RECONSTRUÇÃO
11 Meus amores são realmente meus?

– O que há? Está deixando-me preocupada.
– Na noite em que papai e você foram namorar e ficamos em casa com Vargas e Paco, ele nos confessou que é um habilidoso, também. Ele nos reconheceu quando nos viu pela primeira vez.
– O quê?
– Ele mostrou um bracelete e disse que foi Solomon quem o obrigou a usar, para bloquear as habilidades. Contou que Solomon era obrigado pela ordem religiosa dele, a caçar pessoas que tinham habilidades, mas não nos explicou porque ele foi poupado.
– Como não percebemos isso? – Regina se mostra aflita.
– É o bracelete com brilhante que camuflou nossas percepções.
– O bracelete tem uma pedra de brilhante no centro? É um bracelete de couro como aquele que conhecemos?
Alda maneia afirmativamente com a cabeça.
A imagem nítida do momento em que havia segurado as mãos de Solon e até brincado com o bracelete, retornam à mente de Regina. Os dois eram habilidosos e não haviam se aproximado de Vasco por mera coincidência.
– O que mais ele disse?
– Perguntou sobre nossa mudança para adultas e citou o Grande Grimório. Ele sabe da existência do livro e talvez estivesse investigando.
Regina olha para os lados em busca da filha mais velha.
– O que vocês disseram a ele sobre o livro?
Um sorriso debochado surge na boquinha da garota. Ela morde a ponta da língua.
– Dissemos que o utilizamos várias vezes, mas não confirmamos que estávamos com ele aqui. Mas ele nos disse que se Solomon descobrir, tentará destruir o livro.
– Vamos para casa! O papai está sozinho! – Regina percebe que Yasemine a estava olhando e gesticula veementemente para a filha.
Sem tempo para enfrentar o trânsito, Regina decide encurtar o caminho. Pede a aproximação das filhas e da Sra. Vargas e as leva para um dos provadores. Ali dentro, gesticula, cria a nuvem de fumaça roxa e transporta a todas para o interior da casa.
Lá dentro, tudo estava silencioso e escuro. Rapidamente, as mulheres partem na procura de Vasco, temendo que os outros habilidosos tivessem se aproveitado da solidão e provocado algo ruim. Quando Regina encontra Vasco no quarto, emparelhando as malas já prontas junto a um móvel, ela grita e salta sobre ele. Ambos se estabacam contra o chão e ela cobre aqueles lábios com beijos e mais beijos.
– Pensei que Solon o havia machucado!
Os dois sentam-se no chão e olham ao mesmo tempo para a porta servindo de passagem para as filhas e a empregada. Todas aliviadas em verem o casal deitado no chão.
– Ele esteve aqui, conversamos, mas eu pedi que fosse embora. Posso me sentar? – Vasco acha graça na reação da esposa e depois que se senta, é atacado pelos beijos e abraços das filhas. – Estou bem! Por que isso?
– Estávamos com medo. – Yasemine se senta no chão e é imitada pela irmã.
– Estamos todos juntos agora. – ele sorri lindamente.
– Vou preparar algo para comermos. E preciso de uma bebida forte! – a Sra. Vargas sai do quarto e deixa a família ter seu momento particular.
Tendo descido a escada e dirigido-se para a cozinha, a mulher retira seu casaco e sorri, lamentando ter de deixar todos aqueles produtos escolhidos na loja. Bom, teria outras e outras oportunidades de retonar àquela cidade. Acende a luz do cômodo e vai lavar as mãos para começar a fazer uma sopa.
– É tarde e será melhor fazer algo consistente, mas leve.
– Não penso que as meninas vão querer sopa. Elas estão com fome. – a voz masculina ouvida, produz medo na alma da mulher.
– O que...como você ? – ela se vira e sente o frio do horror tomar seus músculos. Sentado num canto da cozinha, estava Solomon, estranhamente vestido com uma capa escura e um chapéu horroroso sobre cabelos desconhecidamente longos. Antes que ela pudesse gritar, observa o homem gesticular e tudo se torna escuro e sem sons.
– Eu me chamo Solomon Kent. Mas pode chamar-me de Reverendo Kent. – ele sorri e aproxima-se da mulher petrificada. Toca a testa dela com a ponta do dedo indicador e a vê transformar-se num pequeno amontoado de pó sobre o assoalho. Sorri e move a mão, produzindo uma brisa que espalha o pó em todas as direções.
Olha por cima do ombro e em questão de segundos, sua imagem é substituída pela imagem rechonchuda da Sra. Vargas.
– Vamos começar a fazer um lanche reforçado para as minhas crianças. – ele se aproxima do telefone da parede e passa suavemente o dedo sobre as teclas. – Hummm...quero saber qual é a tecla do quarto de Regina. Mostre-me!
A tecla oito começa a brilhar e um sorriso na boca emprestada, também brilha. Em alguns minutos depois, Regina entra na cozinha e encontra a empregada organizando belos sanduíches em uma travessa.
– Usei legumes para fazer o recheio dos sanduíches. – a empregada olha por cima do ombro. – A senhora quer um suco em especial?
– Eu mesma prepararei o suco.
– Como está Vasco?
– Tranquilo. – Regina sorri e toma a iniciativa de começar o preparo da bebida. Observa a empregada deixar a travessa sobre o balcão e caminhar em sua direção.
– Precisamos conversar de forma sigilosa, Rainha.
A expressão usada pela empregada causa estranheza na alma de Regina. Ela se preocupa, mas depois se tranquiliza quando a mulher mais velha estende sua mão rechonchuda e toca seu ombro. Mas antes que conseguisse entender, sente uma forte fisgada em seu pescoço, como se uma agulha tivesse sido enfiada ali. Mas era o efeito do corte produzido pela unha da empregada.
Tudo se torna turvo e começa a girar. Suas pernas amolecem e Regina se senta no soalho frio da cozinha. Sente as mãos fortes da empregada segurarem seus ombros, impedindo que caia deitada.
– Vasco e você não podem rejeitar o amor que eu ofereci aos dois. Sara me rejeitou e pagou com a vida, pela dor que atingiu meu coração. Mas não tenho coragem de fazer isso com vocês. – Solomon assume sua figura novamente. – A partir de hoje, eu serei a marca na vida de Vasco e na sua vida, minha cruel Rainha. Iremos embora amanhã e você fará tudo o que eu ordenar, para que no final de meu planejamento, eu tenha tudo o que quis. Terei Vasco, você e meu valioso livro, minha linda e deliciosa Rainha. E com ou sem o consentimento de Vasco, farei de você a minha amada.
Acomodando Regina com as costas contra a parede do balcão, Solomon segura o rosto moreno dela entre suas mãos espalmadas.
– Ouça com atenção, tudo o que vou ordenar e no momento certo, irá atender ao meu chamado, minha criança frágil. Você não é a fortaleza que quer mostrar ser.
Naquela noite, Regina é acomodada em sua cama. A Sra. Vargas havia gritado por Vasco, quando a patroa desmaiara. Levada nos braços do esposo para o quarto, Regina é cuidadosamente deitada e protegida pelos cuidados da família.
Quando ela desperta no meio da madrugada, encontra Vasco sentado na cama, junto à cabeceira e encontra as filhas aconchegadas no colchão, próximas aos seus pés. Enroladinhas como dois filhotes de gatos.
– Vasco...- ela se espreguiça.
Ele se move e alarga um sorriso, inclinando-se para beijar-lhe os lábios.
– Da última vez em que você desmaiou, Yasemine já estava a caminho. Será que você está grávida?
Um sorriso preguiçoso surge nos lábios de Regina. Seus movimentos despertam as filhas.
– Foi cansaço, meu amor. Mas se for uma criança, será muito bem vinda.
– Você está grávida, mamãe? – grita Alda, já feliz com a suposta novidade.
– Quem sabe se ela estiver grávida, poderá nos deixar mais à vontade. – Yasemine fala sem emoção.
Vasco se deita ao lado da esposa e beija ainda mais os lábios dela. Depois olha para as filhas.
– Mesmo que você tenha oitenta anos, Yasemine, sempre irá gerar preocupações em seus pais.
– Quando eu estiver com oitenta anos, você terá oitenta e seis, papai. – ela sorri debochada. – Somente espero que não venha outro habilidoso. O clã está crescendo.
Alda empurra a irmã e mostra-se feroz.
– Não seja desagradável, sua tonta! Não consegue ser gentil nem quando mamãe está debilitada? Solte seus espinhos de ouriço em outra redondeza!
– É nossa forma de amar. – Yasemine sobe mais na cama e vai deitar a cabeça sobre o quadril da mãe. – Somos um poço de gentileza, não é, mamãe?
Era manhã, quando Vasco termina a organização para a viagem de volta. Tudo havia sido visto e revisto para que todos seguissem para o aeroporto depois do almoço. Estava sentado no sofá da sala principal, fazendo algumas anotações em sua agenda e é interrompido pelo chamado delicado da Sra. Vargas.
– Solon e Paco virão almoçar com vocês, para a despedida?
Que pergunta estranha! Vasco encara a mulher e exibe sua expressão de desentendimento.
– Não sei. Eles falaram alguma coisa com Regina?
– Não posso dizer. Apenas perguntei para que eu comece o almoço.
Vasco retira os óculos, inclina a cabeça para o lado para entender, como fazem os cachorrinhos.
– Seja direta, Sra. Vargas. O que quer saber?
A mulher se senta no sofá ao lado de Vasco e esfrega as mãos de forma ansiosa.
– Eu não simpatizo com eles. Não gosto da maneira como Solomon engole a Rainha com os olhos. Desculpe-me por falar assim de seus amigos, mas não tenho confiança neles. Seria melhor, não permitirem que convivam com Yasemine e Alda. Tenho receio de que queiram interferir em seu casamento.
Usando a imagem de Vargas, o reverendo aguarda ansiosamente pela resposta de Vasco. Queria exatamente saber o que ele sentia e o que pensava. Sorri.
– Obrigado pela sua preocupação, Sra. Vargas. O que a senhora me disse ficará registrado.
A decepção instala-se na expressão da mulher. Sem ter o que falar, levanta-se e sai. No caminho, encontra-se com as duas garotas barulhentas e risonhas.
– Bom dia, Sra. Vargas! – Alda sorri e vai saltitante na direção do pai. – Bom dia, papacito!
Yasemine se cala e apenas exibe seu sorriso de canto de boca. Era seu cumprimento para a mulher. Depois se volta para o pai e arreganha seu sorriso feliz, correndo para os braços dele.
– E então, confirmou se mamãe está grávida?
O choque da pergunta atinge as costas de Solomon, como se fosse um coice de mula. Ele para e engasga-se, mantendo a postura para não despertar suspeita.
– Ela me disse que quer esperar até chegar em casa. Depois fará os testes.
– Mas ela poderia usar algum truque. – sugere Alda, ajoelhando-se no sofá e estalando os dedos.
– Pode sim, mas não deve. – Vasco brinca com os cabelos da filha mais jovem.
– Seria muito legal termos um irmão. – Yasemine apanha a agenda do pai e lê as anotações dele. – Poderia chamar-se Giulio.
– Vocês já têm um irmão. E Henry? É o que de vocês?
Alda e Yasemine gargalham barulhentas.
– Ele não é filho de nossa mãe. Ele é filho de Emma Swan. Não tem laço sanguíneo.
– Quero saber sobre algo mais importante do que ciúmes entre irmão. – Vasco observa a empregada ainda parada de costas para eles. Questiona a atitude da mulher e a olha por alguns segundos, até vê-la sair em direção da cozinha. – Vocês pretendem retornar como adultas para nossa casa? E a escola? E a vida de criança que levavam?
– Papai, quando passamos por esta experiência, mesmo que voltemos ao estágio de crianças, a nossa cabeça permanece adulta. É muito sofrimento. – a garota mais velha opina.
Alda não demonstra ter gostado da pergunta do pai. Amua e faz beicinho.
– Mas o que iremos fazer com vocês? Não podem perder a infância e tornarem-se adultas tão de repente.
Desta vez, um sorriso ilumina a boca pequena de Alda.
– Você sente falta de sua infância? Você nem teve infância! Mamãe nos contou que você já veio ao mundo com adulto! Ela criou o senhor já adulto! Sente falta?
– Eu não vivi a minha infância, então, não há como eu sentir saudades de algo que desconheço. Mas vocês viveram e irão arrepender-se pela decisão de permanecerem como adultas. As responsabilidades virão e terão de agir como tal. Terão de trabalhar, estudar, responder pelos seus atos e contribuir com a casa.
– Poderemos dirigir? Ou pilotar os barcos do Capitão? Posso pular de paraquedas? E mergulhar para resgatar tesouros com você? – Alda praticamente grita e salta sobre o pai.
Todos começam a rir e não perceber o olhar angustiado e invejoso de Solomon, por trás dos falsos olhos da falsa Sra. Vargas. Como ele queria aquele tipo de felicidade! Amar e seu amado de forma incondicional. Por que a vida tinha negado isso a ele?
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