Questão de tempo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Filho, já é hora de ir pro colégio!
É, acabaram, as maravilhosas férias. Chegaram ao fim.
Levantei da cama, fui até o banheiro e saí um tempo depois, talvez mais animado que antes. Alunas novas, ver o pessoal. Talvez eu estivesse com saudades.
Meus pais já esperavam na cozinha para tomar o café.
E aí, Liam, ansioso?
É, pai, até que sim!
Espero que você esqueça aquela Liz! — Disse minha mãe revirando os olhos.
Liz, Lizzie ou Elizabeth foi a minha última namorada, nós terminamos no início das férias,
ela disse não queria passar seu tempo livre da escola presa a alguém. Lizzie sempre foi bem louca, bem solta, e isso fazia eu me sentir
atraído por ela, mas, parece que foi essa independência que a levou de mim. No início eu sofri sim, bastante, costumava dizer que ela seria para sempre o único amor da minha vida,
mas, depois de umas duas semanas eu vi as fotos que ela postou nas boates com aquelas amigas filhas da puta dela e fui melhorando. Saindo com os caras e tal. E hoje, bem, aqueles olhos escuros e aquele cabelo loiro com cheiro de rosas ainda mexe comigo, mas...
Vou esquecer, mãe, pode deixar! — Ela suspirou e sorriu.
Aliás, Toby deve estar chegando!
Dei uma última mordida na maçã e subi correndo as escadas de dois em dois degraus para pegar a mochila, celular e carteira. Maldita seja a foto da Liz que tinha lá. Não conseguia tirar.
Tobias estacionou a picape em frente ao Colégio e saímos lado a lado com os óculos escuros e bonés, talvez fôssemos os mais populares do East High mas eu odiava esse rótulo. Popular. Eu era só um cara, que jogava futebol, podia sim dizer que era bonito, mas, só um cara. Claro que na maioria das vezes esse rótulo me ajudava com as garotas, mas, não mudava tanto assim na minha vida em geral.
E aí, Whitmore, fiquei sabendo que a novata é uma gata!
Alec se aproximou com um sorriso no rosto. Um cara legal.
Sério? Interessante. — Abri um sorriso de lado que, já ouvi dizer, fazia as garotas irem ao delírio. Outra coisa que me ajudava.
É! Parece que o Chris já tentou, mas, ela nem deu bola.
Isso me soa como um desafio.
Gargalhei e Toby rolou os olhos, desde que tinha começado a namorar Rebecca, ele se tornou um tipo de Defensor da Integridade Feminina.
As primeiras aulas foram absolutamente entediantes, não consegui ver a maldita novata que devia estar perambulando por aí recebendo cantadas dos outros babacas e isso me deixava mais puto. No intervalo fui até o refeitório ao lado de Alec já que Toby já tinha ido correr atrás da Becca.
Ali! Sua direita.
Virei discretamente avistando a garota sentada na mesa, sozinha. Óculos preto de armação fina. Cabelos compridos e escuros, bem escuros. Olhos que tinham uma cor cinza fascinante. E, como eu não poderia deixar de notar, mesmo sentada suas curvas eram visíveis. Nada exageradas nem chamavam muita atenção, mas, ela era perfeita.
Eu vou lá.
Sorri para o rapaz boquiaberto e após pegar a bandeja me aproximei da mesa afastada que ela estava sentada. A garota nem olhou para cima, continuou lendo seu livro.
Posso?
Tem algo aqui dizendo que não? — Sua voz não era doce, mas, parecia música. Sorri com o corte e sentei de frente para ela.
Sou Liam Withmore.
Tem uma fama bem interessante por aqui. — Ela permanecia encarando o livro.
Já falaram de mim? — Apoiei os cotovelos na mesa e abri meu melhor sorriso.
É, parece que depois que você pegou todas aquelas garotas que não param de olhar para cá. — O tom que ela usou para falar "pegou" me deixou constrangido e isso não era normal.
A garota fechou o livro e encostou na cadeira cruzando os braços e olhando calmamente no fundo dos meus olhos como se soubesse todos os meus pecados.
Talvez eu tenha mesmo.
Ridiculamente arrogante. — Ela disse ríspida.
Talvez eu seja... Mas prometo que vale a pena.
E só piora... — Ela rolou os olhos levando as mãos até a cabeça para formar, numa agilidade impressionante, um coque alto com os fios.
Você também é bem grossa, não acha?
Cada um acha o que quiser...
Ela levantou segurando a bandeja e se virou.
Eu não vou nem saber seu nome?
Quem sabe um dia...
A Garota Sem Nome entregou gentilmente e com um sorriso no rosto a bandeja vermelha para uma das senhoras que trabalhavam por lá e saiu.
No resto do dia eu não vi a garota que, com toda a certeza, mexeu com a minha cabeça.
E vocês conversaram? — Toby estava parado na frente da minha casa.
Ela não quis me dizer o nome dela!
Puta merda! — Meu melhor amigo começou a rir enquanto eu rolava os olhos. — Liam Withmore levou um fora!
Não foi um fora!
Ah, por favor, claro que foi!
Eu vou ganhar aquela garota!
Duvido!
Arqueei as sobrancelhas e saí do carro batendo a porta sem dizer nenhuma palavra.
E aí, filho, como foi?
Bacana.
Subi as escadas pensando numa maneira de fazer aquela garota babar por mim como todas as outras. Não devia ser tão difícil assim. Ela não devia ser tão diferente das outras.
Rebecca. Oi. — Ligar para a namorada do meu melhor estava bem longe dos meus planos, mas algo precisava ser feito.
Liam? Oi. Tá tudo bem com o Tobias?
Tá, tá sim. — Eu suspirei — Eu só queria uma ajudinha.
Ela continuou calada.
Você sabe o nome dessa garota novata?
A risada de Rebecca me fez querer socar a cara daquela Garota Sem Nome filha da puta.
Eu nem sei se devia dizer!
Ah, Becca, por favor, eu sou praticamente seu cunhado. — Ela suspirou e depois de alguns segundos...
Saphira. Saphira Marin.
Puta que pariu. Eu te amo, cunhadinha!
Saphira. Ótimo.
Tomei uma ducha demorada, desci para jantar com meus pais e antes que eu pudesse
escapar minha mãe perguntou sobre Liz.
Eu não a vi. Talvez tenha mudado de escola, ou, morrido.
Espero que nunca mais apareça. — Lílian Whitmore odiava mais minhas ex-namoradas do que eu mesmo.
Conheci uma garota nova. Saphira.
Como ela é?
Perfeita! Mas, não deu a mínima ideia pra mim.
Essas são as melhores. Sua mãe passou um ano inteiro me ignorando!
É mesmo! Ele era um saco!
Minha família ficou muito unida depois que minha mãe perdeu um bebê. Hoje ele teria dez
anos. Nós nunca conversamos sobre como seria diferente ou algo assim, mas, parece que pensamos igual e dividimos a mesma dor por muito tempo. Perder alguém é ridiculamente triste.
Passamos o resto do jantar rindo de algumas das piadas sem graça do meu pai e quando acabou, fui para o quarto e sentei na mesa com o objetivo de começar a estudar para qualquer coisa que tirasse Saphira da minha cabeça, claro que não deu certo, deixando assim a minha última opção.
Toby!
Fala, cara.
Vai fazer o que hoje?
Ahn... Porra nenhuma.
Vamos para o Dallas?
Caralho, Liam, ainda é segunda!
O Dallas abre segunda?
Abre...
Então é porque podemos beber às segundas. Passo aí às 23 horas! Vamos levar a Becca?
Não. Ela tem medo de fugir.
Vocês combinam mesmo.
Vai se foder!
Desliguei o celular e o joguei em cima da cama, Dallas iria ser uma ótima distração, eu só precisava esperar mais algumas poucas horas até meus pais subirem para dormir e aí estaria pronto para conhecer novas garotas.
Estamos no último ano, no próximo já teremos que lidar com a faculdade, acredito que eu vá conseguir a bolsa de estudos em Stanford por causa do futebol, mas, enquanto esse momento não chega. Nós estamos nos preocupando para fazer a melhor festa de formatura que o East High já viu, e eu vou levar Saphira. É o meu objetivo até dezembro.
Saphira Marin era uma garota interessante que, por algum motivo, conseguiu minha atenção de um modo como nenhuma outra tinha conseguido antes. Ao vê-la no refeitório no primeiro dia de aula, eu quis conhecê-la e ela foi, bem, ela foi tremendamente grossa, mas eu não me importei, na verdade, isso só fez o desafio ficar melhor. Eu quero conhecê-la e ela vai gostar de me ter ao seu lado.
Meus pais ainda estavam assistindo TV, mas já era possível ouvir minha mãe reclamando que ele estava dormindo sentado então fui até o banheiro tomar um banho, escolher uma roupa e esperar que eles entrassem no quarto para dormir.
Filho, vamos dormir! Boa noite. — Minha mãe entrou devagar no quarto e eu fingi que ainda estava estudando.
Ah, tudo bem. Eu também já vou deitar.
Ela assentiu e sorriu deixando o quarto.
Pulei da cadeira, avisei Toby que eles já tinham dormido e coloquei a camisa social azul marinho dobrada até o cotovelo e a calça jeans quase preta.
Desci calmamente pelos degraus, peguei a chave na bancada e saí pelos fundos. Parei o carro na esquina de Toby e o mandei uma mensagem, alguns segundos depois meu amigo apareceu no portão e veio correndo até a Mercedes.
E aí, pronto?
Toby riu.
Sempre.
Liguei para o Alec, ele vai nos encontrar lá.
Tranquilo.
A viagem até o Dallas teve músicas altas e bebemos algumas Skarloff que Toby tinha trazido para nos preparar.
Estacionamos em frente a boate mais famosa de Seattle e mostramos nossas identidades falsas para o cara.
Podem entrar.
O cheiro de perfume e bebida invadiu minhas narinas causando uma estranha sensação de felicidade.
Dois shots de vodka.
Três! — Alec se aproximou e o barman assentiu. — E aí, irmãos!
Fala, Al, tranquilo?
Totalmente. Chegaram agora também?
Sim. Tá de carro?
Yeah. Peguei da Alexa.
Alexa, irmã do Alec já tinha se formado há uns dois anos, mas, mesmo ela estando no terceiro e Liam no primeiro ela visitou o paraíso.
E a Reb, Toby?
O que tu quer com a minha namorada? — Tobias estava meio avoado e acabou sendo grosso de graça.
Relaxa, cara, eu só perguntei.
Desculpa. Ela... ela ficou. Medo de fugir e tal. — Meu melhor amigo estava encarando a pista de dança de tal maneira que me deixou curioso.
Ei, seu merda, não é porque a minha cunhada tá aqui que você pode ficar...
Acompanhei seu olhar até o centro de todos os holofotes coloridos e lá estava ela. Jogando o cabelo de um lado para o outro com alguns caras olhando, seu corpo movia-se harmoniosamente com a música e seu sorriso contagiante teria me feiro sorrir se eu não quisesse matá-la.
Liz... — Engoli o seco e, como se ela tivesse escutado, abriu os olhos diretamente na minha direção.
Elizabeth se recompôs e sorriu vindo em nossa direção.
É... a gente vai indo pra... lá!
Toby apontou para um lugar qualquer que eu estava prestando atenção e puxou Alec deixando-me sozinho com o demônio que fodeu todo o meu psicológico.
Oi, Liam! — Ela não parecia nem um pouco sem graça. Jogou os braços em volta do meu pescoço e beijou minha bochecha. — Como você está?
Respirei fundo. Não daria à ela aquele prazer de me ver mal.
Bem, Lizzie, e você?
Tudo ótimo, amorzinho! Saudades de você. Mas agora eu tenho o Rob!
Senti meu rosto queimar. Quem diabos era Rob?!
Rob, amor, vem cá!
Um cara alto, com a barba por fazer, cabelo desgrenhado e, com certeza, muitas drogas no organismo se aproximou com os olhos semicerrados e beijou Liz.
Esse é o Liam!
Rob sorriu de lado.
Você é o cara certinho que entediava a Liz?
Como?
Ah... Ele tá bêbado, Liam, não liga pro que...
Mas é você que vive dizendo isso, princesa!
Rob gargalhou e Liz fechou os olhos esfregando a testa.
Tchau, Elizabeth. — Ela odiava quando eu pronunciava seu nome todo. — Foi bom te reencontrar.
A loira ficou parada vendo eu me distanciar. Saí da boate e parei ao lado do carro. Acendi um cigarro e fiquei encostado admirando as formas que a fumaça tomava ao redor da minha cabeça.
Liam, cadê você nesse caralho?
Aqui fora. Vou embora.
O que aquela garota falou?
Merda. Muita merda.
Rolei os olhos, desliguei o celular e após jogar o cigarro no chão entrei no carro.
A primeira vez que coloquei um cigarro na boca estava com Lizzie, ela tinha me oferecido milhares de coisas e só aceitei o cigarro para não ser "careta". Depois desse dia passamos a fumar juntos e beber vinho quase todas as noites no terraço do prédio dela. Quando nós terminamos, eu decidi me livrar de tudo que me lembrava à ela. Cigarros. Vinho. Terraços.
Decidi fazer um caminho diferente até em casa, não queria chegar tão rápido. Entrei em uma rua escura que dava para algumas casas e vi quatro sombras na calçada, três caras e uma garota. Me aproximei devagar para entender o que estava acontecendo. Eles iriam violentá-la! Não podia deixar isso acontecer. Segurei a pistola, que meu pai tinha por ter sido policial há muito tempo, debaixo do banco.
Estacionei o carro e me deparei com aquele rosto. Saphira.
Ei, saiam de perto dela! Já!
Os três babacas me olharam com desdém e um deles, talvez o mais alto, se aproximou enquanto os outros dois pegaram a garota pelos braços. Ela chorava compulsivamente e não parecia ter me reconhecido.
E você, criança, vai fazer o quê? — Um deles riu.
Tirei a arma da cintura e apontei para o que tinha se aproximado. Não tina ideia de como atirar naquela coisa, nem devia estar carregada. Apenas engatilhei e continuei apontando sem tremer.
Ei, irmão, calma!
Irmão nada! Traz a garota aqui!
O mais baixo jogou Saphira contra o meu peito e todos se afastaram. Subiram na moto que tinha do outro lado da rua e sumiram fazendo barulho.
Coloquei a pistola novamente na cintura e a levei nos braços até o carro. Ela sentou no banco da frente, ainda chorando.
Ei, calma, já está tudo bem!
Sorri segurando sua mão e, com a outra, ela limpou o rosto. Os olhos cinza se abriram para me encarar.
Liam!
Saphira...
Ela poderia ter rolado os olhos se não tivesse naquela situação, então ela sorriu sem abrir a boca e pediu para que eu a levasse para casa.
Durante toda a viagem ela permaneceu calada encarando a janela. Parecia traumatizada e provavelmente estava. Estacionei em frente a casa de Saphira e antes de sair ela se virou para me abraçar.
Obrigada. — Seu sussurro foi quase inaudível.
Sua silhueta andou até a porta da casa e sumiu lá dentro. Dei partida no carro e quando cheguei fui direto para o quarto, ansioso para chegar até a escola amanhã no dia seguinte e quase esquecendo de toda aquela merda com Lizzie.
Bom dia!
Desci as escadas correndo, estava atrasado. Chegar em casa quase às uma e dormir mais tarde ainda era a pior escolha que eu sempre fazia. Peguei uma maçã e liguei para Toby que estava quase entrando na sala, mas, voltou para me buscar porque eu já fiz isso milhões de vezes com ele.
Como foi ontem à noite, cara?
Ela disse que eu a entediava porque era muito certinho. — Rolei os olhos e imiteia voz daquele viciado de merda. — Mas ela me ajudou de algum jeito!
Abri um sorriso.
Como?
Encontrei Saphira, a novata, na rua e a levei para casa. Acho que vai melhorar nossa situação!
Ai, meu caralho, te ver fazendo cálculos para pegar uma garota é demais pra mim!
Entramos no colégio vazio, todos estavam em suas aulas, eu tinha esse primeiro tempo com a
Senhorita Donahue que, por sorte, me amava.
Com licença, professora...
Claro, Liam, pode entrar!
Sorri e quando olhei para o meu lugar de sempre Saphira estava lá, cabelo preso num alto rabo de cavalo, olhos delineados, calça jeans justa e uma camisa branca que devia ficar perfeita com a jaqueta de couro preta que estava atrás dela. Me aproximei e sentei ao seu lado no banco virando o boné para trás.
Querendo fazer charme, Liam? — Ela disse sorrindo mas sem se virar para mim.
Nem depois que eu te salvei você fica mais educada?
Quem sabe?
Ela sorriu novamente e quando vi estávamos indo lado a lado até o refeitório enquanto discutíamos sobre o gosto musical da garota. Ela ria alto e as garotas que passavam por nós pareciam querer matá-la.
Você gosta, não é?
Do que eu gosto? — Ela sorriu maliciosa
De ser invejada assim.
Por estar com você? Na verdade não, tenho pena dessas garotas que acham que vão ter as vidas mudadas após uma transa contigo!
Ah, você fala isso porque nunca transou comigo. — Ela gargalhou alto e eu sussurrei em seu ouvido. — Certeza que você curte um...
Fui interrompido com o dedo indicador de Saph em meus lábios e então ela se aproximou tanto seu rosto do meu na ponta dos pés que achei que ela iria me beijar.
Isso é, com certeza, uma coisa que você nunca vai saber sobre minha.
Meses depois
Saphira e eu nos tornamos amigos inseparáveis, não tivemos nenhum (absolutamente nenhum) envolvimento amoroso e parecíamos irmãos.
Bom dia, Fifi.
Já te falei que eu odeio esse apelido!
Saphira rosnou pegando seus livros dentro do armário e batendo forte.
Calma, nervosinha, o que houve?
Ah, nada, só tô me sentindo meio enjoada...
Você não tá...
Ah, Liam, pelo amor de Deus! Claro que não!
Ergui os braços como se estivesse me rendendo e seguimos até a aula da Literatura.
Nosso lugar no fundão já era garantido, as pessoas nem ousavam sentar lá, o que às vezes nos deixava desconfortável.
Chris, um garoto que vem tentando uma chance com Saphira a quase um mês, se aproximou.
Oi, Saphira.
Oi, Chris! — E ela estava quase cedendo.
O que você acha de irmos ao cinema?
O rapaz alto e loiro abriu seu melhor sorriso e apoiou um cotovelo na mesa que me fez rolar os olhos e bufar.
Claro! Quando?
Pode ser quinta?
Vi em seus olhos a decepção. Todas as quintas eu e Saphira assistimos um filme na casa dela. Ela hesitou por alguns segundos e eu achei que ela fosse aceitar, mas, seria ridículo da sua parte, já que eu tinha desistido de várias garotas ao longo desses três meses por causa dessa Noite do Cinema.
Infelizmente, eu não posso nas quintas... — Ela suspirou e eu ri.
Alguma coisa engraçada aqui, Withmore?
Chris olhou para mim de modo assassino.
Pergunta o que ela faz nas quintas.
Dessa vez foi Saphira que olhou como se quisesse me matar.
O que você faz nas quintas?
A feição de curiosidade do cara se transformou em raiva quando ela explicou, mas ele apenas assentiu e foi sentar do outro lado da sala.
Precisava disso, Liam!?
Ah, Fifi, desculpa. Eu não aguentei.
Não. Me. Chama. Assim.
Tá bom, fif... — Ela arregalou o olho de tal maneira que me fez rir levando-a junto.
Eu te amo, Liam.
Também te amo, Saph!
Passei o braço pelos ombros dela e beijei o alto de sua cabeça.
A professora entrou e iniciou sua fala sem fim sobre vários livros que eu não dava a mínima. Quase no fim da aula Saphira pulou do banco e correu para fora da sala. Todos ficaram chocados e a Senhorita Marple pediu para que eu fosse atrás dela, já que a essa altura todos sabiam de nossa amizade relativamente estranha, já que eu não era conhecido por ter amigas.
Saí da sala na mesma rapidez que Saphira saiu e quando cheguei no banheiro ela estava saindo.
O que houve?
Nada, é..., eu tô... tô bem...
Ela sorriu sem humor e eu entrei no banheiro. A privada estava cheia de sangue.
Saph...
Liam, mulheres menstruam!
Minha melhor amiga puxou meu braço e voltamos para a sala.
Desculpa, professora... Problemas femininos!
Saphira olhou pedindo apoio das outras garotas que assentiram, como se todas já tivessem passado pela mesma coisa.
Ela estava estranha, pensativa, parecia preocupada com alguma coisa, não estava falando muito e isso só me deixava com mais medo.
Saph, tá tudo bem mesmo?
Tá sim, Withmore. — Ela esticou o pescoço para dar um beijo em minha bochecha quando estacionei o carro em frente à sua casa.
Nas duas semanas seguintes Saphira não foi para aula nenhuma vez, me proibiu de ir até a sua casa, disse que estava com uma virose terrível e não queria que eu sofresse com a mesma coisa, a desculpa não foi muito convincente, mas, tive que aceitar.
Não nos reunimos para as quintas de cinema e ela estava parando de atender meus telefonemas, liguei para sua mãe que parecia um pouco atordoada mas confirmava seu bem-estar.
No domingo da segunda semana ela me ligou pedindo para que eu a buscasse em casa para ir à escola no dia seguinte e quando estacionei em frente à casa cor de creme ela saiu pela grande porta com roupas bem menos justas, cara pálida e, com certeza, alguns quilos a menos.
Saph!
Pulei do carro e corri até ela para abraçar a única garota que realmente fazia falta pra mim.
Calma, estou meio fraca! Me ajuda aqui...
Coloquei sua mochila nas costas e quando entramos na escola todos pararam para olhá-la.
O que esses babacas estão olhando? Nunca viram ninguém com uma virose não?
Ela rolou os olhos e continuou andando apoiada em meu antebraço.
Oi, Saphira, está tudo bem contigo?
Chris colocou as mãos na cintura dela para abraçá-la e beijar sua testa. Rolei os olhos. Ela pareceu feliz com a preocupação do babaca.
Está sim. Foi só uma virose!
Minha melhor amiga disse que eu podia ir porque ela e o filho da puta do Liam iriam conversar e ele a ajudaria lara chegar na sala.
Fui atrás de Toby, ele estava com Rebecca.
Becca, me empresta seu namorado rapidinho?
A garota assentiu e fui andando com Toby até o refeitório.
Tem alguma coisa errada comigo, cara!
O que foi?
A Saphira! Ela passou mal essas últimas semanas e eu senti muito a sua falta! Como nunca tinha sentido antes, sabe?
Você está apaixonado por ela, Liam?
Não, cara! Meu Deus! Não!
Saphira pra mim era só a minha melhor amiga, não conseguia vê-la com outros olhares. Ela era minha irmã, que eu tinha que cuidar e proteger de todos os caras escrotos que existissem na Terra, mas, estranhamente eu sentia outra coisa. Algo que não conseguia identificar...
Você a ama, bro, como irmão! Não precisa se preocupar. — Tobias colocou as duas mãos nos meus ombros e olhou no fundo dos meus olhos. — Você saberia se estivesse apaixonado por ela!
Respirei fundo e assenti. O sinal tocou e fomos para a aula de história.
Essa era uma das únicas aulas que eu não tinha com Saph e talvez fosse até bom, para eu pensar um pouco sem aquele perfume de lavanda invadir minhas narinas e sem aqueles olhos quase transparentes me encararem.
Passei a aula pensando no que dizer para ela, ou melhor, no que não dizer. Talvez eu estivesse sendo muito possessivo e ciumento então achei melhor me afastar um pouco dela nas férias que começariam na próxima semana.
Quando a aula acabou, caminhei em direção ao meu armário pegar o material de Francês sem fazer nenhum desvio para vê-la.
Oi, Withmore! — Camille ou Jamille, não sei direito qual das gêmeas era, encostou no armário ao lado do meu e jogou seu cabelo para o lado do modo mais clichê que eu já havia visto.
Oi... Princesa. — Melhor saída com certeza.
Ela suspirou, será que não percebeu que eu não sabia seu nome?
Você tem aula de francês agora, não é?
Sim! Você também?
Aham! — Ela piscava freneticamente e isso me assustava. — Pensei que podíamos ir juntos!
Claro...
A morena baixinha e com cabelos ondulados já estava segurando o livro e esperando que eu pegasse o meu e por um momento eu esqueci que essa aula, eu tinha com a Saphira.
Andamos lado a lado até o final do corredor e conversando sobre um novo filme que ela estava visivelmente esperando ser convidada para ver.
Podemos ir um dia desses.
Aham! — Ela piscou 50 vezes.
Ótimo.
Entrei na sala, o professor ainda não havia chegado, sentei no lugar de sempre e a Pisca-Pisca sentou ao meu lado direito, já que Saphira sentava ao lado esquerdo e todos sabiam disso. Cinco minutos depois o professor entrou e Saphira não tinha aparecido. Mais trinta minutos, a aula estava quase no fim e nada de Saphira aparecer. A aula acabou e Saphira não apareceu. Senhor Clavell nos liberou e eu levantei puto da vida. Será que Saphira estava em algum lugar com aquele filho da puta do Chris? Respirei fundo. Não tinha nada com isso.
Esperei a Pisca-Pisca terminar de arrumar suas coisas e a deixei em seu armário para ir até o meu e, ocasionalmente, passar em frente ao da minha melhor amiga. Ela não estava lá. Rumei até o meu armário mais puto ainda, peguei meu material de Física, mais uma aula, mas, dessa vez, só com Alec.
E aí, bro, tranquilo?
Sentei ao lado do zagueiro do time.
Preocupado, né?
Com o quê? — Franzi o cenho.
Saphira, cara!
O que tem a Fifi?
Ela sumiu, bro! Entre a primeira e a segunda aula ninguém a viu e nem viram o...
Por favor, não diga Chris...
...Chris... — Alec pressionou os lábios e pulei da cadeira em direção à porta.
No momento que ia sair a mulher mais baixinha e gordinha e que mais tem moral desse mundo esticou seu dedo gordinho para mim.
Nem mais um passo, senhor Withmore, volte para o seu lugar!
Respirei fundo e girei os calcanhares voltando para a minha cadeira. Mais uma aula e perdida e novamente por causa de Saphira.
No segundo em que a aula de física acabou e todos foram em direção ao refeitório eu estava tão puto que provavelmente teria matado quem viesse me perguntar de Saphira.
Você! — Bradei ao dar de cara com Chris que recebia alguma coisa de um calouro.
Ei, calma aí, irmão...
Aonde ela está?
Sua namoradinha? Ou a minha? — Ele zombou e umedeci os lábios na tentativa de não arrebentar a cara dele.
Cadê a Saph?
Eu a deixei em casa, estava se sentindo meio mal... — Ele piscou — Relaxa, capitão, ela tá bem.
Bufei e andei até a fila da cantina à passos largos e pesados.
Oi, é a Saphira! Deixe seu recado após o sinal.
Se não fosse tanta babaquice teria jogado aquele celular pela janela. Guardei-o no bolso e voltei para a mesa com Alec, Toby, Becca e a Pisca- Pisca se aproximou.
Agora não. — A morena murchou e girou os calcanhares voltando para sua mesa como se nada tivesse acontecido.
Meus amigos nem fizeram piadinhas com medo da resposta, eles sabiam como eu ficava quando o assunto era Saphira. Rebecca pediu licença e foi se sentar com as amigas para que pudéssemos conversar.
O que me deixa mais puto é que ela podia ter me ligado! Ela estava passando mal! Sabia que eu iria atendê-la!
Mas ela devia estar com o Chris no momento...
Foda-se o Chris! — Por um tom a mais todos no refeitório escutariam, mas apenas umas cinco pessoas viraram para descobrir o que estava havendo. — Eu não vou conseguir ficar aqui, sabendo que ela está mal e sem poder fazer nada.
Liam, não! — Tobias disse em vão.
Não, é? — Ri com desdém.
Saí do refeitório e em poucos minutos já estava em frente a casa de Saph. Desci do carro correndo e bati na porta.
Liam! Oi... — Era Billy — Ela está lá em cima.
Assenti e subi os degraus de dois em dois até chegar ao quarto que tinha paredes totalmente tomadas de fotos e pôsteres.
Liam... — Minha melhor amiga sorriu ao me ver. Seus lábios estavam ressecados e ela estava mais pálida que de manhã.
Oi, meu amorzinho. — Minha voz saiu mais suave do que eu esperava. A mãe de Saph me abraçou e saiu do quarto. — O que houve?
Tirei o tênis e me deitei ao lado dela.
Por que você pediu para que o Chris lhe trouxesse? Você devia ter me ligado! Eu nem voltaria pra escola.
Mas não foi o Chris quem me trouxe...
Como não? Quem foi?
Ele deu a chave do carro para um desses calouros, disse que não podia perder aula...
Esse filho da puta vai ganhar um olho roxo! Com toda certeza!
Não, Liam, fica calmo... — Saph ficou um pouco nervosa e seu corpo tremeu.
Respirei fundo e abracei-a e senti sua respiração ficar pesada quando ela pegou no sono. Seu celular tocou no mesmo instante. Me virei para pegá-lo sem que ela fizesse esforço.
Chris Vaiden
Alô? Chris? Ah sim. Aqui é o Liam! Ela está dormindo. Falo pra te ligar depois...
Liam!?
É. Liam Withmore. Conhece?
Vai se foder, cara. Passa pra Saphira.
Desliguei a ligação e mandei uma foto de Saph dormindo meus braços para aquele merdinha. Ele não respondeu o que me deixou bem satisfeito. Encostei a cabeça de Saphira em meu peito e deixei minha cabeça descansar em seu travesseiro.
L-Liam... Acorda...
Meus olhos se abriram devagar. Ela estava me encarando com seus olhos penetrantes.
Que horas são?
Quase 21 horas! Minha mãe ligou para a sua, contou o que havia acontecido.
E o que ela disse?
Que estava tudo bem.
Respirei fundo para recobrar a consciência, ainda estava dormindo. Minha melhor amiga vestia um short jeans e uma camiseta que já foi minha há uns meses.
Você está melhor?
Sim, acho que sim. — Ela sorriu beijando minha bochecha e voltando-se a deitar ao meu lado.
Disse à ela que voltaria para levá-la até a escola amanhã e voltei para casa ainda preocupado com ela.
Como ela está, filho? — Meu pai estava vendo TV quando cheguei.
Disseram que ela está com uma virose, mas, parece mais que isso.
Ah, não deve ser nada de mais. Muita gente lá no hospital onde trabalho está com essa virose! E não é nada tão grave.
Eu espero mesmo...
Tomei uma ducha, peguei um lanche na cozinha e voltei para o meu quarto na tentativa de estudar um pouco.
Meu pai é cirurgião plástico em um hospital bem conhecido aqui de Seattle e minha mãe trabalhava como secretária quando ele era residente. Começaram a namorar em uma festa e desde aí estão juntos.
Meu sonho é trabalhar com medicina também, ainda não sei a área, mas, com certeza medicina.
Estudei até duas horas e acordei às nove com os gritos de minha mãe.
Relaxa, moça, eu tô indo!
Peguei uma maçã na geladeira e fui buscar Saphira. Chegamos na escola
em tempo o suficiente para pegar o primeiro tempo. Dessa vez juntos.
Saphira já parecia melhor, sua pele tinha um tom mais normal, seus lábios já tinham a cor vermelha original e seus cabelos pareciam estar mais hidratados.
Oi, meu anjo! — Chris se aproximou de nós no refeitório e senti meu estômago embrulhar. Só precisava de um sinal para espancá-lo ali mesmo.
Sai da minha frente, Chris... — Sussurrou.
Calma, baby, o que houve?
Ela disse pra você sair!
E a conversa ainda é uma linha reta, Withmore. — Chris me encarou com um olhar provocante.
Acaba com ele.
Antes que Chris pudesse processar o que Saphira havia dito, mirei e acertei um soco bem no nariz dele, em seguida acertei seu supercílio e então ele caiu. Senti seu sangue queimar nos nós dos meus dedos que, por sua vez, ardiam e latejavam, mas, era por uma boa causa.
Todos que estavam no refeitório já tinham se feito presentes ao lado do corpo estirado daquele babaca.
Vem. — Segurei a mão dela e nos afastamos enquanto Chris resmungava dizendo que teria volta.
Comemos na mesa com Alec, Becca e Toby. Rebecca desaprovava minha ação, mas, concordou um pouco mais quando contamos à ela o que ele tinha aprontado. Toby e Alec estavam achando um máximo tudo aquilo. Chris era um babaca e todos já tiveram vontade de espancá-lo uma vez na vida. Era inevitável.
Mais tarde naquele mesmo dia fomos para minha casa. Era noite de filme.
Vou pegar a pipoca! — Minha melhor amiga foi até a cozinha pulando e voltou depois de cinco minutos com a bacia cheia de pipoca e refrigerante em copos gigantes.
Vamos lá!
Apertei o play e assistimos todo o filme discutindo se Jamie e o Dylan ficariam juntos no final. Eles ficaram.
Eu amo demaaais esse filme! Fora do normal essa porra! — Já assistimos Amizade Colorida umas quinhentas vezes e mesmo assim Saph pirava em todas as partes.
Cala a boca. Eu já tô enjoando dessa porra.
Rolei os olhos e ela atirou em mim um dos milhares almofadas que estavam no sofá com um sorriso perverso.
É assim?
Ela riu. Peguei três de uma vez e disparei todos contra ela, fazendo-a dar gritinhos e correr atrás por todo o primeiro andar da casa com almofadas em mãos. Quando a respiração dela começou a falhar paramos no meio do corredor e a peguei no colo.
Vamos. Finja que eu sou o Justin Timberlake e eu finjo que você é Mila Kunis. — Ela riu alto e subimos as escadas até meu quarto.
Bem-vinda, princesa.
Joguei-a na cama e me deitei ao lado dela. Seu celular disparou. Contou a sua mãe que estava tudo bem, não tinha se sentido mal e que voltaria para casa no dia seguinte.
Eu sou puta apaixonado por essa tua capinha!
Essa? — Ela riu virando o celular e deixando amostra a capinha do celular. — Pega. Pra você sempre se lembrar de mim.
Sabia que dizer não adiantaria de nada, então apenas sorri e ela fez o mesmo enquanto colocava meu celular dentro da capa.
Na semana seguinte estávamos de férias e por algum motivo Saphira estava me ignorando descaradamente. Não atendia meus telefonemas, não respondia minhas mensagens e nunca estava em casa quando eu ia lá. Esse comportamento já estava me deixando puto. Praticamente uma semana sem vê-la e sem falar com ela. Sua mãe dizia que estava tudo bem, mesmo eu sabendo que não estava, mas isso tinha me deixado tão puto que parei de ir até lá, ligar e até mesmo de mandar mensagens. Comecei a sair com os caras todos os dias. Íamos para alguma casa noturna de noite, praia ou clube à tarde, cinema às vezes e isso já estava permitindo que eu me desvencilhasse de toda aquela raiva que eu estava sentido. Na quinta ela mandou ligou confirmando a noite do cinema, eu já tinha feito planos, mas, desmarquei na mesma hora igualzinho a um otário, faltando menos de meia hora para sair de casa, ela liga novamente para avisar que não poderia e sem dar justificativas. A raiva subiu novamente pelo meu corpo. Liguei para Toby e pedi que ele marcasse um encontro com alguma amiga da Rebecca pra mim e para Alec, estava precisando relaxar.
Saímos em encontro triplo, cinema, restaurante e cama. As amigas de Rebecca dividiam um apartamento de três quartos e aquela foi nossa estadia naquela noite.
Ahn... Desliga isso! — A ruivinha que tinha passado a noite comigo resmungou apontando para meu celular gritando.
Era a mãe da Saph.
Oi, mrs. Marin, bom... boa tarde. — Cocei a cabeça e saí do quarto para não perturbar a garota. — Doente? Como assim doente? Hospital? Certo. Estou indo aí.
Consegui ir em casa, tomar um banho, trocar de roupa e chegar no hospital em uma hora.
O que houve? — Perguntei enquanto a mãe dela saía do quarto.
Ela está mal, meu filho. Precisa de você.
Assenti. A preocupação tinha tomado conta do meu corpo. Entrei no quarto e Saphira sorriu ao me ver. Estava bem mais magra, bem mais pálida, com a pele bem mais ressecada e com certeza bem mais cansada. O quarto frio pedia todas aquelas cobertas e o gorro que ela
usava, mas, com certeza estava com mais frio que eu.
Desculpa por ter cancelado tudo de última hora, por ter...
Ei, eu que peço desculpas por não ter vindo atrás de você mais vezes! Você precisava de mim e eu só sabia encher a cara, sair com várias garotas e ficar puto contigo. — Estava decepcionado comigo mesmo. — O que você tem?
Os olhos da minha melhor amiga se encheram de lágrimas e ela balançou negativamente a cabeça.
O que isso quer dizer, Fifi?
Ela fez uma careta e logo depois abriu um sorriso ao ver a capinha que ela tinha me dado.
O que isso quer dizer, Saphira? — Eu estava nervoso, não queria ser grosso.
Ela balançou novamente a cabeça e tirou o gorro com a mão livre. Nada. Totalmente careca. Minha melhor amiga estava com câncer todo esse tempo e eu não percebi. Seu rosto estava cheio de lágrimas e o meu também. Abracei-a e disse que tudo ficaria bem, mas, ela não acreditou. E estava certa. Depois disso, tudo só piorou.
Duas noites depois Saphira nos deixou. Ela estava linda naquele dia, não fisicamente, mas emocionalmente. Parecia saber, parecia calma, parecia estar esperando por aquilo.
Passei aqueles dois dias no hospital com ela, dizendo que a amava a cada segundo, que ela era linda, o único amor da minha vida.
Na fatídica noite, ela pediu que eu a deixasse um pouco com os pais, nunca saberei o que eles conversaram e acho que nem é da minha conta. Quando eles saíram, ela pediu que eu entrasse.
Flashback ON
Oi, meu amor.
Eu te amo, Liam, de verdade. Você é o irmão que eu nunca tive, a pessoa que eu posso contar em todos os meus momentos. A pessoa que me fez rir no dia que descobri meu linfoma sem nem saber o quanto eu precisava dela. A pessoa que vai pra sempre estar em meu coração. Seja onde eu estiver.
Meu rosto ferveu em lágrimas, o dela também, deitei ao seu lado e senti aquelas gotas de tristeza percorrerem nosso rosto e se entrelaçarem no meu queixo. A respiração dela estava fraca, batimento estava fraco. Ela não era mais a mesma, mas, ainda era uma guerreira. Apertei o botão que chamava as enfermeiras e beijei o alto de sua testa e enquanto o quarto era invadido por médicos, ouvi seu último batimento, senti sua última respiração e vi seus pais chorarem compulsivamente parados e abraçados na porta.
FLASHBACK OFF
Ao vê-la no refeitório no primeiro dia de aula, eu quis conhecê-la e ela foi, bem, ela foi tremendamente grossa, mas eu não me importei, na verdade, isso só fez o desafio ficar melhor. "Eu quero conhecê-la e ela vai gostar de me ter ao seu lado." — Iniciei assim meu elogio fúnebre, com o primeiro pensamento concreto que tive sobre a garota que mudou minha vida para sempre.
Não consegui terminar tudo que tinha para dizer, e não fui julgado por isso. Ela estava
ali, bem na minha frente, com o vestido que usaria na formatura.
Desci do púlpito e parei ao lado dela.
É bom te ver, meu amor, uma última vez.
Meu rosto ferveu novamente e depositei ao lado dela, sua camisa preferida, aquela que já havia sido minha, e voltei para o meu lugar apertando bem forte aquela capinha de celular ao lado de minha mãe que também chorava.
10 anos depois
Tudo mudou desde aquele dia.
Sou, agora, médico oncologista, tenho uma fundação que ajuda jovens com linfoma, sou casado com a mulher a mais linda desse mundo (só ficando atrás de minha mãe e Saphira), vou ser pai de uma linda garotinha (que o nome você pode presumir) em oito meses, mantenho contato com todos os meus antigos amigos e com os pais de Saph que, à propósito foram meus padrinhos de casamento, tenho uma linda tatuagem com o nome da minha eterna melhor amiga nas costas e posso dizer que, no geral, sou muito feliz.
Tudo foi dito com muita pressa pra mostrar como o tempo passa rápido e como devemos aproveitar cada instante ao lado de quem amamos, mesmo que isso signifique passar por cima do nosso orgulho.
FIM
Notas finais
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