Notas iniciais
Este conto nasceu de um desafio do meu melhor amigo pelo facebook... Só que o que escrevi se tornou profundo demais pro facebook.

Por isso, dedico este conto pra você, Marco.

Olhei o lençol que dividia as realidades. Ele balançava com um vento que batia em mim também. Tão claro que começava a me irritar.

Eu esperei pela sua aparição. Mas por algum tempo o lençol claro demais somente balançou. Comecei a ficar ansiosa, meio irritada. Eu nem sabia o que dizer se ela realmente aparecesse.

Mas ela apareceu. Estava com a tradicional blusa preta com o capuz por cima dos longos cabelos castanhos. Eu só via o vulto dela, meio cabisbaixo. Ela parecia também ter entrado em uma guerra interna pra chegar até ali. Eu sei de tudo isso, já que ela sabe.

Por um momento não falei nada, só contemplei sua sombra melancólica. Achei que teria que falar alguma coisa, mas ela falou, bem baixo, me surpreendendo:

— Você queria falar comigo...

Abri a boca e fechei. Ela com certeza notou, porque minha respiração foi levemente frustrante.

Já que não encontrava as palavras, ia tentar outra forma de comunicação.

Levei minha mão direita até o lençol branco e lá deixei por longos segundos. Titubeante, ela encostou a mesma mão na minha. Era o mesmo tamanho, mas levemente mais trêmula. Um toque leve, e eu sabia que era o único contato corporal que teríamos, mesmo que eu desejasse mais.

— Há uma série de coisas que eu gostaria de te dizer – comecei.

— Não sei se estou pronta para ouvir...

— Mas está curiosa o bastante – soltei minha mão da dela e me sentei com as pernas cruzadas no chão.

Ela acompanhou lentamente, mas se sentando abraçando as pernas.

— Quantos anos você acha que tem? – perguntei.

Ela demorou pra me responder, mas o fez.

— Eu tenho uma idade bem maior do que aparento.

— Mas, na prática, são quinze anos.

Observei ela levantar o rosto em minha direção.

— Mas sou muito mais esforçada e responsável que metade das pessoas da minha idade ou mais velhas do que eu – ela se defendeu, com um toquezinho de raiva na voz.

— As pessoas vão te dizer que você parece mais velha – eu rebati, sem perder a calma – ela vão dizer também que você é muito inteligente e madura pra sua idade. Esse tipo de coisa não pode ser levado tão a sério. Esse tipo de identificação que as pessoas te dão não pode reprimir sua criança interior. Você tem quinze anos, você pode agir como uma adolescente sem todo o peso do autojulgamento que você faz diariamente.

Ela me ouviu calada, mas eu sabia que estava prestando atenção.

— Não tenho vontade de agir como uma criança que não leva a sério sua própria vida – ela rebateu.

— Você nunca agirá assim. Está escancarado em sua personalidade que você não magoa despropositadamente, e se culpa por fazê-lo mesmo assim. Mas vai criar regras tão rígidas pra si mesma que vão deixar o seu coração pesado, com uma bagagem morta da qual vai ser difícil desapegar. Você vai evitar os erros com sua vida e justamente por isso vai colocá-la em risco várias vezes. Não entre no círculo vicioso de errar tentando não errar. Não leve tão profundamente seus erros, não são eles que te definem. Você vai continuar sendo quem você é... Mas pra que serve todo esse sofrimento?

— Eu não posso fazer coisas que sei que vão dar errado – ela falou em um fiapo de voz.

— Praticamente as melhores coisas de sua vida vão acontecer porque você errou. E essas melhores coisas vão se mostrar como um erro em certos momentos. Mas você vai continuar.

— Vou?

— Sim. Ainda tem muito o que fazer.

— Parece que tudo terminará amanhã... E eu não tenho mais o controle de mim mesma. Estou ficando insana dia após dia, como se perdesse pra alguém lá dentro...

— Você tem depressão. Você vai ouvir de muito gente que isso é frescura. Você vai ser considerada louca. Vão te dizer com ironia “tomara que você não se mate”. Vão te considerar errada e impura. Vão dizer que é falta de Deus no coração. Vão te julgar tanto, tanto, que você vai acreditar que você só tem que parar de pensar nessas coisas e viver como todo mundo vive. E quando você tentar isso, você vai se sentir morta por dentro. Porque você é isso, você tem ascendente em aquário, você vê as coisas erradas da vida e não gosta da ideia de ficar parada, mas não tem ideia do que fazer pra mudar. Use essa chama de rebeldia. Te disseram que ser rebelde era um erro, mas não é. Você tem a rebeldia por natureza, então a use.

Ouvi um suspiro comprimido do outro lado. Acho que tinha ido longe demais.

— Você gosta de conhecer coisas novas, principalmente sobre si mesma. Você reflete isso em seu desejo de cursar psicologia, apesar de estar um pouco indecisa porque também quer artes cênicas. Tudo bem. Você vai usar a astrologia como forma de autoconhecimento e reconhecimento de quem você é. Todo esse ódio pelos seus defeitos é inútil...

Respirei fundo.

— Você é depressiva e com tendências suicidas, mas isso não faz de você um erro.

Ouvi um soluço reprimido e notei que no meu rosto também haviam lágrimas.

— Infelizmente isso não vai mudar. Mas você vai encontrar algo pra te manter continuando. É sua luta diária, não desista.

Ouvi uma respiração profunda do outro lado.

— Saber disso não dá vontade de continuar.

— Nada dará. Mas você vai mesmo assim.

Engatinhei até mais perto do lençol. Era apenas um lençol, eu podia rasgá-lo e confortá-la, pois sabia que estava sofrendo. Mas eu sabia que aquilo era um limite que eu não podia ultrapassar.

— Você encontrará uma amiga dentro de si. Você pode confiar nela. Pode ter certeza que pode deixar seu corpo em seu comando quando for difícil demais continuar. Você achará que estará enlouquecendo e que é mais um erro, mas tenha essa intuição em si: ela é verdadeira, é sua melhor amiga e vai te dar o apoio e carinho que você não recebe de seus pais.

Foi a primeira vez que a notei respirando mais calma, e sua atenção voltando a ficar ao normal.

— Você ainda está aqui. Você é forte o suficiente pra ouvir todas estas coisas – admiti.

Eu sabia que ela me olhava fixamente, sem rastro de sorriso no rosto.

— Você não é fraca. Tenha certeza disso, mesmo nos piores momentos, mesmo quando você se achar a maior das covardes com uma faca na mão sondando seu pulso dentro do Box do banheiro.

— Há coisas boas por vir? – ela perguntou. Eu parei. Desde sempre fugi de gatilhos fortes demais pra serem lidados.

— Há, sim – respondi respeitando seu momento de busca por um fio de esperança – você vai ultrapassar limites que já mais imaginou.

— Como quais? Cite todos.

Pensei por alguns segundos quais seria interessante ela já ir se livrando.

— O limite que você impõe sobre quem você gosta e sente atração. Ele é rígido e te faz sofrer, porque reprime seu desejo. Você vai ser beijada por uma amiga e vai querer beijá-la de volta, mas vai repudiar aquilo com toda força. Não o faça. Deixe-se livre pra sentir desejo por quem quer que seja.

Ela continuava atenta e acho que meio perplexa.

— O limite sobre sexo. É seu medo falando e vai se misturar com seu medo de ficar sozinha e querer alguém para aliviar a dor. Você vai sofrer com isso... Confiar na pessoa errada em algo muito importante. Eu diria quem e quando pra você evitar, mas esse erro também vai te fazer crescer. Por enquanto, só se masturbe pra caralho, não tem nada de errado nisso. E não precisa se sentir forçada, nem pela curiosidade, a transar com um homem. O sexo transcendental que você espera só virá quando você perder o medo e tiver intimidade. E algumas pessoas são vulgares mesmo, você não vai sentir tesão por elas, então nem se obrigue. Ah... E quando você sentir vontade de transar com alguém, não precisa reprimir isso. Também não precisa ter medo do seu corpo, ele é lindo. E não importa o que falem, você é livre pra ficar com quem quiser e quando quiser, não precisa namorar e esperar casar com a pessoa. Não há regra no mundo real de que se transou, tem que casar. Isso só existe na mente conservadora de muita gente, e pessoas que você acha que pensam assim estão prontas para, aos poucos, mudarem esses conceitos... Como sua mãe.

Senti o incômodo dela com esse assunto daqui. Ela voltou a ficar com a cabeça apoiada nos joelhos e falou:

— Eu sempre achei que sexo seria como café...

— Amargo – terminamos juntas.

— Não precisa ser – eu disse, imitando a pose dela.

— Não sei se consigo ficar nua na frente de uma pessoa... – ela confidenciou em tom baixo.

— Você consegue, mas precisa de certos incentivos – eu comentei – e não há nada de errado com seu corpo. Você é linda, você está no seu peso padrão e não está em sobrepeso. Você só conhecerá muito tempo depois, tempo demais na minha opinião, uma ferramenta que vai te fazer parar odiar seu corpo, guardar sua virgindade e sempre se diminuir.

— O que é?

— Você vai entender quando estudar feminismo. Mas pode ir pensando nisso como uma forma de libertação desde já. Pode ir desconstruindo valores machistas que você enxerga e não aceita. Você pode parar de odiar as outras meninas, mesmo que não faça, mas é incentivada a fazer. Não há rivalidade entre você e a ex-namorada do cara. Você não tem que ser melhor que ela nem querer não cometer os mesmos erros que ela pra agradar o cara. Muitas vezes os caras vão ser bem babacas sobre suas ex-namoradas. Você não precisa sentir nada sobre isso.

— Eu vou ser feminista? – ela me pergunta curiosa.

Eu só balanço a cabeça e ouço um pequeno suspiro de admiração com certo tom de receio.

— Não tenha medo de sair de casa – eu continuei.

— Como assim?

— Sei que parece óbvio pra você. Porque eu sei que parece ser a única saída viável do adestramento dolorido a que seus pais te submeteram. Mas você é livre, e por mais que eles briguem e levem a situação ao limite, você sabe sair dela. Dê valor ao mundo interno que você criou. Leve muito a sério sua vocação pra escrita. Não é só um hobby, não diminua seu sonho e objetivo. As profissões foram feitas pra você diminuir seu sonho pra caber dentro do sistema, mas no seu mundo isso é quebrado. No seu mundo, toda a dor se transforma em arte e você tem o dever consigo mesma de descrevê-los. Do jeito que der. Não pare com os diários, serão ótimos instrumentos de melhoria de sua escrita. E então, um dia, você vai se sentir segura o suficiente pra sair de casa no mundo real. Para encarar o mundo só com uma mochila, com o mínimo, sem seguranças, sem coisas firmes além de você mesma.

— Isso parece um bom motivo pra continuar – ela respondeu, dessa vez com o tom levemente mais alto do que foi até este momento.

— Você vai se sentir perdida muitas e muitas vezes, mas vai encontrar coisas nas quais se agarrar. Deus se mostrará para você de uma forma única, então não desista de sua espiritualidade. Não tenha medo de demônios, eles já vivem em sua mente, não há como evitá-los. Mas sua força pode muito bem vir do local onde você abriga Deus em seu coração. E isso ninguém vai lhe tirar... E vão tentar tirar, vão te chamar de ateia, como se fosse algo ruim e você sabe que não é... Vão diminuir sua espiritualidade porque ela é grande demais pra compreensão deles e não cabe em uma religião, mas na essência de todas.

Senti ela ficando aliviada do outro lado do lençol e isso me deixou feliz.

— As coisas que você sente e que você sabe que são reais e tem medo de falar pras pessoas... Tem algumas que vão entender. Mas cuidado, porque você puxa energia de todo mundo e isso é destruidor eventualmente. Não tente resolver ou fazer outros felizes a qualquer custo. Mostre-se apenas ao lado da pessoa pra quando ela precisar e siga em frente. Leve-se a sério. Você sabe seus limites, só não os reconhece. Você sabe o que é real pra você, só não os reconhece. Você se leva na brincadeira eventualmente, pra atenuar o que dói em sua alma. Sua alma já começou o processo de fragmentação e não foi um amor platônico que fez isso, foi você mesma, mas não se culpe, porque não há controle sobre isso. Este é seu carma nessa vida, mas você consegue e quando notar isso, vai se sentir incrível. Vai sentir que é capaz de amar a si mesma, amar sua barriga, amar sua bochecha, amar coxa, amar até sua vagina, que é estranha. Aliás, ser estranha é o que te faz incrível. Você se sente um ET agora, mas é porque você vive de forma diferente, quer coisas diferentes e o normal não te satisfaz. Sinta orgulho dessas coisas, pois são pessoas raras. Você é uma pessoa raríssima, tão rara que quase nunca vai se sentir parte de um grupo verdadeiramente. Mas tudo bem. Seu caminho é solitário.

— Eu serei feliz? – ela me pergunta.

— Nos momentos certos, sim. Em outros, você vai se dilacerar. E eles são importantes também.

— Eu vou conseguir me libertar dos meus pais?

— Você vai aprender a amá-los e respeitá-los sem se autodestruir enquanto faz isso. Você é amada por eles. Mas você é única. Não precisa das regras deles. Não precisa da forma de vida deles. Você é você. Você pode se acalmar e começar a praticar uma coisa: não levar a sério as merdas que eles falam. E você sabe quando eles falam merda, tentam impor como você deve viver sua vida.

Ela suspirou e eu sei que estava com dificuldade de aceitar.

— Família é uma bosta. Você sabe disso desde sempre. Não serve pra te dar o apoio que você espera e tentam te fazer engolir a expectativa deles sobre você. Mas quanto mais você tenta se livrar deles, mais o nó aumenta. Você vai ter que enfrentar de outra maneira, então vá apenas se preparando, porque só acontecerá quando você se sentir mais adulta e segura de tudo o que você é.

— Não dá pra confiar em ninguém...?

— Acima de tudo, em si mesma. Depois você arrisca confiando em outras pessoas. Aliás, leve isso como mantra: ame a si mesma, e não doe tudo o que você é para os outros se sentirem bem. Você é ótima da maneira que é e apesar de estar sempre aberta pra novas ideias e críticas, você continua com o que você pensa, gosta e ama. Não precisa se esforçar abdicando de coisas que fazem parte de ti para agradar outra pessoa. Mantenha-se firme com o que quer, mesmo que seja irracional. Se isso te levar a um erro, também levará a um aprendizado. Sua sede por autoconhecimento só vai aumentar conforme a idade, deixe que isso flua. Permita-se conhecer pessoas novas e diferentes, há gente na sombra junto com você. Você vai encontrar universos novos se conectando com elas.

O lençol balançou alto e ela disse:

— Parece que nosso tempo está acabando. Há mais algo a ser dito?

— Sim, uma última coisa. O décimo quinto conselho pra eu mesma com quinze anos.

Ela ficou quieta, mas se ergueu.

— Seja uma criança. Seja uma adolescente. Não tenha medo do que os outros vão achar. Aja da melhor forma que lhe convir. Olhe-se nua na frente do espelho diariamente e passe a gostar das imperfeições, aliás, não tente ser perfeita em nada. Não tenha vergonha de dançar da maneira que você quiser, coloque uma música e dance. E não dê atenção exagerada às cobras. Elas também estão ali pra te ensinar.

Coloquei minha mão no lençol esvoaçante mais uma vez e ela me acompanhou. Chegamos bem perto uma da outra e então eu soube que era hora de dizer adeus.

— Você não se lembrará disso quando acordar, mas vai ter a sensação de que algo aconteceu e isso te deixará levemente acesa para tudo aquilo que acontece e você não entende. Você é uma bruxa, afinal.

Minha figura mais nova foi ficando cada vez mais esguia, enquanto ia embora e eu voltei a ficar só naquele cenário.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!