Notas iniciais
Aproveite o conto!

Quinta-feira. 23:25

Devo ser o único acordado a essa hora da noite. Já me mexi e remexi na cama com alguma esperança de dormir e finalmente poder descansar, mas meus pensamentos estão a mil e meus olhos mal cogitam a ideia de simplesmente fechar e relaxar.

Meus músculos estão retraídos, não de frio, mas de medo, prontos para acelerar a qualquer instante. Apesar de agora, estar sentado na cama encostado na parede, meu corpo permanece coberto, como uma criança se escondendo de um bicho papão.

Me sinto tão.. Covarde, em uma situação tão pueril. A luz amarelada de meu abajur tem um caráter dúbio, não sei se me ilumina para me manter fora da escuridão ou se me ilumina para mostrar espectros sombrosos nas paredes, onde suas ondas não alcançam. Mas mesmo essa desculpa para meu encolhimento não fará com que eu deixe de ser um covarde.

Não estou sendo assim só neste momento a meia luz. Acho que sempre fui. Quando pequeno, ao menor ranger do assoalho ou o menor som da ranhura na janela, me escondia atrás das pernas de meus pais, tremendo de medo e rezando mil pais-nossos como se isso servisse para algo. Ou então quando jovem, vivia preso a damas como se os gritos delas de terror pudessem disfarçar meus sustos ou meu terror quando eu me espantava.

E apesar de tanto ter desejado para ser diferente, desde que me reconheço como adulto continuei o mesmo frágil e inseguro de sempre. Lembro-me que quando meu pai me concedeu a posse de nossa casa, logo tratei de trocar todos os ferrolhos e dobradiças que chiavam noite após dia, agoniando meus sonhos. Ou então, trocava todos os antigos pisos de madeira da casa para que nunca mais rangessem quando alguém passasse, já que o menos ruído possível já agoniava os meus ouvidos. Era tanto dinheiro mal empregado que meu coração palpita de angustia, mesmo que eu não me arrependa de minhas escolha----

Desculpe por esse risco, diário. Um rápido clarão atravessou minha janela, e meu coração não pode deixar de acelerar. Já posso sentir as gotas de suor se formando em minha testa e -----

Desculpe novamente, só agora pude ouvir o trovão que levou a um leve tremor minha mobília, minha janela e meu corpo. Essa pressão dentro de mim está me levando ao descontrole, sinto que há uma parte cada vez maior de minha alma desejando se jogar pela janela.

Estou tentando aceitar que estou cada vez mais próximo do fim. É um fato inevitável, indiscutível. Acho que chegou a hora de escrever o que nunca quis pôr no papel. Penso que está na hora de falar sobre minha angústia. O motivo que não me deixa mais dormir antes que eu não possa mais escrever...

Foi há três semanas quando tudo começou. Um dia qualquer. Enquanto estava na sala de visitas, aproveitando um bom livro de Dumas e uma lareira quente, uma empregada entrou para lustrar os móveis de madeira. Era jovem e desajeitada no trato. Poderia até mesmo ousar de vê-la como bonita, mas não aceitaria/aceito nada menos que uma dama.

Apesar disso, aquela mera criada roubou alguns segundos de minha vida. Assim que sai do aposento, logo após ela, dei de encontro com outra empregada. Perguntei a ela da maneira mais indireta possível sobre aquela que estava na sala de visitas, e ela me informou que ela ia lá todo dia, sempre ao mesmo horário. Rapidamente conclui que era hora de frequentar a sala de visitas.

No dia seguinte, decidi ir até a sala alguns minutos antes dela, escolhendo o melhor lugar para observá-la caso ela limpasse a mesma estante do dia anterior. E esperei o tempo passar.

Mas o tempo passou, passou e passou. Já estava na hora do jantar quando me dei conta, até o chá da tarde já havia passado. Havia algo errado, não era possível que no justo dia que eu decidira observá-la, ela tinha mudado de horário. Era impossível tal azar.

Precisava descobrir o que havia acontecido, e fui atrás da outra empregada que me dera informações. Mas revirei a casa e não tive nem sinal dela.

Tive que desistir, afinal, já era quase hora de eu me recolher em meu aposento e a comida já deveria estar fria. Fui para sala de jantar, e apesar que estava tarde, a comida permanecia na mesa. Ao final da refeição, enquanto bebericava meus últimos goles de café, uma criada apareceu, mas assim que me viu ficou confusa por me ver.

Como procedimento padrão, ela pediu desculpas e se virou na direção que viera, mas a impedi.

— Sim, senhor? – ela disse receosa.

O olhar dela parecia impetuoso, e dava a entender que qualquer fala minha que sugerisse algo inapropriado seria arduamente julgado para ela. E provavelmente, ela contaria para todos os outros empregados. Eu precisava ser cauteloso.

— Eu estava analisando o quadro de horários dos criados – falei pausadamente porque o olhar dela parecia denunciar a minha mentira – e percebi que uma empregada que deveria fazer a limpeza da sala de visitas não compareceu ao seu posto. Você saberia, por acaso, o que aconteceu?

Ela franziu o cenho. Parecia que eu tinha feito algo de muito errado falando sobre isso com ela.

— Senhor. O senhor deve ter cometido algum engano Quem faz a limpeza e a manutenção da sala de visitas é um mordomo, e ele só às realiza em dias ímpares, e hoje é um dia par.

Ao ouvir isso, devo ter feito uma cara muito confusa, porque a empregada pareceu assustada com meu comportamento e pediu para se retirar, pois tinha coisas a fazer.

Assim que ela saiu do aposento, vi que tinha cometido um terrível erro. Eu sabia que minha imagem na mansão não era boa entre os criados, mas agora também seria visto como louco. Como louco! Era um absurdo, precisava terminar aquele dia assim que pudesse.

Fui para o meu quarto irritado e me esbarrei com um jovem mordomo. Eu me desequilibrei, mas o jovem, de tão fraco que parecia e era, caiu sendo que seus óculos foram ainda mais longe, deslizando pelo piso de madeira. Era notável seu constrangimento, pois mesmo com a cabeça baixa, suas orelhas ardiam rubras.

Ainda no chão, pegou seus óculos e de cabeça baixa se retirou. Por algum motivo, durante todo o processo, me mantive atento ao seu rosto tentando não esquecê-lo.

O dia seguinte foi monótono, e eu não dei te encontro com nenhum outro criado. O único momento em que vi vivos nessa casa foi quando olhei pela janela do meu quarto para o jardim e vi que havia duas jardineiras aparando as rosas. Elas pareciam tão entretidas que nem me perceberam observando-as.

No outro dia, vi que precisava sair de casa, havia alguma coisa que eu não entendia muito bem que estava me agonizando. Usei como desculpa para ir a cidade, umas contas que precisava resolver com o contador de meu pai. O único cocheiro da casa me acompanhou com seu par de cavalos. Era um senhor de idade, já viúvo e sem filhos, com cabelos grisalhos e acinzentados. Ele se mostrou respeitoso e quieto, sendo a única prova de que estava dirigindo a carroça, o seu assovio um pouco desafinado de uma canção popular.

O trajeto foi tranquilo, e na cidade tudo se resolveu até rápido demais, já que eu não tinha bem o que fazer. Quando vi, já estávamos voltando para casa antes do almoço.

Assim que cheguei, um par de criadas me alertou que o almoço ainda não estava pronto, logo pensei que não seria uma má ideia caminhar pelo jardim. Estava já indo pôr minhas botas quando as perguntei:

— Vocês acham que as jardineiras se incomodariam de serem observadas de perto por mim?

Elas entreolharam-se quase confusas e balançaram as cabeças em sincronia. Sorri agradecendo e fui pegar minhas botas.

No jardim, não havia o que fazer além de observar as flores já que as árvores ainda não estavam na época de frutos. Cheguei perto dos arbustos que as duas jardineiras do dia anterior estavam talhando, mas assim que coloquei os olhos nas rosas, vi que não estavam cortadas. Algumas rosas se estendiam além do arbusto e prendiam nas minhas roupas com seus espinhos, enquanto outras estavam decapitadas, brutalmente cortadas. Era uma cena esquisita, era impossível que duas jardineiras fizessem algo tão malfeito. Também havia buracos espalhados dentro do arbusto, e quando me esgueirei para ver por cima, encontrei no chão duas tesouras e algumas pétalas jogadas. Eu não queria imaginar como aquelas coisas chegaram ali.

Eu me levantei devagar, olhando para os lados para garantir que ninguém me vira perto da cena do crime, mas era como se ninguém se lembrasse daquele canto do jardim. Olhei no meu relógio e vi que já era hora do almoço, e que se eu me atrasasse levantaria suspeitas.

Depois do almoço, enquanto andava pela casa escutei uns sussurros perto da cozinha. Parei encostado na parede mais próxima que consegui sem que as pessoas que cochichavam em ouvissem.

— Um dia desses, eu o ouvi falando sozinho da sala de visitas.

— Isso não é tão ruim, anteontem o vi cair no chão sozinho, sem esbarrar em ninguém.

— Vocês sabiam que um barão do Norte está procurando por criados, acho que essa é uma boa oportunidade para sairmos daqui.

— Eu sei, estava pensando em ir lá amanhã mesmo. Com um louco comandando a casa, eu não vou suportar ficar aqui.

— Tudo bem, mas precisamos falar com ele para sairmos daqui, e não sei como ele vai reagir.

— É só falarmos diretamente com o contador dele na cidade, assim não vamos precisar falar com o patrão.

— Mas como nós vamos lá, se estamos tão longe e aqui não tem cocheiros.

Nesse momento da conversa eu tive que parar de ouvir.

Como não havia cocheiros nessa casa, se eu mesmo tinha ido para a cidade com um nesse dia?

Minha cabeça começou a latejar, meus joelhos tremeram, e eu caí no chão.

Acordei com a dor da pancada na minha cama em meu quarto. Eu realmente não tinha ideia de como havia chegado naquele quarto ou se o que eu tinha ouvido no dia anterior era verdade. Eu havia finalmente entendido o que estava acontecendo, mas precisava de alguma forma provar minhas ideias e chamei um criado.

Eu nunca havia o visto antes, mas ainda assim pedi dele uma lista de pessoas que funcionários da mansão. Inicialmente, pedi para ele ir, mas antes que ele passasse a porta, disse que iria com ele.

Ele me entregou uma muleta, avisando que a queda que eu havia levado dois dias antes tinha sido muito forte.

— Dois dias atrás? – disse engasgando.

— Sim senhor. Você não estava se alimentando bem e andando muito. Estava desidratado quando o encontramos.

— Por que não me acordaram antes? – questionei.

— Nós tentamos, mas o senhor não parava de balbuciar coisas estranhas e sem sentido. – eu devo ter feito uma cara de assustado, pois rapidamente ele completou – Ah, me desculpe, senhor. Devo ter falado demais. Aqui está a sala de documentos.

Ele abriu a porta e pediu para que eu entrasse primeiro. Avisou que precisava fazer a manutenção de alguns móveis e que precisava ir, me deixando só naquela sala.

Havia um livro um pouco grande que se intitulava de empregados da mansão. Coloquei-o em cima de uma mesa qualquer e o abri.

Tinha uma folha de prefácio, que comentava sobre a construção da mansão e a primeira geração da família e seus primeiros empregados. A partir da segunda página, já havia uma lista de acordo com o ano. Folheei até o ano que estamos, mas o livro estava todo em branco a partir dali. Eram dez páginas todas em branco sem uma palavra sequer, apenas uma folha rasgada de outro livro no meio daquele vazio.

“Olhe para frente” dizia.

Eu olhei e havia um espelho. No reflexo, apenas meus olhos assustados, incrédulos, e a sala vazia. Não havia mais nada, era isso o que o papel e o livro queriam dizer. Eu estava sozinho na casa.

Corri para o meu quarto com o livro em mãos, onde estou até agora.

Você entendeu diário? Eu sou uma maldição.

Alguém me escolheu para dizimar essa casa.

Dois dias se passaram, até que uma velha senhora achou a casa abandonada e o diário do dono. Ela achou interessante a tinta fresca mesmo que ninguém habitasse a casa a mais de 20 anos. Contratou uma dúzia de empregados, mas no dia seguinte só conseguiu contar onze.

“Esquisito” pensou ela.

Notas finais
E que tal, deixar um comentário agora? =)
Obrigada por ler!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!