Quinze Semanas
7 Um visitante na própria vida
No dia seguinte, Hermione foi buscar Draco no final da tarde, guiando-o como se levasse uma criança para brincar na casa de um amigo.
A Aparatação de Draco e Hermione do pátio da Mansão Malfoy até o apartamento foi abrupta e desconfortável. Draco sentiu o habitual aperto na região abdominal, seguido por um estalo, antes de se materializar em um hall de entrada de mármore branco.
A primeira coisa que Draco notou foi a luz.
Diferente do peso sufocante e das sombras milenares da Mansão, o lugar era inundado por uma luminosidade suave, vinda de luzes embutidas no teto e de janelas enormes cobertas por cortinas leves de linho. A segunda coisa foi o silêncio — não um silêncio opressor, mas a ausência de vozes distantes, barulho de animais e o murmúrio constante dos quadros de seus ancestrais.
Eles estavam num condomínio bruxo discreto em Knightsbridge, no centro de Londres, um enclave luxuoso escondido sob um Feitiço de Fidelidade de alto nível.
Hermione colocou a mão gentilmente nas costas dele, mas não o pressionou.
— Seja bem-vindo de volta, Draco.
A sala de estar era de uma elegância moderna e sóbria, mas com calor. As paredes eram em tons claros de creme, cinza e azul-marinho, e os móveis, de design limpo, eram surpreendentemente confortáveis, convidando ao relaxamento, e não à pose. Em vez de tapeçarias medievais, havia fotografias trouxas — imagens em preto e branco de paisagens naturais, montanhas nevadas e florestas densas — e bruxas, com seus loops de movimento infinito.
— Eu separei alguns álbuns de fotos — Hermione fez um sinal para que ele se sentasse.
Ele sentou e começou a folhear os álbuns, tentando olhar cada foto e pensando em que momento aconteceram e quem poderia tê-las tirado.
— Não se preocupe em fingir que se lembra — Hermione disse depois de alguns minutos em silêncio, percebendo o olhar clínico dele. Ela tirou a varinha da manga do vestido e colocou os álbuns no lugar.
Draco assentiu, ainda absorvendo o ambiente. — Por que… por que aqui?
— Foi a casa que você mais gostou — ela respondeu com simplicidade. — Então a escolhemos. Nós a compramos dois anos antes do casamento, que foi em 2004. Queríamos um lugar neutro, sem as memórias da guerra ou a pompa da Mansão. É a nossa casa.
Ela o guiou pela casa, mostrando-lhe a biblioteca com suas estantes de mogno.
— Nós a projetamos para ser exatamente como você gosta — ela sorriu, um sorriso genuíno de nostalgia que Draco sentiu no peito. — Prateleiras superiores para os livros raros, e esta bancada aqui para as suas análises, anotações de pesquisa, poltronas e sofás de descanso…
Ele passou o dedo em uma poltrona de aparência confortável, olhou para a bancada e viu um microscópio trouxa — um presente de formatura? Isso, se sua memória bagunçada estivesse correta.
Ao lado da biblioteca havia uma porta: o escritório de Hermione. O cômodo era claro e organizado com uma precisão cirúrgica, empilhamento perfeito de arquivos e uma escrivaninha lisa com um calendário trouxa ao lado de um pote de canetas.
— Meu… — A garganta de Draco ficou seca. — Meu laboratório. Onde está?
— Está no andar de cima. Seu escritório pessoal também. — Ela pegou a mão dele, um toque suave, mas firme, e o levou escada acima.
O laboratório de Poções e Alquimia de Draco era a única sala que parecia ter vindo da Mansão, ainda que mais limpa. Havia caldeirões de cobre, balanças de precisão e um armário refrigerado para ingredientes sensíveis. Era caótico, mas funcional. Era dele.
— Eu só consumo as poções que você prepara, não confio em mais ninguém. Na verdade, é você quem faz todas as poções dessa família, por isso você me pediu para não tocar em nada aqui. — Hermione disse, a voz cheia de ternura. — Eu respeitei.
Draco sentiu um nó na garganta. Ele não conseguia se lembrar de nenhuma dessas coisas, e, no entanto, elas explicavam tanto. A suposta competência, o status de bom cientista, o casamento…
Ele se virou.
— Onde eu durmo?
A pergunta não era uma dúvida sobre onde ficava o quarto, mas sim sobre a logística de um casamento que ele não lembrava ter feito, era normal na alta sociedade que casais não dormissem juntos.
Hermione levou-o ao quarto principal. Ele já tinha entrado semanas antes quando foi pegar suas vestes, e se lembrava claramente do cheiro caramelado. Era amplo, com janelas para uma vista deslumbrante dos telhados de Londres. Era possível ver um parque ao longe. A cama de dossel estava vestida com lençóis de seda cinza-prateado.
— Aqui é o quarto principal. Nosso quarto. — Ela enfatizou a palavra "nosso" com delicadeza. — Eu durmo aqui com você…
— Posso dormir no meu escritório se precisar voltar para cá. — Ele deu de ombros.
— Você não consegue dormir sozinho há anos, Draco, não desde…
Ela parou. Draco não precisava do resto da frase. A guerra, as memórias, os pesadelos. Agora fazia sentido por que ele dormia tão mal; ele estava habituado a dormir acompanhado.
Ela seguiu apresentando a casa durante um tempo.
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— Eu fiz um café da tarde para nós — Hermione disse, tímida. — Vamos sentar?
Eles estavam na varanda, o vento fresco bagunçando os cabelos. Draco reparou na mesa posta com cuidado, sob um feitiço de proteção. Havia pãezinhos doces, chá de maçã, suco de abóbora, torradas, uma seleção pequena de queijos. Parecia delicioso e dolorosamente familiar.
— Claro, seria ótimo — A confissão saiu antes que ele pudesse impedi-la.
Hermione finalmente levantou os olhos. Um flash de esperança cruzou seu olhar, rápido como um Pomo de Ouro, antes de desaparecer na cautela. Eles se sentaram e começaram a comer em silêncio.
— O Arthur... — Draco hesitou. Ele se lembrou da conversa com o médico. — Ele quer que eu vá ao St. Mungo’s para uma avaliação. Forçar uma saída, para ver se me ajuda com as memórias.
Hermione apertou os lábios.
— É uma boa ideia. A Mansão… tem sido ruim para você.
— Eu irei. — Ele se surpreendeu com sua própria resposta.
Hermione pousou a xícara na mesa. Ela não sorriu, mas seus olhos brilharam de gratidão.
— Obrigada, Draco. Por tentar.
— Sem problemas. — Ele tomou um gole de chá. — Só é estranho, me sinto invadindo a sua vida…
Ela pareceu encolher.
— É a sua vida também. — ela disse baixinho.
— É a sua vida com o seu marido — Draco mexeu no colar que usava no pescoço antes de continuar, o objeto constantemente ficava frio como gelo, mesmo em contato direto com a pele. — É a intimidade de vocês. Eu me sinto um intruso, mesmo sabendo que eu supostamente sou ele.
Ela assentiu, triste, mas compreensiva.
— É uma linda casa — Draco se sentia perdido, mas tentou ser claro. — Eu só… não me sinto parte dela… Eu vi meus traços aqui, meus livros, vi meu laboratório… Mas eu não me imagino aqui.
— Eu peço desculpas, Hermione. — Draco estava dividido entre a vergonha e a tristeza. — Acho que ainda não consigo ficar aqui…
Ela desviou o olhar para o horizonte e Draco percebeu que a armadura dela estava firme novamente. Ele não sabia se era seu cheiro de caramelo ou a luz clara daquela tarde, mas a paranoia da noite anterior havia desaparecido. Ele não sentia mais a repulsa. Ele só sentia a dor que estava causando naquela mulher.
Ele perguntou a si mesmo, com um terror frio, quem ele era de verdade.
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O Largo Grimmauld estava surpreendentemente iluminado naquela manhã de sábado, muito provavelmente por conta das crianças brincando no chão da cozinha. O calor familiar parecia deixar Hermione um pouquinho mais feliz. Naquela manhã, a cozinha estava invadida por um cheiro forte e acolhedor de torta de abóbora recém-assada e café.
Hermione Malfoy tentava absorver aquela familiaridade e conforto como uma esponja seca. Estava sentada à mesa de madeira, segurando Albus Severus Potter no colo. Albus, com seus três anos, era uma cópia do próprio pai. Ele era afilhado dela e de Draco, um pequeno milagre de cabelos pretos e olhos verdes profundos que sempre parecia buscar consolo no cheiro de caramelo de Hermione. O peso confortável e confiante dele era, naquele momento, o único peso que ela podia suportar. Havia um motivo para eles serem padrinhos do pequeno menino, mas Hermione não queria pensar nisso naquele momento.
Ginny Potter, sua amiga, observava-a do outro lado da mesa. Ginny tinha a sagacidade dos Weasleys para ler nas entrelinhas, mas a compostura de Hermione estava quase transparente. As olheiras, cuidadosamente cobertas por magia e maquiagem, pareciam sulcos de exaustão, e o brilho característico em seus olhos castanhos estava opaco, quase empoeirado. Ginny se perguntou se a amiga estava conseguindo dormir, mas pelo visto, não.
— Você não tocou no seu bolinho de chocolate, Mione. — Ginny comentou, a voz propositalmente leve, enquanto empurrava o prato favorito de Hermione para mais perto.
Hermione forçou um sorriso, um movimento que parecia custar-lhe uma quantidade imensa de energia. Ela beijou o topo da cabeça de Albus, sentindo o calor do pequeno corpo dele.
— Estou bem, Gin. Só... cansada. — Ela não elaborou muito. Era uma mentira branda, mas era a única que ela podia sustentar.
Por um instante, Hermione desejou que Ginny não fosse tão… sensitiva.
Ginny, no entanto, não era facilmente enganada. Ela colocou a xícara de café na mesa com um clique decidido.
— Não me venha com essa, Hermione. Você está se desfazendo. Por favor, coma algo e me diga o que aconteceu ontem.
O 'ontem' pairava entre elas como uma maldição não dita. Era o dia em que Draco, por insistência dela e Narcisa, visitara o apartamento deles. O lar que haviam construído, o refúgio dos seus dez anos de relacionamento feliz.
Hermione tinha enchido o lugar com detalhes sutis: colocara a música clássica que ele gostava de ouvir enquanto lia, deixara à mostra fotos espontâneas e os livros de cura mais raros da coleção dele. Deixou o quarto de poções aberto, os álbuns de foto empilhados na mesa de centro. Ela queria que o cheiro, o som, a visão, o toque de sua vida o atingisse. Queria que algo, qualquer coisa, despertasse o homem que ela amava.
Ele ao menos tentou, fato irrevogável. Andou pela casa calmamente, sem pressa, com Bolota nos calcanhares dele o tempo todo, miando e pedindo atenção. Conversaram amenidades, sobre o tempo, sobre alguns objetos que Draco costumava gostar. Hermione mostrou a adega pessoal dele, que estava com espaços devido aos saques de Blás e dos Potter. Mais uma vez ele foi um perfeito cavalheiro, dizendo não ter problema, que depois ele procuraria reposições. Hermione estava usando o vestido preferido dele: um vestido verde esmeralda, na altura dos joelhos e de costas nuas, ela havia alisado o cabelo, deixando-o impecável.
Hermione suspirou. As palavras saíram lentas e pesadas, como se ela não quisesse soltá-las.
— Ele esteve lá. No nosso apartamento. Eu nutri algum tipo de sentimento idiota sobre isso… imaginei que ele sentiria algo… eu queria que ele sentisse algo, Ginny, qualquer coisa. Uma lembrança, um conforto. Mas… — Ela apertou o pequeno Albus mais forte, inalando o cheiro de criança, buscando uma âncora.
Ginny assentiu, incentivando-a a continuar. A Pequena Lily balbuciava aos pés da mãe.
— Ele foi perfeitamente educado. Não foi terrível, entende? Não houve gritos ou ataques, ele não ficou ofendido, nem o tratou como uma armadilha, nem achou que eu estava tentando seduzi-lo à força. Ele olhou para as nossas fotos — Hermione fungou. — As fotos do nosso casamento, as de nós dois no Quênia, as de Natal… Mas ele fez só isso, só olhou, com o olhar de um… um crítico de arte. Analítico, tentando entender, mas totalmente impessoal, como se ele não se imaginasse ali. Ele tocou na borda da minha poltrona de leitura, folheou o livro de Poções Avançadas que eu dei a ele no aniversário dele, encarou o divã no nosso quarto, se sentou na varanda onde tomamos café da manhã e ele me olhou, Ginny…
O olhar quebrou. Hermione fechou os olhos por um momento, a garganta apertada.
— Ele olhou para mim e para o apartamento, e a expressão dele era… de um fantasma. Ele não se imaginava ali, eu via isso escrito no olhar dele. Ele se desculpou, muito formalmente, e disse que não conseguia ficar lá. Narcisa tinha pedido que ele tentasse dormir ali, mas ele não aguentou ficar duas horas lá. Parecia que ele estava invadindo um lugar que pertencia a outra pessoa. Ele não consegue ver a nossa casa como nossa. Ele disse que sentia que estava violando a privacidade de um homem que ele não conhecia. Na verdade, até ele ficou confuso, ele sabia que era ele… Mas não conseguia se achar dentro da própria cabeça. Ele pareceu triste ao ir embora, e por um minuto eu imaginei que talvez ele também quisesse se lembrar… Meu coração se partiu aos meus pés quando ele saiu.
Ginny limpou uma lágrima teimosa. Hermione já tinha desistido de limpar as suas; elas escorriam livremente. Albus, sem entender, deu um beijinho desajeitado e babado no rosto de Hermione.
— Oh, meu amor. — Ginny murmurou, a voz cheia de compaixão. Ela estendeu a mão sobre a mesa, apertando a de Hermione. — Mione, isso faz parte do acidente. Ele não te rejeitou. Ele está rejeitando um passado que ele não reconhece. Você também agiria da mesma forma se fosse o contrário. Vocês construíram um lar juntos, mas é ele que precisa fazer o caminho de volta. Dê tempo a ele. O seu marido está lá dentro, ele só precisa aprender a sair.
— E se não estiver? E se o homem que voltar for o Draco de dez anos atrás, o garoto rancoroso, e se ele odiar a vida que construímos? — Hermione perguntou, a voz fraca, aterrorizada com a perspectiva. — O nosso casamento... era tão sólido, Ginny. Tão calmo, tão feliz. Ele era meu porto seguro. E agora eu olho para ele e vejo que ele é um bote furado, afundando lentamente. E nesse relacionamento, eu sou a única que lembra da praia linda onde ele estava ancorado antes dele afundar. Eu vou dar espaço a ele.
Ginny se levantou, foi até Hermione e pegou Albus, passando-o para o colo dela por um instante. Ela abraçou Hermione com força, um abraço firme e sincero.
— Malfoy é um idiota, mas ele é o seu idiota. E ele te ama. Deuses, eu sei que esse homem te ama, eu vi. Harry viu. Todo mundo viu. A memória dele está quebrada, não o coração dele. — Ginny foi firme. — Ele vai voltar. Até lá, você tem que comer, você tem que dormir e você tem que lutar como a Hermione que nós conhecemos. Pelo seu casamento, e por ele. Você não pode desistir. Eu não vou deixar você desistir, minha amiga.
Hermione assentiu contra o ombro de Ginny, sentindo o buraco em seu peito fechar pelo menos um pouco.
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Draco passou o domingo na casa de Théo, com Daph e Blás, jogando conversa fora e encantando os brinquedos do herdeiro Nott. A criança nem havia nascido e já tinha mais brinquedos do que usaria em toda a infância. Pelo visto, havia uma disputa sobre quem seria o padrinho: Blás ou Draco. Draco se sentiu atrasado.
Ele estava tão incomodado com a própria imagem que fez a barba. Seu rosto estava muito mais anguloso do que ele se lembrava, as maçãs do rosto altas, o queixo quadrado, era um homem feito, sem traços de menino, apenas testosterona no auge. Tinha uma leve cicatriz perto da linha da mandíbula, mas não se lembrou de onde a conseguiu… Os amigos tinham filhos, cuidavam de heranças e Draco tinha sofrido um acidente, voltado a ter dezoito anos e agora tinha problemas de autoimagem. Patético.
— É justo que eu seja o padrinho, Daph — Blaise falou, fazendo biquinho. Ele estava enfeitiçando um cavalinho de madeira. — Draco já é padrinho da cria dos Potter, eu não tenho ninguém para mimar e encher de presentes.
— Isso não tem nada a ver, Blás. — Draco argumentou enquanto lançava um feitiço anti-queda em um trocador de fraldas. — Eu sou um ótimo padrinho, Théo sabe disso. Jamais faria diferenciação entre afilhados.
— Ah, cale a boca, até hoje cedo você nem sabia que tinha um afilhado, seu babaca! — Blás atirou um urso em Draco.
— Meninos. — Daph falou, acariciando a barriga. — Ainda temos quase 3 meses, fiquem calmos.
Théo bufou.
— Por Merlin, Daph. Nosso filho não tem nem nome ainda, não podemos deixar todas as escolhas para a última hora. Eu vou escolher o nome e você vai…
— Quem está carregando a criança é você, Theodore Alexander Nott? — Daphne falou, estreitando os olhos. — Não, não é mesmo? Foi o que eu imaginei. Eu ainda não decidi qual vai ser o nome, mas eu tenho uma lista…
Théo encolheu os ombros, arrependido. Aparentemente, Daph estava com raiva do marido e continuou reclamando. Blás e Draco se entreolharam e deram risadinhas silenciosas.
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A segunda-feira chegou sem grandes surpresas para Draco.
Conforme o combinado com Arthur Rosier, Draco iria ao St. Mungo’s para fazer o acompanhamento. Os corredores verde e branco, o cheiro de antisséptico, poções e a correria de Curandeiros e estagiários deveriam ser estranhos para ele, que estava habituado ao burburinho da mansão, mas havia um certo conforto tênue nos ruídos, como se fosse uma máquina bem lubrificada em pleno funcionamento.
Draco andou pelos corredores calmamente, ninguém muito focado nele, talvez porque ele estivesse com vestes formais, terno de três peças e uma capa, parecendo mais um funcionário do Ministério do que um paciente. Ele subiu as escadas com cuidado, evitando atrapalhar.
Quando chegou no segundo andar, Draco parou em frente à própria sala durante um minuto inteiro, a placa dourada “Dr. Draco L. Malfoy” parecendo rir zombeteira da sua memória vazia e defeituosa. Ele não teve coragem de entrar e seguiu até o terceiro andar, onde tinha a placa “Dr. Arthur T. Rosier”. Antes que ele pudesse bater na porta, Arthur a abriu.
— Oi, Draco, como está se sentindo hoje? — Ele deu espaço para Draco entrar e em seguida estendeu a mão num aperto firme.
A sala de Arthur era um pandemônio: papéis misturados, livros e frascos de poção pela metade. Um sofá de couro marrom estava encostado na parede com um travesseiro e uma coberta azul, como se o médico dormisse mais ali, no escritório, do que na própria casa, e aos pés do sofá, outra pilha de livros.
Um canto do escritório era tomado por um aquário de mais ou menos um metro. Dentro do vidro, dois seres que pareciam algo entre um peixe e uma peruca se agitavam.
— O que é isso? — Draco perguntou, curioso demais para ignorar os animais, que no lugar de escamas pareciam ter pelos.
Ele sentiu uma intensa vontade de chutar o aquário e matar aqueles dois monstrinhos estranhos, mas até onde se lembrava, Draco não tinha nada contra animais, fossem eles aquáticos ou não. Ele balançou a cabeça.
— Ah? Isso? — Arthur sorriu e deu uma batidinha no vidro. — São piranhas lobisomens.
O nome era totalmente justificável, conforme Draco percebeu. Elas se agitavam enlouquecidamente. Rosier pegou um camundongo, sabe Deus de onde, e jogou no aquário. As piranhas estraçalharam o roedor em segundos. Elas voltaram a rondar o aquário e Draco percebeu que elas facilmente poderiam destruir sua mão.
— Isso não deveria estar no primeiro andar? Onde ficam os animais perigosos? — Draco perguntou com uma sobrancelha arqueada.
Arthur riu alto, perdendo toda a pose profissional.
— Elas não são objetos de estudo… Elas são de estimação, Malfoy. Consegui Jude e Judith na nossa viagem ao Brasil em 2000. — Rosier deu um sorriso nostálgico. — É uma longa e maravilhosa história que termina com você descobrindo que sou gay, um sapo alucinógeno e nós ficando uma semana numa aldeia para você se recuperar.
Draco pareceu levar um minuto inteiro para assimilar todas as informações que Rosier deu.
— O que elas fazem? — Draco apontou com a cabeça para o aquário.
Arthur tirou vestes de couro de dragão de cima de uma poltrona para que Draco pudesse se sentar. Quando o amigo sentou, Arthur deu a volta na mesa e se sentou na própria cadeira.
— Elas mordem. — Arthur deu um sorrisinho irônico.
Draco revirou os olhos.
— Eu notei, Rosier. A minha pergunta é se são mágicas?
— Sim. Elas se alimentam de carne, e raramente deixam as vítimas vivas, já que atacam em cardume… Mas quando atacam humanos e eles sobrevivem… tendem a ficar agressivos na lua cheia e com predileção por carne mal passada. Geralmente as mordidas acontecem somente na época da lua cheia e à noite. Você foi uma rara exceção, elas te morderam de dia, numa lua nova. Provavelmente você deve ter pisado em alguma delas, mas de qualquer forma elas ainda eram muito jovens para terem veneno, você não teve sequelas.
— Interessante — Draco respondeu, agora ele entendia seu desgosto inicial com as piranhas.
— Você tem essa bela cobra tribal desenhada na perna por cima da cicatriz, graças a Jude e Judith. — Arthur fez um gesto displicente apontando para a perna direita de Draco. Draco tinha mesmo refletido sobre onde tinha conseguido aquela tatuagem, ela parecia menos refinada que as outras. — Você ficou com a panturrilha dilacerada de mordidas e um machucado muito difícil de cuidar. Por isso ficamos uma semana enfiados no meio da Amazônia com um pajé te enchendo de feitiços e Poções. A marca da cobra é para os guerreiros sobreviventes.
Draco se sentiu tentado a levantar a barra da calça e procurar a cicatriz que Arthur falava.
— Bom, vamos ao que interessa. — Arthur cruzou os braços. — Como você está hoje?
— Estou bem. — Draco deu de ombros.
— Teve alguma lembrança ou memória recuperada?
— Não.
Arthur sabia que Draco estava mentindo: ele respondeu rápido demais.
— O que você lembrou?
— Eu disse que não lembrei de nada. — Draco respondeu levemente irritado.
— Se você não for honesto comigo, eu não posso te ajudar. — Arthur disse se levantando e indo até a porta. — Pode ir, Malfoy. Volte só quando tiver coragem de encarar suas ações.
— Eu não lembrei de nada ruim. — Draco respondeu olhando para a parede, ele não conseguia encarar Arthur.
— Do que lembrou então? — Arthur inclinou a cabeça, estimulando-o a falar.
Draco ficou em silêncio. O único ruído eram os peixes brigando no aquário.
— Dela. — Draco falou por fim. — Hermione. Acho que tive dois ou três momentos em que me lembrei dela, no passado.
— Por exemplo?
Draco estalou o pescoço, desconfortável. Seus movimentos eram precisos, sua postura, rígida. Ele era um homem de 29 anos com a experiência de vida de um menino de 19 e a amnésia de um idoso. Draco corou antes de responder.
— Lembrei do nosso primeiro beijo.
— Ah — Arthur disse. — Conheço essa: a biblioteca, “Verdade ou Azaração?”.
Draco olhou no fundo dos olhos de Arthur Rosier, tentando pesar sua alma. Era uma memória muito íntima para que um estranho ou semi-conhecido soubesse.
— Éramos tão amigos assim? — Draco perguntou numa sinceridade cortante.
Desde que Draco acordou, Arthur foi o único que não foi conivente com os dramas dele, fazendo com que ele se esforçasse nos exames, levando Draco a uma mínima melhora por dia, pelo menos. Draco não pôde deixar de notar que a maioria dos livros espalhados no escritório era sobre memória ou traumas, e ele sabia muito bem que a especialidade de Arthur eram infecções e intoxicações por plantas e poções. Ele estava estudando por Draco.
— Dois anos atrás você teve uma série de furúnculos no traseiro porque sentou em cima de uma poção. — Arthur ficou um bom tempo em silêncio antes de responder e por fim deu de ombros, mas seus olhos brilhavam de diversão. — Eu que cuidei deles para você.
Draco se engasgou antes de responder.
— Isso é algo muito íntimo.
— Não é. — Arthur disse risonho. — Verão de 2004, aquilo sim foi íntimo. Venha, levante-se, vou te levar até o diretor do hospital, também conhecido como seu chefe.
O Dr. Fawley era um homem grisalho e baixinho, mas extremamente poderoso. Arthur explicou que Fawley era um homem inovador, com muita visão de futuro, pensando sempre dois passos à frente de qualquer um à sua volta. E também era brutalmente honesto. Eles conversaram amenidades por alguns minutos.
— Como você está, Dr. Malfoy? — o diretor olhou Draco por cima dos óculos.
Por algum motivo, Draco não conseguiu mentir.
— Frustrado, sinto apenas um vazio. E uma constante sensação de que meu corpo sabe mais do que minha mente.
— Isso é comum. O corpo retém o que a mente esquece. Padrões motores, habilidades…
— Não resolve muito o conhecimento internalizado. Eu gostaria de fazer algo de útil, mas eu nem me lembro o que sei fazer. — Draco disse, a voz tingida de sarcasmo amargo. — Ainda sou bom em estudar, mas não é exatamente uma habilidade útil em uma crise.
Fawley apenas sorriu fracamente.
— Você é um bruxo de muitas qualidades, Malfoy. Caso contrário, eu não o deixaria na minha equipe.
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Draco já havia encerrado a conversa com o diretor e estava conversando com Arthur perto da porta de saída quando um tumulto entrou no hospital.
Diversos homens, alguns vestidos de preto com cinza, invadiram o espaço. Eles cheiravam a carne queimada, fumaça, poeira e sangue. Draco percebeu que um dos corpos convulsionava e sangrava.
O grito grave de um homem ecoou pelo hospital:
— Urgência, saiam da frente! Inominável Thomas, fale comigo! — o homem batia no peito do soldado de meia-idade que convulsionava. — Ele sofreu Múltiplas maldições incapacitantes! Ele é um dos homens que vigiavam a sala circular!
O caos irrompeu. Draco viu o paciente ser levado às pressas em uma maca flutuante, acompanhado por três enfermeiros que pareciam assustados e Arthur que saiu correndo atrás deles, deixando Draco sozinho. O homem estava pálido, convulsionando, envolto em fumaça cinzenta, o rosto contorcido de dor.
Em seguida, uma nova onda de bruxos trazia um corpo pior ainda: um jovem rapaz, a cabeça pendia frouxa, um corte imenso que vazava um líquido verde em todo o abdômen, a perna torta de um jeito antinatural deixava um rastro de sangue. Um broche brilhante reluzia em suas vestes rasgadas.
Uma estagiária de sapatos cor-de-rosa se aproximou correndo:
— O que há com ele? — Ela tentou pegar no braço do homem; os amigos dele ajudaram a deitá-lo em uma maca. — O pulso está fraco demais, não consigo sentir!
A jovem hesitou, e por um breve segundo olhou para Draco em desespero, estava claramente pensando sobre o contra-feitiço apropriado.
Mas Draco percebeu que o rapaz não teria aquele tempo, ele podia ver a magia fugindo de seu corpo. Então Draco simplesmente soube: era um Auror do esquadrão de Harry Potter. Ele tinha de salvar o jovem. Potter não o perdoaria se não o fizesse.
Em um instante, todo o sentimento de vazio de Draco se evaporou. Não houve tempo para pensar, para raciocinar, para consultar a memória. Houve apenas a necessidade e o saber visceral. A oportunidade de ser útil havia acabado de se manifestar com uma urgência brutal.
Ele empurrou a estagiária com uma força inesperada, tirando a longa capa que vestia de forma automática. Seus olhos esquadrinharam o corpo do Auror, a varinha em uma mão e a outra sentindo os padrões de energia mágica em colapso.
— Ele perdeu muito sangue, dê a ele a poção de reposição de emergência! — A jovem parecia em choque ao ver Draco lançando feitiços de detecção no enorme corte. — Agora!
Draco torceu para que a menina obedecesse. Ele precisava pensar: o feitiço tinha dado negativo, não era veneno. Era uma maldição, então, mas que fazia as secreções ficarem verdes?
Por Merlin, não…
— Ele está com Síndrome de Desintegração Mágica Aguda! — Draco gritou e começou a levar a maca por um corredor estreito. Ele viu mais duas enfermeiras e outro estagiário virem correndo antes de lançar mais um feitiço. O feitiço revelou o mapa dos canais de energia mágica e as veias do Auror, mostrando os bloqueios e as rupturas que a desintegração mágica estava causando. — O fígado e o baço estão liquefeitos, preciso refazer!
Draco percebeu que tinham chegado numa sala estéril. Tinha um vasto estoque de poções, diversas ferramentas, muitas luzes e um armário com vestes limpas. Draco colocou um avental verde e luvas em tempo recorde. Ele lançou um Maxima Munditia silenciosamente em si mesmo.
— Doutor, ele está sem pulso. — Uma enfermeira loira falou em tom urgente.
Sem pensar duas vezes, Draco lançou um feitiço e correu para perto do jovem:
— Cor sentinam! — Draco apontou a varinha para o peito do jovem enquanto a outra mão ficava em seu pescoço. O feitiço obrigou o coração do jovem a bater de novo. — Lance um feitiço monitor, não posso perder tempo checando os batimentos, preciso parar a maldição antes dela derreter mais coisas.
A enfermeira fez o que Draco ordenou, e ele percebeu que a perna não aguentaria mais tempo sem atenção, mas ele não poderia parar para dar a atenção necessária no momento. A maldição no peritônio era mais importante.
— Stasis cruris — Ele lançou um feitiço de estase no membro.
As enfermeiras se dividiram entre monitorar o jovem e desobstruir as vias nasais para que ele respirasse. O estagiário que tinha chego por último pegava poções em um dos armários. A estagiária começou a cortar as roupas do homem com a varinha, mas ao chegar na parte onde o osso do fêmur saía da perna, ela se afastou e vomitou violentamente contra o chão.
Draco lançou mais uma dezena de feitiços. Sua outra mão em cima do Auror dizia que a maldição ainda existia, correndo a vida do rapaz. Ele rangeu os dentes de estresse. Uma pequena parte do cérebro percebeu que ele estava lançando feitiços diferentes em cada mão e achou isso fascinante.
Sua varinha estava subitamente viva em sua mão, os diversos feitiços brilhando pela sala. Ele então se deu conta de que, se os feitiços não faziam efeito, poderia ser que o jovem estivesse com a maldição dentro de si.
Os dedos de Draco voaram para dentro do abdômen do rapaz. Uma das enfermeiras gritou para ele parar, mas ele ignorou, enfiando o punho cada vez mais fundo. Draco era cirúrgico, preciso, rápido, quase coreografado. Ele sabia que tinha poucos minutos para encontrar o objeto antes que a maldição matasse o jovem rapaz.
— Vamos…, apareça!
Com o braço livre, Draco traçou runas no ar com a ponta da varinha enquanto murmurava:
— Maledictionem invenire!
Ele finalmente achou o que queria e, com a ponta dos dedos, Draco puxou delicadamente o que parecia uma adaga minúscula, do tamanho do seu dedo mínimo. Draco podia sentir a magia negra no objeto, e a enfermeira loira já estava com um jarro encantado para pegar a adaga. Draco a depositou com todo cuidado.
— Guarde isso, o Ministério vai querer averiguar. — Ele falou e ela assentiu. Ele olhou a enfermeira com mais atenção e finalmente percebeu que uma delas era Hannah Abbott, companheira de Neville Longbottom. — Preciso de mais poção de reposição de sangue e uma infusão de fortalecimento.
A enfermeira invocou as poções e as administrou sem pestanejar. Draco percebeu que ele dominava a sala sem esforço. De repente, nenhum deles o encarava com estranhamento ou receio; a pequena equipe de cinco pessoas trabalhava com confiança e foco, confiando plenamente em Draco. Ele sentiu um nó na garganta.
Sem perder tempo, Draco começou a fazer os feitiços para reconstrução dos órgãos internos. Ele não sabia de onde as palavras vinham, mas sabia que eram corretas, sabia que era aquilo que o jovem precisava.
— Iecur reficite, lienem reficite, stomachum reficite, intestina reficite, viscera reficite!
Com a mão oposta à da varinha, ele começou a sentir os órgãos se refazendo.
— Precisamos de uma poção de restauração, pode dar duas doses. — Ele disse para Hannah, que assentiu. — Dê um sedativo, estou com medo da adrenalina acordar ele quando os órgãos se refizerem de vez.
Ele repetiu os feitiços mais uma vez. Agora ele sabia que o próximo feitiço refaria as conexões mais delicadas do organismo do jovem.
— Iecur reficiendum, lienem reficiendum, stomachum reficiendum, intestinum reficiendum…
Ele repetiu o feitiço três vezes antes de se dar por satisfeito e começar a fechar a barriga do rapaz. Draco colocava a ponta da varinha fechando o corte, e Hannah vinha passando uma gaze embebida em alguma poção de cura. Hannah e ele eram uma boa dupla. Ele ficou pensando se eles já tinham trabalhado juntos antes.
Com a barriga reconstruída, Draco partiu para a perna do rapaz. Pelo menos era um corte comum, feito com um feitiço cortante, mas sem maldição nenhuma. Ele removeu o feitiço de estase e começou a limpar o sangue.
— Evanesco!
Sem o sangue, Draco entendeu por que a estagiária vomitou: metade do osso estava para fora, a carne completamente estraçalhada. Sem pensar muito, Draco puxou a perna até que ficasse no lugar. Ele murmurou outro feitiço:
— Os in loco!
O osso voltou para o lugar sem esforço, e Draco começou a remendar os músculos, tendões e veias. Estava quase fechando a perna do jovem quando Abbott voltou para perto dele. Ele notou que ela havia feito um imenso curativo no peito do jovem e agora o ajudava com o fechamento. A outra enfermeira monitorava os sinais vitais e cuidava da respiração do jovem Auror. Os estagiários traziam gazes limpas, curativos e poções. Ele fechou o último corte. A cirurgia estava quase no fim.
Por todo céu e inferno, ele tinha feito uma cirurgia!
— Dr. Malfoy. — Hannah cutucou Draco, que tinha dado um passo para longe da mesa. — Draco?
Ele demorou a responder.
— Sim?
— Precisa colocá-lo em coma induzido, Doutor. As poções não vão dar conta sozinhas.
Ele assentiu. O feitiço do coma era perigoso, era agressivo e exigia uma concentração e um conhecimento de anatomia mágica que poucos bruxos, mesmo entre os curandeiros, possuíam.
— Somnus profundus! — Draco sentiu a energia mágica fluir dele, não de forma fatigante, mas com uma facilidade assustadora. Era como se ele estivesse lendo uma partitura que havia memorizado há anos, mas que tinha esquecido que sabia tocar.
O feitiço monitor parou de apitar. O pulso do Auror, que estava quase inaudível, estabilizou-se. A cor voltava lentamente ao rosto dele. O perigo imediato havia passado.
A pequena equipe olhou para a maca, depois para Draco, em um silêncio atordoado. A sala que deveria parecer um cenário de guerra estava incrivelmente limpa. Draco percebeu que o chão era autolimpante e que os frascos vazios de poções iam sozinhos para uma brilhante pia de inox no fundo.
Ele olhou para suas mãos, que tremiam, de nervosismo e de uma estranha exaustão mágica. As enfermeiras e os estagiários encaravam Draco, esperando as próximas ordens.
A sala era branca demais. Draco piscou os olhos.
— Eu, hum… — Draco coçou a garganta. — Acompanhem ele mais meia hora. Se ficar estável, levem para o centro de cuidados intensivos.
Draco sentiu uma onda de náusea absurda e saiu correndo da sala. Ele percebeu que estava entrando em choque.
Ele se escorou no corredor e ouviu as vozes ao fundo:
— … Não tinha o que fazer… — Uma voz masculina afirmou.
— Tão jovem….
— Alguém precisa avisar a família! — Outra respondeu.
O debate febril foi interrompido pela chegada de um estrondo. Harry Potter irrompeu pelo corredor de emergência, os olhos verdes faiscando com uma mistura de medo, fúria e sede de vingança, ele estava imundo, cheio de poeira. Ele tinha acabado de ser informado do ataque e da hospitalização de seu Auror. Ele queria informações, e de preferência, rápido.
— … Perdeu muito sangue… — Uma voz feminina disse.
— … Somente um deles sobreviveu…
— Senhor Potter! — Uma enfermeira tentou segurar Harry. — O senhor precisa chamar alguém da família! Fizemos o melhor, mas não havia muito o que pudesse ser feito pelo Th…
— Ele morreu? — Harry perguntou transtornado.
Harry sacudiu a cabeça, entrando no corredor do centro cirúrgico como se tivesse feito aquele caminho muitas vezes, muito além do que ele gostaria. Arthur Rosier, pálido, aproximou-se cautelosamente, o jaleco todo sujo de sangue. Draco percebeu que estava igualmente imundo, sequer tinha tirado as luvas. Quem se preocupa em fazer um chão autolimpante, mas não um jaleco repelente de sangue?
Harry viu Arthur Rosier, perplexo, e Draco, pálido, quase em colapso de choque. Ao encarar a roupa suja de Draco, os olhos de Harry faiscaram de ódio.
— Potter, eu gostaria de dizer que fizemos o melhor por ele, mas ele já chegou aqui colapsando e… — Arthur começou a falar.
— Você deixou Malfoy operar meu Auror, Rosier? — Potter gritou. — Você tem o que na cabeça? Já pensou no estrago que vai ter na mente de Draco? O peso de ter matado um paciente, sem saber o que fazer? Você é tão louco quanto…
— Harry, você não está entendendo…
— O que vou dizer para a mãe de Timothy?
Se Thomas era o outro paciente, o que tinha morrido, Draco tinha salvado esse tal de Timothy?
— Harry, eu… — Rosier tentou falar, mas Harry o agarrou pelo colarinho.
— Ele só tinha vinte anos, porra! Malfoy está tremendo! Ele não sabe nem o ano em que está. Você é um irresponsável por deixar ele…
Draco não se lembrava quem Harry Potter representava nessa nova vida, mas sabia que o homem estava gritando com quem havia cuidado de Draco todos aqueles dias. Draco virou-se para Harry, a adrenalina da emergência se transformando em raiva defensiva.
— E você, Potter? — ele cuspiu de volta, completamente enfurecido, sem ligar para onde estava. — Como teve coragem de mandar seus Aurores para uma missão suicida sem um médico de campo? O irresponsável aqui é você! o jovem chegou aqui parecendo um presunto fatiado! Onde você estava? Por que não o trouxe você mesmo, meu amigo?
Harry Potter avançou. Ele não usou a varinha. Ele usou a ameaça física, parando a centímetros do rosto de Draco, os olhos fixos em um duelo de vontades. Draco era maior que ele, mas a diferença de altura entre eles não pareceu intimidar Harry. Draco também não recuou.
A voz de Harry era baixa, mas cada palavra era uma pedra atirada com precisão letal.
— Eu não sou seu amigo, Malfoy. Deixo isso bem claro. Eu não sou seu amigo. Porque amigos nós escolhemos, e eu jamais escolheria você. Nunca. Eu tenho memórias de anos de ódio de você para provar isso.
Draco cambaleou, o insulto atingindo-o com a força de um soco.
— Mas você é família, Malfoy. — Harry continuou, a voz mudando, infundida com uma intensidade quase sagrada. — Porque Hermione te escolheu, e família a gente não escolhe, Malfoy. Família nós lutamos para proteger, mesmo que não gostemos. Mesmo que a gente se odeie. Hermione escolheu você. Ela se casou com você. Ela te ama.
Harry deu um passo atrás, acalmando sua respiração, mas não a fúria.
— Você é padrinho do meu filho, do meu Albus. Eu não confio em muita gente com meus filhos, Malfoy. Mas se eu morrer amanhã, eu confio que você cuidará de Albus como se fosse seu, que cuidaria dele com a sua vida. É esse tipo de confiança que os meus autores tem por mim, e eu jurei para cada um dos meus Aurores, que daria a minha vida pela deles também.
— Eu morreria por você também, Malfoy — Harry disse, mais calmo, como se seu combustível estivesse acabando. — Morreria por você, porque você é marido da minha irmã, porque Hermione te escolheu. Mas não se sinta privilegiado, porque eu tenho alguns péssimos exemplos de cunhados... e morreria por todos eles. Sou um sentimentalista, Malfoy. E por enquanto, eu estou te protegendo. Assim como tenho que proteger a vida dos meus homens. Sei que você deu seu melhor no caso do Timothy, mas…
— Harry… — Hannah Abbott se aproximou devagar. Draco e Harry finalmente perceberam que tinham plateia. Hannah falou baixinho. — Quem morreu foi o Inominável Thomas… O Auror Timothy está bem, o Dr. Malfoy o salvou, estou subindo com ele para a UTI agora.
Um soco teria deixado Harry menos chocado.
— Timothy está vivo?... Foi Thomas Johnson que…? — Harry se arrependeu imediatamente. — Por Merlin, eu… Me desculpe, Malfoy, eu…
— A vida dos seus homens não é dispensável, Potter, eu consigo imaginar… Mas você precisa treiná-los melhor para esse tipo de situação. — Draco disse amargo, caindo em si acerca da última hora. Seus braços estavam cobertos de sangue e ele apontou um dedo para Harry. — Seu Auror está a salvo agora, mas e se não tivesse chego a tempo até aqui? Você conseguiria dormir com esse peso na consciência? Sabendo que um dos seus morreu, porque você não o treinou o bastante?
Harry inclinou-se novamente, por algum motivo Harry estava com muita raiva naquele dia, mas Draco estava exausto demais para rebater.
— Eu vou ignorar essa acusação porque você está confuso. Você é uma bomba-relógio, Malfoy. Eu daria a vida pelo meu time. Não ouse dizer que faço pouco caso da minha equipe. Lembre-se: Eu ainda tenho um soco a ser descontado nessa sua fuça de playboy. E você não tem memória nem para me dizer o contrário. Obrigado por ter salvo Timothy, mas não teste minha paciência.
Draco se sentia exausto e não respondeu, que Harry fosse para o inferno.
Ele era um Curandeiro. Ele salvou uma vida. Ele agiu com uma certeza e uma precisão que fariam o Diretor do hospital chorar de alegria. Mas tudo que ele queria era sentar em qualquer lugar e tomar um gole da bebida mais forte que achasse. Arthur o levou de volta para o escritório dele no terceiro piso para que ele se acalmasse e parasse de tremer.
Ele repensou o rumo que a vida havia tomado:
Curandeiro. Marido. Amigo. Padrinho.
O vazio da amnésia estava sendo preenchido, não por memórias, mas por fatos brutos e por um instinto recém-descoberto.
🪄
O burburinho no Ministério da Magia era palpável. Não era a efervescência usual de fofocas de café; era um zumbido baixo, malicioso e antecipatório.
Hermione estava em seu gabinete no DELM. Ela tentava se concentrar em um novo parecer sobre uma atualização do sigilo mágico, mas a concentração era uma faca cega. Ela não conseguia parar de ver o olhar vazio de Draco em seu apartamento. Os dois costumavam almoçar juntos, uma pequena ilha de normalidade em suas vidas ocupadas. Agora, a hora do almoço era um lembrete cruel da sua ausência.
Quando a coruja do Profeta Vespertino chegou, ela a sentiu antes de vê-la. A coruja deixou o jornal sobre sua mesa com um thud seco, e Hermione viu o título da primeira página em letras garrafais.
“A Grande Perda: Draco Malfoy Perde a Memória
Rumores sobre o estado de saúde de Draco Malfoy, medibruxo, herdeiro e marido da famosa heroína de guerra Hermione Malfoy, foram finalmente confirmados. Após um incidente no final do mês passado que fontes classificam como 'misterioso' e 'traumatizante', Malfoy sofre de amnésia total. Uma tragédia para a família mais influente do Mundo Bruxo. O casamento de conto de fadas agora está ameaçado…”
O artigo prosseguia com especulações sensacionalistas: O que isso significa para o poder político dos Malfoys? Será que a amnésia revelará a verdadeira face do ex-Comensal da Morte? Será que o casamento Malfoy pode sobreviver a um marido que não consegue se lembrar da esposa que escolheu?
O sangue de Hermione gelou. Eles sabiam. O mundo sabia. Ela não podia mais se esconder atrás do sigilo médico. Quando saiu do gabinete para ir à reunião de emergência da Suprema Corte, sentiu o peso dos olhares sobre ela. Não eram olhares de curiosidade, mas de pena e escândalo.
Todos sabiam que ela vivia uma farsa.
Ela vestia o uniforme formal, os robes de trabalho passados e imaculados. Ela sorriu para os colegas, forçada, mas convincente. Ela assentiu, distribuiu papéis e assinou documentos com uma caligrafia firme e inabalável.
Mas por dentro, ela estava se definhando.
A maquiagem, o feitiço de beleza e a postura perfeita não conseguiam disfarçar a escuridão sob seus olhos. A armadura que ela vestia estava rachava. O peso da perda, do segredo, da performance pública e da recusa de Draco em voltar para o lar estava esmagando-a.
Ela não conseguia mais disfarçar a falta de Draco. A ausência de sua presença calma no apartamento, a falta de suas mensagens sarcásticas de trabalho, a falta de seu abraço sólido ao deitar. O mundo havia descoberto a verdade sobre seu casamento quebrado pela amnésia, e ela estava perdendo a batalha pela discrição.
O relógio do Ministério marcava as horas. 16h de 09/05/2009. O dia em que o mundo soube que Draco Malfoy havia se esquecido de como amar Hermione. O dia em que Hermione sentiu a realidade de que a batalha pelo seu marido seria travada publicamente, e que ela já estava perdendo.
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