Quinze Semanas

6 Capítulo 6 - O Baile Nott


Notas iniciais
N/A: Gosto de lembrar que embora J.k. Rowling nunca falou exatamente o valor de 1 Galeão, mas estima-se que seja aproximadamente U$$ 25,00 (Vinte e cinco dólares) Confesso que fui muito generosa no salário dos membros do ministério, mas acredito que depois da guerra bruxa, eles passaram a aumentar os salários como forma de tentar diminuir a corrupção.

“O Profeta Diário 04/05/2009 Coluna social por Meera Skeeter

O Jardim Encantado dos Nott

No último fim de semana ocorreu o Baile de Primavera da Família Nott, um evento radiante e que a jornalista que vos fala teve a honra de comparecer. A festa foi realizada na casa de campo dos Nott em Cotswolds, no interior do Reino Unido. Na entrada já podíamos observar o tema com um túnel de cerejeiras e magnólias e uma fonte de champanhe que caía do jarro de uma escultura em tamanho real da deusa Perséfone. Daphne Nott, embora 'redonda' pela gestação avançada, foi, como sempre, uma ótima anfitriã, ainda que seu vestido estivesse revelador demais para uma senhora em tal situação.

O tema desse ano foi o “Jardim Encantado” e foi sugerido que os convidados comparecessem a caráter, o que foi atendido prontamente pela maioria dos participantes. Alguns até em excesso que beirava o cômico. O empresário Blásio Zabini, por exemplo, compareceu como uma aberração botânica: capa longa coberta de flores vivas, abelhas sem ferrão e um ninho de passarinho no topo de sua cartola imperial amarelo-canário. Um deleite para os curiosos, mas um desastre estético.O tema a caráter foi atendido com fervor. Ou como o casal de Magizoologistas Scamander que usavam vestes inspiradas no pássaro rouxinol.

É essencial dizer que houve, sim, pessoas bem vestidas e adequadas ao tema, como Lady Narcisa Malfoy e a sua nora, a bela Hermione Malfoy (anteriormente Granger), que representavam o epítome da classe e elegância com seus vestidos rosa chá e lavanda com desenhos de flores desabrochando, o que, apesar de completamente sem graça, estava condizente com a ocasião.

Mas, nem tudo são flores, já que as amigas, Pansy Parkinson e a irmã da anfitriã, Astória Greengrass, brigaram feio no jardim. As bruxas são amigas há mais de 15 anos e moram juntas numa casa do interior; essa jornalista espera que a amizade permaneça firme até a próxima estação.

O bom senso nem sempre é obrigatório em festas da alta classe, podemos usar de exemplo o casal Potter, que chegou absurdamente atrasado, próximo ao final da festa, sob o pretexto de uma emergência no Ministério. Apesar disso, Ginevra “Ginny” Potter estava belíssima em seu vestido esmeralda, no auge dos 28 anos e no 3º filho, o corpo dela permanece intacto: Viva o esporte! Os maridos agradecem.

Essa jornalista também sentiu falta de algumas pessoas, como o Casal McMillan. Teria nascido o filho do casal? A irmã de Parvati McMillan, Padma Weasley e seu cunhado Rony Weasley, não quiseram dar declarações…”



— É impressionante como essa mulher consegue ser uma vadia maior que a mãe dela. Que criatura detestável! — Hermione reclamou, Susan desviou o olhar da salada e se concentrou em Hermione. — Ela é má, qual a necessidade de ofender Daphne? Por Deus, a pobrezinha está grávida!

Susan deu de ombros. Elas estavam almoçando na pequena copa do DELM.

— É tudo que ela tem a oferecer: maldade e zombaria. — Susan pegou mais salada. — Você deveria parar de ler a coluna dela, você já está com a veia do pescoço pulsando, isso te faz mal.

Hermione ajeitou a gola da blusa antes de responder.

— Você tem razão… — Hermione concordou.

Na verdade, ela queria saber se alguém havia percebido a distância entre ela e Draco, já que o acidente dele estava fora do conhecimento público. Ela havia manifestado seu medo para Blás, que prontamente disse que iria resolver. O que ela não imaginava era que ele apareceria tão bizarramente vestido, mas a ideia tinha dado certo: Meera Skeeter sequer havia mencionado o nome de Draco no artigo.

Visualmente, Blás estava uma confusão: terno laranja, capa com mil tipos de flores diferentes e a cartola amarela, mas seu bom humor habitual compensava qualquer tipo de gafe estética. Daphne riu tanto quando viu o amigo que precisou sentar, já Hermione sentiu um nó na garganta de tanta gratidão.

O evento foi o primeiro de Draco desde o acidente. Inicialmente, Hermione ficou com medo, mas Narcisa estava segura: Draco não ir levantaria mais suspeitas. Draco iria, não sairia do lado de Narcisa e no primeiro sinal de desconforto eles iriam embora.

Não havia um motivo específico para eles não levarem o acidente a público, mas no geral os Malfoy eram discretos: somente eventos como nascimentos, casamentos ou noivados eram anunciados publicamente; no restante, a imprensa se matava para descobrir, e que Merlin os ajudasse para conseguirem tirar algo de Narcisa ou Hermione Malfoy.

A tarde de sábado transcorreu sem grandes problemas. Sempre que alguém se aproximava, Narcisa ou Hermione sopravam no ouvido de Draco o nome da pessoa, o que ela fazia e de onde a conheciam. Houve uma ou duas vezes que Hermione sentiu Draco tenso enquanto sussurrava algo no ouvido dele.

Foi a primeira vez em semanas que Draco tocou espontaneamente nela. Primeiro, quando aparataram juntos para os jardins Nott, ficando de braços dados enquanto passavam pela recepção de convidados, e quando chegaram à mesa deles, Draco puxou a cadeira para que ela se sentasse e todas as vezes que Hermione se levantou ele também o fez, sendo o mais perfeito cavalheiro inglês. Na segunda vez, Draco e Hermione não tiveram como escapar: a falta deles foi sentida na pista de dança, e que Deus os perdoasse, mas Daphne era uma grávida muito insistente; não havia como dizer “não” com tantas pessoas olhando.

Tradicionalmente, Draco e Hermione sempre estavam entre os primeiros casais a entrarem nas pistas de dança e os últimos a saírem, então pelo menos uma dança era essencial para manter a normalidade. Eles dançaram uma valsa vienense, que era sim, uma dança mais formal, mas estavam tão rígidos que Hermione teve que intervir aos sussurros:

— Você está duro feito uma pedra! — Ela ralhou aos cochichos e Draco arregalou os olhos. — Me abrace mais, Draco! As pessoas estão olhando… E dance direito, antes que sua mãe venha aqui.

Draco olhou para a mesa, onde Narcisa o encarava com olhos de tigre. Ela havia ameaçado-o de mil formas diferentes se ele não fosse o mais perfeito cavalheiro com Hermione. Particularmente, Draco não queria degustar a fúria de Narcisa Malfoy, então ele estava usando todas as aulas de dança e etiqueta que teve ao longo dos anos.

Ao final da dança, Narcisa tomou o lugar de Hermione e mãe e filho dançaram um foxtrot suave.

Narcisa foi a bruxa que mais se divertiu. Por algum motivo, ela estava leve aquele fim de tarde, dançou com praticamente todos os jovens e velhos do salão, distribuindo sorrisos (o que era muito raro) como se estivesse tramando alguma coisa (o que não era raro).

Draco também dançou com outras pessoas, começando por Daphne e sua barriga de sete meses, passando por Pansy (que reclamou de Astória), dançou também com Astória (que reclamou de Pansy) e, por fim, Ginny Potter, que, por mais incrível que parecesse, mostrou-se uma boa dançarina de Eigthsome Reel.

Draco deve ter achado que Hermione gostava de dançar, já que não paravam de chamá-la para a pista de dança. Ela dançou com Blás, com Théo, com o ministro Kingsley e com Harry, mas se arrependeu no primeiro minuto, pois ele não parava de pisar no seu pé. Bom… certas coisas nunca mudam, e seu irmão ter dois pés esquerdos era uma delas. Ela parou de dançar depois que Rony a chamou para uma valsa e Draco encarou o homem como se fosse cozinhá-lo vivo. Ninguém teve coragem de se aproximar depois disso.

As danças foram mais que suficientes para que a família Malfoy marcasse presença no evento, então todos concordaram em ir embora antes das oito da noite.

Quando Hermione voltou a si, reparou que Susan tagarelava sem parar sobre o casamento dela, de modo que a amiga não percebeu que Hermione estava perdida em pensamentos.

Ela e Terêncio estavam com dificuldade de conseguir um bom bufê, já que o anterior, Boot, caracterizou como “intragável e inescrupuloso”.

— Posso falar com Narcisa, se quiser. — Hermione deu de ombros, tomando um gole do seu suco. — Ela conhece muita gente…

— Você faria isso? — Os olhos da ruiva brilharam. — Me ajudaria muito não precisar ir pessoalmente.

— Claro que sim. Falo com ela hoje e te trago a lista amanhã.

— Eu nem sei como agradecer, Hermione. — Susan falou aliviada.

Ela voltou a falar sobre os planos de casamento sem pausa e Hermione deu graças a Deus por não precisar interagir de volta.

🪄

Draco odiava esperar. Se Lucius tinha deixado alguma herança positiva, era a pontualidade. Ele estava pronto para subir até o quarto da mãe e reclamar com Narcisa quando Granger apareceu na lareira pontualmente às três e cinquenta da tarde daquele sábado.

Imediatamente, o velho elfo Louis apareceu para ajudá-la a tirar as cinzas das vestes. Louis era o mais velho e mais ranzinza elfo da família Malfoy. Ele trajava roupas pretas e sapatos da mesma cor.

— Jovem senhora! — O velho elfo fez uma mesura que quase fez suas orelhas tocarem o chão. Imediatamente, ele pegou uma escova e começou a limpar as costas do vestido da bruxa.

— Louis, como é bom te ver, querido! — Hermione Granger disse feliz enquanto estendia a mão para cumprimentá-lo. — Como Suzy está?

— Muito bem, senhora, agradeço imensamente por sua bondade. — As orelhas do elfo ficaram vermelhas.

— Imagine! Eu agradeço por termos um bom funcionário como você! Já decidiu onde vão passar as férias? — A mulher mal dava atenção a Draco, focada totalmente no elfo.

— Suzy gostaria de ir para Gales ter o bebê lá… — Ele disse tímido. — Mas eu gostaria que o bebê fosse vinculado aos Malfoy.

— Oh, Louis… — Os olhos de Granger se encheram de água, ela colocou as mãos no ombro do elfo. — Seria uma honra! Vocês são parte da família, sabe disso, não é? Transmita meu carinho a Suzy, estou muito ansiosa pela chegada do bebê…

— Agradeço à senhora. Com licença, vou informar a Lady Narcisa que vocês a aguardam. — O Elfo fez outra mesura antes de desaparecer.

— Os elfos tiram férias? — Draco perguntou e levantou as mãos em rendição. — Sem julgamentos, é uma pergunta honesta. Aliás, como os elfos reproduzem? Elfas grávidas? Aqui? Por Merlin…

— Boa tarde para você também. — Granger disse brincalhona. Ela se aproximou dele e, antes que ele reagisse, beijou a bochecha dele, deixando-o inebriado pelo cheiro de caramelo. Ela se aproximou de um espelho para olhar a maquiagem. — Os nossos elfos têm férias, salários dignos e podem se relacionar com outros elfos, são livres para ir e vir. Aqui, nós pagamos o dobro do piso da categoria, que é 100 Galeões por mês. Eu já insisti para que o salário fosse maior, mas eles alegam ser o suficiente. Em troca, preferem ter suas contas pagas por nós e ter sua magia vinculada à casa onde escolherem cuidar. Cada Elfo tem uma poupança, caso queiram partir, esse valor é deles.

— Essa é a coisa mais bizarra que eu já ouvi. — Draco disse pasmo.

Ela respirou fundo antes de responder, como se algo a tivesse machucado.

— Eu que implementei essa lei. — A mulher parecia levemente desconcertada.

Opa, começamos errado.

Durante todo o café da manhã, Narcisa atormentou Draco sobre como ele deveria falar com a “esposa” (mesmo que ele não se lembrasse do casamento, ele existia e Narcisa não queria mais ouvir um “Ah” sobre esse assunto). Narcisa o instruiu (sob ameaça de tortura) que ele fosse educado, gentil e cavalheiro com Hermione. Ele deveria chamar a esposa de Hermione, Milady ou senhora Malfoy. E se ele sonhasse em chamá-la de Granger mais uma vez, Narcisa o deserdaria e o colocaria para dormir com os cisnes no lago.

Ah, o doce amor de uma tradicional mãe sonserina.

— Eu não quis ofender. — Draco disse depressa. Céus, Narcisa iria matá-lo. — É só diferente do que estou habituado.

— Você os libertou. — Hermione Malfoy encarou Draco, medindo sua reação. — Você os libertou no Natal do ano 2002, foi um dos momentos mais tocantes da minha vida. A família Malfoy possuía dez elfos, dois escolheram partir, Leon e Leonid, os irmãos de Louis. Oito escolheram ficar, e com o passar dos anos contratamos mais dois para que ninguém ficasse sobrecarregado. Nós cuidamos deles, protegemos eles, pagamos pelo cuidado e compromisso deles, em troca, eles cuidam das nossas propriedades.

— Você sabe como é a magia vinculativa deles? — Draco perguntou espantado. O cuidar da casa dos mestres era uma das razões da existência de um elfo.

— Claro que sei, foi você que me ensinou. — Hermione disse com doçura.

🪄

Draco gostou do baile.

Levando em conta que ele só passou a frequentar bailes formais depois dos 17 anos e que sua memória sumiu um ano depois, ele não se lembrava muito dessas ocasiões. Ele adorou ver sua mãe dançando e rindo, apesar de sentir uma pontada de ciúmes.

Na verdade, até ele se divertiu.

Draco achou que seria um evento traumático, cheio de regras e desconforto, mas no fim das contas, aquela era a casa de Daph e Théo: era impossível se sentir desconfortável ali. Théo abraçou Draco tão forte que ele teve dificuldade de respirar.

— Se você fizer isso de novo, eu juro que ressuscito você e te mato da maneira mais dolorosa que eu achar. — Théo disse com a voz embargada.

Daph foi mais sucinta:

— Obrigada por não morrer. Théo já estava querendo colocar o nome do nosso filho em sua homenagem. — Draco abraçou a amiga com delicadeza, ela estava muito grávida.

Por um minuto, Draco pensou no milagre que era Théo e Daph juntos. Theodore Nott era tímido demais, mas seu silêncio era traduzido como arrogância e não timidez. Já Daph, falava demais, gritava demais, mandava demais. Bem diferente de Astória, foi uma surpresa que tenha sido a mais nova a ser a desgraça da família quando, na verdade, Daph era a candidata mais forte.

Draco se sentou assim que pôde. Sentia-se mais forte, mas barulhos altos ainda o incomodavam e davam tontura, como se estivessem tocando dentro da cabeça dele. Logo ele se distraiu com a quantidade de pessoas que vinham falar com eles. Não demorou a perceber que a maioria das pessoas queria alguma coisa. Raros eram aqueles que vinham apenas cumprimentar.

A pequena mesa de quatro pessoas estava num fluxo constante: primeiro, cumprimentavam Blás, depois Narcisa, Draco e Hermione. Ou, ao contrário, começando por Hermione, dependendo do que queriam. Se queriam participar de algum evento ou algum favor pessoal, começavam por Blás e Narcisa, bajulando-os e adulando-os. Mas se queriam favores profissionais, algo do Ministério, uma sugestão em alguma doença desconhecida, pedir uma segunda vista num caso da Suprema Corte, aí começavam por Hermione e Draco.

Draco não reconheceu muitas pessoas, o que significava que seu círculo social tinha se expandido consideravelmente nos últimos dez anos. Sua mãe e Hermione se revezavam para dizer quem era quem. Ele reparou em como algumas pessoas tinham envelhecido, e ficou se perguntando se as pessoas pensavam isso dele também. Em mais de uma ocasião, Hermione invadiu seu espaço pessoal, falando em seu ouvido, e ele ficou desconcertado por não sentir receio ou algo do tipo, apenas uma… familiaridade dolorosa, todas as vezes que ela esbarrava em sua coxa ou peitoral.

Draco imaginava que teria que dançar, afinal era um baile, mas adiou a tarefa o máximo que podia. Daphne Elize Nott era a criatura mais insuportável do mundo. Forçar eles a dançarem como se estivessem em uma aula de etiqueta com 12 anos de idade… Se Daph não estivesse grávida, Draco consideraria empurrá-la de uma escada.

Mas o que realmente tirou a paz de Draco não foram os bajuladores ou os pedidos, ou Daphne os obrigando a dançar. Foi Hermione Granger.

Hermione Malfoy… Que seja, inferno!

Do momento em que ela saiu daquela lareira, Draco teve sérios problemas para falar algo coerente, parecendo muito mais burro, idiota e preconceituoso do que realmente era. Hermione estava estonteante em um vestido lilás. Era uma verdade inegável, tão certa como o sol. Seus seios estavam perfeitamente acomodados no limite entre elegância e sensualidade no profundo decote V. A saia era levemente rodada, o que dava a ela um movimento fluido, como se fosse uma criatura mística. Seus cabelos estavam soltos, caindo em cascata pelas costas, levemente ondulados, ela usava uma tiara baixa que ele reconheceu como sendo da coleção pessoal de sua mãe.

Ela dançava magnificamente bem, como se tivesse tido as mesmas aulas que ele. Parecia prever seus movimentos, seus passos, o que era bem agradável na verdade. O olhar dela era intenso, carregado, como se torcesse que ele se lembrasse quem ela era, mas ela não falou nada. Draco colocou a mão na cintura dela e cometeu o erro de olhar para baixo, por todo o panteão: aquele decote era um pedaço do paraíso e pela primeira vez Draco sentiu algo diferente: desejo. Excitação. Seu pau ficou dolorosamente rígido. Só tinha um problema: eles estavam num baile, com pelo menos 200 pares de olhos neles.

Dando graças que a valsa vienense não era uma dança tão próxima, Draco sentiu que seu segredo sórdido estava protegido, até Hermione ralhar com ele como se tivessem realmente 12 anos. Em resposta, Draco apertou mais Hermione em seus braços, juntando os corpos, mas ela não pareceu incomodada. Pelo contrário, parecia relaxada.

Ele tentou ao máximo não se aproveitar da pobre mulher que mal parecia ter ciência do que dizia aos sussurros. Não era só a postura dele que estava dura, ele inteiro estava.

Ele podia não ter sentimentos por ela, mas até um cego responderia àquele corpo escultural.

Draco sentiu um misto de alívio e tristeza quando a música acabou e ela se afastou. Narcisa já estava ao seu lado esperando a próxima dança.

— Você está bem, querido? — Narcisa sussurrou poucos momentos depois enquanto dançavam. — Podemos ir embora a hora que você quiser, Théo irá entender.

— Estou bem, vocês duas estão se divertindo. — Ele deu um pequeno sorriso. — Se qualquer coisa mudar, eu avisarei.

Todos eles dançaram mais um pouco, mas logo a agitação cobrou seu preço e Draco precisou se sentar. Hermione não demorou a sentar também, como se fosse algo natural. Em poucos minutos, um casal de amigos dela (que Draco reconheceu como um Neville Longbottom mais velho e seguro de si, e uma mulher que ele se lembrava chamar Hanna Abbott) se aproximaram e eles conversavam em voz baixa.

Draco viu um homem alto, ruivo, falando com várias pessoas no caminho e com uma proeminente barriga se aproximar. Levou alguns momentos para reconhecer quem era: Ronald Weasley. Com certeza, o tempo não tinha sido gentil com todos eles, mas Rony parecia particularmente… desgastado. Antes que ele pudesse cutucar Hermione discretamente para avisar da presença do homem que se aproximava, Draco foi engolido pelas próprias memórias.

A neve caía lentamente em cima do teto enfeitiçado. Ele estava em Hogwarts, talvez no ano de 1998? Ao seu lado, estava uma beldade de vermelho. Ele ainda não via seu rosto, ela estava conversando com alguém, mas Draco estava hipnotizado olhando para sua silhueta; o vestido abraçava as curvas delicadas, tinha mangas longas, e uma grande fenda em uma das laterais, o cabelo da mulher caía em cachos macios que iam até o quadril.

— Eu tenho certeza que eles virão, Ginny. — Draco reconheceu a voz de Hermione. — Harry prometeu que vinha, não é?

— Sim, mas… — A outra mulher respondeu.

— Então, relaxe. Eles devem estar chegando, às vezes tiveram que fazer hora extra no Ministério. — Hermione falou e em seguida acariciou o braço da outra. — Você está gelada, por que não está de casaco?

— Ah… — Ginny Weasley se mexeu e Draco pôde vê-la. Ela usava um vestido simples, preto, longo de alcinhas, e estava vermelha como um tomate mesmo sob a pesada maquiagem. — Eu quero estar bonita para quando ele chegar… e se ele perceber que eu estou com frio, talvez ele deixe a blusa dele comigo, eu posso esquecer de devolvê-la…

— Oh, Ginny… Eu sei como é. — Por algum motivo, o tom de Hermione foi triste.

Draco fingia não ouvir a conversa. Os três estavam encostados em uma parede, na saída do salão, monitorando os outros jovens. Naquele Natal, Minerva teve a ideia de fazer um “baile beneficente” para levantar fundos para a escola e para o fundo de apoio estudantil, já que muitos alunos tinham perdido os pais nos últimos anos e não teriam como continuar sua educação. Os ingressos para o baile foram caríssimos para as pessoas de fora da escola e o local estava lotado. Pelo visto, a ideia dele e de Granger deu certo, Minerva teria o valor que precisava para ajudar as crianças no próximo ano letivo.

Não demorou para que um alvoroço começasse do lado de fora, Draco percebeu um grande movimento do corpo estudantil para a porta. Alguém havia chegado e, se queria fazer uma grande entrada, estava conseguindo. Draco reconheceu os recém-chegados: Harry Potter, seu fiel escudeiro Rony Weasley e o cachorrinho deles, Neville Longbottom. Eles chegaram montados em vassouras, como se fossem deuses, Draco sentiu vontade de vomitar. Outras pessoas chegaram também, mas com mais bom senso.

Eles entraram escola adentro como se fossem os donos do lugar, as pessoas abriam passagem, mas Harry parecia procurar alguém na multidão e, quando viu Ginevra, abriu um sorriso tão grande que Draco se perguntou quantos dentes ele tinha na boca.

Eles se aproximaram em passos confiantes, e quando o trio de recém-chegados se aproximou deles, Malfoy fingiu costume. Ginny parecia um pelúcio vendo um objeto brilhante, de tão feliz, e Hermione parecia pensativa.

Harry não falou nada, deu apenas um aceno para Draco e Hermione, focado apenas em Ginny. Ele se aproximou, abraçando-a com força e dando um beijo nela de constranger qualquer pessoa num raio de 10 metros. Por Merlim, eles precisavam de um quarto.

— Que frio da porra, minha bunda está congelada. — Rony Weasley resmungou.

Péssimos modos na frente de duas damas, Draco pensou.

— E aí, Gata? — Rony se aproximou de Hermione e Draco percebeu que ele ia tentar beijá-la.

Imediatamente, Malfoy sentiu uma onda de náusea, mas Hermione desviou do beijo e Rony beijou a bochecha dela. Draco se sentiu um pouco menos pior.

— Credo, Ronald, você está cheirando a bebida. — Hermione se afastou fazendo cara feia. — Vocês passaram no Cabeça de Javali, por acaso?

— Desculpe, Mione. — Neville disse tímido. — Eu queria passar lá para dar um “olá” a Aberforth, e ele não parava de oferecer bebidas. Ah, olá Malfoy.

— Longbottom. — Draco deu um aceno curto de cabeça.

— Malfoy. — Ronald olhou Draco com ar superior e, antes mesmo que ele pudesse pensar em responder o cumprimento (ele não se daria ao trabalho, não que isso importasse), Ronald começou a reclamar. — Porra, Harry, Solte minha irmã, cara! Ei Padma, quanto tempo, você está linda…

Sem aguentar mais tamanha infantilidade (não que ele também estivesse sendo infantil, jamais), Draco saiu de perto e começou a andar em direção aos jardins para fazer sua ronda. Os recém-chegados ainda recebiam cumprimentos animados.

Ele pôde ouvir passos curtos e apressados atrás de si.

— Malfoy, espere! — Granger o chamou. — Vou fazer a ronda com você, sabe como é… caso você precise de ajuda de novo com algum casal danadinho.

Draco jurou que ela ficou ruborizada. Ele tentou colocar um meio sorriso no rosto antes de responder:

— Não se preocupe, fique com os seus amigos. Eu me viro essa noite, pode ir.

— Eu faço questão de te acompanhar, a responsabilidade é minha também. — Ela endireitou a postura e apontou para dentro do salão. — Só espere um minuto, vou pegar minha blusa e…

Draco imediatamente tirou seu terno e entregou para ela.

— Aqui, vista. Está nevando muito aqui fora para você. — Draco ofereceu tão rapidamente que Hermione ficou desconcertada.

— Não precisa… — Hermione disse, mas Draco já estava colocando o pesado terno de inverno nos ombros dela. Ela pareceu inspirar profundamente o perfume da roupa.

Draco sentiu seu coração bater com mais força. Hermione sorriu para ele, tão linda e brilhante naquele vestido vermelho, que poderia ser aquela estrela que guiou os reis da história que ela tinha contado para ele mais cedo. Ele posicionou o braço discretamente, caso ela quisesse ajuda para andar na neve que se grudava ao chão

— Vamos, Malfoy. — Ela disse, entrelaçando os braços no dele. — Vamos pegar alguns jovens no flagra e descontar pontos dos arruaceiros.

Quando Draco voltou ao tempo presente, ficou atordoado, mas estava consciente o suficiente para ver Ronald beijando a mão da jovem senhora Malfoy.

— … apenas uma dança, Mione. — Ele disse sorridente demais para o gosto de Draco. — Vamos lá, como nos velhos tempos.

— Rony, eu… — Hermione estava desconfortável, Draco percebeu imediatamente. Olhando de canto, ele viu que Hermione olhava a esposa de Rony, que estava visivelmente brava.

— A senhora Malfoy está com dor nos pés. — Draco disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Rapidamente, ele puxou a cadeira de Hermione para perto de si, interrompendo o contato entre as mãos deles. — Quem sabe outro dia.

Draco fuzilou Weasley com o olhar, pensando se seria necessário mostrar o caminho de volta para a esposa dele, quando um outro convidado chamou Ronald para uma conversa animada.

— O que foi isso? — Hermione perguntou em voz baixa, levantando uma sobrancelha.

— Você gostaria de ter dançado com ele? — Draco retrucou.

— Não, mas… — Ela tentou falar como se fosse algo óbvio, mas Draco a interrompeu.

— Então resolvido. — Ele colocou a mão possessivamente na coxa de Hermione e continuou a conversa como se nada tivesse acontecido. Ele achou que ela pudesse ter suspirado. — Continue o que estava falando sobre Damianina, Longbottom, por favor, estou muito curioso sobre a aplicação em um caso em particular...

🪄

Narcisa Malfoy era o tipo mais tradicional de bruxa: se negava a usar qualquer coisa que não fosse cartas via coruja para se comunicar. Por isso Hermione não estranhou quando a coruja albina da senhora Malfoy pousou na varanda do apartamento na noite daquela terça-feira. Mesmo depois de quase seis anos sendo uma Malfoy, Hermione ainda não tinha entendido o apelo dos animais albinos ou brancos: corujas, pavões, cisnes, unicórnios… A Ala norte das terras dos Malfoy parecia um zoológico.

Hermione havia repassado a situação de Susan por carta no dia anterior e a dificuldade com o bufê. Ela imaginou que a sogra se compadeceria de uma jovem e desesperada noiva. Com um floreio, Hermione abriu a porta da varanda e a Suindara entrou majestosamente, depositou a carta na bancada, pegou um petisco e voltou a se apoiar na balaustrada. Delicadamente, Hermione removeu o lacre de cera.

“Wiltshire, 06 de maio de 2009

Minha cara Hermione,

Recebi com grande apreço sua missiva a respeito de sua amiga, a Senhorita S. Bones. Sinto-me deveras lisonjeada pela confiança em minha experiência como anfitriã ao solicitar-me referências de fornecedores, mas, lamentavelmente, devo informá-la que não as possuo. Toda a nossa produção culinária para festividades ou bailes é, invariavelmente, orquestrada por nossa equipe de elfos domésticos, com o auxílio ocasional dos estimados Elfos das Famílias Zabini e Nott. É essa tradição de receitas de família que, felizmente, sempre nos rende os mais sinceros elogios.

Não obstante, nada me traria maior satisfação do que colocar à disposição a nossa estimada equipe para auxiliar a Senhorita Bones nesta data tão especial. Peço-lhe a gentileza de transmitir-lhe as minhas felicitações e de perguntar se ela teria o interesse em unir-se a nós para um chá, no próximo domingo, às dezesseis horas, para que possamos tratar dos pormenores técnicos. Por obséquio, estenda o meu convite ao cerimonialista ou familiar que a esteja assistindo nos preparativos nupciais.

Aproveito a oportunidade para adiantar nosso jantar de sábado. Gostaria de recebê-la na noite de quinta-feira, dia 07, quando a Topsy estará a postos para preparar os seus bolinhos prediletos. Será uma reunião íntima, somente entre nós; confesso que estou em certa privação de um convívio mais espontâneo, visto que meu amado filho insiste em apenas manifestar seu descontentamento ou apresentar alguma objeção. Caso lhe seja conveniente chegar antes das 19h, terei o prazer de acompanhá-la para contemplar o filhote de unicórnio nascido no último domingo; é uma criatura de beleza inigualável.

Aguardo ansiosamente o seu retorno.

Meus mais sinceros votos de carinho, Narcisa Malfoy.”

Hermione balançou a cabeça. Receber cartas de Narcisa era como conversar com a rainha da Inglaterra e Hermione tinha o hábito estranho de guardar as cartas da sogra numa caixa de madeira com diversas outras lembranças. Hermione imaginou que Susan fosse ficar feliz com o convite de Narcisa, avisaria a amiga na primeira oportunidade.

Hermione foi até seu escritório pessoal, um cômodo amplo com estantes recheadas de livros, poltronas e uma imensa mesa de mogno. Ela rabiscou uma resposta num papel com seu monograma:

“ Querida Cissa,

Espero sinceramente que esteja tudo bem por aí.

Muito obrigada por sua rápida resposta sobre a situação da Susan, vou avisá-la amanhã mesmo.

Sobre quinta-feira, ficarei muito feliz em jantar com vocês. Chegarei o mais cedo possível, mas preciso avisar que tenho uma audiência às 15h.

Estou ansiosa para ver o pequeno filhote!

Com muito carinho de sua nora,

Hermione Malfoy”

Não falar sobre Draco foi proposital. Hermione ainda não conseguia falar ou pensar no assunto sem sentir um bolo na garganta. Não era como se ele estivesse morto ou inalcançável, ele estava bem, e segundo o último repasse de Arthur, ele estava melhorando a cada dia, o que significava que Draco simplesmente não tinha interesse em falar com ela, o que era de certa forma muito pior. Depois de sábado e a pequena mostra de ciúmes frente à situação com Rony, uma fogueira de esperança queimou no coração de Hermione, mas ele não disse mais nada além de um educado “Boa noite, senhora” quando se despediram.

Ela enroscou a resposta da carta na perna da coruja e imediatamente a suindara despencou antes de sair voando rapidamente: como todos os Malfoys, a coruja também era dada a atos dramáticos.

Hermione encarou o relógio na parede da sala. Já estava perto do horário que combinou de ir jantar com Ginny, no Largo Grimmauld. Subiu no seu quarto, colocou um sapato confortável, prendeu o cabelo, pegou sua bolsa e desceu para a sala novamente.

🪄

Quando Hermione saiu da lareira, Ginny Potter já estava de braços abertos esperando-a.

— Você veio! Obrigada, Merlim. — Ginny apertou Hermione com força. — Preciso muito conversar com outro adulto.

— Claro que vim. — Hermione sorriu, o gesto pareceu um pouco forçado na sua boca.

Um choro agudo atrapalhou o abraço das amigas.

— Harry, não deixe James puxar o cabelo de Albus! — Ginny soltou a amiga, enfiou a cabeça no corretor e berrou.

— Semana Difícil? — Hermione perguntou quando Ginny parou de gritar.

Ginny usava um roupão de dormir roxo e uma toalha enrolada na cabeça, como se tivesse acabado de sair do banho. Seus olhos azuis esquadrinharam o rosto de Hermione, procurando algo. Ela pareceu insatisfeita antes de continuar.

— Difícil? — Ginny bufou, puxando a amiga pela casa. — Falei com Jacobs duas vezes essa semana sobre minha aposentadoria, sabe o que ele me disse?

Hermione assentiu negativamente.

— “Oh, Potter, não faça isso comigo. Eu não ligo das suas licenças-maternidade, criamos até uma creche aqui agora, veja só, as criancinhas são lindas!” — Ginny imitou Alexander Jacobs, o treinador do Harpias de Holyhead, com perfeição. — “O problema é o seu salário? Nós podemos conversar sobre isso, querida. Eu também acho que quinze mil por semana é pouco se comparado ao seu esforço, afinal você é a única jogadora que pode atuar como apanhadora e artilheira. O que você acha de Vinte e dois mil galeões por semana, hein?”

Hermione ficou de boca aberta enquanto entrava na cozinha dos Potter. Vinte e dois mil era quatro vezes mais do que ela ganhava no Ministério por mês e ela era uma funcionária de alto escalão!

— E você respondeu o quê? — Hermione questionou. Já fazia um tempo que Ginny queria parar de jogar, mas com uma contraproposta dessas…

— Falei que vinte e dois mil estava ótimo e que ele poderia renovar meu contrato para a próxima temporada. — Ginny invocou duas taças e um vinho que estava escondido no alto de um armário. Ela esfregou as mãos no rosto com força antes de olhar para Hermione de novo. — Fiz quiche e sopa de abóbora, vou pegar para você.

— Ginny, agradeço, mas não estou com fome, eu vim só para ficar com vocês mesmo. — Hermione falou rapidamente e foi ignorada pela ruiva.

Ginny serviu Hermione com um enorme pote de sopa e um generoso pedaço de quiche, a ruiva também se serviu.

— Eu reparei que você está magra como um Tronquilho, sua descarada. — Ginny estreitou os olhos. — Coma!

— As crianças estão na sala? — Hermione desconversou. Ela também estava com saudades dos sobrinhos.

— Não, no quarto. — Ginny respondeu de boca cheia. — Dei banho neles e Harry deveria estar tentando fazer eles dormirem. Bom, Lily, já está dormindo, mas os outros diabretes estão com a corda toda.

Apesar da palavra, Ginny falou carinhosamente sobre os filhos. Elas ouviram uma pancada e um choro alto como se para comprovar a frase anterior.

— Coma, Hermione. — Ginny apontou para Hermione e para o pote de sopa. — Vou ver o que meu marido está fazendo.

Ginny se afastou e Hermione cutucou a casquinha do quiche com a ponta da colher. O cheiro estava realmente muito bom; para a alegria de Harry, Ginny havia herdado os dons culinários da mãe. A cozinha dos Potter era escura, toda em mármore negro, mas Ginny a mantinha tão limpa que era possível ver seu reflexo em cada superfície. Monstro, o velho elfo, havia ganhado um novo ajudante, Sniffles, que ajudava Ginny na limpeza. Uma excelente indicação de Hermione, diga-se de passagem. O jovem elfo foi resgatado de uma família praticante de magia negra e ficou mais que feliz em trabalhar na casa d’O Eleito, ganhando um gordo salário. Ginny idolatrava e bajulava o elfo como se sua vida dependesse disso, o que Hermione achava que era parcialmente verdade, já que com três crianças ainda nas fraldas, o casal Potter parecia sempre estar no limiar da loucura.

Três anos, um esquadrão de aurores e dois Inomináveis e incontáveis visitas de amigos. Esses foram os números necessários para deixar a Mui Antiga e Nobre Casa dos Black minimamente habitável. Inclusive, foi Draco, o último familiar com sangue Black nas veias, que conseguiu lançar o feitiço para remover Walburga Black e seu quadro pavoroso da parede. E que a verdade seja dita, até hoje, para Hermione, a casa parecia meio perigosa, mas por algum motivo inexplicável, Harry era muito apegado a casa. Seria uma boa casa, tinha uma imensa cozinha, várias salas, muitos quartos e banheiros… Mas ainda dava arrepios em Hermione, às vezes. Hermione ficou alguns minutos sozinha enquanto comia.

— …Eu já disse que você tem que primeiro acalmar o James e depois o Albus. Se o James ficar irritado, ele irrita o Albus e aí os dois choram. — Ginny batia os dedos na palma da outra mão, como se estivesse desenhando uma estratégia de jogo. — Com o James calmo, tomando a mamadeira, você consegue fazer Albus dormir. E o James dorme melhor sozinho do que no colo…

Harry tirou os óculos e apertou a ponte do nariz.

— Eu sei, desculpe, baby. — Harry disse cansado enquanto passava pelo batente da porta. — Ah, Oi Mione, como você está?

Harry abraçou a amiga e ela deu uma risadinha.

— Vocês parecem exaustos.

— Mas estou com menos olheiras que você. — Harry disse, observador.

Touché! — Hermione sem graça.

— Como você está? — Harry perguntou e Ginny colocou comida na frente do marido. — Obrigada, meu anjo. Aliás, como Malfoy está?

— Acho que bem. — Hermione se serviu de mais vinho e Harry ergueu uma sobrancelha. — Sem condições de falar desse assunto sóbria.

Ele assentiu, soturno.

— Fui ao hospital falar com Arthur hoje. Ele vai todos os dias na Malfoy Manor avaliar Draco, levar medicações…

Harry a interrompeu:

— E ele aceita as poções? Mesmo sem saber de onde vieram?

Hermione assentiu, Harry e Gina se entreolharam.

— Então… — Hermione continuou. — Arthur disse que não notou melhoras. Todos os dias faz algumas perguntas, joga um pouco de conversa fora, relembra algumas histórias e casos, mas sem retorno. Ele reclamou de dor de cabeça e ontem Arthur conseguiu fazer um exame físico mais detalhado. Arthur descobriu que o estrago no cérebro não está se recuperando na velocidade que ele esperava, ele não sabe o motivo…

Ela passou a mão pelos cabelos antes de continuar:

— Arthur acha que ele recuperou alguma memória, mas que não quis falar qual era. Arthur achou melhor não perguntar, mas vai fazer com que Draco vá ao St Mungus para essas avaliações, forçando ele a sair de casa, sabe? Acho que vai ser bom para ele.

— E você, como está? — Ginny serviu o vinho nas taças. Harry comia como se a vida dele dependesse disso, ele estava trabalhando tanto...

— Ah, estou bem. — Hermione deu de ombros.

— Ela está mentindo. — Harry disse sem olhar, Harry era observador demais, desconfiado demais. — Quando eu chego no Ministério, ela já está na sala dela, e quando eu vou embora, ela ainda está na sala.

Ele tomou coragem de olhar nos olhos de Hermione, dois pares de olhos cansados se encarando.

— Você estava de férias. — Ele disse, acusador. — Chegou a passar no Recursos Mágicos para avisar que ia voltar?

Hermione não respondeu.

— Foi o que eu pensei. Então não venha com essa de que você está bem: Eu sei que você não está.

Ela suspirou e colocou o rosto entre as mãos.

— Não vai resolver nada eu ficar em casa… — Ela murmurou, lacrimosa, e sentiu Ginny arrastar uma cadeira para sentar ao seu lado. — Ele não quer falar comigo. Eu não aguento olhar nossas fotos, cada canto naquela sala, desde aquele sofá até o sabonete dele, me fazem querer chorar.

Ginny deu um abraço de lado em Hermione.

— Isso vai passar, a Doninha vai voltar para nós… — Ginny limpou as lágrimas da amiga. — Quer ouvir algo engraçado? James viu aquela nossa foto no Caldeirão Furado, no dia do noivado do Neville, e falou “Maine”, eu tenho certeza que ele te reconheceu.

Hermione deu um sorriso fraco.

— Não gostei de vocês terem me privado de ver as crianças hoje…

— Não seja por isso, Minha cara. — Ginny disse, feliz. — Semana que vem eu tenho um jantar de gala para ir, estou aceitando babás. Luna já se ofereceu, mas tenho certeza que ela ia adorar ter ajuda.

Hermione sorriu enquanto enxugava as lágrimas; era impossível ficar triste perto de Ginny.

Hermione sentiu uma profunda gratidão pela amiga.

🪄

Foi na quinta-feira, que Draco percebeu que era só uma sombra do que ele realmente costumava ser. Havia lido alguns recortes que sua mãe havia guardado sobre ele: a lista dos formandos do ano, o anúncio do retorno dele dos estudos no exterior, a descoberta de uma variante da doença da varíola do dragão (essa tinha uma reportagem no Profeta e dois periódicos internacionais).


Tinha também recortes das doações, das causas que a família apoiava e dos muitos bailes que eles tinham oferecido ao longo dos anos. Ele e Hermione também eram dados a causas sociais pelo visto: Hermione era líder da Associação de Libertação aos Elfos Domésticos, que recebia, realocava e cuidava de elfos resgatados em situação de maus tratos. Mas havia também a Malfoy Foundation, que era cuidada por toda família Malfoy, mas especialmente por Narcisa, a Fundação direcionava fundos e investimentos para saúde, pessoas em situação de vulnerabilidade e tinha um programa de bolsas de estudo.

Ele se sentiu um tanto, tocado. Eles realmente estavam se esforçando para melhorar a imagem da família Malfoy.


Ele passou o dia preso a isso e mal percebeu a tarde passar.

A Mansão Malfoy cintilava sob a noite de lua cheia, mas era um brilho frio, quase espectral. Narcisa havia insistido em um jantar íntimo – apenas os três – para “quebrar o gelo” e discutir o futuro do casal. Como se Draco precisasse que sua mãe cuidasse da sua vida pessoal.

Ela aguardava Hermione na entrada da sala de jantar, vestida em seda verde escura, com um sorriso terno. Draco observava Hermione do alto da escadaria. Ele havia se preparado para a cortesia fria que mantiveram até agora, mas não para o que viu. Hermione Malfoy estava… deslumbrante. Ela usava um vestido simples, mas elegante, de tecido fluido e cor de vinho tinto, que caía em cascatas suaves até o chão. O cabelo estava preso em um coque baixo e sofisticado, com cachos soltos emoldurando seu rosto. Usava um par de pequenos brincos de diamante e um colar opulento com diversas pedras, Draco achou o colar muito bonito, combinava com ela.


A visão de sua clavícula exposta, angular e delicada, atingiu Draco como um soco. Ele percebeu, com uma pontada incômoda, o quanto ela havia emagrecido. Não era apenas a magreza de quem se alimenta mal, mas a de quem está exausta, consumida pelo esforço.

E, de repente, o ar em seus pulmões sumiu e ele segurou firme no corrimão.

Ele sentiu a respiração dela no seu pescoço, mas não reagiu, antes que ele se aproximasse ele já tinha sentido o cheiro caramelado característico dela.

— Verdade ou Azaração? — Hermione sussurrou brincalhona.

— Verdade. — Draco respondeu, apoiando a pena na mesa. Ele olhou ao relógio na sua frente, quase onze da noite. Tinha perdido a noção das horas enquanto fazia o dever de herbologia. A seção reservada estava deserta. Seus pensamentos estavam erráticos de cansaço, mas ele sentia o coração acelerar.

— É verdade que sempre que um garoto e uma garota se encontram na seção reservada, eles têm segundas intenções?

— Como monitor, minha resposta é sim. Como aluno? É, nem sempre.

— Droga, Malfoy, você sempre tem uma boa resposta.

Draco cometeu o erro de olhar para Hermione. Estava usando uma calça jeans e um suéter cinza, muito parecido com um que ele jurava ter perdido, e tinha se apoiado de costas em uma prateleira. Ele se levantou, ficando a pouco mais de meio metro dela.

— Verdade ou Azaração, Granger? — a pergunta saiu antes que ele pensasse.

Ela sorriu ladina.

— Verdade.

— É verdade que você veio aqui com segundas intenções hoje?

Ela ficou ruborizada imediatamente.

— Malfoy, eu… me desculpe, não…

Draco deu um passo, ficando a poucos centímetros dela.

— Você escolheu a verdade, Granger. — Draco sussurrou, dividindo o olhar entre os lábios que ela mordiscava e seus olhos. — Responda, ou serei obrigado a te azarar.

Ela fechou os olhos e respirou profundamente antes de reabri-los.

— Sim, é verdade.

Ela mordeu o lábio inferior. A pura coragem grifinória no seu olhar.

— Não vou permitir que perca a viagem então. — Draco cruzou o limite pessoal dela, prendendo-a na estante. Ele sussurrou: — Essa é sua chance de fugir, Leãozinho. Fuja agora, porque eu não vou parar depois.

Ela encarou os olhos dele, chocolate contra mercúrio, Draco sentia a pulsação dos dois ecoando.

— Você fala muito, Malfoy. Talvez eu não queira que você pare.

Draco avançou na boca de Hermione, incendiando tudo no caminho, uma mão agarrando sua nuca e a outra sua cintura. O beijo era exigente, e eles brigavam pelo controle. Hermione empurrou sua língua na boca dele e, em contrapartida, ele mordiscava os lábios dela. O beijo dela era doce, como um torrão de açúcar, seus cachos macios faziam Draco querer puxar os cabelos dela…


— Draco. — Narcisa o chamou e ele voltou à realidade. — Está tudo bem, filho? Não seja rude. Desça e cumprimente sua esposa.

O desejo foi intenso, imediato e totalmente indesejado. Ele desceu os degraus devagar, recompondo a máscara de educação polida.


— Minha senhora… — Ele estendeu a mão e pegou a mão de Hermione, depositando um suave beijo no dorso. O toque foi breve, mas a eletricidade que percorreu sua pele o fez recuar um passo imperceptível.

Hermione deu um sorriso lindo, antes de Narcisa começar a falar.

— Espero que tenha conseguido falar com a Srta. Bones…

Draco ignorou a conversa deas momentaneamente, enquanto focava em puxar as cadeiras para elas, começando por sua mãe, antes de sentar em seu lugar. O jantar começou com amenidades, mas Narcisa, como sempre, conduziu a conversa com maestria.


— Hermione, querida, você precisa nos atualizar sobre o Departamento de Execução das Leis da Magia, já tem muitos dias desde o nosso último sábado.

Hermione sorriu, um brilho genuíno nos olhos ao falar sobre seu trabalho. Ela discorreu sobre a reestruturação de alguns departamentos do Ministério, algumas aposentadorias aqui, outras mudanças de setor ali. Algumas audiências que repercutiram nos jornais… Draco, apesar de sua relutância, não pôde deixar de ouvir. Sua mente registrou a inteligência afiada, a paixão e a autoridade em sua voz. Ela não era apenas competente; ela era uma força da natureza.


— Você tem o tipo de competência que esta família precisava para reconstruir sua imagem, sabia? — Narcisa comentou com carinho, a voz abaixando-se um tom.

Draco pegou a deixa. Sua mãe não era detalhista em relação ao que tinha acontecido no passado, mas Hermione certamente não teria os mesmos pudores. O tema virou para o pós-guerra.

— Como a sociedade reagiu, quando… quando nós nos casamos? — Draco falou pela primeira vez no jantar. Hermione tomou um gole de vinho, pensando no que responder.


— O choque inicial foi uma bênção disfarçada — Narcisa interveio, com um aceno elegante. Ah, então sua mãe sabia mais do que falava, interessante. — A reação do público não foi de ódio, mas de perplexidade. Como o ‘Príncipe da Sonserina’ poderia casar com a ‘Rainha dos Nascidos-Trouxas’? Isso criou uma distração massiva. Enquanto todos fofocavam sobre o escândalo e a veracidade do ‘amor’ de vocês, a atenção saiu da nossa ligação com o Lorde das Trevas. O nome Malfoy foi manchado, sim, mas não destruído.

— A sociedade ficou… curiosa e dividida, mas os nossos amigos sabiam há muito tempo que estávamos juntos. Eles ficaram felizes por nós. — Hermione completou. Draco perguntou uma coisa que o estava incomodando havia dias.

— Papai, como ele reagiu ao casamento?

— Ele reagiu como se o mundo tivesse acabado— Narcisa ironizou, bebendo um gole de vinho. — É claro que ele ficou furioso. Estar condenado, aguardando ser levado para Azkaban sem poder gastar um Galeão, sem sua varinha ou ter sua Nimbus pessoal já era humilhante o suficiente, mas o noivado… para ele, foi a afronta final. Ele pensou em te deserdar, mas antes de tudo começar, assim que o Lorde das Trevas caiu, Lucius passou tudo para o seu nome. Você já era o Lorde da Casa Malfoy, ele não tinha mais nenhum poder efetivo nas mãos.


- Mas se sua pergunta for especificamente sobre o casamento: Quando nos casamos, seu pai já estava preso. — Hermione disse em tom conclusivo.


Draco engoliu em seco, e em seguida, Topsy trouxe uma imensa travessa de bolinhos. A conversa então se suavizou. Ele descobriu que Hermione gostava dos mesmos vinhos que ele (franceses e de média guarda) e debateram as melhores regiões vinícolas da França, inclusive sobre a pequena Vinícola dos Malfoys que eles reabriram em Bordeaux, ela estava parada desde o falecimento da mãe de Lucius. Hermione mencionou que eles gostavam de fazer trilhas no mundo Trouxa. Draco, com uma surpresa genuína, revelou que parecia muito interessante e que ele gostaria de tentar explorar a natureza. Havia uma harmonia sutil, um ritmo intelectual na conversa deles que deixou Draco perplexo.

O jantar estava no fim. Narcisa pegou sua taça de vinho e se levantou.


— Queridos, perdoem-me, mas creio que preciso ver o pequeno Filhote de unicórnio e sua mãe. Não se levantem, por favor. Aproveitem a sobremesa.- Ela sorriu calorosamente e saiu.


E com isso, o silêncio caiu. A harmonia desmoronou. Os dois estavam sozinhos na vasta sala de jantar, sob o olhar dos retratos da família Malfoy. Draco olhou para a porta por onde Narcisa saiu e, em seguida, para Hermione, que bebia seu chá com compostura. A desconfiança, sempre latente em Draco, subiu pela sua garganta. Sua mente, ainda fragmentada pelo sabor perturbador do beijo que ele acabara de "reviver"—o beijo que o havia deixado com o corpo em chamas há poucos minutos—procurava uma explicação para aquele caos interno.


Não era possível que ele sentisse tanto desejo por ela, e Narcisa nunca se daria ao trabalho de ser tão educada com alguém. Não assim. A mudança repentina no ambiente, a facilidade e o propósito com que Narcisa havia saído, o olhar de Hermione que parecia entender exatamente o que ele pensava… tudo parecia orquestrado, natural demais, um laço apertando-se ao redor de sua garganta, ameaçando sua razão.


Ele se levantou bruscamente, a cadeira arranhando o piso de mármore.


— Onde você a colocou? — ele exigiu, sua voz baixa e rouca.

Hermione franziu a testa.

— Perdão?


— Minha mãe, Narcisa. O que você fez com ela? Você a enfeitiçou? Não tente me fazer de idiota, Granger. Minha mãe nunca deixaria este cômodo no meio de uma conversa com visitantes, a menos que estivesse sob um feitiço de confusão para que você pudesse… para que pudesse tentar me seduzir — ele cuspiu a palavra, sentindo-se patético, mas incapaz de parar a torrente de paranoia.

Hermione o olhou, primeiro com choque, depois com uma tristeza profunda.


— Você realmente acha que eu usaria magia em sua mãe para forçar uma conversa com você?


Draco não respondeu, mas a acusação pairava no ar, os quadros cochichavam entre si.

— Eu não sou uma visita, Draco. Eu sou da Família. — Hermione falou cansada. — Eu carrego seu sobrenome, essa casa é tão minha quanto da sua mãe. Caso não tenha percebido, as pessoas me chamam de “Jovem senhora Malfoy”. Eu sou a Lady desta casa, tanto quanto sua mãe…

— Draco! — a voz firme de Narcisa, vinda da porta, parou-o no meio do salão. Ela voltou para a sala, seus olhos azuis faiscando de frustração e decepção. — Conversamos sobre isso, filho, que coisa horrível de se dizer. Você envergonhou a ambos com essa infantilidade.

Ela olhou para Hermione, pedindo desculpas silenciosamente, e depois voltou-se implacavelmente para o filho.


— A verdade é que eu fui muito permissiva com você. Você nunca deveria ter vindo para cá. Essa casa nunca te fez bem. Está saturada de Magia Negra, de memórias de seu pai e de sua paranoia. Não importa quantos animais lindos e inocentes eu coloque aqui, parece que não há salvação para essa aura de maldade. O que está lhe fazendo mal, Draco, é essa casa e não Hermione.

Draco ficou em silêncio.

— Você deveria ir para sua casa, Filho, para o apartamento de vocês — Narcisa disse. Draco tentou interrompê-la e ela o impediu. — Pelo menos tente, filho. Ao menos conheça sua casa.


Hermione estava em silêncio.

— Você se importaria, Hermione? De mostrar o apartamento de vocês?

Hermione abriu um sorriso:


— Seria um prazer.


Notas finais
gostou? leu até o final? deixe um oi nos comentários só pra eu saber se alguem chegou até aqui kk