REIS - interativa
2 Elisa

Ainda saía fumaça do líquido quando Elisa levou a xícara até seus lábios, dando uma leve assopradinha com seus lábios pintados de rosa. Deu dois goles de uma vez no seu chá de hortelã, irritando sua garganta tendo logo em seguida um ataque de tosse. Seus olhos encheram de lágrimas, no entanto recusava deixá-las caírem dado que não queria manchar a maquiagem recém retocada.
— Lady Lisa, um chá deve ser saboreado e não bebido às pressas. — falou Marlise com um tom ríspido enquanto colocava dois cubos de açúcar em seu chá de alecrim, escolhido especialmente dado que se sentia um pouco fraca desde que levantara aquela manhã.
— Perdão, tia. É que eu estava com muita sede — mentiu colocando as mãos sobre o colo e abaixando a cabeça.
— Isso não é desculpa. Imagine se fosse um chá com sua futura sogra, o que ela pensaria, que nós, os Lamartine e Blanche, não sabemos como educar uma princesa?
Elisa se esforçou para não revirar os olhos, sabendo que isso acarretaria em mais um sermão desnecessário de sua tia. Como a filha mais velha, uma vez ou outra, a rainha-mãe e sua tia tocava no assunto de casamento, visto que já tinha 19 anos e faltava pouco para completar a maioridade. Isso significava que já estava na hora de ser “rainha” do seu próprio castelo. Naturalmente, se casaria com seu meio-primo Marion Marc, filho de Manon Marc que é meio-irmão de seu pai, o rei Stephano. Marion era o futuro herdeiro da província Kabel, o mar seco, onde há mil anos era o grande mar, porém agora reinava o deserto. Um lugar que Elisa já fora visitar junto com o pai quando era criança, e o clima deixou seus lábios e pele seca. Nunca diria em voz alta, no entanto era seu lugar menos preferido de todo reino de Amaryllis.
A pequena mesa posta na varanda do quarto da tia Marlise estava farta. As duas começaram a tomar o chá e comer biscoitos e mini bolos, à medida em que Elisa ficava mais ansiosa. Desde que se lembra por gente, sempre tomava chá as tardes de terça com sua tia. Uma mulher que tinha o rosto típico dos Lamartine — cabelos loiros, pele pálida e olhos azuis como o céu ou como o mar — era uma mulher bonita de rosto, no entanto estava bem acima do peso e quanto mais envelhecia mais gorda ficava. Nunca se casou, e uma vez, Elisa — quando tinha 10 anos — a questionou sobre isso, e a resposta foi:
— Quando sua mãe se casou com seu pai, o rei Stephano Blanche, ficou grávida logo em seguida, teve uma gravidez muito difícil e complicada. E assim que o primogênito nasceu, ela entrou em uma profunda tristeza e desesperança. Independentemente de nunca ter tido filho, sei que é normal mulheres experimentarem alterações de humor e crises de choro, no entanto sua mãe acabou entrando em uma depressão profunda, nem ao menos queria amamentar o filho, ignorava seus choros. Foi eu quem cuidou do príncipe nos seus primeiros anos de vida. Acho que cuidei tanto dele, me dediquei como se fosse a mãe, que esqueci de cuidar da minha própria vida.
Não era a aquela resposta que Elisa esperava. Verdade que sua mãe sempre foi distante, severa, raramente demonstra carinho pelos filhos, entretanto não com o primogênito, que sempre fora seu preferido. Era difícil imaginar Justina ignorando o choro do seu amada e querido primeiro filho.
Um dia Elisa falou isso para rainha-mãe, em resposta recebeu um tapa na cara, que fez cair no chão.
Ao terminar o chá, Elisa correu para frente dos espelhos e escovou seus cabelos longos e escuros, queria se trocar e colocar um vestido mais bonito, entretanto não havia tempo. Quase correndo, tentando manter a postura para ninguém perceber o quanto estava ansiosa, ela foi até o jardim com uma maleta em mãos e sentado no banco mais afastado, o esperou.
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