RECONSTRUÇÃO

1 O amor intenciona reconstruir


Seis meses. Ao todo foram seis meses de convivência após o retorno da Floresta das Esmeraldas. Seis meses de intensa luta para a reconstrução do que Zelena havia mais uma vez, tentando destruir. Infelizmente, ela havia conseguido criar imensos sulcos nas paredes da construção daquela pequena família.

A vida parecia ter voltado ao normal, pelo menos aos olhos de quem estava do lado de fora daquela casa grande com um jardim protegido por uma cerca branca. O cotidiano parecia seguir seu trajeto corriqueiro, mas quem tinha sensibilidade, conseguiria ler o que estava escrito nas entrelinhas.

À frente do comando da prefeitura da cidade, Regina seguia sua agenda e dedicava-se intensamente à resolução dos problemas daquele pequeno reino. Havia aprendido com seu marido, a olhar nos olhos das pessoas, a decorar seus nomes e a valorizar seus desejos e anseios. Queria mesmo ser uma pessoa melhor.

No seio de sua família, a Rainha evitava afastar-se do contato com as filhas pequenas e com o marido Vasco, aproveitando-se de todos os momentos que o dia oferecia para estarem juntos. Um combinado de excluir todo e qualquer segredo tinha sido feito, e um laço de confiança fora estabelecido para que todos se protegessem mutuamente.

Regina sabia que todos estavam maculados pela intervenção de Zelena e empenhava-se para não criar as tão faladas brechas, que pudessem favorecer a entrada de inimigos. Estava muito atenta aos movimentos da apaixonada professora Smila e por precaução havia pedido a Mary para mudá-la de turma na escola onde suas filhas estudavam. Queria evitar o contato de Yasemine com a mulher, corresponsável pelo sofrimento causado a todos daquela família.

Em seu coração, Regina sabia que muitas informações não tinham sido compartilhadas tanto por Vasco, como por Yasemine, e que muitos ocorridos ainda estavam protegidos dentro da alma deles. Embora a menina demonstrasse ser a pequena espevitada de sempre, de quando em quando, aquele olhar perdido que contemplava as estrelas, dizia que a mulher Yasemine ainda estava lá dentro.

Vasco, embora tivesse retomado sua rotina de cão pastor de suas ovelhinhas Mills, ganhara uma conotação triste, em seus maravilhosos olhos celestes. Havia criado uma couraça de proteção e o seu sorriso raro, estava mais raro ainda. Seguia estritamente sua rotina diária de trabalhar, levar e buscar as crianças na escola, cuidar dos detalhes da casa com a Sra. Vargas e os empregados esporádicos, além de zelar pelo bem-estar de suas preciosidades. Não mais saía para eventos que não fossem em companhia de sua família. Nem mesmo sair para jogar com seu amigo pirata, saía mais.

Sempre respondia com um sorriso largo e amável, quando era indagado sobre seu estado de humor e a condição de sua alma. Não compartilhava seus sentimentos e emoções. Não havia assumido, entretanto, Regina sabia que estava traumatizado pelo ocorrido do outro lado do portal.

Naquela manhã, Regina desperta e aguça sua audição para ouvir o barulho da chuva lá fora. Adorava permanecer na cama, vendo a luz do dia cinza avisando que as nuvens estavam banhando a terra. A chuva sempre fora sua amiga. Era muito cedo ainda e era raro o som de carros passando pela rua.

Ao seu lado na cama, Vasco ainda dormia sereno e protegido pelo cobertor que escondia dos olhos de Regina, a sua bela natureza humana. Ela não se cansava de admirar os contornos daquele rosto de menino-homem; sua barba cuidadosamente aparada sem ser raspada, os longos cílios escuros sob aquelas sobrancelhas que enfeitavam o que já era belo e o desenho daquela boca pequena de lábios delicados. Ele era todo seu, cada pedacinho dele, cada centímetro, cada espaço, cada traço. Era inteiramente seu e fazia questão de afirmar isso com gestos e palavras. Não tinha vergonha de demonstrar seus sentimentos e emoções, quando queria declarar seu amor.

Lá dentro de sua alma, Regina ainda nutria uma grande quantidade de culpa por fazer sua família ser alvo de ataques de cobiça. Por que tinha de ter criado um homem tão lindo e suave como aquele? Por que tinha de ter criado um diamante tão raro e valioso num reino repleto de raiva e inveja? Por que tinha de ser exclusivamente amada por alguém tão puro? Ora! Porque ela merecia e porque também tinha o direito de alcançar o seu final feliz!

Ela sorri. As imagens do que havia vivido com seu homem na noite anterior ainda estavam nítidas em sua memória. Porém, ela sabia que ao anoitecer, tudo seria esquecido para ser novamente vivido com a mesma intensidade ou mais. Na pele dele, os sinais de seus anseios estavam estampados e iriam merecer cuidado para que não ficassem expostos aos olhares gulosos que vinham em chusma na direção do Rei de Storybrooke.

Ah! Como ela amava as expressões que se desenhavam no rosto bonito dele, quando se amavam! A necessidade do corpo dele pelo corpo dela, enchia mais e mais a sua alma de poder e da certeza de que ele sempre estaria ali, sedento pelos seus toques e faminto para ser amado. Ele era a rosa vermelha surgida em meio à neve e não havia como passar despercebido. Entretanto, não tinha noção do que provocava nas pessoas, tamanha sua inocência e devoção à família.

Levando-se pelos seus pensamentos ronhosos, Regina se perde numa súbita e assustadora fantasia: ver Vasco ser tocado por mãos fortes e viris. Como ele reagiria a um contato másculo? Ela começa a rir e percebe que provoca o despertar de seu marido.

Ele sorri ainda sonolento e pisca pesadamente.

– Eu estava admirando sua beleza e acabei despertando você. – Regina se inclina e beija o pescoço quente dele. – Você cheira tão bem!

Vasco não contém a gargalhada.

– Devo cheirar mesmo! Depois de transpirar por horas, ter vários momentos de êxtase e não tomar banho antes de dormir...devo estar com cheiro muito bom!

Os dois riem demoradamente e somente param quando Regina pilha a boca do marido com um beijo quase profano. Toma-o de assalto e ele se sobressalta. Olha-a com muito espanto.

– Regina...

– Não me culpe, Vasco. Eu apenas cedo aos meus desejos e não me responsabilizo por querer você sempre e sempre. – ela se senta na cama e desenha no rosto uma careta de menina travessa. – Imaginei você sendo tocado por alguém mais forte, com mais músculos e bastantes pelos no corpo e pelo rosto...

– Você me imaginou sendo tocado por Leroy?

Desta vez, Regina explode numa gargalhada divertida demais. Nem se lembrava quando havia rido tanto e gostado de rir. E nem se lembrava de ter ouvido antes, uma barbaridade tão dantesca como aquela.

– Pela sua reação, não é Leroy. Então, quer que eu seja tocado por Ruby transformada?

O riso cessa imediatamente e Regina olha o marido como se nunca o tivesse visto antes.

– Não gostei de sua brincadeira. Jamais iria permitir que a menina-loba tocasse em um fio de seus cabelos. Eu a mataria!

Vasco se senta na cama e retira o cobertor que escondia sua nudez. Espreguiça-se e inclina a cabeça para trás, exibindo seu pescoço forte, deixando um convite mais do explícito. E o convite é aceito pelos lábios de Regina.

Horas mais tarde, ela desperta mais uma vez. Cheira os cabelos do marido, próximos ao seu queixo e sorri ao sentir o rosto dele aconchegado sobre seus seios. Ele adorava ficar naqueles pequenos montes redondos e convidativos, além de também gostar de esconder o rosto em um determinado vale quente que emanava poderes de controle sobre qualquer razão masculina.

– Precisamos voltar para nossa vida real, Vasco. Temos trabalho esperando por nós.

– Sei disso, mas não consigo convencer meu corpo.

– Quando eu lhe falei sobre minha imaginação, estava falando sério. Quero realizar uma fantasia muito pessoal.

Vasco se senta na cama e olha a esposa exposta e sem pudores. Começa a brincar com os seus poucos pelos pubianos que haviam resistido à depilação.

– Você falou que mataria alguma mulher que tocasse meu corpo, outra vez. E mataria um homem?

– Não. Eu iria permitir, querido. Tudo seria consensual.

– Consensual da parte de quem? – Vasco sorri.

– Ora, meu amor, você sempre me disse que faria tudo para o meu prazer. Pois agora, é isso que quero! Você fará?

Ele sai da cama e caminha para o banheiro. Olha a esposa por cima do ombro.

– Consiga a pessoa e farei.

Notas finais
Boa leitura!