Capítulo 1

"Sua passagem, senhor?" o funcionário da estação bloqueou a porta do ônibus quando me aproximei, estendendo a mão.

Alcancei o bolso de trás calça e dei falta do meu celular, apalpando todos os bolsos em busca dele. Pensei em voltar para o banheiro e verificar se havia esquecido lá, mas eu me recordava claramente de ter colocado o telefone no bolso depois da conversa com minha mãe.

Então me lembrei primeiro do celular que retiraram do bolso do garoto depois de revistá-lo. Depois, do inesperado abraço.

"Ah, merda!" falei para mim mesmo.

O funcionário limpou a garganta enquanto algumas pessoas atrás de mim, que também aguardavam para entrar, murmuravam impacientes.

"Sinto muito, senhor, mas sem a passagem eu não posso permitir que o senhor entre".

"Não é isso...!" disse voltando a enfiar a mão no bolso e retirando um papel amassado e entregando ao homem. "Eu..." já estava prestes a dizer que havia sido roubado quando mudei de idéia e acrescentei, "perdi meu celular".

"Sinto muito" o homem falou e se ofereceu para pedir ao pessoal da limpeza para ficar atento a algum aparelho celular perdido, apesar de deixar claro que seria bastante improvável encontrá-lo. Deixei o telefone de casa para contato, apesar de saber ser mesmo impossível reaver meu aparelho.

Procurei o número da minha poltrona na passagem logo depois de receber o visto e fiquei mais feliz ao lembrar que me sentaria no assento da janela e não no corredor. O banco ao meu lado já estava ocupado por um rapaz negro com cabelo estilo black power e fones de ouvido. Ele foi bastante simpático se levantando para que eu pudesse tomar meu lugar depois de acomodar minha mala no suporte acima dos assentos.

"Paulo" o garoto se apresentou, estendendo a mão para mim.

"Michel" falei já tentando me conformar com uma possível tentativa de conversa casual pela parte do garoto. Não era à toa que eu escolhera viajar durante a madrugada, pois supostamente as pessoas deveriam preferir dormir durante toda a viagem em vez de ficarem conversando e pedirem para assistir a filmes.

"Se quiser, posso dividir meus fones de ouvido com você durante a viagem" Paulo ofereceu em voz alta, mesmo eu estando com o ombro quase colado ao dele.

"Não, obrigado. Não sou muito fã de heavy metal" recusei.

"Ah, dá para você ouvir!" ele exclamou surpreso.

Eu queria dizer que o ônibus inteiro podia ouvir o que ele estava escutando, mas apenas sorri e balancei a cabeça afirmativamente, ao que ele se desculpou e abaixou um pouco o volume.

"Espero que esse motorista não atrase" Paulo falou. "Já é ruim o suficiente ter que passar seis horas nesse ônibus sem nenhum atraso. Pena que não havia mais passagens de avião para hoje, não é?"

"É..." concordei para encurtar a conversa. Apesar de que eu nunca me atreveria a entrar num avião, nem com a perspectiva de uma viagem três vezes mais longa por terra. Judite, minha irmã mais nova, vivia tirando sarro de mim por causa disso, já que ela não tivera problema nenhum para entrar num avião em uma viagem de sua turma. E ela é só seis anos mais nova que eu.

Afastei as cortinas para espiar do lado de fora, tentando passar a mensagem de que não estava particularmente interessado em conversar. A fila que se formara atrás de mim já havia acabado, restando apenas uma pessoa para entrar. Alguma coisa na maneira como o funcionário gesticulava fez com que eu olhasse mais atentamente para o homem corpulento à sua frente e senti minhas entranhas gelarem. Reconheci vagamente o boné, a camisa apertada. Era o homem que eu havia trombado ao sair do banheiro.

Minha mente, talvez por causa da culpa que eu sentia por ter escondido um objeto suspeito, começou a listar as possibilidades do homem ter, de alguma maneira, entrevisto ou ouvido alguma coisa. Ele poderia muito bem ser um policial a paisana. Ou talvez ele conhecesse o rapaz que havia me entregado a caixa e estava em busca exatamente daquilo.

Meu medo e minhas suspeitas apenas cresceram em intensidade quando o funcionário da rodoviária entrou no ônibus carrancudo. Quando alguns dos passageiros começaram a apontar para os relógios e reclamarem do atraso, ele pediu silêncio.

"Gostaria de um minuto da atenção dos senhores, por favor. Por acaso há alguém interessado em vender sua passagem pelo triplo do preço para outra pessoa?" ele olhou ao redor, porém ninguém se manifestou. Eu já ia respirando aliviado quando uma senhora se levantou.

"Quando sai o próximo ônibus?" ela perguntou.

"Amanhã às seis horas da manhã" o funcionário informou.

"Então eu topo" a senhora falou já alcançando a própria mala.

"Eles não podem fazer isso, podem?" Paulo perguntou estranhando. Mas o resto dos passageiros não fez nenhuma objeção, contanto que partíssemos o mais rápido possível.

Afundei no meu assento, tentando me esconder sem deixar de observar o que aconteceria em seguida. O homem me pareceu ainda maior ao entrar pela porta estreita e baixa do ônibus, seus olhos parcialmente encobertos pela sombra do boné, o queixo firme e quadrado. Ele não carregava nenhuma mala. E era impressão minha ou ele havia vasculhado o ônibus com os olhos rapidamente antes de se sentar?

"Ah, finalmente!" Paulo exclamou quando o motor do ônibus roncou. Vários outros passageiros também comemoraram.

Consultei meu relógio e constatei que nós estávamos quinze minutos atrasados. Não havia motivo, portanto, para avisar minha irmã sobre o atraso. A menos que houvesse mais imprevistos. Estiquei o pescoço para examinar o topo da cabeça do homem de boné.

Então me dei conta, como avisaria minha irmã sobre um possível atraso maior que aquele? Eu não tinha mais meu celular.

Aquele pirralho! E eu ainda o havia acobertado! Pensei em tirar a caixinha do bolso e colocar dentro da mala, pois estava um pouco desconfortável dentro do jeans, mas achei melhor não chamar atenção para mim mesmo. Talvez fosse por isso então que o garoto não havia feito sequer um esforço para descobrir minha identidade. Ele estava de posse de toda a minha agenda telefônica para pesquisá-la. E o meu primeiro nome no papel de parede do celular.

Não que ele pudesse fazer muita coisa da cadeia, de qualquer forma.

"Chocolate?" Paulo ofereceu, o barulho da embalagem quase obsceno no silêncio do ônibus.

"Não, obrigado".

"Sempre trago um chocolate para cada hora de viagem" ele piscou um olho completamente alheio aos olhares reprovadores que a senhora do outro lado do corredor lançava em sua direção. Paulo provavelmente não fazia idéia do volume da própria voz com toda aquela gritaria em seus fones de ouvido.

Eu lhe lancei um sorriso curto, esperando que ele se calasse, mas não tive tanta sorte. Paulo continuou falando até que a pessoa que sentava logo atrás o cutucou e pediu para que ele, por favor, se calasse, pois algumas pessoas teriam que participar de uma reunião de negócios na manhã seguinte e precisavam descansar durante a longa viagem.

"Que tipo de idiota ele pensa que eu sou?" Paulo cochichou finalmente. "Amanhã é sábado! Ninguém faz reunião de negócios num sábado, faz?"

Eu me neguei a responder àquilo. Apesar de sua revolta, entretanto, Paulo finalmente se calou. Inclinei meu banco para ficar melhor acomodado e senti o cansaço me dominar em poucos minutos, embalado pelo balançar do ônibus e pelo ronco baixo do motor.

"Ei".

Dei um pulo ao ser sacudido e dei de cara com o rosto divertido de Paulo me olhando de cima.

"Cara, você tem um sono bem pesado, hein?" ele exclamou se endireitando. Paulo estava de pé no corredor do ônibus que, logo reparei, estava parado. Ajeitei meus óculos no rosto e limpei os cantos da boca discretamente, sentindo um pouco de saliva seca. Esfreguei os braços em seguida para dissipar a sensação de frio do ar condicionado do ônibus. Devia ter ouvido minha mãe e carregado uma blusa de malha fina na viagem, mas estava com preguiça para vasculhar minha mala em busca de uma naquele momento.

"Onde estamos?" perguntei esfregando os olhos e bocejando.

"Primeira e única parada. Estamos no meio do caminho, ao que parece... Vai querer sair, esticar as pernas um pouco?"

Acenei afirmativamente, consultando meu relógio. Eram três e meia da manhã. Segui Paulo para fora do ônibus sonolento demais para prestar atenção no que ele falava. Aproveitei para lavar o rosto enquanto esperava Paulo usar o banheiro do posto de gasolina. Estava um pouco fresco do lado de fora do ônibus e contive um arrepio.

"O que acha de um misto quente?" Paulo perguntou ao sairmos do banheiro e eu assenti esfomeado.

Entramos na lanchonete do posto. Pedi um café expresso para acompanhar o lanche e Paulo pediu um suco, alegando que se colocasse uma gota de cafeína na boca, ficaria acordado pelo resto da viagem. Eu nunca tive esse problema.

"De quanto tempo é a parada?" perguntei interrompendo o discurso de Paulo sobre os programas de TV durante a madrugada.

"Quinze minutos, eu acho" Paulo falou depois de pensar e nós dois olhamos para o relógio de parede, que mostrava 03h52min. Paulo xingou e engoliu o resto de seu suco rapidamente enquanto eu enfiava o último pedaço de pão na boca e alcançava minha carteira.

Quando chegamos ao ônibus, ele já estava funcionando e o motorista nos lançou um olhar carrancudo. Entrei primeiro e acenei minhas desculpas, sem jeito. Pelo menos nós não éramos os únicos que faltavam, logo me dei conta, pois o lugar do homem de boné estava vazio. Havia me esquecido completamente dele. E a segunda coisa que me dei conta foi a minha mala jogada sobre o assento de Paulo aberta e revirada.

"Ouch!" Paulo exclamou ao trombar em mim, então ele também viu e correu para chamar o motorista.

-xxx-

"Não está mesmo faltando nenhum dos seus pertences?" o vigia do posto perguntou pela segunda vez e eu neguei novamente. "E ninguém tentou abordar você enquanto estava sozinho?"

"Não. Mas não cheguei a ficar sozinho. Paulo esteve comigo o tempo todo" lancei um olhar grato em direção ao garoto. Quem sabe o homem de boné não teria tentado algum confronto caso tivesse me encontrado sozinho?

"Você tem alguma idéia do que ele estava procurando? Tem certeza que não conhece o suspeito de algum lugar?"

"Tenho certeza. E não, não tenho idéia do que ele pudesse estar procurando" menti descaradamente, resistindo ao impulso de colocar a mão no bolso.

"Sei..." o vigia acenou a cabeça pensativo antes de se voltar para o outro vigia fardado que se aproximava. "Então?"

"Não encontramos ninguém com essa descrição" o vigia despejou as más notícias enquanto outras vozes chiavam em seu walktalk. "Não vejo porque o ônibus tenha que esperar por um passageiro desaparecido".

O motorista que estava falando no celular, se aproximou e dirigiu-se a mim.

"Já tenho permissão da empresa para partir sem o cara. Só estou dependendo de você agora" o motorista me informou e evitei olhar para os demais passageiros. Alguns deles haviam descido do ônibus, já que ele fora desligado novamente e seus olhares faziam buracos em minhas costas.

"Se nada foi roubado..." o vigia falou dando de ombros e eu acenei, estendendo minha mão para apertar a dele.

"Obrigado de qualquer forma" agradeci e voltei para o ônibus sem olhar para os lados.

"Cara que falta de sorte..." Paulo falou solidário. "Tem uma moça ali do fundo que já ligou para a família toda dizendo que nós estamos mais de uma hora atrasados. Mas a culpa não foi sua" ele acrescentou depois de ver minha expressão desanimada. "Foi do passageiro que sumiu! Eu bem que achei estranha aquela conversa toda sobre precisar viajar nesse ônibus. Será que ele não confundiu você com outra pessoa? Você não tem um irmão gêmeo, tem?"

"Não" eu sorri decidindo não ser mais tão antipático com Paulo. Ele podia muito bem ter me poupado de coisa muito pior do que ter a mala revirada.

-xxx-

Apertei a mão de Paulo calorosamente e nós seguimos em direções opostas. Avistei minha irmã e meu cunhado perto da loja de conveniência. O semblante de Lenora se suavizou ao me ver.

"Ah, finalmente!" ela me abraçou apertado, fazendo com que eu me curvasse sobre sua barriga de seis meses de gravidez. "Mamãe vai matar você".

"Imagino que sim" falei conformado e cumprimentei meu cunhado em seguida.

"O que houve com seu celular, cara?" Lucas perguntou, se oferecendo para me ajudar com a mala.

"Não está tão pesada assim. Obrigado" recusei a ajuda antes de responder à pergunta. "Perdi o celular. É uma longa história..."

"Então comece contando para mamãe" Lenora empurrou seu próprio celular para minha mão e eu disquei enquanto nós seguíamos para o estacionamento.

"Alguma notícia, Le?" minha mãe disse ao atender.

"Sou eu mãe" falei me sentando no bando de trás do carro de Lucas.

"Ah, graças a Deus! O que aconteceu? Por que você não está atendendo ao seu celular? Estou ligando já faz pelo menos duas horas! Você quer matar sua mãe do coração?"

"Perdi meu celular na rodoviária mãe..."

"Seu cabeça de vento! Eu vivo dizendo para você ser mais cuidadoso! Depois eu é quem sou chata! Você me deixou preocupada. Eu vi o que aconteceu na rodoviária pelo noticiário e..."

"O quê?" eu a interrompi curioso. "Como assim?"

"O ladrão de jóias que prenderam ontem na rodoviária, você não ficou sabendo? O repórter disse que aconteceu pouco antes das onze da noite. Não foi por isso que o seu ônibus atrasou?"

"Ahm..." ajeitei meus óculos no rosto me recriminando por não ter pensado antes no que diria. Se eu tinha intenção de omitir o encontro com o 'delinquente', então teria que omitir o homem de boné também. "O ônibus quebrou no meio do caminho" menti certo de que minha mãe perceberia.

"Bom, menos mal... você sabe como eu costumo pensar nas piores possibilidades, não?"

"Sei" soltei o ar dos pulmões aliviado por ela ter se deixado convencer pela minha mentira. "Então... prenderam um ladrão de jóias?"

"Sim, um delinquente qualquer... Você sabe como a mídia dá importância para os feitos dessa gente... Está em todos os jornais. Parece que ele roubou uma pessoa importante e agora ficou famoso. É isso que faz as pessoas terem cada vez menos escrúpulos. Num dia são completos desconhecidos, no outro estão em manchetes por todo o país..."

"Sei..." falei me conformando com outro dos discursos de minha mãe. Ela era psicóloga, então era praticamente impossível impedi-la de analisar a influência da mídia no comportamento da sociedade. "Mãe, tenho que desligar".

"Está bem, querido. Ah, mas não se esqueça de ligar na operadora para bloquear sua conta telefônica! Aliás, sei que você vai esquecer, então ligue imediatamente, entendeu?"

"Perfeitamente".

Ela ainda fez muitas outras recomendações antes de finalmente desligar e eu tratei de bloquear meu chip em seguida.

-xxx-

"Ei Michel, senta aqui" Lucas chamou batendo ao seu lado no assento do sofá quando desci as escadas. "Vai começar um jogo daqui a pouco".

Eu havia acabado de me instalar no único quarto vago, ao lado do que em breve seria ocupado pelo meu sobrinho. Sentei-me ao lado de Lucas, ainda que a perspectiva de assistir a um jogo de futebol não me agradasse.

"Aqui" Lenora apareceu com uma latinha de cerveja numa mão e uma vasilha cheia de amendoim na outra.

"Já disse que você é a melhor esposa do mundo?" Lucas falou esfregando as mãos.

"Vou trazer uma latinha de refrigerante para você, Michel. Não sabia que você já tinha descido" minha irmã se desculpou dando meia volta.

"Ah, que é isso, traga uma bebida de gente grande para ele!" Lucas falou dando um tapinha no meu joelho. "Deixa seu irmão comigo durante uma semana e eu vou ensiná-lo a gostar de futebol e cerveja. Sabe, coisas de homem".

"Claro. Como se ficar assistindo a um monte de homens suados correndo e se abraçando fosse coisa de homem" desdenhei entrando na brincadeira.

"Você vai querer cerveja, Michel?" Lenora perguntou da cozinha.

"Tanto faz" respondi, ganhando uma risadinha triunfante de Lucas.

"Ah, já ia me esquecendo" Lenora falou ao voltar com outra latinha de cerveja. "Nosso computador faleceu. Pensei em mandar para o concerto, mas você disse que viria, então resolvi esperar".

"Bando de aproveitadores" comentei meneando a cabeça ao aceitar a bebida. "Verei o que posso fazer".

"Você é um amor" Lenora passou os dedos pelos meus cabelos carinhosamente. "Ah, outra coisa. Nossa vizinha da esquina tem uns cinquenta gatos e eles costumam subir no telhado para namorar, então não se assuste se ouvir barulhos durante a noite."

"Cinquenta?" levantei uma sobrancelha para ela.

"É, da ultima vez que nós contamos eram quarenta e seis, mas ainda não tinha nascido a última ninhada, então nós arredondamos" Lucas confirmou como se isso não fosse o maior absurdo do mundo. Então ele percebeu a minha incredulidade e parou com a latinha a meio caminho da boca. "O quê? Vai dizer que nunca sentiu um cheiro estranho vindo daquela casa?"

"Sim, mas... pensei que a Le estivesse exagerando".

"Infelizmente não" Lenora suspirou.

"Vocês já experimentaram colocar naftalina no telhado para espantá-los?" sugeri. "Ouvi dizer que eles não gostam do cheiro".

"Coloquei um saco daquilo, já faz algum tempo! Quase caí do telhado por causa dessas drogas de gato. Até pareceu funcionar no começo, mas agora as pragas parecem que acostumaram com o cheiro" Lucas falou carrancudo.

"Mas você tem que trocar periodicamente" apontei.

"Ah, ótimo. Não vou subir lá de novo. Não mesmo. E nem me olhe com essa cara, Le! Seu irmão pode fazer isso por você, já que ele é tão esperto".

Troquei um olhar com minha irmã e balancei a cabeça negativamente, só para garantir. Lenora suspirou novamente.

"Michel tem medo de altura".

"Que frutinha!" Lucas me olhou de cima a baixo, mas eu o ignorei.

Lenora rolou os olhos.

"Ótimo, estou mesmo muito bem-servida de homens por aqui. Se eu pelo menos conseguisse me equilibrar numa escada com essa barriga! Mas chega dessa conversa. O que acha de irmos dar uma volta na praia, Michel? Ou você prefere ficar assistindo jogo?"

Lucas me olhou atentamente, levantando uma sobrancelha enquanto tomava outro gole de sua latinha.

"Vamos dar uma volta" falei e Lucas meneou a cabeça.

"Maricas" ele resmungou desapontado.

"Já volto. Vou pegar meu chapéu" Lenora avisou e rumou para as escadas.

Tentei não fazer careta ao tomar o líquido amargo. Não era de todo ruim, mas eu não conseguia tomar gosto por cerveja. Levou algum tempo para eu perceber que Lucas me observava atentamente.

"Cara, você é gay?" Lucas perguntou de repente.

Eu ri. Lucas não me acompanhou. Só então me dei conta de que ele estava falando sério.

"Não!" falei quase me jogando para trás no sofá. "Claro que não. Por que a pergunta agora?"

Lucas deu de ombros.

"Você tem vinte e dois anos e ainda mora com a mãe! Não tenho nada contra minha sogra, mas você não pode ter deixado de reparar que ela trata você como se tivesse doze anos. E pior, como se você fosse uma garota de doze anos. Além disso, eu nunca mais vi você com garota nenhuma depois daquela morenaça... como era o nome dela mesmo?"

Felizmente minha irmã escolheu aquele momento para voltar.

"Lucas! Não fique pegando no pé do nosso convidado. Michel, você pode dirigir? Estou achando um pouco difícil ultimamente..."

"Claro..."

"Ah, mas você estava tomando cerveja" Lenora se lembrou e tirou as chaves do meu alcance.

"Só tomei um gole. Sério!"

Ela olhou para o marido, que deu de ombros.

"Escute o seu irmão. É mais fácil chover canivete que ele tomar cerveja ou dizer um palavrão sequer".

Evitei encarar meu cunhado ao me levantar, aceitando as chaves.

-xxx-

Nós não conversamos nada muito importante durante a viagem – de cinco minutos – até a praia. Lenora estava me mostrando o CD que havia ganhado da cunhada com músicas para bebês. Eram canções de ninar com sons de pássaros e coisas do tipo. Ela dizia que os bebês respondiam àqueles sons mesmo na barriga da mãe e que costumava colocar fones de ouvido na barriga e ficar sentindo o bebê se mexer.

"Então, já chegaram a um consenso sobre qual vai ser o nome?" perguntei ao estacionar.

"Ah, o Lucas finalmente desistiu de Samir!" Lenora fingiu um arrepio. "Estamos pensando seriamente em Bruno. O que acha?"

Franzi a testa, tentando imaginar um bebezinho chamado Bruno. Eu definitivamente não conseguia me imaginar chamando um bebê de Samir.

"Gosto de Bruno" falei por fim.

Ela deixou os ombros caírem, aliviada, e assentiu antes de nós sairmos do carro. O dia estava já estava bastante quente, apesar de não ser nem nove horas. Respirei fundo o cheiro do mar, o som das ondas se quebrando me trazendo boas lembranças. Estreitei os olhos por causa da claridade refletida na areia e Lenora prontamente me ofereceu um par de óculos de sol.

"É do Lucas. Ele costuma deixar no carro".

"Le, para usar esses óculos eu teria que tirar os meus".

Não que eu ficasse cego feito uma toupeira sem meus óculos, no entanto era muito ruim enxergar tudo embaçado. Mas é claro que Lenora não tinha como saber como era desconfortável. Ela e Judite, minha irmã mais nova, tinham visão de águia de rapina. A genética era mesmo ingrata.

"Claro, esqueci que você é quase cego. Só tome cuidado para não ficar com a marca dos óculos no rosto. Ah, o que me lembra que nós não passamos protetor antes de sair. Você me ajuda?"

Ela tirou um tubo de protetor solar da bolsa de praia e eu a ajudei a passar no rosto e nos braços, já que ela não tinha intenção de tirar o vestido fresco de praia. Minha irmã não era o tipo de grávida que gostava de ficar mostrando a barriga.

"Não vai tirar a camiseta?" ela perguntou quando chegou a minha vez.

"Hmm, pensei em lhe fazer companhia, para você não se sentir a única pessoa vestida da praia" tentei desconversar, mas ela não caiu na minha ladainha.

"Corta essa. Eu sei que você é branquelo, mas não vai conseguir mudar isso se continuar de camisa. Além do mais, o melhor jeito de não chamar a atenção na praia é se vestindo como todo mundo. Duvido que você tenha trazido uma sunga, então sugiro que pelo menos tire a camiseta".

Dei uma olhada ao redor. Lenora tinha toda razão, não havia nenhum cara vestindo camiseta por perto. A maioria dos caras usava sunga, mas eu não seria o único de bermuda. Derrotado, tirei a camiseta.

E me arrependi no momento seguinte.

"Oi, Le!" uma garota vestindo apenas biquíni se aproximou sorridente, acenando. "Ah, esse deve ser seu irmão?"

"Olá, Clarissa. Sim, esse é o Michel. Michel, essa é a Clarissa, filha do dono do quiosque".

Escondi meu desconforto com um sorriso simpático – bem, minha mãe havia me ensinado boas maneiras, no final das contas — e a garota colocou a mão quente no meu ombro ao me dar um beijo no rosto.

"Vou jogar vôlei com minhas amigas logo ali" Clarissa apontou para um bando de garotas sorridentes adiante. "Se vocês quiserem se juntar a nós..."

"Obrigada" Lenora agradeceu e a garota me ofereceu um sorriso cheio de covinhas antes de se afastar. Então eu fiz uma carranca para minha irmã. "Ei, relaxa! Você não é o único cara gostoso do pedaço, se você agir normalmente elas terão esquecido de você num segundo. A menos que você esteja interessado, é claro".

"Ah, qual é, ela tem – o quê? – quinze anos?" desdenhei ainda irritado por ter deixado minha irmã me convencer a tirar a camisa. Eu não era exatamente o tipo de cara que gostava de chamar atenção. "Além disso, não sinto a necessidade de provar para ninguém que não sou gay, ok?"

"Ora, vai me dizer que você ficou bolado com o que Lucas disse?" Lenora rolou os olhos.

Eu não disse nada por um momento enquanto guardava a camiseta no carro e acionava o alarme.

"Qual é o problema em gostar de morar com a mãe?" acabei perguntando.

Lenora riu.

"Nenhum. Você sabe que eu mesma não teria saído de perto da mamãe se não fosse por causa do trabalho. Na verdade é muito comum, hoje em dia, os filhos adiarem a hora de sair de casa. Você sabia que mais de 60% dos filhos entre 25 e 29 anos ainda moram com os pais?"

"Vai me dizer que você já escreveu sobre isso também?" foi minha vez de revirar os olhos. Ela tinha adquirido aquele tom professoral inconfundível de quem sabia sobre o assunto. Lenora se formara em Jornalismo e trabalhava para uma revista de grande circulação.

"Claro" Lenora jogou os cabelos castanhos escuros para trás de modo convencido antes de se pendurar no meu braço. "Agora o que acha de nós irmos até o quiosque comprar uma água de coco antes de você se jogar no mar?"

Concordei e nos pusemos a caminhar na beira do mar, onde a areia não era tão fofa e tornava mais fácil a caminhada. A água estava fria, mas convidativa. Não tínhamos dado nem cinco passos quando uma bola de vôlei passou voando por cima de nossas cabeças. O vento trazia os gritinhos femininos das garotas atrás de nós. Soltei o ar dos pulmões resignado antes de me desvencilhar do braço de Lenora e pegar a bola. Clarisse se aproximou correndo antes que eu tivesse tempo de atirá-la de uma distância segura.

"Obrigada!" a garota aceitou a bola sorridente. "Tem certeza que não quer se juntar a nós, Michel?"

"Talvez mais tarde" falei só para encurtar o assunto.

"Ok!" ela girou nos calcanhares e voltou rebolando alegremente.

Lancei um olhar conformado à minha irmã, que riu e voltou a segurar meu braço me guiando em direção ao quiosque.

"Esqueça o que Lucas falou, Michel".

"E quem disse que eu ainda estou pensando nisso?" retruquei rabugento, mas ela me calou com um olhar de 'eu conheço você e não é de hoje'.

"Olha, ninguém está pressionando você para arrumar uma namorada. Muito menos eu. Mas também acho que você devia seguir em frente, sabe? Você se lembra de quando levei o meu primeiro pé na bunda?"

"Como se eu pudesse esquecer aquele idiota" respondi. Nunca me esqueceria daquele dia em que vi minha irmã se acabando em lágrimas porque o garoto que tinha ficado com ela no dia anterior já estava com outra no dia seguinte. Ela tinha doze anos, eu dez. Eu tinha ficado com vontade de torcer o pescoço do garoto por fazer minha irmã chorar daquele jeito.

"Naquele dia, fiquei com medo mesmo que você desse uma surra no Vitor e arrumasse encrenca por minha causa".

"Então você se deu conta de que eu sou um banana incapaz de bater nem mesmo num cafajeste daquele calibre" desdenhei.

"Não" Lenora parou e me obrigou a encará-la nos olhos. "Você não é um banana Michel. Nem covarde nem nada do tipo. Você só é esperto o bastante para saber que esse tipo de coisa não se resolve no braço. Eu me lembro até hoje do que você disse naquele dia. Você disse que nunca faria nada do tipo com garota nenhuma. E cumpriu sua palavra até agora. Você não sabe o quanto me orgulho de você por isso".

"É, e veja o que ganhei com isso! Um par de chifres!" estava descontando minha frustração na pessoa errada, eu sabia. Lucas era um bom cunhado, mas não tinha noção de quando devia segurar a língua. Ele tinha me deixado irritado, me fazendo lembrar de coisas que eu preferia apagar da minha memória.

"Deixe de dizer besteiras! Aquela vaca da Joyce não merece que você se autodeprecie desse jeito por causa dela. Entendo que você precise de um tempo para poder voltar a acreditar nas pessoas, mas já faz três anos, Michel! Já passou da hora de você dar uma chance para as outras garotas!"

Apesar de saber que as palavras de Lenora faziam todo sentido do mundo, continuei de cara amarrada.

"Não é esse o problema" teimei.

"Então por que você ainda fica tão arrasado quando alguém toca no assunto?"

"Lenora, eu não vim à praia para falar sobre isso, está bem?" falei, voltando a caminhar, mas ela não largou o osso.

"Está vendo? É disso que estou falando. E melhor do que você, eu sei que a gente só consegue curar um coração partido quando passa a dividi-lo com outra pessoa. Uma que realmente valha à pena".

"E como posso ter certeza disso?"

"Você não tem! Você nunca tem certeza, mas você precisa tentar! Veja eu, por exemplo. Dei muita pisada de bola depois daquela primeira, mas acabei encontrando a pessoa certa para mim. Lucas não é perfeito, mas eu confio nele! E não me arrependo nem por um segundo dos meus erros, pois foram eles que me levaram até o Lucas!"

Continuei caminhando, sem me dar ao trabalho de responder. Mas a verdade era que eu já sabia aquilo que ela estava dizendo. Eu sabia que tinha que seguir em frente. Mas simplesmente não tinha encontrado ninguém com quem realmente valesse à pena tentar.

"Estou tentando sair dessa, tá legal?" falei num tom mais ameno quando nós já estávamos chegando ao quiosque.

"Então tente... com mais afinco" ela falou um pouco sem fôlego, e só então me dei conta de que estava andando rápido demais e que ela devia estar fazendo muito esforço para poder me acompanhar.

Reduzi a velocidade me sentindo culpado, mas não disse nada.

"E por falar nisso... como vai a Rosana?" ela perguntou ainda tentando recuperar o fôlego.

Aquilo me fez fechar a cara novamente.

"Ela e o Tom estão ótimos" falei. "E Le? Vamos mudar de assunto?"

"Como quiser" ela encolheu os ombros contrariada.

-xxx-

Apesar do pequeno desentendimento de sábado de manhã, meu fim de semana havia sido ótimo. Aproveitei ao máximo o sol e o mar e acabei me queimando um pouco por esquecer de renovar o protetor solar. Lucas me deu umas aulas de surf, mas não acho que algum dia consiga pegar o jeito da coisa. Lenora não passava da rebentação das ondas, preferindo ficar com a água até o joelho, porém estava sempre esticando o pescoço para não perder nenhum de nós dois de vista.

A garota do quiosque, Clarissa, e suas amigas insistiram tanto para que eu jogasse que acabei arrastando Lucas comigo para uma partida, mas não troquei mais do que meia dúzia de palavras com nenhuma delas. De qualquer forma, foi bom me distrair um pouco e me manter longe da internet – ainda que forçadamente.

Na segunda-feira procurei levantar cedo e comecei a mexer no ogro que minha irmã chamava de computador. Ela tem uma fixação sentimental com a máquina desde que começou a namorar Lucas. Lenora nunca se dera muito bem com informática e achava que não se adaptaria a uma máquina mais moderna. Mal sabia ela que a carcaça continuava a mesma, mas eu já havia trocado quase todas as peças do computador nas duas visitas que fizera ao shopping naquele único dia.

"Você conseguiu ressuscitá-lo!" Lenora bateu palmas ao entrar no meu quarto — onde eu havia instalado o computador — e vê-lo funcionando. "Ah, obrigada, Michel! Você recuperou meus arquivos?"

"Sim" girei a cadeira para encará-la. Juro que pensei que ela ia me abraçar, mas ela passou direto por mim, abraçando o ogro meio de lado por causa da barriga.

"Todos eles?" Lenora perguntou acariciando o monitor CRT – daqueles imensos com a tela curvada — sujo e riscado.

"Acredito que sim. Le, eu já lhe contei sobre os benefícios da tecnologia LCD?" falei como quem não quer nada. "Você sabe, aquela tela plana, fina e leve, que consome bem menos energia e cansa menos a vista..."

"Poupe o seu discurso, eu não preciso de nada disso" ela me interrompeu, já se preparando para sair novamente. "Esse aí funciona muito bem. Além do mais, esses novos modelos são caros e..."

"Não seja por isso, tenho dois monitores sobrando lá em casa! Pode deixar, vou convencer o Lucas a trazer quando vocês forem nos visitar. Meu cunhado não consegue recusar nem injeção na testa quando é de graça" falei voltando a configurar a máquina – que estava tão mais veloz e silenciosa que eu realmente não entendi como minha irmã não desconfiou logo de cara.

Lenora respondeu alguma coisa sobre deixar o monitor novo jogado num canto, mas eu não me dei ao trabalho de retrucar. Sabia que ela não resistiria quando visse o monitor que eu tinha separado para ela. Só não tinha trazido pela dificuldade de transportá-lo no ônibus. Além do risco de levar um monitor caro na bagagem...

Aquele pensamento me trouxe à lembrança o incidente da minha mala sendo revirada no ônibus e, assim que terminei de configurar a conexão, acessei o Google e pesquisei por algum furto de jóias relacionado à estação rodoviária na minha cidade.

Cliquei na primeira matéria que a busca retornou e passei os olhos rapidamente pelas linhas imparciais: "Um menor de idade foi preso na noite da última sexta-feira..." "O menor D. S.havia sido denunciado pelo padrasto, o conhecido empresário Elton Frontin, dono de uma revendedora de carros de luxo semi-novos. Frontin deu por falta de algumas das jóias daatual esposa e procurou pelo enteado, que também havia desaparecido de maneira suspeita..." "O menor foi flagrado com as jóias da madrasta na estação rodoviária..." "Diante dosfatos os policiais deram voz de prisão ao menor, que foi levado para a Central de Polícia, onde as providências legais foram tomadas".

O nome Frontin não me era desconhecido. A revendedora Frontin era famosa por vender os semi-novos mais luxuosos da cidade. Mas eu não conhecia nada sobre a vida particular do proprietário, muito menos que ele possuía um enteado.

Passei para a próxima matéria, que dizia quase a mesma coisa que a outra, com exceção de alguns detalhes: "Segundo Frontin, aquela não era a primeira delinquência do menor. Oempresário alegou que o garoto já havia furtado alguns de seus carros várias vezes, mas como sempre acabavadevolvendo o veiculo quando acabava a gasolina, ele nunca haviadenunciado..." "O adolescente de dezessete anos deve cumprir medida socioeducativa, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA".

Eu me lembro de ter pensado em como era estranho você conhecer uma pessoa por alguns minutos e ter uma impressão tão enganada sobre ela. Puxando pela memória a imagem do garoto, eu nunca teria adivinhado que ele fosse tão problemático. Demorou para que eu encontrasse mais informações, mas por fim achei uma matéria que havia sido publicada naquela mesma manhã com uma entrevista da madrasta do garoto.

"Em entrevista para nossa redação Wania Frontin parecia inconformada. A atual esposa do empresário Elton Frontin confirmou que o garoto já apresentava indícios de delinquênciadesde muito cedo. ' D. sempre foi revoltado e hostil. Ele vivia dizendo coisas horríveis a Elton, dizia palavrões que eu sequer sabia que existiam! Honestamente, não compreendotanta ingratidão, porque Elton sempre foi tão bom para o garoto! Afinal de contas, ele (Frontin) não tinha obrigação nenhuma de continuar cuidando de D., muito menos pagandouma escola para ele depois que a mãe do menino faleceu. Elton podia muito bem ter mandado o garoto para um orfanato. Não podia? Em vez disso Elton o acolheu como um filho eveja como o garoto o retribuiu!'.

Elton Frontin, em entrevista a um de nossos repórteres, informou que todas as jóias haviam sido recuperadas exceto a caixinha de música na qual as jóias eram guardadas. Frontin alegou que o porta jóias tinha um inestimável valor sentimental, uma vez que pertencera a sua primeira esposa, falecida há quatro anos, e que sentia muito pelo objeto não ter sido encontrado. Porém ele se absteve de comentar sobre a atitude do enteado, dizendo que não estava em condições de falar sobre aquele assunto no momento. 'Eu gostaria de acreditar que tudo não passou de um mal entendido, que ele acabaria devolvendo como fez antes com os carros...' Frontin disse emocionado, antes de encerrar a entrevista. Asentença do menor foi proferida esta manhã pelo Juiz Marcos Politelo, da Vara da Infância e Juventude. Ele deverá cumprir Medida Socioeducativa, prestando serviços àcomunidade. Em nenhum momento o menor confessou o crime, apesar das testemunhas oculares no local do flagrante confirmarem..."

"Ei!" eu pulei de susto quando Lucas bateu na porta do meu quarto, que estava aberta. "Sua irmã pediu para avisar que o jantar está quase pronto e que se você quiser tomar banho antes de comer, a hora é agora".

"Ok, obrigado" agradeci e esfreguei as mãos no rosto por baixo dos óculos sentindo o cansaço de um dia inteiro curvado sobre o computador. Minhas costas estavam doendo e eu precisava mesmo de um banho.

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Ajudei minha irmã a arrumar a cozinha depois do jantar e tentei ficar um pouco com ela e Lucas na frente da TV, mas minha mente estava longe. Não eram nem dez horas quando me despedi deles e subi para o meu quarto, fechando a porta atrás de mim.

Não conseguia parar de pensar no que havia lido sobre o ladrão de jóias. Como o garoto podia ter me entregado apenas uma caixinha vazia quando sabia que seria preso pela posse das jóias que havia roubado? Seria apenas uma vingança pessoal contra o padrasto? Por ter consciência do valor sentimental do objeto?

Mas se era apenas uma caixinha de música, porque eu havia sido perseguido no ônibus? Será que o homem de boné achava que eu estava na posse das jóias também?

Aquilo era tudo muito estranho. Peguei minha mala e procurei pelo porta jóias. Havia jogado o objeto de qualquer jeito dentro da mala e tinha me esquecido completamente dele até aquela noite. Chacoalhei-o novamente, mas nada indicava que pudesse haver qualquer outra coisa ali dentro.

Deixei-me cair na cama, analisando todos os detalhes, desde a foto antiga de uma jovem tímida e sorridente até o fundo, procurando por algum compartimento secreto. Não havia reparado antes que se tratava de uma caixinha de música, mas lá estava um pequeno parafuso no fundo da caixinha. Girei a chave algumas vezes e logo começou a tocar uma melodia suave com o timbre comum das caixinhas de música. Reconheci a melodia de imediato. Minha mãe havia sido uma daquelas fãs de Elvis Presley ao redor do mundo que choraram amargamente sua morte. Ela tinha a discografia completa do cantor (em discos de vinil mesmo! Meu pai a presenteou com a coleção em CDs, mas ela se recusava a jogar os discos fora). A música em questão se chamava Love Me Tender.

Apenas quando o pequeno trecho da música terminou foi que me dei conta de que tinha divagado. Não era à toa que aquele som fazia os bebês dormirem, pensei ao bocejar, mas acabei dando mais um pouquinho de corda. Era um objeto antigo, porém comum demais para ser uma relíquia. Eu não conseguia enxergar nenhum motivo para alguém se apegar a ele que não alguma lembrança. Talvez a moça da foto fosse a mãe de D.S., a falecida primeira esposa de Frontin.

Bocejei novamente e desisti de tentar achar algum sentido naquilo. Talvez eu estivesse procurando pêlo em ovo. Talvez a pequena aventura que eu vivenciara na viagem tivesse estimulado minha imaginação a ponto de eu querer achar algum sentido mais romântico e misterioso do que era na verdade. Coloquei a caixinha sobre a mesa do computador e troquei minhas roupas pelos shorts de dormir. Passei o hidratante que minha irmã me emprestara nas costas queimadas antes de deitar. Já não ardia mais tanto quanto na noite anterior.

Estava com tanto sono que dormi quase imediatamente, minha mente repetindo a melodia suave como um eco.

'Love me tender, love me sweet, never let me go…'

-xxx-

Acordei no meio da noite com um grito terrível. Meu corpo inteiro gelou quando percebi que o som não havia vindo do meu sonho, mas sim de algum ponto acima de mim. Tentei focalizar alguma coisa, porém meu quarto estava mergulhado num completo breu. Um senso de pânico tomou conta de mim quando me lembrei do meu sonho. Eu estava sendo perseguido novamente pelo homem de boné. Estava paralisado na cama sem nenhum vestígio de sono quando ouvi o segundo grito de arrepiar os cabelos. Imediatamente pensei em como devia ter contado para a polícia sobre o porta jóias e em como nunca me perdoaria caso acontecesse algo com minha irmã por minha causa.

Enquanto procurava pelo interruptor tateando às cegas pela parede do quarto pouco familiar, escutei Lucas murmurar no cômodo ao lado seguido do som de passos e então um fiapinho de luz entrou pela fresta da porta clareando como um holofote. Abri a porta do quarto e os murmúrios de Lucas se fizeram inteligíveis:

"Malditos gatos filhos da..."

"Ei, ei, calma Lucas!" minha irmã resmungou com voz de sono.

O alívio que senti foi tão grande que meus joelhos quase cederam. Aquele grito que eu ouvira nada mais era do que os gatos no cio que minha irmã havia falado! Meu Deus, eu estava mesmo me deixando impressionar com aquela história...

Lucas não deu ouvidos aos protestos de minha irmã, pois continuou despejando todo tipo de xingamentos. A porta do quarto deles se abriu de repente e Lucas saiu de lá com uma vassoura na mão, o cabelo loiro totalmente desgrenhado.

"Ah, que bom que você está acordado" ele disse ao me ver. "Vou precisar usar sua janela um instante".

Observei calado enquanto ele entrava no meu quarto, acendia a luz e abria a janela. Ele içou o corpo num movimento fluido de quem já estava acostumado com aquilo e se sentou no parapeito, passando a vassoura para o lado de fora. Engoli em seco, minha mente criando várias visões de meu cunhado perdendo o equilíbrio e caindo da janela do segundo andar, mas nada aconteceu. Lucas bateu com a vassoura nas vigas do telhado que deviam ser mais baixas daquele lado e gritou impropérios para os gatos. Ouviu-se uma barulheira na laje e então todo ruído cessou. Lucas voltou a firmar os pés no chão, carrancudo.

"Lembre-me de comprar a tal da naftalina amanhã" ele resmungou ao passar por mim, batendo a porta com estrondo.

Aquilo tudo tinha acontecido tão rápido que fiquei algum tempo sem reação encarando a porta fechada antes de voltar a apagar a luz e me deitar. Achei que a adrenalina iria demorar a baixar, mas acabei pegando no sono rapidamente achando graça da minha própria paranóia.

-xxx-

Lembrei Lucas sobre a naftalina no dia seguinte, mas ele resmungou algo sobre ter um encontro marcado com um cliente – ele era corretor de imóveis — e me passou as chaves do carro de Lenora. Aproveitei para dar um passeio pelo shopping e tomar um sorvete depois de comprar um pacote das bolinhas brancas com cheiro desagradável, mas nem em um milhão de anos eu me ofereceria para subir no telhado para espalhá-las. Passei o resto do dia na praia enquanto meus anfitriões trabalhavam.

Lucas chegou em casa quando já anoitecera e prometeu que subiria no telhado no dia seguinte pela manhã. Retirei-me cedo novamente, mas não estava com tanto sono quanto no dia anterior. Vesti meu pijama, fiquei brincando com a caixinha de música e não deu outra, em poucos minutos estava bocejando. Estava tão entretido com o objeto que levei o maior susto quando ouvi novamente aquele miado que mais parecia um grito esquisito. A caixinha pulou da minha mão e eu ouvi quando se espatifou e os pedaços se esparramaram pelo quarto.

"Ah eu mato esses desgraçados" eu ouvi Lucas correndo escada acima e tomei cuidado para não pisar no que sobrara da caixinha – achei ter visto alguma coisa brilhante, mas não parei para olhar — enquanto me dirigia para a porta e a abria para meu cunhado, porém ele passou direto por mim. "Não, não, Michel. Ainda não são nem dez horas, eu posso usar chumbo pesado!" ele falou levantando as sobrancelhas de modo cruel. Eu o segui até o quarto do casal e observei enquanto ele tirava algo da cômoda e se dirigia até a janela com um fósforo. Reconheci o tubo de papelão — fogos de artifício.

Balancei a cabeça divertido e voltei para meu quarto, me encolhendo quando ouvi os estouros. Voltei a me fechar no quarto e suspirei ao olhar para a bagunça. Foi então que reparei novamente no brilho. Havia um caco de vidro vermelho no chão. Eu me abaixei para pegá-lo e antes de levantá-lo contra a luz me dei conta do que era. Uma pedra preciosa rubra em formato de gota.

Voltei a olhar para o chão e lá estava outra pedra no mesmo formato. Pus-me de quatro e comecei a vasculhar o chão juntando os pedaços da caixinha de música – que parecia não estar tão destruída quanto eu pensara a princípio – e lágrimas de sangue. Quando dei minha busca por encerrada estava com o coração batendo forte no peito, segurando seis pedrinhas pequenas e muito brilhantes.

Sentei-me na cama e juntei todas as peças do meu quebra-cabeça. Aparentemente aquelas pedras tinham saído do porta jóias, mas eu não entendia como era possível. Felizmente a caixinha de música havia apenas desmontado e o mecanismo estava intacto. Depois de montar novamente o porta jóias, percebi o truque — o objeto tinha um fundo falso. Coloquei as pedras no fundo falso e recoloquei-o na caixa, encaixando corretamente para testar minha teoria. As pedras cabiam perfeitamente no vão e ficavam tão justas que não se moviam quando a caixa era sacudida. Desmontei tudo de novo maravilhado.

Ora, ora, valor sentimental uma ova! Frontin devia estar arrancando os cabelos por ter perdido aquelas pedras – que certamente eram ilegais, ou ele teria denunciado sua perda.

Ou ele denunciou, mas preferiu não divulgar na imprensa para não fazer crescer os olhos dos outros, tive que ponderar engolindo em seco. Nesse caso eu estaria interferindo numa investigação policial e acobertando um crime. Ou ainda, aquelas pedras eram falsas. Mas aquilo eu poderia atestar com facilidade. Não era nenhum expert em pedras preciosas, mas ninguém precisava ser expert quando tinha uma conexão banda-larga ao alcance do mouse.

Liguei o computador e comecei procurando por 'Rubi'. As matérias que encontrei diziam que os rubis verdadeiros eram imperfeitos e muito raros. Eram comumente confundidos com minerais chamados espinélios, que não possuem impurezas por causa de sua estrutura. Portanto quanto maior e mais perfeita fosse a gema, maior a probabilidade de não ser um rubi verdadeiro. As pedras que eu tinha em mãos certamente eram perfeitas e não eram suficientemente pequenas para esconderem suas impurezas.

Porém descobri também que, entre as gemas naturais, os rubis só eram ultrapassados em termos de dureza pelos diamantes. Aquilo me fez levantar as sobrancelhas, pois — leigo do jeito que era naquele assunto — sempre achei que 'rubi' não passava de uma denominação para o diamante de cor vermelha.

Então mudei a busca para 'Diamante Vermelho'. O que li me fez suar frio. "...15 bilhões de reais o quilate..." "...quase 60 vezes mais que o diamante incolor..." "...quanto mais rubro,mais valioso..." "...raríssimo..." "...a pedra preciosa mais cara do mundo..."

Esfreguei os olhos por trás dos óculos antes de respirar fundo e mudar o foco da minha pesquisa novamente: 'Como identificar um diamante verdadeiro?'

Parecia muito simples, apesar de ser difícil ter cem por cento de certeza sem um certificado. Segundo as instruções que encontre, eu teria que olhar através da pedra. O alto índice de refração do diamante, além de refletir a luz em vários ângulos fazendo-o brilhar (em todas as direções e não somente para cima como muitos dos diamantes falsos) muito mais do que um pedaço de vidro comum me impediria, por exemplo, de ler um jornal através dele. A pedra sem dúvida brilhava bastante em toda a superfície, então eu a coloquei sobre um folheto que estava sobre a mesinha do computador. Era impossível ler alguma coisa através dele, mas eu não sabia dizer se era por causa da refração ou por causa do "corte em diversasfaces e ângulos variados de lapidação".

O segundo passo era exalar sobre a pedra bem de perto. Se ela permanecesse embaçada por dois a quatro segundos, com certeza não seria um diamante verdadeiro. Segui a instrução, porém antes mesmo que conseguisse olhar para a pedra novamente ela já tinha secado, o que significava que havia passado no segundo teste.

Então eu deveria lixar a pedra com uma lixa de corundum (ou corindo) que não contivesse diamantes, se ela arranhasse então se tratava de uma pedra falsa, mas eu não tinha idéia de onde encontrar uma lixa assim. Depois deveria submeter a pedra à luz ultravioleta, que eu também não tinha em mãos naquele momento.

A conclusão a qual cheguei foi que não havia como chegar à conclusão nenhuma a menos que recorresse a um especialista, coisa que estava relutante em fazer por razões óbvias. Ou a pedra era um diamante verdadeiro ou era uma falsificação bastante convincente para um leigo.

-xxx-

A semana passou mais rápido do que eu esperava e quando vi já era sexta-feira. No dia seguinte eu voltaria de carro com Lucas e Lenora, que iriam aproveitar para visitar meus pais. Procurei deixar minha mala mais ou menos arrumada antes de me deitar. Lucas tinha saído para jogar futebol com alguns amigos – ele havia negociado isso com Lenora depois de finalmente subir no telhado — e minha irmã estava na cozinha preparando o jantar.

Depois de ajeitar meus pertences, peguei a caixinha de música e admirei as pedras mais uma vez deixando meus pensamentos vagarem como havia feito durante a semana toda. Talvez pelo maior apelo conspiratório das matérias que eu havia lido a respeito dos diamantes vermelhos, meu subconsciente insistia em pensar nas lágrimas como diamantes, ao invés de rubis. Não era difícil entender porque muitas pessoas se tornavam obcecadas por eles. Aqueles eram mesmo muito bonitos. Mas como podiam valer tanto dinheiro? Eu não fazia idéia de quantos quilates de diamante tinha em minhas mãos, mas com certeza equivalia a alguns milhões de reais se fossem tão verdadeiros quanto pareciam.

O que faria com aquilo? Aquela dúvida pesava na minha consciência. Eu já não conseguia mais andar sossegado pela rua ou pela praia, a todo o momento imaginando olhos me seguindo como se desconfiassem que eu guardava algum segredo valioso, ou pior, como se soubessem. E se o homem de boné me achasse? E se ele encontrasse minha família? Eu devia correr para a polícia, sem dúvida, mas isso também não seria nada simples e não conseguia reunir a coragem de que precisava. Só desejava nunca ter me envolvido naquilo ou ainda nunca ter descoberto o fundo falso.

Enquanto ouvia a melodia de Love Me Tender mais uma vez, deixei minha mente vagar me imaginando jogando aquela caixinha maldita numa caçamba de lixo qualquer. Mas será que eu teria coragem de despejar aquelas pedras tão bonitas e tentadoras no lixo e viver tranquilamente? Ou será que eu teria coragem de guardá-las e algum dia trocá-las pela soma em dinheiro pela qual tanto valiam...

Imediatamente me repreendi por tal pensamento. Como ousava sequer cogitar a hipótese? Aqueles diamantes provavelmente eram frutos de crimes e lavagem de dinheiro, eu não devia nem pensar em desfrutar deles com a consciência limpa, sem esperar uma catástrofe num futuro próximo. Meu Deus, eu podia esperar uma catástrofe mesmo sem usá-los!

Meus pensamentos foram interrompidos por um barulho na cozinha, seguido do chamado da minha irmã. Pego de surpresa, rapidamente recoloquei os diamantes no fundo falso e escondi o porta jóias no primeiro esconderijo que consegui pensar — meus sapatos debaixo da cama. Desci as escadas correndo enquanto minha irmã chamava novamente, daquela vez com mais urgência.

"Michel? Rápido, preciso de ajuda!"

Assim que cheguei à cozinha, meu sangue congelou nas veias. Minha irmã estava na beira da pia com uma expressão de dor, a frente de seu vestido florido coberta de sangue.

-xxx-

Continua...