Quintas-Feiras de Chuva
1 Capítulo 1
Havia poucas coisas que Marinette Dupain-Cheng odiava mais do que os dias de quinta-feira. Na verdade, a garota tinha quase certeza de que descobrira uma quarta lei de Newton, a qual ditava que nada de bom poderia acontecer no quinto dia da semana. Absolutamente nada! Tantas coisas davam errado naquelas datas, que Mari nem sabia mais por onde começar a sua lista.
Era o despertador que sempre falhava em tocar naquelas manhãs. Era o bolo de carne de origem questionável, que o Françoise-Dupont insistia em servir no horário de almoço. Era a interminável aula de química da Sra. Medeleiev, bem no último horário. Eram até mesmo os ataques de akuma, os quais, coincidentemente, costumavam a ser mais frequentes e também mais fortes nesses dias.
Era.... basicamente tudo! Talvez, a única coisa que a azulada odiava mais do que o temido quinto dia da semana eram as chuvas torrenciais que assolavam o fim do verão parisiense. Para o azar dela, todas as quintas-feiras daquele mês estavam sendo chuvosas. Aquele dia não foi uma exceção.
Enquanto se despedia dos colegas na frente da escola, Alya não conseguiu deixar de rir da cara de Marinette, que murchou assim os olhos dela avistaram um céu terrivelmente nublado. A garota ruiva não quis parecer malvada, mas o desgosto da amiga com a chuva era tão evidente que chegava a ser engraçado. Ainda mais, considerando que ela nunca recebera uma explicação plausível para aquele comportamento peculiar da asiática.
Quando era questionada pela razão de seu desprezo com presentes de São Pedro, Mari sempre levantava a desculpa de que meninas desastradas e calçadas molhadas eram uma combinação pouco recomendada. E, em sua defesa, aquilo não era totalmente uma mentira. Sem dúvidas, a azulada poderia atestar que já levara mais tombos na chuva do que qualquer adolescente do Françoise Dupont.
Sem falar dos cabelos embaraçados, das meias molhadas, e dos incontáveis objetos perdidos para o forte vento que acompanhava o mau tempo daquele mês. Mas, o que realmente fazia Marinette detestar tanto aqueles dias tempestuosos era o fato da chuva a lembrar muito de um garoto. Um garoto que estava complemente fora de seu alcance.
Logo após o esclarecimento do caso do chiclete, a azulada prometeu a si mesma que confessaria seus sentimentos por Adrien no dia seguinte, ou talvez no dia posterior a esse. No entanto, antes que ela pudesse se dar conta, os dias viraram semanas e as semanas viraram intermináveis meses de gagueira e de tentativas fracassadas de confissão. Depois do incidente do museu de cera então, era como se toda sua coragem de falar com Adrien finalmente estivesse se esvaziado por completo.
Ainda assim, por mais que Mari soubesse que suas chances com o garoto Agreste eram quase inexistentes naquele ponto, ninguém conseguiu tirá-la da cama no fim de semana em que ela descobriu que o modelo e Kagami estavam oficialmente namorando. Oh céus, aquele, sem dúvidas, foi o marco da fase mais difícil da amizade deles, da qual nenhum dos dois gostava muito de lembrar.
Enquanto a garota lutava para se recompor do coração recém-partido, o loiro demonstrava estar completamente angustiado pela súbita mudança no comportamento da sua “joaninha de todos os dias”, que, sob seu ponto de vista, parecia ter desenvolvido um desprezo súbito por ele, sem maiores explicações. Não foi uma jornada fácil, mas passado alguns meses, finalmente a azulada começou a superar a paixão quase obsessiva que nutria pelo garoto desde aquele maldito dia de chuva.
À medida que Marinette ia controlando seu nervosismo e as suas mágoas secretas, a amizade dela com Adrien foi sendo restaurada, e, com o tempo, foi tornando-se mais e mais forte. De repente, pela primeira vez nos dois anos em que eles se conheciam, Marinette começava a achar que ter somente a amizade do garoto poderia ser o suficiente. Até que, é claro, o término do loiro com Kagami apenas serviu para reacender todos os sentimentos que ela julgava ter enterrado muito bem, obrigada.
Sim, ela estava tão tão ferrada! Maldito seja o Cupido, que simplesmente se recusava a deixar o seu coração em paz. Depois de passar o verão inteiro em dúvidas se deveria arriscar ou não a amizade de Adrien com alguma confissão estúpida, Marinette decidiu, por uma vez, seguir os conselhos da melhor amiga. Ela finalmente diria o que sentia pelo modelo.
Aproveitando-se dos últimos dias de férias, Mari resolveu preparar um novo cachecol para o loiro e deixou-o junto de uma carta na mansão Agreste, para que Adrien pudesse descobrir tudo assim que chegasse de uma viagem de negócios que fazia com o pai. O único problema, é que a data prevista para o fim da viagem já havia expirando em três dias, e, até então, ela não havia tido qualquer sinal de vida de Adrien. Nem em seu celular, nem em nenhum dos dias de aula daquela semana.
Após terminar de se despedir dos colegas, Marinette abriu o famoso guarda-chuva, preparando-se para encarar mais uma quinta-feira chuvosa. Normalmente, tudo que ela queria nesses dias era chegar em casa o mais cedo possível, para evitar mais ondas de azar. Mas, a ideia de ficar presa em meio a tantas fotos de sua paixão parecia deprimente demais. Então, contrariando todo bom senso, ela decidiu pegar o caminho mais longo, enquanto afundava-se em uma espécie de monólogo interior.
Será que Adrien achava que seus sentimentos eram tão inconvenientes que decidiu evita-la de propósito? Ou quem sabe, o seu presente havia sido misteriosamente roubado tal como tinha acontecido com outro cachecol? Mas, se fosse o caso, por que o modelo não estaria respondendo nenhuma de suas mensagens? Ou mesmo indo às aulas? Não tinha sentido!
Talvez... talvez ele tivesse conhecido alguma outra garota em Milão, e estava ocupado demais para responder uma simples amiga. Sim, devia ser isso, Adrien devia estar lá agora junto de alguém forte e confiante. Alguém.... alguém como Kagami, que possuía todas as qualidades que Marinette não tinha e jamais viria ter. Quem ela estava enganando? Era melhor que nunca tivesse feito nenhum presente, para começar.
— Estamos pensativos hoje, Princesa? – uma voz repentina a tirou de seus devaneios, e quase a fez cair de cara na calçada.
— Qu-que? – gaguejou ela antes de avistar um conhecido gatuno, que parecia ter vindo de absolutamente lugar nenhum – Chat Noir! Assim você quase me mata de susto! – a azulada exclamou irritada. Era só o que lhe faltava para premiar o seu dia.
— Não foi a minha intenção, PURRcess – o felino falou em um ronronar – Mas, por que uma bela dama você está tão longe de casa em um dia tão tempestuoso como essa? Aquela Lila chateou você novamente?
Marinette não perguntou como diabos Cat Noir sabia onde ela morava, e muito menos como ficara sabendo das confusões que ela lá tinha se metido por conta de Lila Rossi. Será que aquilo significaria que ele a conhecia como civil? Não, Mari não podia se dar ao luxo de pensar naquilo. As identidades deles e a segurança de Paris dependia daquele segredo, daquele mesmo segredo que parecia corroê-la mais e mais a cada dia.
Depois de finalmente superar um pouco a paixão pelo alter-ego da azulada, as coisas começaram a ficar melhor entre Chat e Ladybug. Sem as tentativas de flertes e as constantes rejeições, a amizade dos dois adquiriu um novo nível de maturidade. Na realidade, o gatuno era a única pessoa na qual Marinette confiaria sua própria vida, sem nem hesitar por um minuto.
E às vezes, somente às vezes, durante as conversas que tinham no fim da patrulha, nas corridas pelos telhados ou nas pequenas celebrações que faziam quando derrotavam um akuma particularmente difícil, Marinette sentia que em um mundo sem Adrien ela já teria entregado seu coração ao parceiro mascarado há muito tempo, muito tempo. Mas, naquele momento, Mari não podia admitir nenhuma dessas coisas.
— Só estava a fim de caminhar um pouco – disse ela, dando de ombros – E você? O que faz aqui Chat? Achei que os gatos não gostavam de chuva – Mari o provocou.
— Esse aqui é uma exceção à regra, Princess – disse ele, apontando orgulhosamente para si mesmo – Uma chuvinha dessas jamais será capaz de me derrubar.
— Não seja bobo – resmungou ela, trazendo-o para dentro do guarda-chuva – Desprotegido assim é bem capaz de você pegar uma pneumonia. Vamos, eu lhe deixarei na estação de metrô mais próxima para que você possa ir para sua casa.
Entretanto, a expressão do felino mudou, assim que Marinette pronunciou a palavra “casa”.
— O que foi? Está fugindo? – Mari brincou.
— Bom, sim – Chat admitiu, num suspiro profundo – As coisas não estão muito bem em casa. Meu pai.... ele me pegou saindo escondido de noite outro dia, e como castigo está restringindo quase todo meu contato com o mundo externo. Até o celular ele me tirou.
— O que?! Isso é horrível, Chat! – a azulada exclamou, em choque – Espere.... Isso significa que você não está nem mesmo saindo de casa? – ela pressupôs, achando a história do gatuno ligeiramente familiar. Onde Marinette já tinha ouvido aquilo?
— Infelizmente não, mas eu... já estou acostumada com esse tipo de coisa – ele falou numa voz sincera, fazendo com que o coração de Marinette se partisse com aquela confissão. – Na verdade, a única coisa que está me chateando é que eu não posso nem mesmo avisar meus amigos sobre o que está acontecendo. Não quero que eles pensassem que eu não gosto mais deles, ou coisa parecida.
— Tenho certeza que eles não vão pensar isso – a azulada assegurou, com um olhar gentil – Venha, vamos para minha casa, você não pode continuar assim no frio por muito mais tempo. – ela disse em um tom autoritário, fazendo com que Chat Noir quase pensasse ter ouvido a voz da própria Ladybug.
— Achei... que você também estava fugindo de casa? – ele questionou, erguendo as sobrancelhas em confusão.
— Não exatamente, acho que.... acho que estou fugindo de mim mesma.
Mari esperou que o herói lhe perguntasse algo sobre sua declaração, mas ele apenas assentiu, como se entendesse com toda a sua alma o que a azulada quis dizer com aquilo. Os dois então seguiram conversando baixinho até a residência dos Dupain-Chengs. Em dado momento, Marinette ficou tão distraída que até mesmo esqueceu de desfazer o pequeno santuário que tinha de Adrien em seu quarto. No entanto, se Chat Noir achou estranho uma garota ter tantas fotos do modelo, ele nada questionou.
Apesar de sua expressão ainda estar muito para baixo, o gatuno começou a se animar com uma poção de biscoitos gentilmente oferecidos pela Sra. Cheng e por uma série de vitória no Ultimate Mecha IV. Não que ele não tenha percebido que Marinette o estava deixando ganhar de propósito, afinal Chat conhecia poucos jovens melhores naquele jogo do que a garota de cabelos azulados. Ainda assim, o loiro apreciou as tentativas de Marinette em animá-lo. Se todos os dias pudessem ser assim....
— Mari – ele disse em certo momento do jogo, cedendo à pergunta que estava vagando na sua cabeça durante a tarde inteira – Desculpa te perguntar, mas... quem foi que quebrou o seu coração?
— O que?! – a azulada se espantou, perdendo inesperadamente a partida que disputavam – Como...
— Eu reconheço o olhar de uma decepção amorosa quando vejo uma. Percebi isso quando você disse que estava tentando fugir de se mesma. Na verdade, você estava falando de seus sentimentos, não é? – Chat questionou, com um olhar empático.
— Sim – Mari respondeu, murchando instantaneamente – Parece que nós dois não temos dado muita sorte no amor, então. Ainda é a Ladybug? – ela se arriscou a perguntar, torcendo para que a reposta fosse negativa. A garota não sabia por quanto tempo mais aguentaria esmagar os sentimentos de seu pobre chaton.
— De certa forma sim – o gatuno murmurou – Eu não sou tão iludido, sei que a Ladybug não vai mudar os sentimentos que tem por aquele cara misterioso. E eu tenho tentado por tantos anos... superar tudo isso, sabe? Eu até mesmo namorei outra garota por um tempo. Mas, quando estava com ela eu só.... eu não conseguia parar de pensar.... nela.
— Eu sei o que você quer dizer – Mari concordou, com tristeza – Tem esse garoto que... também está completamente fora do meu alcance. E mesmo depois de todo esse tempo, não consigo esquecê-lo, é como se.... como se o Cupido estivesse rindo da minha cara, sem qualquer piedade.
— Ma-mas.. – Chat gaguejou – Eu pensei que o Luka gostasse de você.
— Luka? – ela perguntou confusa – Não, eu e o Luka somos apenas amigos. Eu... gosto do Adrien, Adrien Agreste.
— Adrien Agreste!? – Chat Noir exclamou de repente, adquirindo um tom muito pálido, como se tivesse acabado de ver um fantasma – O modelo? Adrien Agreste?
— Sim, sim, eu sei. Parece estúpido – Marinette continuou – Que tipo de garota se apaixonaria seriamente por Adrien Agreste? Mas, não é bem assim, ele está na minha sala, somos amigos na verdade.
— Então você... – o gatuno hesitou – Você se apaixonou por Adrien por que ele é bonito, rico e famoso?
— Claro que não! – a azulada exclamou ofendida – Quão superficial você acha que eu sou? Na verdade.... eu me apaixonei por causa de um guarda-chuva.
— Um guarda-chuva? – o garoto perguntou, tentando acompanhar o raciocínio – Isso não é um jeito muito comum de se apaixonar por alguém.
— Deixa eu te explicar melhor – Marinete disse numa risada- Bom, no dia que nos conhecemos teve um grande mal entendido com um chiclete na minha carteira e bem... eu pensei que ele fosse um riquinho mimado que nem a Chloé, uma outra garota que estuda no Françoise Dupont. Só que depois da aula ele veio esclarecer tudo comigo e então... Adrien deu o guarda-chuva dele para mim, para uma total desconhecida, somente para que eu não me molhasse.
“Eu fiquei tocada com o gesto, só que é claro que, desastrada como sou, acabei fechado o guarda-chuva bem em cima de mim e foi.... foi quando eu ouvi a risada dele. Eu não sei explicar, mas foi o som mais lindo do mundo. E também foi a primeira vez que eu pensei ter visto algo de verdadeiro dele. Algo além daquela máscara na qual ele é obrigado a se esconder. Infelizmente, não ouvi essa risada muitas vezes depois daquele dia.
— Você está dizendo que esse.... esse seu amigo não é feliz? Mesmo tendo tudo que tem? – ele perguntou, cautelosamente.
— Dinheiro e fama não são tudo, Chat. O Adrien tem um relacionamento muito complicado com o pai, e a mãe dele... ninguém sabe dela há anos. Ele é sempre muito educado com todos e sempre aparenta estar de bom humor, mas.... por trás de toda aquela fachada eu sei que há um garoto extremamente solitário. Eu só queria... queria poder colocar mais vezes aquele sorriso no rosto dele. Queria... queria poder fazê-lo feliz. – Marinette terminou, com a voz trêmula.
— Po-por que você nunca disse nada disso a ele? – Chat Noir perguntou com receio.
— Eu já tentei muitas vezes – a azulada respondeu, com um olhar distante – Mas, nunca deu certo. E além disso.... além disso, eu sei que ele gosta de outra garota. Uma garota com quem eu nunca poderia competir.
— Ele é um idiota – o gatuno falou num sussurro – Um grande idiota.
— Não fale assim... – Mari o repreendeu, em irritação – Adrien é um grande amigo para mim. E talvez.... talvez um dia, isso venha a ser o suficiente.
— Eu sinto o mesmo pela minha Lady – Chat falou, também em um tom tristonho. – Eu queria... queria que nossa parceria fosse o suficiente para mim.
— Bom – Mari levantou-se de repente, após um minuto de silêncio – Acho melhor você não demorar muito, Chat. Já está anoitecendo, e eu não quero que você se meta em mais problemas com o seu pai.
— Droga! – ele exclamou ao ver o horário – Você está certa, Princess. Muito obrigada pelos biscoitos e pela sua companhia.
— Chat? – a azulada o chamou, antes que o gatuno desaparecesse na noite – Sabe, se algum dia precisar de biscoito ou de companhia de novo, você pode vir aqui. Somos amigos, não somos?
— Amigos – ele repetiu a palavra lentamente, como se ela tivesse milhares de significados – Sim, espero que sim.
No dia seguinte, enquanto se arrumava para a escola, Mari ficou surpresa ao avistar um pequeno pacote na sua janela. Ao abri-lo a azulada encontrou “Final Fantasy VII”, um jogo que a garota estava desesperada para comprar, e, junto do objeto, havia também um pequeno bilhete que dizia: “Acho que vou acertar a sua oferta, Princess. Está disponível para uma revanche na quinta?”.
Marinette terminou a leitura com um sorriso. Talvez, as quintas-feiras não fossem tão ruins afinal.
Notas finais
Feliz ano novo para todos e todas!
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