Quietude

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Fic feita com muito amor depois de raxar muito a cabeça, espero que tenham uma boa leitura!

Numa tarde de sexta-feira, quando um casal de fregueses da Anteiku partiram deixando a loja vazia, passei a limpar as mesas como de costume. Já havia me habituado pelo menos com esses momentos tranquilos do dia, em que podia interagir com os clientes humanos, esquecendo momentaneamente que já deixei de ser um.

Vi Touka-chan esticando o corpo com dificuldade tentando alcançar os grãos de café no alto do armário, ainda era estranho ver uma ghoul tão perigosa tendo as mesmas dificuldades de uma garota normal. Quis ajudá-la, eu era mais alto que ela e poderia alcançar o pote de café sem tanto esforço. Mas sabia muito bem que Touka odiaria receber tal tipo de tratamento, ela teimava em fazer tudo sozinha, então decidi levar uma cadeira para que ela subisse em cima. Ao me voltar em sua direção já com a cadeira em mãos, me deparei com uma terceira pessoa no recinto.

Para minha surpresa, Yomo-san surgiu subitamente por trás da garota pegando o recipiente e entregando para ela. Deve ser um hábito dele aparecer assim do nada. Touka lhe sorriu agradecida e notou a grande mala que ele carregava.

― Ah, o gerente não está, então deixa que eu guardo a comida.

Essa “comida” certamente era carne humana, o que me causou certo mal-estar.

Touka agora sustentava uma conversa unilateral com Yomo, ele apenas ouvia e ela prosseguia com o assunto como se tivesse tido uma resposta do outro. De longe, aquilo parecia um estranho jogo de adivinhação, mas senti um pouco de inveja dessa relação próxima dos dois. A sempre orgulhosa Touka aceitava de bom grado a ajuda do homem que é como um irmão para ela, os dois entendiam os gestos sutis um do outro, o sorriso sútil da garota teve os mesmo valor que o mais solene “obrigada”.

Eu gostaria de ser alguém assim…

Talvez por ser um ávido leitor, me tornei muito ligado às palavras e não me dou bem com pessoas que falam pouco, pois não sei o que estão pensando. Essa poderia ser minha maior fraqueza, afinal fui enganado tão facilmente pelo eloquente discurso de Tsukiyama-san.

― Ei, Kaneki! Pare de viajar e vai logo trazer um café pro Yomo-san! Ele deve estar cansado da viagem― Touka gritou irritada, depois desceu ao porão para guardar a comida.

Obedeci a ordem. Preparei a bebida inquieto com o olhar que o homem com aura intimidadora mantinha sob mim. Cometi vários erros e me tornei desajeitado ao ser observado tão intensamente.

Yomo-san costuma ter um ar de indiferença, será que eu fiz algo que o irritou?

~x~

Com o termino do expediente, troquei de lugar com Nishio-senpai, que já estava estressado antes mesmo de começar seu turno. Me despedi do pessoal da loja e tomei meu rumo. Depois de andar por um tempo, senti que estava sendo seguido, tal sensação já me assombrava há alguns dias, mas especialmente hoje essa presença estava mais forte. Achei que estava apenas sendo neurótico, mas a tensão que sentia agora era real, e já estava na hora de confirmar.

Me esforcei em manter uma fachada calma, agindo o mais natural possível, contei mais seis quadras e entrei casualmente em um beco. Eu conhecia aquela área, sabia que aquele beco era um ponto cego para as pessoas apressadas que passavam por ali, não era necessário me preocupar com seus olhares curiosos. O beco era muito estreito para um ghoul atacar usando a kagune, em último caso, a saída do beco levava à uma avenida movimentada para onde poderia correr do perigo.

Respirei fundo, o suor escorrendo frio pela testa. Exclamei:

― Eu sei que está me seguindo, seja quem for, apareça!

O perseguidor saltou de cima do prédio ao lado, aterrissando de joelhos bem na minha frente. Pulei para trás, temeroso.

― Então você me percebeu. ― Disse indiferente, levantando-se.

Para meu enorme espanto, o perseguidor era ninguém além de Yomo Renji.

― Y-yomo-san! Por que… por que estava me seguindo?!― Indaguei com os batimentos acelerados e engoli o seco. Senti o kakugan no meu olho esquerdo pulsar por debaixo do tapa-olho. O pânico tomou conta da minha mente. Com tudo que estive vivenciando desde que entrei para esse mundo, traído por Rize e por Tsukiyama, já não sabia mais no que podia confiar. Até mesmo minha humanidade se tornou algo questionável, era só uma questão de tempo para minha sanidade também...

― Ken!

A voz grave e límpida ressoou em mim, ouvir meu nome me transmitiu misteriosa calma e segurança. Voltei a atenção para Yomo.

― Passou pouco tempo desde o incidente com o Gourmet― Lembrou― É perigoso você andar sozinho por aí.

Então era isso! Eu não devia ter entrado em pânico…O Gerente se preocupa demais, ele deve ter pedido ao Yomo-san para me vigiar desse jeito...

Me senti culpado pela minha desconfiança, como posso ser tão ignorante?

― Eu já estou bem, vou tomar mais cuidado de agora em diante. Você não precisa se forçar a fazer tudo isso…

― Yoshimura-san também disse isso.― Deu de ombros.

Hã? Se o gerente disse o mesmo, então... não foi ele que o mandou aqui? Yomo-san fez por conta própria? Mas por que...?

― Esse não é o caminho da sua casa, onde está indo?― Yomo interrompe meu pensamento.

― Ah, queria comprar um livro― Respondi automaticamente.

― Então vamos.

Yomo-san tomou a dianteira saindo do beco, sem dar tempo para me situar. Eu corri para alcançá-lo, afinal, ele nem sabia aonde fica a livraria.

~x~

Nós dois chegamos numa velha livraria de sebo afastada do centro comercial da cidade. Dessas lojinhas que parecem ter se perdido no tempo, devia ser a mesma desde o Período Showa* . Eu ainda ofegava levemente, acompanhar os passos largos do Yomo-san foi uma tarefa exaustiva. Entramos pela porta de madeira, fazendo soar o sino no teto. Eu cumprimentei amistosamente o senhor idoso no balcão, relaxei os ombros antes tensos, caminhei á vontade entre as estantes e pilhas de livros bagunçados, numerosos demais para um espaço tão diminuto. É como estar em casa!

Peguei um livro qualquer e comecei a folheá-lo distraído.

― Você vem aqui com frequência?― A pergunta de Yomo soou mais com uma afirmação.

E como todo animal em seu habitat natural, baixei a guarda e respondi sem exitar.

― Normalmente se pensa em ir à livrarias modernas, como elas vendem publicações novas que tem garantia de sucesso. Mas gosto daqui também. Perco a noção do tempo procurando um bom livro, e ás vezes quando encontro, é como se tivesse achado um tesouro escondido.

Nesse ponto eu já estava falando comigo mesmo, esquecendo que tinha companhia e tudo ao redor. Virei a última página chegando na contracapa, nela tinha uma dedicatória escrita à mão, dei um risinho vendo as letras desengonçadas e as acariciei com as pontas dos dedos.

Com o sorriso na face se alargando, continuei.

― Não só pelas estórias impressas do autor, mas também... Veja, esses livros carregam verdadeiras histórias dos seus antigos donos. Não é incrível?

Me dei conta que Yomo-san ainda estava ali em silêncio, ouvindo atentamente tudo o que eu dizia com os olhos ligeiramente arregalados. Percebi o quão constrangedor fora meu monólogo, imediatamente cobri a boca com a mão.

Até sentir um leve peso sobre a cabeça, onde Yomo-san depositou um um cafuné, bagunçando meus cabelos negros.

Não pude entender o propósito de tal gesto, que apenas me constrangeu mais do que já estava. Querendo esquecer o assunto, andei pela loja na procura de algo para distrair minha mente.

Passei os olhos pelos livros até achar um título que me chamou atenção na estante mais alta. Tinha a capa de cor vinho, que me atraiu instintivamente. Tentei pegá-lo, me equilibrando na ponta dos pés. Mas sem êxito.

Yomo-san surge de repente por trás de mim, segurando por baixo de meus braços e me erguendo no ar com facilidade. Tão surpreso fiquei com o ato, que peguei o objeto involuntariamente, sem conseguir pensar em nada.

O homem me pôs de volta ao chão, seu rosto como sempre ilegível. Lembrei brevemente de como ele ajudou Touka-chan mais cedo. Então por que ele simplesmente não me fez o mesmo agora?

Antes que pudesse abrir a boca para lhe questionar, Yomo-san segurou meu pulso, me guiando pelo corredor de estantes estreitas com certa dificuldade por seu corpo ser tão grande. Chegando no balcão, ele aponta o livro em minha mão para o velhinho, que parece captar a mensagem, respondendo com um sinal indicando um número com os dedos. Yomo puxa a carteira do bolso da calça jeans, e dá ao velho senhor o dinheiro correspondente ao valor indicado.

Eu assistia a cena ainda atordoado, boquiaberto com essa exótica forma de comunicação. Quando finalmente entendi a situação.

― A-ah, Yomo-san, não precisa… eu mesmo pag...

― Você não quer esse livro, Ken? ― Ao ouvir meu nome, abaixei a cabeça com as bochechas levemente coradas.

― S-sim. Obrigado.

Yomo fez uma expressão que lembrava vagamente um sorriso, parecia estar satisfeito com a resposta que ouviu.

~x~

O caminho de volta até minha casa foi tranquilo, Yomo-san ajustou seu ritmo ao meu, e nós caminhamos devagar, lado a lado. O silêncio ainda pairava no ar, mas misteriosamente isso não me incomodou dessa vez, eu apenas desfrutei da companhia discreta do homem ao meu lado.

Quando me dei conta, já estávamos em frente à porta do meu apartamento. Apertei a sacola de papel contendo o presente contra o peito.

O trajeto sempre foi tão curto?

― Nós já chegamos, Ken. ― Anunciou.

― Hm. Muito obrigado de verdade, Yomo-san.

― O livro foi barato. ― Ele respondeu, eu balancei a cabeça negativamente, e sorri.

― Não é isso. É que você sempre me chama pelo primeiro nome. Obrigado.

Ele pareceu confuso com o que eu disse. Até eu não sabia direito o que estava sentindo. Afinal, nem mesmo meu melhor amigo Hide me chamava assim. Uma coisa era certa, entendi que as poucas palavras de Yomo tornaram-se mais do que o suficiente, pois apenas dele chamar meu nome, sentia que um forte elo nascia entre nós.

― Sabe, desde que comecei a me transformar em um ghoul, existem momentos em que não sei realmente quem eu sou...Tenho medo de um dia esquecer quem é “Kaneki Ken”. Por isso, se esse dia chegar, e eu realmente sucumbir à loucura… Quero poder contar com você para chamar meu nome e me fazer lembrar que estou vivo, Renji-san.

Seu semblante permaneceu sério, mas seu olhar tinha um brilho terno e protetor. Só com isso entendi a resposta dele.

Aos poucos, eu estou aprendendo a sentir a imensa gentileza contida no silêncio de Renji.

Notas finais
* Período Showa: Período histórico do Japão situado entre os anos 1926 até 1989. Obrigada por ler até aqui. Essa dupla de personagens é rara, na verdade nunca vi nada sobre os dois, então espero que tenha gostado. Deixe sua opinião nos comentarios, críticas são super bem-vindas!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!