RECONSTRUÇÃO

13 Retornando para onde os pássaros são afinados...


Passava das seis horas da tarde, quando o carro alugado é entregue no aeroporto para a Família de Regina. Atento e cuidadoso, Vasco organiza a bagagem no porta-malas, revisa a segurança dos cintos, observa os pneus e depois de acomodar as filhas no banco de trás, como se ainda fossem crianças, abre a porta de maneira elegante para que a empregada se acomode ao lado das crianças.

– Você dirige as primeiras horas e depois eu quero dirigir. – a voz de Regina é imperativa. Ela sorri para o marido e agradece quando ele a ajuda a entrar no veículo. – Quando eu pegar o volante, quero a Sra. Vargas aqui na frente comigo.

– Sim, senhora, minha rainha. – ele faz a reverência típica para os nobres.

Pouco mais de três horas da madrugada e a campainha da casa de Mary é acionada. Todos se sobressaltam, mas vivendo numa cidade como aquela, tudo poderia ser esperado.

Emma, David e Mary descem para atender ao chamado insistente. Seria mais alguma invasão? Outra nuvem de maldição? Algum monstro de gelo? O Stay Puff, o homem de mashmallow?

– Killian? – o príncipe se admira pela presença do pirata naquele momento. – O que houve?

– Preciso da sua ajuda e de Emma. Estamos com problemas.

– Entre! – Mary puxa o pirata pela gola da jaqueta. – O que está acontecendo?

– Recebi um telefonema de Vasco e ele precisa de ajuda. O carro que eles dirigiam, perdeu a estabilidade e sofreu uma queda na água.

– O que? Como está Regina e as crianças? A Sra. Vargas? – Mary se mostra aflita.

– Vasco me disse que Regina exigiu assumir o volante e depois de algum tempo, perdeu o controle sob o veículo e voaram para dentro da água. Yasemine e Alda foram resgatadas, mas Regina e a Sra. Vargas ainda não foram encontradas. Vasco mergulhou várias vezes depois de tirar as meninas do carro, mas não encontrou sinal das duas mulheres.

– Regina tem poderes...como ela pode ser levada pelas águas? – Emma encontra uma falha grotesca na história. – Eu vou com você, Killian. Vou trocar de roupas.

David segue a filha e iria aprumar-se para acompanhar o pirata. Iriam agir como agentes da segurança e familiares de Vasco.

– O que teria acontecido com Regina para que não conseguisse usar os poderes?

– Ela pode ter desmaiado antes de perder o controle. – o pirata fala.

– Mas Yasemine é forte!

– Não sei responder, Milady. É algo que devemos deixar para os investigadores e não criarmos especulações.

O dia estava clareando, quando Emma e David chegam ao local indicado por Vasco. Ali, várias equipes de profissionais trabalhavam na busca de Regina e de Vargas. Havia alguns botes com mergulhadores, carros de polícia e uma ambulância.

Depois de identificados como xerifes e parentes, os três conseguem identificar a figura esguia e altiva de Vasco, em meio a outras pessoas. Ele estava em pé ao lado da ambulância e conversava com uma paramédica, sorridente e encantada com a beleza do homem. Ela não disfarçava.

– Vasco! – Killian avança para o amigo e recebe o mais caloroso e desesperado dos abraços. Afasta-se e lhe segura os ombros. – Como você está? Onde estão as meninas?

O homem mais jovem aponta para dentro da ambulância, onde duas jovens estavam sentadas e enroladas por cobertores. Eram as jovens mais bonitas que Killian havia visto, obviamente depois de sua cisne.

– Elas estão bem, mas Regina está desaparecida há horas! – Vasco se mostra alterado. Algo raro de ser visto. – Killian, eu lhe suplico, não deixe Regina morrer!

– Calma, companheiro! Ela é forte e tem poderes! Não irá morrer!

– Ela deve ter desmaiado ao volante e eu sou culpado por isso! Na noite anterior à viagem, ela desmaiou. Suspeitamos de uma nova gravidez, mas nada foi confirmado ainda! Ela pode ter desmaiado ao volante!

– Pare com isso agora! – Killian aperta seus ombros e não se esquece de olhar as jovens dentro do veículo. – Não seja pretensioso! As coisas acontecem alheias aos nossos desejos! Você não controla o destino!

Soltando o amigo, Killian se aproxima da ambulância. Sorri para as jovens.

– Yasemine? Alda?

Tranquilizado pela presença dos familiares, Vasco autoriza a ida das filhas para o hospital local. Emma iria acompanhá-las e criar alguma história para contar aos médicos, sobre o parentesco delas com Regina e Vasco.

Pouco depois das nove horas da manhã, um dos responsáveis pelo resgate e procura de Regina, aproxima-se de Vasco e de seus parentes.

– O meu pessoal cobriu uma área extensa rio abaixo. Vasculhamos as margens e todos os espaços que conseguimos cobrir. A correnteza há metros de profundidade está muito forte e deve ter levado os corpos para mais longe. Presos, os corpos não ficaram.

– Os corpos? – Vasco não consegue crer no que havia escutado. Ele se volta para Killian. – Elas não estão mortas! Regina conseguiu salvar a Sra. Vargas! Não há corpos!

– Você precisa ficar mais calmo, companheiro. Eles vão continuar as buscas por mais dias.

Vasco começa a chorar compulsivamente. Não poderia perder a sua alma, a sua amada, a sua rainha. Ela não tinha o direito de morrer e deixá-lo sozinho. Isso não poderia acontecer. Ele se ajoelha e segura a cabeça com as mãos, chorando sem medo de parecer ridículo ou passional demais. Consegue sentir a mão de Killian acariciando suas costas e pode ouvir a voz do pirata falando algo ininteligível para ele naquele momento.

O entardecer chega e traz uma mudança repentina no clima. Começa a chover forte e o trabalho de resgate é interrompido para não pôr em risco da vida dos profissionais.

Vasco chega à casa de Mary e imediatamente tem seus braços enchidos pelos corpos das duas filhas, que haviam sido levadas para lá, por Emma. Elas se abraçam ao pai como a tábua de salvação para suas vidas.

– Mary está me acusando de não ter ajudado a minha mãe! – protesta Yasemine.

O olhar furioso de Vasco se levanta e é fixado no rosto redondo e choroso de Mary.

– Não disse isso! Apenas perguntei por qual motivo não retirou o carro das águas, quando começou a afundar! Ela tem poderes!

– Não se atreva a fazer isso outra vez, Sra. Nolan. – Vasco rosna. – Yasemine levantou o carro quando ele desceu rapidamente para o fundo do rio. Foi assim que consegui tirar as duas meninas. Vi Regina e Vargas saírem do veículo e imaginei que emergiriam conosco!

David envolve a esposa pelos ombros e a abraça fortemente.

– Estamos todos chocados, Vasco...

– Mas acusar duas crianças pelo acidente da mãe delas, é crueldade demais. Sobretudo, vindo de quem matou a mãe de Regina... – ele soluça.

O clima esquenta e Killian decide entrar na conversa para amenizar a situação.

– Vou levar Vasco e as meninas para casa. Eles precisam de um banho e de alimento. – ele se vira para Emma. – Vem comigo, amor?

A loira tenta sorrir em meio ao nervosismo e ajuda Killian a sair dali com as outras três pessoas. Faz uma careta para que a mãe se controle.

– Yasemine quis a morte de Regina! Ela fez alguma coisa, David! A menina é perigosa e sente ciúme doentio por Vasco! Lembra-se que ela arrancou a porta do carro de Emma e a atirou em nossa filha, apenas por ver o abraço dela e Vasco? E quando ela transformou a empregada em cabra? E a maldição que rogou no colega de classe? E o comportamento dela no resgate de Vasco da floresta? Lembra-se do que Regina contou?

– A menina não tem nada a ver com o acidente, meu amor. E nem sabemos se Regina está morta.

– Minha mãe não está morta. – Henry finalmente se enche de coragem para sair do quarto. – Eu conheço minha mãe e posso apostar que há algo misterioso neste acidente. Quando todos estiverem mais calmos, poderemos juntar as peças.

– Henry, meu querido...

– Mary, minha mãe ainda acredita que amor é somente para os fracos. Ela não sabe como agir quando é amada e isso é tudo o que Vasco faz: amar a minha mãe. Será que alguém se questionou como ela estava sentindo-se depois que Zelena raptou Vasco? E se para protegê-lo, ela o abandonou e a todos que poderia estar em perigo iminente?

O casal real fica em silêncio. Não se afastam do abraço e mantém os olhos fixos no neto.

As buscas iriam ser interrompidas depois de três dias, mas com a presença de reforços contratados por Vasco, prosseguem-se por mais uma semana. Empenhado em ajudar o amigo, Killian contata sua companheira Ariel e solicita que consiga informações de seus amigos aquáticos. Nenhuma resposta é obtida. Como num passe de mágica, Regina e Vargas haviam sumido, como por encanto.