RECONSTRUÇÃO

10 Triste desejo...


– Liguei diversas vezes e você não me retornou. Tive de ser atrevido o suficiente para conversarmos. – Solomon fala rapidamente, antes que Vasco feche a porta. – Por favor...

Vasco gesticula e pede para que entre. Estava sozinho naquela tarde, já que Regina, as filhas e a Sra. Vargas tinham ido assistir a um show de Taylor Swift. Um sonho das meninas. Depois, iriam às compras de presentes para serem levados aos amigos.

– Quero que saiba que não recebi dinheiro algum para realizar aquela fantasia de Regina. Eu fiz por...pura e verdadeira paixão por vocês dois. Quebrei meus votos e meu juramento a Sara, porque confiei em vocês dois e acreditei que estavam confiando em mim.

– Acredita mesmo que eu faria aquilo, caso não confiasse em você?

Solomon segura os ombros de Vasco. Adorava tocar aquela criatura misteriosa.

– Então, por que me acusou de ter sido pago? Por que não quis conversar comigo depois? Por que não pudemos criar intimidade?

O moreno dá de ombros.

– Não sei como foi sua vida, Solon, mas a minha vida sexual restringia-se à Regina. Porém, um dia, fui raptado, drogado e seviciado. Lamento profundamente, mas não aprecio outra pele tocando a minha, que não seja a pele de Regina.

– Mas você se entregou a mim! Ouvi seus gemidos e senti seu entusiasmo! Eu tenho marcas em minha pele que provam o quanto você participou!

Vasco sorri e nega com a cabeça.

– Eu me excitei porque Regina estava ao lado da cama, coordenando meus movimentos, dando-me ordens, tornando-me o vassalo sexual dela. É isso que me agrada: estar vivo para fazer a minha rainha feliz.

– Você me apreciou, Vasco! Foram carícias atrevidas, sem pudor, nossas mãos fizeram explorações ensandecidas! Nossos corpos se entregaram por amor! Estive dentro do seu corpo! Produzimos faíscas!

Sem acreditar no que ouvia, Vasco sorri levemente. Sua expressão dizia o que pensava daquela declaração nonsense.

– Eu fiz por amor, sim. Mas por amor à minha esposa. Não pense que minhas emoções ou meus sentimentos estavam focados em você, Solon. Confesso que reconheço sua suavidade, sua elegância, sua beleza...mas não posso afirmar que meu prazer foi exclusivamente provocado por você. Lamento muito.

Solomon liberta o homem mais jovem e inspira profundamente. Sorri.

– Eu sei exatamente o que você sente, Vasco. Amei Sara com a mesma intensidade com que você ama sua Regina. Mas fui repudiado, embora sempre me colocasse como o vassalo de minha amada. Implorei por amor e errei, porque esse sentimento não nasceu para ser implorado.

Mesmo sendo eloquente, Vasco não consegue encontrar palavras para rebater aquela afirmação. Por que? Porque era verdadeira e tudo o que ele fizera desde que conhecera Regina, fora implorar para ser amado, assim como a amava.

– Como você, eu fiz vários sacrifícios para satisfazer a minha amada. Mas ela não fez nenhum. – Solomon arqueia as sobrancelhas escuras e longas. – Qual foi o maior sacrifício que Regina fez pelo seu amor?

– Ela arriscou a própria vida, para resgatar-me do rapto. Regina é uma mulher linda, inteligente, desejável e poderia ter encontrado vários outros homens para pôr em meu lugar. Mas mesmo sabendo que eu havia copulado com outra mulher, ela me resgatou e aceitou-me de volta.

– Quem seria tolo o suficiente para não aceitar um homem como você, em uma cama? Obviamente que ela o perdoaria, porque tenho a mais absoluta certeza de que não faltam pretendentes para...como você mesmo disse: copular com você. Eu presenciei isso no bar, lembra-se?

Sem conseguir responder, Vasco apenas nega com a cabeça.

– E quem em sua sã consciência, rejeitaria uma mulher como Regina? Vocês dois vivem um casamento de conveniência. – Solomon se aproxima ainda mais do homem mais jovem e retira a franja que caía pela testa dele. – Posso arriscar que amo você e amo Regina, com a mesma intensidade. Vocês dois despertaram algo que eu pensava estar morto dentro de minha alma.

Fechando os olhos ao sentir o toque em sua bochecha, Vasco permite ficar relaxado com o que havia acabado de ouvir. Aquilo não poderia surtir efeito em sua alma e tampouco provocar tristeza ou depressão. Embora jamais fosse exteriorizar em palavras, apreciava o toque.

– Devo confessar que nosso encontro foi muito bom. – ele abre os olhos e exibe os mais belos faróis celestes. – Mas acabou, Solon.

– Eu sei que partirão em breve, mas eu lhe peço que me permita tocar em Regina, assim como toquei em você. Sob sua supervisão...

Uma gargalhada é a primeira reação de Vasco.

– Quer ser um homem morto? Fique à vontade. Caso ela não o mate ao ouvir a proposta, eu me encarregarei disso.

Empertigando-se e mesmo sentindo-se ofendido pela rejeição, Solomon desce sua mão até a cintura de Vasco.

– Não me importarei com quem você se deitar. Deleite-se seja com quem for...mas apenas peço que aceite esse meu amor estranho. Mesmo depois de décadas, irá lembrar-se de que fui o seu primeiro amante.

Desdenhoso, Vasco se afasta. Não parecia importa-se com aquela declaração de amor ou mesmo não demonstrava incômodo pela sua primeira noite sob a supervisão de Regina.

– Você quer uma placa de prata com reconhecimento por isso? Honra ao mérito? – ele olha Solomon por cima do ombro. – Entenda algo: posso fazer sexo com a população da China, mas somente farei amor com Regina. Mesmo que voltemos a dividir a cama com você, será meramente sexo.

Avançando bruscamente e rosnando como se fosse uma fera, Solomon toma o homem mais jovem de assalto e provoca uma reação defensiva. É rapidamente repudiado com um golpe físico.

– Afirme que minha presença e meu cheiro não provocam nada em seu corpo! – grita o reverendo, mostrando-se transtornado.

– Eu lhe peço, saia da minha casa. Agora! – Vasco aponta a porta e mantém o tom baixo em sua voz, embora sua expressão dizia que havia se assustado. – Não quero macular o que vivemos de bonito. Mantenha a magia da nossa noite, eu lhe peço. Vá embora!

A suavidade retorna ao rosto do reverendo. Ele esconde as mãos nos bolsos.

– Eu peço desculpas. – Solomon se dirige para a porta e não espera gentileza. Ele mesmo a abre e sai do local.

Vasco se encosta na parede e apoia-se ali. Suas pernas tinham virado geleia. Poderia jurar que vira os olhos de Solomon mudarem de cor, quando ele avançou em sua direção. Escorrega para sentar-se no chão e avalia mais uma vez o resultado daquela aventura, definitivamente não apreciando o que concluíra.

Em um ponto distante, naquela cidade, Regina apreciava a discrição de Yasemine explorando aquela loja de departamentos. Muito segura, elegante com seu andar de bailarina e seu belo e longo pescoço, protegido por aquela massa de cabelos longos, assemelhava-se a uma princesa num salão de bailes. Era uma linda visão! Recorda-se da maneira como os olhos do cigano Nicolas brilhavam, quando ele observava o andar da menina feroz, como ele a chamava.

Alda se senta ao lado da mãe e sorri para ela. Regina acha aquele sorriso maravilhoso e compara o nariz da filha caçula ao seu, quando ainda era uma menina sem vaidades. Com a descoberta daquele pecado capital, havia feito um truquezinho para modificar a ponta do nariz. Ela ri com a lembrança.

– Mamãe, quero aproveitar que Yasemine está longe, para contar algo sério.