RUIVA PINTADA

1 Ruiva pintada


Seis e meia da manhã, montada em seu “camelo”, malha cor de rosa, boné de passarinho, ia de uma ponta à outra da avenida pela ciclovia do canteiro. Depois voltava pelo mesmo caminho.

Belas cochas, cintura fina, cabelos como calda de açúcar. Só não olhava quem preferia outra fruta.

Pele clarinha feito mingau de aveia salpicado com canela. Não era apenas o rosto, não eram apenas os braços, eram também suas cochas, busto, costas e o resto. Tudo salpicado com canela.

Junior tinha doze anos e limpava para-brisas. Sabia a hora de se calar, ficar quieto e prestar atenção. E essa hora era às seis e meia da manhã.

A ruiva pintada, salpicada de canela, passava na ciclovia e Junior a admirava. E se ela lhe sorria, de repente ele sentia como se houvesse ganhado o dia.

E um dia a corrente da bike da ruiva soltou da catraca e a moça desceu para arrumar. A corrente voltou para o lugar, mas os dedos da ruiva ficaram cheios de graxa.

Junior limpava os para-brisas dos carros e tinha sabão liquido sempre a mão. Ele lavou os dedos da ruiva pintada e os enxugou com a flanela que, devido à graxa, acabou inutilizada.

Por cima da malha, a ruiva pintada usava uma blusa de algodão. A fim de substituir a flanela suja de Junior, a ruiva resolveu retirar a peça do corpo e dar ao garoto.

Junior, aos poucos, foi vendo a blusa subindo, exibindo o corpo da ruiva por baixo da roupa. Havia dezenas de pintas marrons pastel espalhadas abaixo do umbigo da ruiva. Havia o belo umbigo da ruiva. Havia centenas de pintas marrons pastel acima do umbigo da ruiva, havia o lindo abdômen da ruiva. Havia a pele delicada e úmida de suor. Havia a carne macia e o movimento lento da respiração que inflava e contraia sua caixa torácica.

Junior esperava que houvesse dezenas de pintas marrons pastel salpicadas na metade de baixo dasmamas da ruiva, aquele par de graciosas meias-luas escapando por baixo da blusa que se erguia generosa, mas havia apenas a malha cor de rosa.

Junior aceitou a blusa em reposição de sua flanela, mas jamais teve coragem de limpar um para-brisa com ela. Em vez disso, encontrou um esconderijo para a blusa e passou a usá-la apenas de vez em quando para se lembrar da ruiva no banheiro.

FIM

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