RECONSTRUÇÃO

27 Um guerreiro não desiste do que ama...


— Os governantes serão reconduzidos aos seus reinos, mas terão todo o período da primavera para criarem conselhos que os ajudarão a governar. Conselheiros escolhidos pelos aldeões. Caso esse item não seja atendido, meus companheiros e eu voltaremos de nosso reino e seremos feios e malcriados.

Um pequeno burburinho é ouvido.

— As minas de diamantes e ferros dominadas, serão controladas por cooperativas de aldeões, organizadas pelos seus líderes. Seu reino ficará proibido de ter frotas de navios militares por quatro primaveras, Regina Mills. Seu poderio será minado a partir de hoje.

Durante algumas horas, a reunião segue aparentemente passiva com trocas de sugestões, agressões e adaptações em propostas feitas por Vasco. Mas tudo aquilo não fazia parte dos pensamentos de Solomon, que navegava por outros mares, outros vales e outras lembranças muito mais agradáveis, que vinham povoando sua mente há tempos. Ele estava alheio a tudo.

Após a assinatura do tratado por todos os representantes na reunião, um dos servos de Zelena surge e traz bebidas a todos os convidados, para amenizar ainda mais as animosidades. Momentos depois, Nicolas, Cosima e o comandante Esparviero são incumbidos de retornarem com os governantes que haviam participado da reunião.

Lá pelas tantas, Zelena se aproxima de Vasco e fala algo discretamente para o homem. Aquele pequeno gesto incomoda a perturbada alma de Galeano, que de longe mantinha os olhos atentos em Yasemine e no pai dela. Os dois amores que mais uma vez poderiam arrancados de suas mãos, mesmo sem nunca estarem ali. O rapaz observa o pequeno pedaço de couro que havia preparado para aquela ocasião, com algumas escritas.

Quando Solomon entra na sala indicada pelo servo de Zelena, encontra Vasco sozinho, esperando por ele. Ambos trocam um sorriso e depois de alguma hesitação, trocam um abraço carinhoso e apertado.

— Senti tanto a sua falta, Vasco! Não estamos completos sem o seu amor! Pensei que trazendo Regina para cá, você viria imediatamente atrás dela e poderíamos viver nosso amor, nós três!

— Vocês estão incompletos e continuarão sendo. – Vasco fala segurando o rosto de Solomon entre as mãos. – Esta coisa que está ao seu lado, não é Regina Mills, porque a minha Regina foi morta naquele acidente. Quando você separou a alma dela, matou minha Regina e deixou esse monstro tomando conta do corpo. Agora, ele é todo seu.

Uma expressão de desconforto surge no rosto do Reverendo.

— Ah! Não devem ter contato sobre a maldição dos vinte e oito anos! – Vasco se afasta. – Um dos ingredientes para o sucesso da receita que a bruxa fez, era o coração da pessoa que ela mais amava. Sabe o que ela fez? Arrancou o coração do próprio pai!

Silêncio por parte do Reverendo.

— Cuidado quando fechar seus olhos, meu querido Solon. Ela poderá enjoar-se do tédio de sua companhia e roubar suas habilidades, cravando uma adaga feita de ossos em suas costas. A minha Regina Mills estava lutando para ser uma pessoa melhor e ficou provado que ela havia vencido a luta. Tanto, que você conseguiu separar o lado bom e o lado ruim, porque existia o lado bom.

— Esta é a verdadeira Regina Mills...

— Não. Essa coisa que está ao seu lado, é um monstro cruel. Uma criatura que sente prazer na dor alheia. Mas ela não experimenta modos diferentes de produzir dor, ela experimenta prazer. Não a quero ao meu lado, tocando em mim, dentro da minha vida. – Vasco dá de ombros. – Pode ficar com essa coisa, porque eu ficarei com as memórias da minha intensa esposa. Agora morta por suas mãos.

— Fiz tudo por amor...

— Você deu um tiro no próprio pé, Solon! Sabemos que vocês dois não podem mais viver separados ou sucumbirão! Você matou as duas únicas pessoas adultas que cuidavam de mim: Regina e a Sra. Vargas. Para que? O que lucrou com isso? – ele se volta para Solomon e aproxima o rosto do rosto do Reverendo. Tão perto que consegue sentir o gosto do hálito dele. — Não está condenado apenas a não ser amado, mas está condenado a viver ao lado de um monstro que fornecerá e tirará vida desse relacionamento.

— Eu amo Regina Mills!

— Regina Mills está morta no fundo do rio. – Vasco sussurra, quase tocando os lábios do religioso, com os seus. – Essa coisa que está ao seu lado, é a personificação da maldade. E ela não está serena com as derrotas. Irá se voltar contra você e nesse momento, descobrirá que você não a ama.

— Eu amo você...

Vasco sorri.

— Durante nosso trajeto de volta para casa, eu estava amadurecendo a ideia de ter você dentro de nossa família. Imaginei fincando raízes em Nova Iorque e criando minhas filhas ali, além de manter você e Paco como nossos melhores amigos. Porém, o acidente veio e roubou-me a mulher que eu amava.

— Ela está aqui, Vasco! A verdadeira Regina Mills! A mulher com quem estava casado era apenas um pequeno erro da natureza!

— Fique com ela. Eu não quero esse monstro e desta vez vou abrir meu coração para o amor que estão oferecendo-me. Há vários amores em minha direção e vou provar cada um deles. – Vasco umedece os lábios com a língua.

Sem hesitar ou controlar seus sentimentos loucos, Solomon segura os rosto de Vasco e traz para um beijo desesperado e apaixonado, buscando aqueles lábios como havia buscado somente os lábios de Sara, num passado distante.

O que ele sente é incrível, como se uma tocha acesa estivesse sendo engolida. O calor queima seu corpo e uma súbita tonteira invade seus sentidos. Ele se afasta cambaleando e vai apoiar-se num móvel velho, esquecido num canto do cômodo. Leva a mão à boca e toca os lábios.

— O que houve aqui?

— Zelena amaldiçoou os meus lábios. Um truquezinho maroto que os habilidosos fazem, quando querem tirar os poderes de outro habilidoso. – o belo moreno sorri. – Sabe o que aconteceu realmente? Sem seus poderes, os poderes daquela coisa assustadora que você chama de Regina, estão minados também.

Solomon se senta no chão. Ainda luta para recuperar-se daquele roubo violento.

Um grito é ouvido na antessala e sem hesitar, Vasco sai da sala e sente-se chocado ao encontrar Regina deitada no chão, contorcendo-se como se sentisse muita dor. Ao seu lado, ajoelhada, estava Yasemine.

— Papai, eu abri a caixa! – a garota estava com os olhos molhados pelas lágrimas. – Foi horrível!

Vasco se ajoelha ao lado de seus amores e busca ajuda em Zelena, que também se ajoelha.

— Isso é comum acontecer. Elas estão lutando.

— Mas é preciso tanta dor? – grita Yasemine, apoiando a cabeça da mãe.

— Vai haver dor, sim! É uma luta de vida e morte entre duas almas opostas! – diz a ruiva. Em seu íntimo, apavorada, porque nunca havia presenciado aquilo.

Olhando em volta, Vasco encontra Galeano parado num canto da sala, petrificado com a visão do ataque de Regina. Ainda tem tempo de ver Paco saindo de seu campo de visão. Avizinhando-se mais da esposa, ele a protege junto ao peito, imobilizando-a e impedindo que seus espasmos violentos provocassem alguma lesão.

— Ela vai morrer de novo, papai?

— Não.

Zelena ia tocar o ombro da sobrinha, mas se recorda da sensação horrível que a presença da menina provocava, quando minava suas forças. Retira a mão como se levasse um choque elétrico. Levanta-se e apenas observa a cena, torcendo para que aquela visão terminasse logo.

— O que está havendo? – Solomon surge e mesmo sem forças, ajoelha-se ao lado daqueles a quem amava. – Está feliz com sua atitude? Está vendo o que causou ao roubar os nossos poderes?

— Cale a boca, seu merda! Está assim porque a metade da alma dela está voltando! – Yasemine grita com a voz rouca e é confortada pela mão grande do amigo Cesar.

Levantando-se chocado com a informação, o Reverendo não consegue discernir o que lhe doía mais: a perda de suas habilidades, a traição de Vasco ou a dor sentida por sua amada. Descontrolado, ele se larga no chão, sendo apoiado por Paco.

Confuso, indeciso e sem coordenadas a seguir, Paco fica desorientado por alguns segundos. E sua desordem aumenta à medida que os gritos de Regina vão aumentando, junto ao som do choro de Yasemine. Aquele barulho era irritante e ainda mais irritante era a reação deprimente de Solomon, sentando no chão, apenas lamentando a perda de suas habilidades. Alguma coisa tinha de ser feita para apaziguar aquela súbita covardia e rendição de seu tão admirado Reverendo. Ele tinha de reagir! Mas o que fazer?

Um grito rouco e agudo eclode da garganta de Regina e ela arregala os olhos, como se buscasse ar. Agarra-se a Vasco e grita ainda mais, pedindo ajuda, mas tenta refutar o abraço do homem, como se sentisse nojo dele. Era a terrível luta entre Regina Mills e a Rainha Má, num só corpo.

Ali, parado num canto da sala, Galeano assistia a luta desesperada de seus dois amores para evitar que aquela mulher horrenda, permanecesse viva. E se ele contribuísse para o fim daquele tormento? Teria Vasco e Yasemine apenas para ele, para seus carinhos, para seu amor, para seus desejos e para a sua vida?

No mesmo estágio de desordem em seus pensamentos, Paco passa os olhos pela agonia do Reverendo, lamentando a perda de suas habilidades e sendo reduzido à categoria de mero mortal, abandonado à própria sorte. Volta seus olhos para os precursores daquele mal. Os dois causadores da atual desgraça de um grande religioso, defensor das leis de sua ordem espiritual.

Em sua cabeça, passa um filme sobre todos os dias vividos ao lado daquele religioso, que em nome de sua fé, proliferava a limpeza do mundo. Retirava do mundo os habilidosos que não sabiam usar suas habilidades. E agora sequer tinha forças para segurar-se sobre seus próprios pés. Aquilo não era justo! E por que? Porque tinha se apaixonado por duas criaturas proibidas, em vez de apenas apropriar-se do livro que estavam buscando.

Rosnando pela raiva que cresce em sua alma, Paco rosna alto como se fosse uma fera encurralada e ferida. Gesticula com veemência e antes que todos pudessem perceber o que estava havendo, uma luz azulada invade o cômodo e o som de uma explosão alcança todos os ouvidos. Com o impacto, todos são lançados para os cantos da sala, chocando-se violentamente em algum lugar nas paredes.

Ele se aproveita do pandemônio, e avança na direção de Vasco e é interceptado por um golpe desferido por Cesar. Os dois caem mais afastados, porém, o religioso atinge o chimpanzé brutalmente, ao usar um de seus truques. Com um gesto mais veemente que o anterior, o bruxo levanta-se e antes que conseguisse atacar seu alvo, sente a força de outro golpe do lado de seu corpo. Vê Zelena disparar algo nele, mas a raiva dentro de seu coração pela injustiça provocada por Vasco, somente aumenta sua força de resistência.

Vasco fica em pé e não titubeia contra aquele adversário surdo pelo ódio. O homem não ouvia o Reverendo bradar o seu nome e encegueirado pela vingança, refutava com facilidade os golpes do cavaleiro.

Resgatando a mãe que ainda se debatia em dor, Yasemine não consegue pensar noutra saída. Sabia que o único objetivo da vinda do pai para aquele reino, era o resgate de Regina. Iria honrar o desejo de seu pai. Sem hesitar, a garota imita gestos que tinha visto sua mãe fazer, e cria uma redoma em torno das duas, como proteção que não saberia quanto iria durar.

Zelena se refaz do violento impacto contra a parede e percebe sangue em seus cabelos. Tinha cortado a parte de trás da cabeça ao ser compelida pela explosão. Vê Cesar caído e desacordado num canto, e Solomon encolhido noutro. Com a visão turva, ela tenta se sentar e cai sentada outra vez. Como usar suas habilidades, se nem sabia como se manter em pé? Com a dor e o sangramento, ela vomita.

Sem conseguir raciocinar, trêmulo e assustado com a violência da luta do cavaleiro e do religioso, Galeano retira o pequeno pedaço de couro e começa a ler a ladainha que ainda não havia decorado. Iria usar a receita que jogaria contra seus dois amores, contra o religioso alucinado e fazê-lo ser reduzido a uma bela estátua de pedra, para somente ser despertado com o famoso beijo do amor verdadeiro. Mas quem amava aquele homem?

Ouve a mãe chamar seu nome e apavora-se ainda mais ao vê-la suja de sangue, muito sangue mesmo. Volta seus olhos para Regina se debatendo nos braços de Yasemine e depois se lembra de retomar sua leitura do pergaminho.

As palavras estavam embaralhando-se e as mais difíceis não queriam ser lidas. Tinha de ser cuidadoso ou provocaria um problema ainda maior. Sem controle nas mãos, derruba o pequeno pergaminho em couro. Apanha-o novamente e recomeça a ler.

Paco empurra Vasco para longe dele e aproveita a lentidão típica dos humanos, para materializar-se diante da redoma já mais enfraquecida, que protegia as duas mulheres. Rosna e bombardeia a redoma com luz quente produzida por suas mãos, reduzindo a proteção. Yasemine grita pela tia e por Galeano, lutando para proteger o corpo da mãe e manter a redoma intacta.

Cambaleante, mas ainda impávido, Vasco corre. E quando se atira sobre a esposa e a filha, algo acontece: ao mesmo tempo, um jato de luz saído de onde estava Galeano, mistura-se ao jato de luz produzido por Paco. Coloridos, os jatos de luz e calor atingem o corpo de Vasco, que cai sobre a filha e a esposa.

Neste momento, Cesar guincha e mesmo atordoado, passa sua espada no corpo de Paco. O religioso cai pesadamente, levantando a poeira do chão.