Quimera
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ele deu três largos passos para trás, afastando-se da máquina como que em sonho. O som de seus passos ecoou no porão úmido e quase vazio. Ao parar, esperou que o eco cessasse, antes de voltar a respirar. O ar saiu de uma vez, num ofego que mesclava alívio, satisfação, incredulidade e espanto com a criação própria. Ela era real. Estava ali, bem à sua frente. Depois de longos 20 anos de sonhos e frustrações, ele tinha conseguido. Sua magnum opus, sua obra-prima. A razão da sua existência. Não, a razão de sua existência não era a máquina. Era ela. Ela, a sua Julieta, a sua Desdêmona. Ela, o amor de sua não tão doce juventude. Seu único e eterno amor. Ela, Amanda!
Virou-se para a mesa a seu lado e com as mãos trêmulas pegou o porta-retratos, seu objeto mais precioso. Passou de leve os dedos sujos sobre o vidro trincado, que se partira durante uma de suas falhas. Qual delas? Já não se lembrava. Foram tantas... Mas de que importava o vidro? O importante era a fotografia. De que importavam as falhas? O importante era que vencesse agora.
Beijou de leve o rosto na foto. “Vejo-te em breve, minha querida”, pensou. “Desta vez, eu hei de conseguir”. Lançou um olhar furtivo para os imensos cálculos que se espalhavam pela mesa, presos num monte disforme de papéis desordenados. Pensou em conferir tudo mais uma vez, só por garantia, mas se conteve. Não havia mais tempo. Talvez até houvesse, na verdade, pois o governo e a sociedade tinham desistido de apoiá-lo. Ninguém mais esperava por aquele louco. Ele não precisava se apressar. Porém o coração tinha pressa. Estivera longe dela por tempo demais. Tempo demais.
Tirou o chapéu surrado e atirou-o a um canto. Solenemente, baixou a cabeça e fez o sinal da cruz. Nunca fora lá muito religioso — nada religioso, na verdade —, mas sentiu que o momento exigia todas as formalidades possíveis. Ao reerguer a cabeça, empinou-a o máximo que conseguia e estendeu a mão para abrir a porta de madeira. Sim, de madeira. Queria ter feito de metal, todavia teve que cortar custos ao sair do hospício, pois quase todas as suas economias tinham se esvaído. De qualquer modo, qual era a diferença? Era uma porta, não era?
Entrou na máquina e sentou-se no pequeno banquinho do centro. Acima de sua cabeça, um mostrador de aspecto desleixado, embora entalhado com muito esmero na madeira mais resistente que encontrara, mostrava a data, o dia para o qual desejava voltar. “Desejava”, simplesmente, não. Ele precisava voltar. 27 de janeiro de 1915.
Lentamente, ergueu a mão e segurou a argola a que estava presa a corda que devia puxar para acionar a máquina. A linha que o ligava ao passado.
Respirou fundo e se deu conta de que suava frio. Não importava que aquela fosse a... Quantas seriam agora? Bom, não importava que aquela fosse a “enésima” vez que fazia aquilo. O nervosismo sempre estava lá, seu único companheiro de viagem. Será que ele estava pronto? Sim, estava sim. Tinha que estar. Prendendo a respiração — uma ação quase inconsciente, sem motivo conhecido —, fechou os olhos e puxou a corda com bastante força.
~~ ♠ ~~
— ... e é por isso que eu afirmo, a Marinha é uma ótima pedida! Sabemos que a tragédia do Titanic foi um tanto quanto assustadora, mas não deixe que isso te apavore!
— Perdão, o quê? — ele olhou em volta, confuso. Estava num grande salão de festa todo decorado. As pessoas no local vestiam-se elegantemente e seus trajes de gala deixavam bem clara a dimensão de suas fortunas. Ele estava cercado de ricaços.
Funcionara! Ele mal podia acreditar, depois de tantos fracassos, mas funcionara! O homem à sua frente — o qual, agora ele se lembrava, era o Conde Wright — continuava falando:
— ... então, eu pensei, se você gosta tanto dessa coisa de ser inventor, talvez pudesse projetar um navio para mim, um mai...
— Sim. Sei. É. Quem sabe. — ele interrompeu o Conde bruscamente, sem se preocupar com o olhar que o outro lhe lançou ao ser tão descortesmente impedido de concluir seu convite. — Desculpe-me, senhor, mas que dia é hoje?
— 27 de janeiro, é claro! — o homem olhou para o jovem como se ele fosse um louco.
— De que ano?
— 1915. Céus! Por onde você tem andad...? — novamente, o nobre não pôde terminar sua fala, pois o rapaz já saíra correndo em direção aos jardins, deixando-o para trás. O pobre Conde não teve escolha senão ficar parado em pé alisando sua longa barba, como era seu costume fazer quando enfrentava uma situação curiosa como aquela.
O inventor corria como se sua vida dependesse disso. Em muitos sentidos, ela de fato dependia. Vendo-se fora do grande salão, embora tivesse pressa, não pôde evitar desacelerar o passo, sua disposição esmagada pela beleza da noite. A lua minguante brilhava intensamente com tudo o que tinha e parecia haver estrelas demais no céu — essa impressão que ele tinha, provavelmente, era efeito da poluição resultante do “progresso”. Ele não se lembrava de que aquela noite estava tão bonita. Ah! A beleza, a calmaria que antecedem a tragédia! Pensar nisso lhe causou arrepios, e subitamente a noite passou de bela a assustadora, de agradável a gélida.
Tratou de sentar-se na beira da grande fonte, ao lado de uma roseira de flores vermelhas. Vermelho-sangue. Não, não pense nisso!
Olhou para seu velho relógio de bolso, mas este estava parado. Tinha se esquecido de dar corda. Ou, talvez, fosse essa a consequência de brincar com o tempo daquela forma. Seu relógio parava. Qualquer que fosse a causa, o fato o irritou. Agora, não tinha nem como tentar antecipar a chegada dela. Na verdade, nunca teve. Seu relógio sempre esteve parado. Ele não se lembrava.
De todo modo, ficou de pé. Aproximou-se da beira da rua. Quaisquer segundos que ganhasse seriam fundamentais, e ele sabia disso.
Numa biblioteca longe dali, num lugar que o jovem inventor não conhecia e jamais conheceria, a areia de uma ampulheta caía lentamente, marcando a passagem dos minutos. Enquanto isso, a sinfonia dos grilos zombava do pobre rapaz, cujo nervosismo agora se traduzia em uma batida de pé rápida e ritmada.
Demorou uma eternidade. Entretanto, ela veio. Ele ouviu seus passos do outro lado da rua, vindo através do mato. Por sua visão periférica, viu o automóvel se aproximando, acelerando como que de propósito. Ele sabia de antemão, é claro, que o motorista fazia o possível para frear e que seria inútil.
— Jachin?— ele ouviu seu nome na voz dela e seu coração deu um salto e começou a bater desenfreadamente, como se ganhasse vida novamente depois de muito tempo em estado vegetativo. Ele pensou que morreria, que os músculos fragilizados pelos longos anos de depressão não suportariam o ímpeto daquela emoção. Tivesse pensado melhor, lembrar-se-ia de que os tais longos anos ainda não haviam acontecido e que ele tinha novamente o coração de um garoto de 15 anos de idade. Ele não teve tempo para pensar nisso, é claro.
O carro se aproximava cada vez mais rapidamente. Restavam apenas milésimos de segundo. Ele correu ainda mais do que correra para chegar ao jardim. Se alguém estivesse cronometrando, ficaria assombrado com a velocidade sobre-humana que atingira e mais ainda com a potência de sua voz ao gritar:
— Amanda, não!!!
Ele viu tudo como se Cronos* tivesse lançado mão de seu poder de titã e houvesse desacelerado o tempo. Viu o rosto de sua amada mudar da felicidade por vê-lo para o pavor ao ver os faróis do automóvel. Viu quando ela se virava para tentar escapar. Ele sabia que ela não conseguiria. Não sem ele. Saltou com todas as suas forças, e pôde comprovar que aqueles que dizem que o desespero nos deixa 10 vezes mais fortes têm toda a razão, pois era impossível que tivesse conseguido alcançar tão grande distância. Ainda bem que temos tal capacidade, pois foi por pouco, muito pouco, que ele conseguiu empurrá-la a tempo. E foi por muito pouco, também, que ele próprio não foi atropelado em seu lugar.
O motorista deve ter girado o volante, pois o carro se virou e, saindo da estrada, bateu numa árvore a poucos passos de distância deles.
O ilusório efeito “câmera lenta” criado pela mente dele continuava, pois ele viu quando ela ergueu a cabeça, assustada, e fixou os olhos verdes-água nos dele. Ela estava suja, despenteada e tinha um grande arranhão na bochecha, mas para ele estava linda. E viva, o que era mais importante. O coração dele começou a bater ainda mais rápido. Contudo, tudo isso durou apenas alguns segundos. Tudo muito rápido, a despeito do que o cérebro dele quisesse lhe mostrar.
Ele ergueu a mão para tocar o rosto dela como que em transe. Seus olhos captaram, no entanto, a explosão atrás dela. O carro devia estar vazando gasolina. Ele assistiu apavorado enquanto a onda de calor vinha com toda a força na direção deles, e não havia nada que pudesse fazer. A última coisa que sentiu foi o impacto do corpo dela caindo sobre o dele e o calor infernal dominando a tudo. Mais nada.
~~ ♠ ~~
O peito doía com extraordinária força, tão intensa que ele desejou morrer naquele exato momento, apenas para que o suplício cessasse. Arfava veementemente, como se tivesse passado anos sem respirar e agora recuperasse todo o fôlego. O sobe-desce do tórax piorava a dor. O suor escorria num fluxo que parecia interminável e se alguém o visse pensaria que tinham acabado de lhe atirar um balde d’água.
Sentia-se tonto como se alguém tivesse feito uma lavagem cerebral nele. Apesar disso, ele se lembrava, e isso era o que mais doía. A dor que sentia não era física, era de um tipo muito pior e muito mais cruel. Era a dor de um coração partido. Pior. Era a dor de um coração partido pela segunda vez. Mal tivera tempo de se reconstituir, já fora estilhaçado de novo, desta vez em pedaços menores e ainda mais pontiagudos, mais letais.
Parecia-lhe que a experiência lhe havia sugado sua própria vida. A viveza lhe abandonara. Poderia ter ficado sentado ali para sempre, no chão, em frente à sua máquina milagrosa que acabara se tornando a via expressa para seu pior pesadelo. Mesmo assim, levantou-se. Levantou-se e arrastou o que restava de seu ser até a mesa, desabando assim que pôde na cadeira em frente a ela.
Deixou-se cair sobre os papéis, sucumbindo. Como um cego, agitava as mãos desordenadamente, à procura de algo que não podia ver em meio à bagunça, mas que sabia que estava lá. Centenas de anotações, de cálculos e recálculos, de cartas fechadas e outros tantos manuscritos caíram no chão, até que as mãos encontraram, sem ver, o papel que procuravam.
Ergueu a cabeça a custo e forçou-se a ficar ereto — ou quase — novamente. Como o esperado, o papel tinha mudado magicamente. Não era um tipo bom de magia. Era o tipo de magia que te faz chorar de medo à noite e te faz querer gritar de pavor. A data continuava a mesma, mas a notícia tinha mudado.
Conquanto o coração reclamasse, o inventor não respondeu às suas súplicas. Ele não largou o jornal, como deveria. Ao contrário, fez questão de continuar a leitura, de ir até o final daquilo, de terminar de enfiar a estaca em seu peito ferido. Cada palavra trazia de volta uma lembrança que se mesclava com as lembranças da primeira morte de Amanda. Dor em dose dupla. O maior dos masoquistas.
(clique aqui para ler o jornal)
Ele interrompeu a leitura. Não precisava saber mais. Ela tinha morrido de novo, isso era o que importava. Ele havia fracassado. “O milagre”, eles chamavam. Para ele, não houve milagre algum. Antes tivesse morrido junto com ela! Se tivessem permanecido juntos, não importava se em vida ou em morte, se tivessem permanecido juntos, aí sim ele teria tido o milagre que desejava! Atirando o jornal com raiva contra a parede, debruçou-se novamente sobre a mesa e chorou. Dizem que chorar é o único analgésico que pode aliviar a dor de uma alma arrasada. Se havia outro, ele não conhecia.
O homem não saberia dizer ao certo por quanto tempo chorou. O tempo, seu arqui-inimigo, o enganara de novo. Podem ter sido apenas alguns minutos, como podem ter sido dias seguidos. Quem haveria de saber? De todo modo, nada mais parecia fazer sentido na contagem do tempo. O tempo não era mais o mesmo.
Levantou-se e, com passos preguiçosos, obrigou-se a andar até o outro lado do largo porão até a grande tina de água que ali estava. Mergulhou a cabeça nela com o propósito de “despertar” e, embora a ideia de desistir e deixar-se afogar parecesse deveras atraente, emergiu segundos depois, sacudindo a cabeça para tirar a água dos cabelos lisos e castanho-claros. Estava agora desperto e com novo ânimo. Decidira tentar novamente. Não podia desistir agora. Aquela fora a primeira vez que conseguira de fato voltar ao passado. Falhara, é verdade, mas tinha sido uma falha muito menor, se comparada às anteriores. Ademais, aprendera com seu erro. Desta vez, haveria de ter sucesso.
Respirou fundo mais uma vez. Sabia que provavelmente devia comer, mas não sentia fome. Sabia que provavelmente devia descansar, mas não sentia sono. Havia muito que devia fazer, mas não sentia necessidade de nada. E, de alguma forma, ironicamente, sentia que não havia tempo para isso. Assim, apressou-se mesmo sem razão e entrou na máquina novamente, desta vez sem nenhuma cerimônia. E, sem medo, puxou a corda que talvez o enforcasse agora. Tanto fazia.
~~ ♠ ~~
— ... e é por isso que eu afirmo, a Marinha é uma ótima pedida! Sabemos que a tragédia do Titanic foi um tanto quanto assust...
— Sim, Conde, eu adoraria trabalhar em seu navio, ora por que não? Um inafundável, de preferência, não é? Sim, sim, isso parece bom! Agora, com licença, Conde, há um lugar a que eu preciso ir. — o rapaz se afastou às pressas. O pobre nobre teve de se contentar em ficar alisando sua longa barba enquanto se perguntava de onde vinha aquele estranho déjà vu que sentia naquele momento. Que fato curioso!
Chegando lá fora, o inventor correu para atravessar a rua. Iria esperar a amada daquele lado e a tiraria de perto o mais rápido possível. Desta vez, o carro não teria como pegá-la, nem direta e nem indiretamente. Desta vez, ela sobreviveria. Ele sorriu com a confiança que o inundou.
Não teve que esperar muito, e logo ouviu um barulho na mata.
— Jachin? — ele ouviu seu nome. Ela tinha um jeito de chamá-lo, prolongando a sílaba tônica do nome dele... Ah! Só ela o chamava daquele jeito! Como ele sentira falta de ser chamado assim!
Logo a dona da voz apareceu, e pela primeira vez ele pôde realmente reparar nela. Ela estava estonteante. Usava um vestido curto e azul-claro que contrastava com o vermelho natural de seus cabelos, esse vermelho raro que apenas 2% da população mundial tem a sorte de carregar nos genes. Sim, a beleza dela era rara. Era uma mulher, uma garota na época, rara. Não era uma mulher, era a mulher.
— Venha, precisamos sair daqui! — ele disse, pegando a mão dela e puxando-a em direção ao centro do bosque de onde ela tinha acabado de sair.
— Por quê?
— Shh... Não pergunte, apenas venha! — o coração dele batia desenfreado. Precisavam sair dali. Ele sentia que precisavam.
Ele pôde ouvir o carro passando desenfreado na estrada atrás deles. Ela não notou.
O casal correu através da mata por uma trilha improvisada durante quase cinco minutos, até que ele finalmente sentiu que era seguro parar. Encontravam-se bem no meio de uma clareira perfeitamente circular e de grama rasa. Ele soltou a mão dela e olhou para seu rosto. Ela retribuiu com uma indagação nos olhos verdes como o mar num dia de sol.
Um segundo. Um segundo foi o tempo que durou essa troca de olhares. Uma batida do coração dele. Um ofego. Foi apenas isso, e depois ela caiu no chão. Morta. Carbonizada, de novo. Ele milagrosamente escapou. Nem conseguira ver o que a atingiu.
~~ ♠ ~~
— ...ÃÃÃÃÃÃOOooo!! — quando o grito cessou, ele já estava de volta ao presente, de volta ao porão quente e úmido.
Desta vez, ele não ficou naquele estado de torpor. Seu peito doía mais do que nunca, numa dor tripla, e sua alma parecia ter sido rasgada ao meio, mas ele não se importou. Agora, além da tristeza profunda, havia raiva. Ele só queria saber o que tinha acontecido.
Ignorando o cansaço físico — ao que parecia, a viagem no tempo trazia também consequências para o corpo —, ele se levantou correndo e pegou o jornal no chão. Como este tinha sido atirado com fúria na parede, suas folhas tinham se espalhado, e o homem de mãos trêmulas e desajeitadas demorou a encontrar a página que procurava, mas ela estava lá:
(clique aqui para ver o jornal)**
O homem amassou com raiva a folha do jornal. Então fora isso o que acontecera? Um raio? Como?! Por quê?! Por que ele não conseguia salvá-la?
Colocou as mãos em garra sobre o peito e apertou com força. Doía, mas pelo menos a dor física o distraía um pouco da dor de sua alma. Ele a tinha visto morrer de novo. Pela terceira vez. Bem na frente dele. Pela terceira vez, ele deixara que acontecesse. Não conseguira protegê-la.
— Devia ter sido eu, não ela! — ele olhou para o teto mofado do porão, falando com o alto. — Por que ela? Antes tivesse sido eu! Eu não me importaria! — as lágrimas começaram a escorrer. — Se ela pudesse ter uma vida longa e feliz como merecia, então... — os soluços sacudiam seu peito. — Então... Eu iria no lugar dela! Se eu pudesse... — ele baixou os braços e a cabeça e ficou ali, sentando no chão, chorando. A mais infeliz das criaturas.
~~ ♠ ~~
Os convidados da Duquesa olhavam com estranheza o casal que corria a toda salão adentro.
— Jachin, o que está fazendo?? — a garota perguntava, assustada e um tanto brava. — Jachin??
— Calma, está tudo bem, você vai ficar bem! Você vai ficar bem! — ele ofegava. — Eu não vou deixar que nada lhe aconteça, você vai ficar bem!
Todos os olhares se voltavam para eles quando o casal parou no meio do salão. Ninguém mais dançava. A música parara. Amanda dava risinhos constrangidos, sem saber o que fazer. Ela ergueu os olhos para ele, furiosa. Ele retribuiu o olhar.
No instante em que seus olhos se encontraram, porém, ele viu a luz deixá-la. A visão dela se embaçou, seus olhos ficaram turvos e lentamente começaram a se fechar. “Jachin...”, foi tudo o que ela pôde sussurrar, antes de desabar nos braços dele. Morta.
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— Amanda, Amanda!! — ele ainda gritava em desespero quando abriu os olhos, de volta a 1935.
Desta vez, não tivera forças nem vontade suficientes para se levantar. Deitado mesmo, arrastou-se lentamente em direção à folha de jornal amassada aos pés da mesa. Quando finalmente seus dedos a agarraram, ele fez o que pôde para se sustentar sobre os cotovelos enquanto lia: “Espécie nova de aranha causa pavor na festa da Duquesa Claire de Sayllin”.
Nova sessão de prantos, lamentos e injúrias.
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As manchetes continuaram mudando.
“Incêndio no baile da Duquesa deixa apenas uma morta”.
“Fio desencapado transforma a noite de festa em tragédia”.
“Ataque cardíaco de jovem apavora as damas no baile da Duquesa”.
“Morte misteriosa trás de volta a velha lenda do Salão Calivary”.
O inventor não aguentava mais. Tantas vezes! Tantas vezes ela escapara por entre seus dedos e de tantas maneiras absurdas! Ele sempre ficava, ela sempre partia. Sempre! Não importava o que fizesse, não importava o quanto ele tentasse evitar, ele sempre acabava perdendo-a de novo. Vez após vez. Tentativa após tentativa. Centenas de vezes seu coração fora partido em milhares de pedaços. Centenas de vezes. Agora, já estava tão triturado, que praticamente não existia mais. E ainda assim, doía como nunca. O suplício dos suplícios, a tortura das torturas! Não era o castigo de Atlas pior do que o seu e nem mais pesado! Era mais do que um homem, quiçá mais do que um titã seria capaz de suportar. Era demais.
Levantou-se pela última vez. Antes de partir, precisava reunir suas últimas forças para o dever final. Precisava destruir a criação própria. Não podia permitir que outros sofressem o que ele havia sofrido. Tinha que exterminar a quimera que ele próprio trouxera ao mundo. Sim, “quimera”. Seria o nome ideal para aquela máquina, se ele fosse nomeá-la. Primeiro, apresentara-se a ele como um doce desejo, como a realização de um sonho. Depois, porém, tornara-se o monstro de sua destruição, o pior de seus pesadelos! Uma verdadeira quimera em ação!
Agarrou o machado que se recostava a um canto e partiu com fúria para cima da máquina. Ainda bem que a fizera de madeira! Assim seria mais fácil. Desferiu golpe após golpe com uma fúria crescente. Queria infligir no objeto a mesma dor que sentia por dentro. Não lhe importava que fosse impossível. Estava cansado do impossível.
Golpeou, e golpeou, e golpeou até que só restara um monte disforme de madeira destruída. Caiu no chão de joelhos, esgotado. Baixou a cabeça e deixou-se ofegar. Precisava retomar as forças para concluir o ato final. A peça estava quase encerrada.
Riu de si mesmo. É engraçado como tudo parece cômico quando o fim se aproxima. Sempre criticara Shakespeare. Criticava seus heróis. Chamava-os de fracos, dizia que seus finais eram patéticos. Otelo, Romeu. Se matando por causa de mulheres. Morrendo “por amor”. Que ridículo! Riu de novo. Era irônico que ele caminhasse para o mesmo fim agora.
Engatinhou até a mesa e ergueu o braço. Tateou um pouco e logo encontrou o que queria. Uma faca grande e afiada. O que ela fazia ali, mesmo? Por que a tinha trazido? Ele já não conseguia se lembrar. Parecia que tinha acontecido há tanto tempo... Tempo? O que é o Tempo?
Suas mãos tremiam, mas ele as obrigou a ficarem firmes. Pôs-se de joelhos e estendeu as duas mãos à frente, segurando a faca apontada contra o peito. Respirou fundo e fez o que pôde para ignorar o coração disparado que em vão implorava para viver. Em vão, porque ele já não podia mais viver, sequer sobreviver, como tinha feito até então. Era necessário acabar com aquilo.
— Amanda, minha querida! — ele se surpreendeu com a maneira como sua voz soava clara e não oscilava. Por dentro, ele já se sentia morto. Calou-se. Que devia dizer? Que se diz num momento desses? Ele não sabia. Jamais pensara que terminaria assim. Tampouco pensara no que diria à amada se pudesse, uma vez que tinha certeza de que poderia salvá-la.
Certeza! Ledo engano que todos os homens cometem, cedo ou tarde. A certeza nunca é certa! É apenas a suposição dos arrogantes que acham que tudo sabem. Ele sabia disso agora, tarde demais.
“Eu sou horrível, não sou?”, pensou. “Obriguei-te a morrer tantas vezes! Interrompi teu descanso eterno por nada! Oh, minha querida, que monstro terrível tiveste como amante!” As lágrimas começaram a escorrer. Ele não se importou. O amor que para ele antes era símbolo de fraqueza, agora se tornara símbolo de força. Sim, ele era forte. Era necessário ser forte para amar verdadeiramente, muito forte. Os heróis de Shakespeare eram os mais fortes dos heróis. Shakespeare...
— “Pensar devo que a morte insubstancial se apaixonasse de ti e que esse monstro magro e horrível para amante nas trevas te conserve?” — citou, derrotado. Não haveria nada melhor para dizer. — “Com medo disso, ficarei contigo, sem nunca mais deixar os aposentos da tenebrosa noite; aqui desejo permanecer, com os vermes, teus serventes. Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas. Olhos, vede mais uma vez; é a última.”***
Dizendo isso, e antes que a coragem lhe faltasse, desferiu o golpe mortal. Não sentiu dor. A dor de sua alma alquebrada encobria e ofuscava qualquer dor mortal. Caiu. E tudo o que pensou, enquanto a vida o deixava, é que finalmente se encontraria novamente com Amanda. Não para vê-la desaparecer, mas para ficar ao lado dela. Para sempre. Finalmente, nada poderia separá-los. Pensando nisso, deu um último sorriso débil. E expirou.
O porão ficou em silêncio completo. A paz finalmente reinava naquele lugar. Quando dessem pela falta do inventor e descessem para procurá-lo, nada dele encontrariam. Restara apenas um porta-retratos com um vidro trincado em milhões de pedacinhos.
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