhou para frente, com um sorriso de saudade no rosto. Foi até o ponto de ônibus, se sentou na divisão para “pessoas de cor” e abriu um pouco as pernas, já que não havia mais ninguém ali. Olhou mais uma vez as pessoas passarem, mas as mesmas não retribuíram o olhar. Ele agradeceu internamente por isso.
O ônibus chegou, e Peter embarcou. Pagou o dinheiro da passagem e foi se sentar em um dos assentos reservados para “pessoas como ele”. Perto, algumas outras pessoas negras estavam sentadas. Uma mulher com seus 40 e poucos com uma menininha negra com laço no cabelo ao seu lado. Um senhor idoso folheando o jornal. Um homem de sua idade, olhando para a janela e batendo o pé no chão, impaciente. Uma outra mulher, essa com mais ou menos os 19 anos, lendo um livro de capa vinho e que parecia ter mais de 400 páginas. Era uma mulher bonita, mas o anel em sua mão direita o fez reconsiderar seu pensamento de sentar-se ao lado dela.
A sua frente, estavam os assentos das pessoas brancas. A maioria era bem pálida, de cabelos louros e usava chapéu na cabeça. Peter não conseguia ver a maioria de suas caras, então não poderia ter uma ideia de como aquelas pessoas estavam se sentindo. Honestamente, ele não se importava muito. Preferia fazer uma viagem tranquila, sem precisar pensar sobre possíveis pensamentos racistas que as pessoas brancas daquele ônibus estivessem pensando.
No ponto seguinte, duas senhoras brancas de idade passaram ao seu lado e ele pôde escutar parte dos sussurros:
–Viu o que querem fazer com a nossa nação?
–Não, do que falas, Marilyn?
–Querem nos deixar do mesmo lado dessas pessoas aí.
–Que horror! Não deveriam permitir isso nessa sociedade...
Peter não precisou ouvir mais nada daquela conversa. Já tinha uma ideia muito clara do pensamento daquelas senhoras.
Porém, estava instigado com a ideia de um final àquilo tudo. Poderia ser um grande avanço, poder estudar com o mesmo material das pessoas brancas, comer em mesas iguais das de pessoas brancas, poder sentar perto de uma moça branca e simplesmente conversar com ela, ter uma vida igual a de pessoas brancas. Claro, mentes não se mudam de noite pro dia, de uma lei para a outra, mas sim de geração para geração. No entanto, era permitido a Peter sonhar. Os racistas até queriam proibir isso, mas não podem exatamente ler as mentes de todos os negros vinte e quatro horas por dia., pensou, colocando um sorriso vitorioso em seus lábios.
Quando seu ponto chegou, Peter se levantou, sem nem olhar para as outras pessoas daquele lugar. Desceu do ônibus e caminhou os poucos passos até o “Under the Bridge”, seu café favorito exclusivo para pessoas negras. Foi até a fila e pediu o clássico: café grande com dois muffins de chocolate. Sentou-se em uma das mesas reservadas a ele, admirando a simplicidade do local. Suas paredes brancas sempre bem pintadas e com alguns quadros pendurados nela. Em cada uma das quinze mesas, uma toalha branca, e em cima dela um pequeno vaso marrom com flores coloridas. No fundo, uma porta de madeira mostrava onde era a cozinha. A bancada era branca com uma listra verde horizontal pintada nela e nela tinha um pequeno radinho, onde uma música poderosa de soul tocava, tocando até mesmo a mais dura das almas negras.
Estava um dia relativamente pacífico, onde não vira mais do que três homens brancos e velhos encarando a cafeteria com asco. Peter estava feliz com isso.
Contudo, tudo mudou quando viu uma cena que o incomodou. Um homem branco, de meia idade e com trajes de rico segurava uma jovem moça negra, com uma idade próxima da sua, pela orelha, visivelmente a machucando. Em um movimento brusco, ele a empurrou para dentro da cafeteria e Peter não chegou a tempo para segura-la, vendo ela cair com um baque no chão de madeira. Ele e o dono da cafeteria, um homem negro e com quase 70 anos na cara, andaram até ela e a ajudaram a se levantar. Furioso, ficou em frente àquele senhor:
–O senhor pensa que é quem para fazer isso com ela?
–A mesma pergunta pra você, seu crioulo de merda. Aprenda onde é o seu lugar!
–Ora, não vê que quem cometeu o erro foi o senhor? Ficou cego? Esta é uma cafeteria que não abriga pessoas nojentas como você!
O homem não respondeu, apenas murmurou “crioulinho de merda” e saiu esbravejando. Peter olhou para a moça, que tinha um pequeno roxo na cara por conta da pancada no chão. Ela estava ao lado do dono da cafeteria, com as duas mãos entrelaçadas atrás do corpo magro.
–Moça, você está bem?
–Minha cabeça dói um pouco, mas vou ficar bem. –ela respondeu, ajeitando a gola do vestido branco e rosa que usava.
–Vou te acompanhar até sua casa. –Peter quase que declarou, colocando sua mão sobre o ombro da moça.
–Não será necessário. –ela disse, sorrindo. –Mas obrigada por ter me defendido.
Peter engoliu em seco. Será que aquela moça ficaria bem? Se tinha uma coisa que odiava presenciar era ataques desnecessários a moças, especialmente se compartilhavam a mesma melanina que ele.
A moça deu um aperto de mão no dono da cafeteria e outro em Peter. Depois, olhou para a cafeteria, onde todos encaravam a moça com preocupação em seus olhos. Ela deu um aceno com a cabeça de afirmação, como se consolasse quem estivesse presente. Antes de ir embora, ela virou-se para ele novamente e entregou-lhe um papel pequeno.
–Meu nome é Natasha.
Quando Peter virou o papel, estava escrito o nome dela e um endereço, que ele apenas assimilou ser onde morava. Ele guardou o papel no bolso do casaco, deu o dinheiro do café da manhã para o dono da cafeteria e levou o muffin que restava consigo.
Peter avançou para pegar o ônibus, deixando as migalhas do seu muffin seduzir os pombos para a calçada cinza. Segurou na barra do ônibus e entrou nele, percebendo que não havia mais ninguém além dele, do cobrador e do motorista, os três com pesadas doses de melanina em suas peles. Escolheu um assento destinado a pessoas negras. Em situações normais, gostaria de combater essa ideia de assentos segregacionistas, acreditando na ideia de união entre pessoas brancas e não brancas, mas depois da cena presenciada, sentiu um orgulho de ser negro aflorar em seus vasos sanguíneos e se transmitir para todo o corpo. Sentiu uma necessidade verdadeira de proteger as pessoas que compartilhavam o mesmo pigmento em seu fenótipo, que crescia e se ascendia sempre que presenciava situações de injustiça contra alguém por conta do tom da pele ou de um gênero diferente do dele.
Deitou a cabeça gentilmente sobre a janela, deixando a mente fluir até as páginas de papel que se encontrariam largadas sobre a mesa no quarto de escrever. Pensou em suas mãos, negras como o café, segurando gentilmente aquela pena e traçando uma história sobre Natasha, a rainha dos oprimidos, que depois de trazer justiça ao mundo, iria celebrar com um jovem escritor, rei das poesias. Aquela ideia lhe trouxe um sorriso aos lábios.
Peter pegou o cartão de Natasha e olhou para o seu nome, escrito com uma fonte simples. Com mais um sorriso, imaginou aquela pequena pena, correndo sobre as páginas de sua nova obra, tecendo uma silenciosa crítica ao racismo. Imaginou o quão linda aquela pena ficaria, quando fosse pintada do sangue de homens brancos racistas como aquele que agredira a moça, se deliciou com um vermelho derramado de maneira tão justa sobre folhas de papel.
Peter desembarcou do ônibus, indo em direção à sua casa. Hoje, seus rabiscos se tornariam obra prima e seus pequenos atos virariam silenciosa revolução escrita. O rei e a rainha iriam escrever sua história de governo sobre o sangue dos racistas. E ele mal poderia esperar para conta-la.
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