R a - Virtual Warriors
2 Capítulo I: Loading
Notas iniciais
Aqueles rubis fitavam seu alvo com extrema concentração, aqueles braços fortes faziam o arco negro gritar a cada vez que o esticava. O loiro achava aquela roupa feita de peles um tanto desnecessária, talvez fosse uma maneira de provocação masculina para que as mulheres pudessem admirar o corpo do atlético moreno. As melenas castanhas do irmão voavam em vento plácido enquanto aquelas flechas vinham tão rápidas como os raios que cortam o céu em uma tempestade de verão.
O loiro saltava freneticamente e a cascata dourada que saia de sua cabeça estava inquieta com tanta movimentação. O sobretudo negro por duas vezes quase fora fincado no chão pelas perigosas flechas enquanto os olhos cristalinos procuravam uma maneira de contra atacar. Suas mãos faziam movimentos frenéticos e vez ou outra as flechas se partiam bem na sua frente. Em físico, não era como o irmão, era mais discreto em sua musculatura e com traços bem mais suaves.
Estavam numa clareira ao norte de Erlaihim, uma vila élfica. Ao redor uma floresta densa e fechada parecia engoli-los. Nela havia criaturas de estrema periculosidade, mas com o tempo que estavam batalhando, possivelmente todas, ou quase, já deviam ter fugido dos arredores.
O loiro arregalou os olhos ao saltar para trás e ver, onde estava o seu pé, fincar uma flecha de cor esverdeada e em seguida sentiu uma grande pressão arremessar seu corpo por entre os galhos da região fazendo-o se arranhar todo. Teve de fazer alguns movimentos com a mão e viu os cortes que causara nas árvores por causa dos fios quase invisíveis que saiam de suas luvas negras. Um filete de sangue escorreu pelo canto da sua bochecha, havia arranhado seu lindo rostinho.
— Ahhh, isso doeu! – Disse limpando com a mão esquerda, enquanto pensava que poderia ser perigoso se a batalha se arrastasse mais do que aquilo – O aniki vai pagar por essa! – Disse já pronto para contra atacar.
Sabia que agora tinha o elemento surpresa. Subiu em uma árvore e começou a saltar de galho em galho da maneira mais silenciosa que conseguiu, sempre com movimentos artísticos e muito bem calculados, deveria participar das olimpíadas, pensou permitindo-lhe um sorriso. A mata era muito densa e mesmo que em alguns momentos acabasse se arranhando em algum galho não sentia tanta dor.
Até pensou que pudesse estar indo direto para uma armadilha, mas surpreendeu-se ao achar o moreno calmamente esperando-o em plena clareira. Aquilo lhe parecia algo tentador, mas sabia que seu irmão não iria deixar-lhe ganhar de maneira nenhuma e tinha que pensar em algo.
Sabia o quanto o loiro tinha persistência. Fechara então os olhos de uma maneira bem plácida, como se nada estivesse acontecendo. Podia ter se escondido e preparado uma armadilha para o irmão mais novo, mas isso seria fácil demais. Sua diversão seria que ele preparasse um ataque surpresa.
Ao acalmar seus pensamentos, percebeu que o odor daquele shampoo de camomila vinha do noroeste. Como podia ser tão ingênuo aponto de se aproximar tanto? O ensinara tantas vezes, mas ele parecia não aprender. Teria de demonstrar as conseqüências de seus erros. Retirou de seu aljave uma flecha de esmeralda, energizou-a e a fincou no chão.
Apontou seu arco na direção do loiro retirando outra flecha de seu aljave e, energizando-a, atirou sem clemência. Um estrondo se fez e a árvore voou uns quinze metros de onde estava, mas percebera que seu irmão conseguira escapar somente quando seus pulsos foram violentamente amarrados por fios tão finos que lhe cortava a pele e antes que pudesse perceber seu corpo todo estava nesse estado. Tinha de admitir, o pequeno era rápido.
— Eu ganhei! – Gritou com sua voz ainda na metamorfose um feliz loiro aparecendo atrás do moreno.
— Tem certeza? – Indagou o irmão com um sorriso sarcástico.
Os fios se partiram e o loiro foi lançado para longe com inúmeros cortes sendo feitos em seu corpo e sentindo, logo em seguida, uma flecha atravessar seu coração e antes que seu mutilado corpo pudesse encostar no chão, se viu naquela sala com aquele capacete neural sentindo uma forte dor no peito.
Olhou seu irmão com um sorriso triunfante já sem o capacete.
— Isso foi...Como aconteceu? – O loiro ainda estava ofegante por causa da dor no peito.
— Eu não finquei aquela flecha no chão por acaso, seu idiota!
-Mas, se eu só fosse arremessado para longe os fios teriam sido apertados e você teria sido fatiado... – O loiro procurava uma explicação pra tudo.
— Aquela flecha era especial... – Foi tudo que ele disse.
-Ahhh, que seja, estamos atrasados! – Disse olhando o relógio.
Nisso o loiro tinha razão. Em questão de segundos pegaram suas mochilas na entrada e já tomavam caminho para a escola. O loiro ainda sentia as dores da flechada, mas nada que fosse muito preocupante.
Não era à toa que a nova sensação do momento era o Real Alternative, o jogo de ultra-realidade virtual. Tinha virado mania mundial e jogado por todos. Seus efeitos muitas das vezes podiam ser sentidos até mesmo fora do jogo.
Não fazia muito tempo que R.A., como fora abreviado pelos fanáticos, fora lançado, mas certamente já conquistara o mundo, em especial os adolescentes. Jovens e mais jovens se juntavam todos os dias em batalhas em outros mundos dentro de um vídeo game que podia realizar o sonho de muitos de ser super-herói.
Nossos dois heróis não demoraram muito a chegar naquela escola que para eles, embora tivessem estudado toda a vida nela, ainda parecia tão hostil. Num lugar como aquele eles não tinham os super-poderes de seus avatar’s, eram somente adolescentes tentando sobreviver no pior de todos os desafios da vida: A puberdade.
Imagine que você seja um cordeiro no meio de matilhas e mais matilhas de lobos famintos. Nesse mundo ou você persegue, ou você é perseguido; ou você é popular, ou você é o excluído; ou você é o inteligente, ou você é o atleta. Não importa o que faça, há sempre um rótulo para você. Assim é a selva da puberdade. E a lei é: Ou mata, ou morre!
Não passou um só minuto que os garotos não fossem observados. O loiro ficava a olhar pra si mesmo tentando achar qualquer coisa em si que chamasse a atenção.
O tênis negro era o mesmo de sempre, a calça de jeans desbotado não estava suja e a camisa branca por dentro da jaqueta vermelha da escola não estava manchada. Não, não havia nada de errado consigo. Perguntava-se se seu cabelo estava bagunçado, mas se lembrou que não, havia reparado nele ao passar num vidro de uma loja de roupas.
-Pare de tentar se preocupar se está tudo certo contigo. – O irmão disse-lhe de maneira gentil. – Mamãe sempre afirmou e eu sempre assinarei embaixo, você é tão lindo que qualquer coisa lhe cai bem! – O sorriso sincero de seu irmão o deixou mais despreocupado. – Além do mais, se começar a se preocupar com que os outros dizem, será um tolo! – Sua voz era firme e veemente.
O loiro deixou de se preocupar e percebeu que na jaqueta do irmão estavam umas camadas de tinta que se desprenderam de alguma parede que ele havia encostado e disfarçadamente as retirou.
Algumas garotas o fitavam de boca entreaberta suspirando vez ou outra. Tinha de admitir que seu irmão era o melhor atleta do colégio, em sua opinião e é claro do fã-clube dele, e tinha facilidade de enfiar-se em todos os grupos e sair-se bem com todas as pessoas. Talvez por isso sua popularidade fosse bem alta no colégio.
Não demorou para que os dois se separassem e percebeu que grande parte de sua segurança se esvaíra junto com a ida do irmão, mas ainda teria que enfrentar o dia todo até que pudesse novamente enfiar-se em R.A.. Estava ficando viciado, pensou preocupado.
Retirou então seus sapatos apossando-se daqueles estranhos chinelos azuis. Ia entrando na sala quando foi pego de surpresa por Kinodi, seu carrasco pessoal em forma de professor. Se fosse em R.A. o faria em pedaços.
— Atrasado de novo, Hikaru-san – Disse como forma de escárnio e de estremo desgosto. – Sente-se antes que eu me arrependa de deixá-lo assistir minha aula.
Essa gentileza ele dispensava com toda a certeza.
Sentou-se então em sua carteira de sempre, mas percebeu que havia um aluno novo ao seu lado e por algum motivo aquele rosto não lhe era estranho.
Aqueles cabelos negros, como a mais profunda escuridão, pendiam caindo-lhe alguns fios pela face pálida, aqueles olhos escuros e semi-serrados, aquela feição indecifrável e que por, algum motivo, lhe parecia perigosa, as correntes de metal que ele usava...Tudo nele o chamava atenção. Era novo com toda certeza, mas o conhecia de algum lugar.
A aula correu como sempre: tediante. Detestava aquela matéria, porque odiava o professor que a lecionava. Era horrível ser o alvo de Kinodi. Em qualquer mínima pergunta que ele fazia ao loiro a resposta tinha que ser dada em uma análise a nível de faculdade e ainda assim não era suficiente. A única coisa anormal fora aquele aluno novo.
Vez ou outra sentia que aquelas ônix pesavam sobre si. Detestava ser observado. Procurava em sua memória qualquer lembrança daquele garoto de nome Kisuki Hiroshi. Certamente não lhe era estranho, mas não se lembrava de maneira nenhuma.
Quando o sinal bateu anunciando o fim da aula de Kinodi, o loiro quase deu um pulo de tanta alegria, mas tal ato foi contido por escutar aquela voz roca de um garoto de 15 anos que mais parecia ter 18. Hiroshi estava olhando-o esperando qualquer resposta.
- Desculpe Kisuki-kun, estava distraído, você dizia? – Indagou sem jeito.
- É por isso que nunca consegue ganhar do seu irmão, Aoi. – Disse de maneira lógica. – Daichi te derrotou hoje de manhã de novo, né?
Aoi realmente se surpreendeu. De inicio estranhara a informalidade, mas só então sua memória se recordou de onde o conhecia. Ele era o líder do clã Aoihana, o clã do qual seus irmãos mais velhos participavam e que há meses estava tentando entrar.
- Eu achei que você fosse mais velho. – Comentou o loiro já de olhos arregalados.
- Como pode entrar no clã se nem ao menos consegue reconhecer seu futuro líder. – Brincou com o semblante do loiro
-Desculpe, mas foi difícil reconhecê-lo sem aquelas coisas apontadas para minha cabeça. – O loiro exaltou-se um pouco se lembrando de certa ocasião.
- Olha o garotinho saindo da casca. – Comentou mediante a expressão do garoto que se acanhara.
Hiroshi deu um meio sorriso. Sempre achara o loiro com muito potencial, mas seus irmãos foram contra sua entrada no clã devido a sua inexperiência quanto a batalhas. Sabia também que o clã tinha acumulado alguns inimigos que não deixariam de se aproveitar de tal inexperiência para ferir de alguma maneira o pobre rapaz.
- Hiro-kun! – Uma voz propositalmente irritante ecoou pela sala vinda da porta.
Nela estava parado aquele garoto de cabelos azulados e com uma franja um tanto grande. Os olhos vermelhos combinavam muito bem com a pele pálida. A blusa branca estava suja com provavelmente mostarda. Seu irmão não tinha modos para comer.
O garoto teve de desviar de uma borracha que acertara a porta de uma maneira excessivamente bruta. Hiroshi estava com uma expressão furiosa, e se não fosse as várias cadeiras que teria de pular ele teria corrido atrás do garoto.
O loiro se assustara com a rapidez e precisão que Hiroshi quase acertara seu irmão. Katsu olhava o buraco que o outro jovem fizera na parede e ria de alívio. Certamente Hiroshi era perigoso.
- Katsu, você certamente não tem amor à vida. – Dizia Hiroshi furioso já segurando uma outra borracha.
Aoi naquele momento percebeu que Hiroshi não gostava daquele apelido infantil.
Katsu era seu irmão do meio e era um pouco brincalhão. Tinha grande intimidade com Hiroshi apesar de só está-lo vendo pessoalmente naquele dia em especial.
- Porque se mudou da França, Kisuki-kun? – Perguntou o loiro de maneira formal.
- Primeiro, chame-me por Hiroshi. E se me chamar de Hiro, eu te mato. – Disse com um olhar assustador. – E a empresa onde meu pai trabalha mudou para cá. – Disse indiferente.
Não demorou para que aquele cabelo castanho despontasse na porta e o loiro radiou com seu brilho que, até então, estivera contido. Seu sorriso se expandiu de uma maneira graciosa. Não havia dúvida, com o irmão mais velho, Aoi era completamente diferente. Era mais...mais brilhante.
- Aniki. – Gritou animado.
O sorriso de Daichi se alargou ao ver o loiro tão alegre e se surpreendeu ao ver Hiroshi e Katsu na sala do irmão. Ao se aproximar do irmão, bagunçou-lhe o cabelo vendo-o fechar os olhos.
- Não sabia que estava por aqui, Hiro...shi – Riu de seu quase deslize. Poderia ser preguiçoso, não estavam dentro do jogo.
Hiroshi ficou sério por um momento olhando para os três e naquele momento tomara uma decisão. Havia se lembrado do porque ter chamado Aoi para conversar, antes de Katsu aparecer. Os dois mais velhos ficaram sérios também e o loiro ficou confuso com a situação.
- Não! – Gritaram os dois em uníssono.
- Isso quem decidirá é ele! – Decretou usando de sua autoridade como líder.
O loiro ficou confuso quanto àquela declaração, mas pela reação dos irmãos não imaginava outra coisa que não fosse a sua admissão ao clã.
- Assim que as aulas acabarem iremos direto para a R.A. House da esquina. – Finalizou aquela conversa com um tom autoritário.
***
As aulas passaram rápidas e não demorou para que estivessem em frente aquela enorme loja. Haviam muitas outras como aquela para que os jogadores pudessem acessar o jogo de qualquer lugar. E naquele momento certamente eles iriam acessar.
O lugar estava cheio, mas conseguiram quatro cabines. Deitaram-se na máquina e colocaram as interfaces cerebrais.
Não demorou para que estivessem em uma vila muito charmosa. Tudo parecia ser muito natural, era uma vila élfica, então o que não faltava era árvores.
Katsu não tinha o físico tão exagerado quanto de Daichi, mas podia-se ver que seus braços eram bem treinados. A camiseta preta terminava onde a calça branca começava. A bainha da espada estava presa ao cinto que o garoto de cabelos azulados usava. Era o espadachim mais perigoso que conhecia e também o mais habilidoso.
- Aoi – Hiroshi o chamou olhando no profundo de seus olhos azuis que não tinham uma expressão confiante. Realmente Aoi era diferente dentro do jogo e não estava falando das roupas. – Eu decidi que vou coloca-lo no clã mesmo sem a aprovação dos seus irmãos, desde que você passe no teste.
- Posso saber o porque de ter tomado essa decisão tão repentina? – Perguntou o de cabelos azuis com a mão sobre a espada ameaçadoramente.
Hiroshi sorriu. Katsu era um pouco explosivo quando se tratava de sua família. Atacaria até mesmo seu melhor amigo por causa do pequeno Aoi, mas ele seria o menor de seus problemas se Daichi resolvesse entrar no meio da briga. Em seu cérebro tudo passou muito rápido, mas felizmente escutou aqueles passos às suas costas.
- Por causa dela. – Disse antes que pétalas de cerejeira dançassem na sua frente e do meio dessa confusão aparecesse uma garota.
Os cabelos negros como a mais escura noite caía-lhe pela face contrastando com seu rosto alvo e seus olhos verdes. Aquelas vestes colegiais deixavam suas pernas amostra e nas costas daquela blusa branca estava aquela enorme rosa azul. O loiro a via linda. Tsuki era uma das poucas damas do clã Aoihana, mas certamente a melhor quando se tratava de distração e luta com mais de um oponente.
- Hikari-chan – O loiro mal conseguia falar.
- Tsuki – Disse direcionando um olhar gentil ao loiro.
Daichi e Katsu estavam prestes a sacar suas armas, mas preferiram escutar.
- Vocês dizem que ele ainda não esta pronto, mas vocês também não estavam quando entraram para o clã. – Disse a garota de maneira racional.
Os outros sentiram-se furiosos. Como aquela garota podia afronta-los daquela maneira? Era simplesmente inaceitável. Não permitiriam que seu irmão se arriscasse de maneira alguma.
- Isso é uma decisão sua, Aoi. – Hiroshi finalizou, evitando uma briga.
O garoto pareceu divagar por um momento. Viajou por seus mais íntimos desejos para saber se ela aquilo que realmente queria. O tal teste de aptidão não deveria ser fácil, mas queria enfrentá-lo. Sim, o queria!
-A minha resposta é sim! — Finalizou
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