Rabiscos

1 Embriagado.


"L,

Eu ainda não consegui superar a sua partida. Não pude compreender o motivo para você ter saído de minha vida desta forma, sem aviso prévio. E espero que me perdoe, um dia, por agir de modo tão imprudente. Por desistir tão rápido.

Foi difícil. Quando percebi que demorei muito para dizer o que sentia, machucou. E vê-lo satisfeito ao lado de uma pessoa tão desprezível só tornou as coisas piores.

Sei que tenho mais defeitos do que qualidades e que deixava todos aparentes perto de você. Sempre irritado, teimoso e com um orgulho extremamente desnecessário. Talvez, isso fosse apenas para saber se você conseguiria conviver muito tempo ao meu lado, mesmo que eu agisse daquele jeito.

Hah. Que bobagem, não é? Um tolo, seu segundo sucessor. Quem diria que, um dia, deixaria toda a superioridade de lado para falar mal de si mesmo em um pedaço de papel?

(Rabiscos ilegíveis aqui.)

Mas antes de encerrar, deixo claro que não estou bêbado enquanto escrevo toda essa carta; mas embriagado, sim, de tanto amor. Amor que me sufoca, me mata, lhe afasta de mim.

Uma paixão que toma conta de meu corpo, arde, me deixa insano. Um sentimento desgraçado por alguém que nunca foi, não é e nunca será meu.

O fato é que você e todo esse seu jeito misterioso mexeram com minha resistência.

Por toda a minha vida, criei uma barreira, uma espécie de parede que trancafiava meu coração de qualquer emoção — e, como se isso fosse apenas um pedaço de seda, você atravessou e destruiu tudo que formei por anos.

Não era uma destruição proposital. Você não teve culpa de nada. A culpa foi minha por não fortalecer, por nunca fazer o suficiente e dar-se por vencido logo na primeira atitude.

(Mais rabiscos.)

Nunca havia me dado o luxo de chorar por alguém. Nunca deixei minhas emoções à mostra por algo que não terá nenhum resultado. E aqui estou eu, sentado no canto mais escuro do quarto, escrevendo algo que nunca será entregue por pura covardia.

De verdade, eu só quero que você seja feliz. Normalmente, eu desejaria que o cabeça-dura que você chama de namorado queimasse em chamas, mas isso lhe faria mal.

E, se por um acaso ele achar isso em uma de suas visitas no orfanato, eu gostaria de (uma ofensa riscada aqui) pedir para que você faça tudo que eu não pude fazer. Pois você também sabe, mais do que ninguém, as loucuras que eu faria para agradar quem gosto.

Enfim, deixarei isso escondido. A declaração, o drama exagerado e todas as outras confissões que fiz aqui. Para que, assim, esses meus sentimentos afundem junto com o meu corpo. E para nunca, nunca, serem descobertos.

Mello."

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