Quimera - COBRINA
8 Capítulo 6 - Confusões
Notas iniciais
POV João
Chegar à casa do Pedro não foi fácil, sabia que ele estaria arrasado. Dito e feito entrei e fui direto para o quarto dele, lá estava ele sentado com o violão na mão cantando, falando ainda “ela não me quer mais...ela não me quer mais!”.
– Não fica assim Pedrinho, ainda tô aqui e te amo! – tentei arrancar um sorriso.
– Deixa de ser mané João, tô sofrendo. Ela já deve ter te contado né?
– Sim, ela comentou que vocês terminaram.
– Na verdade ela que terminou, mas quer saber? – respirou fundo, colocou o violão de lado e me olhou – Dessa vez não vou ficar aqui sofrendo, se ela não me quer tem quem quer. Acho que demorei muito pra perceber que já fazia dias que ela estava distante, tá na cara que ela gosta do Cobra. Não vou mais me humilhar pelo amor que não vou ter.
Fiquei parado, olhos arregalados, boca aberta e em silêncio. Aquele não era o Pedro, não era possível.
– Cadê o Pedro? O que vocês fizeram com ele seus aliens do mal?
– Para com isso João. Sou eu mesmo.
– Não é não, o Pedro que eu conheço é um idiota completamente apaixonado pela esquentadinha, que nunca desistiria fácil assim.
– Ainda sou completamente apaixonado pela esquentadinha, mas cansei de bancar o bobo. Ela não me quer. Quero ver ela bem e pelo jeito não é comigo que vai estar bem. Aquele sorriso não é mais por minha causa.
– Vem cá Pedrinho, um abraço de macho.
Não nos abraçamos, mas ao menos ele sorriu e ficamos lá à tarde conversando e ele tocando. Começou até a fazer uma nova música, pensei que seria daquelas que fazem até o papel chorar, porém ele me surpreendeu com uma música romântica que falava dos caminhos diferentes que a vida tinha, de amores que se acabam com o tempo algo assim, tava ficando boa.
POV Karina
Depois de uma noite sendo interrogada pela Bi e pelo meu pai, que é obvio ficou sabendo do término do namoro e se preocupou, pude enfim descansar.
Os dias começaram a passar e não vi mais o Pê desde aquele dia. Não me preocupava muito, sabia que precisávamos mesmo nos afastar, ainda sim sentia falta das maluquices dele. No entanto tava tão ocupada treinando para o próximo campeonato que nem perdia muito tempo pensando nisso.
Após um dos treinos o Duca e a Nat me chamaram para tomar sorvete, afinal tava fazendo muito calor esses dias como o Cobra tava perto o Duca convidou ele também.
– Peraí tô mesmo vendo isso? – comecei a rir.
–Ka deixa de palhaçada, só fui educado – disse o Duca sem graça.
–Bom seja por educação ou não eu vou do mesmo jeito – Cobra não podia perder a oportunidade de provocar.
–Esses dois nunca vão parar de provocar, mesmo treinando juntos – Nat não conteve os risos e eu a acompanhei é claro.
– Vamos logo que vocês já estão parecendo mulherzinha cheia de frescura.
– Verdade — Nat concordou comigo.
Os dois se olharam e fizeram uma cara de que iam aprontar.
– Mulherzinha? Vamos mostrar.
Eles correram em nossa direção o Cobra me pegou pelas pernas e colocou nos ombros girando comigo, Duca pegou a Nat nos braços e girou também. Rimos muito e retiramos o que dissemos depois fomos, enfim, tomar o sorvete.
Entre conversas e risos a Nat nos convidou para assistir a disputa entre duas academias de Botafogo. Nem precisou repetir o convite, claro que aceitamos. No inicio da noite lá estávamos o quatro dentro do carro do Duca a caminho das lutas, quando descemos do carro eu e a Nat fomos para perto da entrada enquanto os meninos foram comprar os ingressos.
– Você e o Cobra estão bem próximos né Ka?
– É ele se tornou meu melhor amigo, ainda mais depois daquelas coisas com o Lobão.
– Verdade, ele sempre quis te proteger e cuidar.
– Pois é isso nos aproximou muito e agora que ele tá me treinando, ficamos mais próximo ainda.
– E não rolou outro beijo?
– Claro que não! – levantei a sobrancelha – Por que aconteceria?
– Ah sei lá Ka, vocês se dão tão bem, estão sempre juntos, pensei que pudesse estar acontecendo algo a mais.
– Somos amigos, depois daquele beijo ele disse que foi como beijar uma irmã, acho que é só isso. Apesar dele beijar bem – por um instante fiquei lembrando daquele momento, das mãos dele em meu rosto, seus lábios nos meus – olha que você me fez lembrar Nat, nem tinha pensado nisso.
– Você é engraçada Ka- ela sorriu – Mas sinceramente acho que você pode ser tudo para o Cobra, menos irmã. Talvez ele tenha dito isso só pra te deixar mais tranqüila, até porque você tinha deixado claro que ainda gostava do Pedro e ele também estava apaixonado pela Jade, não é?
– Bom – fiquei pensando – Pode ser, porque fui eu que sai assustada do beijo. Mas vamos mudar de assunto que eles estão vindo aí.
– Ok, depois falamos disso.
– E aí meninas prontas? – Duca disse enquanto pegava na cintura da Nat e ela abria um sorriso para ele.
– Vamos marrentinha? – Cobra me olhou e já foi guiando com a mão nas minhas costas.
Depois da luta fomos lanchar, de volta pra casa e hora do descanso dos justos.
POV Cobra
Quando descemos do carro eu e o Duca fomos comprar os ingressos, ele ainda me implicava, mas já nos dávamos bem.
– Posso te fazer uma pergunta?
– Acho que já fez Duca – ri debochado – mas pode fazer a outra.
– O que tá rolando entre você e a Ka?
– Até onde sei nada – fui sincero.
– Não é o que parece, mas de toda forma não a faça sofrer.
– Eu nunca faria nada para machucar ela. Mas por que você acha que vai acontecer algo?
– Sério que você não sabe? – dessa vez era ele quem agia de forma sínica.
– Somos só amigos, tipo irmãos.
– Depois você pensa um pouco mais sobre isso, porque na boa, o jeito que vocês se olham, se entendem, cuidam um do outro mostra muita cumplicidade que pode ser só amizade, mas tem horas que te vejo olhando pra ela de forma diferente.
– A Ka é muito bonita Duca, qualquer cara vê isso, e eu não sou cego.
– Isso é verdade. Relaxa Cobreloa foi só uma pergunta. Agora vamos logo, antes de perder as lutas.
Entramos e eu tentei não pensar muito naquilo, porém sentado ali do lado da Ka confesso que por um momento me perguntei ‘ Será que o Duca está certo? Será que tá rolando algo e nem percebi?’. A resposta não demorou muito a chegar, no fim das lutas a Ka começou a conversar com um dos lutadores, ele devia ter 18 ou 19 anos. Enquanto eles riam e ela anotava o número dele no celular meu coração acelerava, uma raiva me invadia, não conseguia parar de olhar eles, ainda bem que um cara esbarrou em mim me tirando daquela situação.
De lá fomos lanchar e depois fomos pra casa. Deitado fiquei pensando em tudo que tinha acontecido, nas palavras do Duca e na raiva que fiquei. ‘Cobreloa, parabéns você oficialmente está ferrado! Tá afim da única pessoa que nunca vai te querer’, falei em voz alta enquanto respirava fundo fechando os olhos. Lembrei do nosso beijo, dela falando que eu era como um irmão era isso me tornei um IRMÃO.
Na manhã seguinte fiquei pensando em tudo de novo e cheguei à conclusão tava louco, apenas me deixei levar pelo que o Duca falou e como a carência bateu acabei acreditando que sentia algo a mais. Até porque depois da Jade fiquei com algumas mulheres, mas nada além disso. Fiquei tão concentrado nesses pensamentos que nem percebi quando a Ka entrou no QG, só notei quando senti um tapa na parte de trás da cabeça.
– Acorda Cobreloa!
– Tá querendo apanhar novinha? – fiz cara de sério – Como chega assim me batendo? Perdeu amor a vida?
– Deixa de drama que foi só um tapa, do jeito que você tava distraído eu podia ter até te derrubado. Mas vim te chamar pra almoçar lá em casa, a Dandara fez macarronada, sua família já tá lá.
– Beleza, vou fechar o QG.
Durante o almoço a Bianca disse que ia ao teatro à noite com o João e convidou eu e a Ka para irmos também.
– Pode ser, faz tempo que não assisto nada desde que terminei com o Pê – isso já tinha uns quatro meses, a Ka evitava a Ribalta.
– Não sou muito fã, mas vou também pra poder empatar o namoro do viciadinho.
– Tava demorando o Snake dar o bote.
– Gostei da idéia – disse o Gael – o Cobra deveria sair sempre com vocês.
– Aí já é demais mestre cruel, carregar vela ainda vai, mas levar poste é pesado.
Todos riram da cara que o João fez.
– Ah vocês ficam rindo, mas esse aí – apontou pro snake – fica querendo empatar meu namoro ao invés de investir logo no romance com a Ka, afinal esse casal de amigos tá mais pra lá que pra cá.
O silêncio pairou, só foi interrompido pelo tossir do Cobra que se engasgou depois do que o João disse. A Bianca deu um beliscão no João, Dandara tentou amenizar a situação dizendo que o João às vezes exagera nas brincadeiras, mas não teve jeito.
– Qual é João perdeu a noção do perigo? – Karina se levantou muito nervosa.
– Calma cunhadinha! Só falei pra vocês verem como é bom ter os outros cuidando da sua vida – viciadinho foi esperto e já levantou as mãos em sinal de rendição.
– Ainda bem que é brincadeira moleque – disse o Gael.
– Pô mestre também não precisa esculachar! Até que sou um bom partido – eu disse em tom de brincadeira arrancando risos novamente.
– Não abusa Cobreloa! – disse o mestre – Mas concordo que você mudou bastante, até faria gosto de te ter na família.
– Melhor mudar de assunto que já começou a melação – Ka disse fazendo careta.
– Também acho até porque temos de ir o Pedro chamou os meninos para ouvir a música nova dele, vamos passar lá na casa da Delma. Você vem Ricardo?
– O Pedro voltou? – Karina fez cara de surpresa e um abriu um sorriso.
Não acredito que ela ficou tão feliz em saber da notícia, ontem o lutador e hoje o Pedro, realmente essa semana ia ser difícil.
– Que bom, depois vou lá visitar o Pê.
– Vamos agora Karina, talvez você convença esse cabeça dura a ir também – disse minha mãe.
– Aí Aí agora vi, acho que ele não vai gostar muito de me ver por lá, mas vou só pra ver a cara do descabelado.
– Também não sei se vai gostar de me ver, mas vou mesmo assim, aproveitar pra ver a Tonton. E não deixar esse frouxo sozinho – ela disse bagunçando meu cabelo.
– Depois a gente acerta as contas no tatame, pequena.
– Então parem de enrolar e vão logo, pois não quero me atrasar para o teatro hoje à noite – Bianca disse impaciente.
– Sim senhora! – bati continência.
– Senhorita ô marginal, no caso dela é senhorita – João falou.
– Hoje você tá de TPM né viciadinho? – comecei a rir – Mas beleza de noite estarei aqui pra cuidar das ‘senhoritas’ – apontei para os dois e ri.
Ele fechou a cara jurando que ia me assustar, mas só me fez rir. Saí logo antes que ele ficasse mais nervoso. Enquanto descíamos as escadas a Ka parou e fez menção de voltar, segurei sua mão e olhei nos seus olhos.
– Relaxa qualquer coisa estou por perto.
– E acha mesmo que vou precisar da sua ajuda?
– Quando você ia no QG chorar ou bater no saco dizia que sim, né?
Ela me olhou tão firme, que agradeci a Deus por não ter visão de calor.
– Ok concordo. Vamos antes que eu mude de idéia – ela me deu um empurrão nas costas, delicada como sempre.
– Você e sua delicadeza – a puxei como se fosse derrubá-la, no reflexo ela já se segurou nos meus ombros jogando o corpo perto do meu para manter o equilíbrio, só não contava com chegar tão perto ao ponto de me dar um selinho. Ficamos ali nos olhando sem saber o que dizer.
– Num pode se aproveitar assim da distração não novinha, já chega me roubando beijo. Como assim? – Sorri e ela corou – Quando for fazer isso faça direito.
Aproveitei a proximidade de nossos corpos e já passei uma mão atrás de seu pescoço e a beijei, aliás um selinho mais demorado. Ainda sim era indescritível a sensação de ter meus lábios colados nos dela, seu corpo tão rente ao meu, pena que ela me empurrou.
– Tá louco Cobreloa? Já pensou se alguém nos vê? – não acredito que essa foi a preocupação dela.
– Calma Ka, foi só um selinho de amigos né? – ela sorriu.
– Tipo de irmãos né? – rimos juntos – Não faça mais isso, se não vai ficar sem herdeiros. Entendeu né? – ela arqueou a sobrancelha.
– De boa Ka, só peguei de volta o beijo roubado – pisquei e sorri de lado.
Nos soltamos seguindo em direção a casa do descabelado, dessa vez menos tensos, afinal estávamos juntos e isso parecia nos dar força pra enfrentar tudo, mesmo depois daqueles selinhos.
Ela agiu tão normal, sem susto, sem fugir, no caminho conversava normalmente como se nada tivesse acontecido. Isso é estranho o suficiente pra me deixar bem confuso, mas tranquilo, afinal ainda estávamos ali juntos.
Fale com o autor