RE - FUNDAÇÃO
14 Epílogo
Notas iniciais
Epílogo
Meu segundo pensamento foi de que eu sabia tudo. O oceano de Lettie
Hempstock fluiu dentro de mim e preencheu o universo inteiro, do Ovo à Rosa.
Eu soube. Soube o que era o Ovo — onde o universo se iniciou, ao som de vozes.
Incriadas cantando no vácuo — e eu soube onde estava a Rosa — a dobra
peculiar de espaço no espaço em dimensões como origami e que florescem
como orquídeas estranhas, e que marcaria a última época boa antes do
consequente fim de tudo e do próximo Big Bang, que não seria, agora eu sabia,
nem nada do gênero.
Eu vi o mundo no qual andara desde o meu nascimento e compreendi sua
fragilidade, entendi que a realidade que eu conhecia era uma fina camada de
glacê num grande bolo de aniversário escuro revolvendo-se com larvas,
pesadelos e fome. Eu vi o mundo de cima e de baixo. Vi que havia padrões,
portões e caminhos além da realidade. Eu vi todas essas coisas e as compreendi,
e elas me preencheram, da mesma forma que a água do oceano me preenchia.
Tudo sussurrava dentro de mim. Tudo falava para tudo, e eu sabia tudo.
Abri os olhos, curioso para saber o que veria no mundo fora de mim, se seria
de alguma forma igual ao mundo de dentro.
Eu pairava bem fundo na água.
Olhei para baixo, e o mundo azul debaixo de mim perdia-se de vista na
escuridão. Olhei para o alto e o mundo acima de mim fazia o mesmo. Nada me
puxava mais para o fundo, nada me forçava em direção à superfície.
– O Oceano no fim do caminho.
Neil Gaiman.
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