Notas iniciais
Espero que gostem, escrevi em uma tarde sem internet enquanto ouvia músicas e a chuva batendo na minha janela *u*

O pai de Frederico era um advogado bem sucedido de São Paulo. Ele sempre fazia questão de lembrar ao seu filho Frederico em como anos de dedicação de estudos resultavam em um futuro brilhante, e que ele como seu único filho precisava seguir os passos do pai. Frederico era obediente, e não era nem de longe um aluno ruim. Quando passou na faculdade pública, seu pai fez uma festa.

- Ao meu filho, Frederico, o futuro advogado da família.

A família não era pobre. Sua avó, uma velha com tanto botox no rosto que nem parecia mais humana gostava de contar ao Frederico a história da família:

- Seu avô vem de uma família de portugueses influentes lá na época de D. Pedro II, meu filho. Costumávamos ter terras e terras no interior do estado, até que seu bisavô apostou uma terra em um de seus jogos. Mas o que era aquele pedaço comparado a tudo que tínhamos? Então veio mais e mais jogos, até que para pagar tudo ele teve que vender mais algumas terras. Com a inflação lá nos anos oitenta com seu avô perdemos tudo e o que sobrou foi o casarão. Prometa para mim, Frederico querido, que nada no mundo te fará vender nosso casarão. É tudo que sobrou de lembrança da família Escobar.

A família não era pobre, como dissera antes. Mas estava falindo, e a família influente estava a passos de não ter mais as regalias de antes.

- Enquanto sua vó estiver viva, nós continuaremos a falir. Ela não entende que neste natal não poderemos ter cinco perus assados? É só convidar menos gente. – Dr. Leonardo comentava enquanto ele e Frederico faziam compras no supermercado. – Devo levar sabão em pó líquido ou de caixa?

Frederico fez que não com a cabeça, e ele nem tinha ideia mesmo o que era. Quem costumava fazer compras era sua babá, mas ele já não precisava de babá. E seu pai havia demitido a antiga empregada para cortar gastos. Compras de supermercado era uma tarefa difícil para eles.

- O que é mais barato e fácil? Arrumar uma mulher ou uma empregada? Os dois estão difíceis hoje em dia, meu Deus! – Dr. Leonardo exclamou, rindo de si mesmo. Frederico só riu para o pai não ficar sem graça.

A mãe de Frederico morrera de câncer quando ele tinha nove anos. Era difícil lembrar dela, já que fazia quase dez anos que ela partira. Sua risada, sua voz, seu jeito de se mover, suas manias... Ele não lembrava mais. Deveria ter prestado mais atenção nisso quando ainda podia.

- Neste ano podemos convidar apenas a vovó, o tio Lúcio com o Paulo, a tia Leninha a Cassiana. – Frederico opinou.

Cassiana era sua única prima de primeiro grau. Tio Lúcio não tinha filhos, e era o único que ainda era casado. Tecnicamente não era casado, mas namorava a tanto tempo o Paulo que era um casamento. Tia Leninha se separara do tio Cláudio quando Cassi tinha quatro anos, e desde então ela só namorava ocasionalmente, e sempre quando um relacionamento dava errado ela reclamava que “nenhum homem no mundo presta”.

- Ah, claro. E não convidar as irmãs da vovó e seus filhos e netos. E não convidar meus primos? Natal é época de ter toda a família unida, Frederico, que ideia ridícula.

Frederico ficou quieto. Ele não era do tipo que gostava de argumentar ou mostrar sua opinião em voz alta. Ele guardou sua resposta para si.

No supermercado tinha uma área só com DVDs. Os olhos de Frederico brilharam um pouco.

- Pai, vou dar uma olhada nos filmes ali, ok? Já volto.

- Pare, com isso Frederico! Vai ver filme agora? Você já tem mais do que tem tempo de assistir, depois faz isso.

Frederico suspirou, e então seguiu seu pai. Estavam entrando no corredor de papel higiênicos, o que com certeza era mil vezes mais interessante.

¨¨¨

Clarice olhava São Paulo pela janela do taxi, suspirando. Seus óculos escuros escondiam sua expressão. Ela estava apavorada em voltar para a casa. Deveria ser o contrário, não é? Sentir alívio de chegar em casa, e não pavor. Mas não queria voltar ao caos que havia deixado para trás.

Ninguém havia buscado ela no aeroporto. Ninguém havia ligado para ela.

Principalmente: ninguém sabia que ela voltara.

A cidade era a mesma. Ela quem mudara. E tudo era diferente agora.

Ela vê a vida como uma fotografia. Há diversas interpretações em uma foto, depende apenas da pessoa que observa tirar suas conclusões. Observando São Paulo agora, depois de um ano sem voltar era tudo absurdamente diferente.

Clarice pagou o taxista e encarou o prédio na sua frente. Era como ela se lembrava. Ela suspirou e tocou a campainha do porteiro.

- Quem é? – o porteiro perguntou.

- Clarice Vianna. Oi, Alberto.

- Clarice? – o porteiro Alberto gaguejou. – Meu Deus, preciso te ver pessoalmente para ter certeza que é verdade.

Clarice riu, e Alberto chegou correndo com as chaves na mão.

- Clarinha, você está... diferente, menina!

E como estava. Com meia dúzia de tatuagens espalhadas pelo corpo, um bronzeado natural, o cabelo sem corte e livre de produtos, cacheados, o castanho mais claro por causa do ressecamento. Ela tinha um dread em uma mexa em baixo da cabeça. Estava com shorts detonados, coturnos gastos e uma blusa branca podrinha. Sua mala de viagem atrás dela. Como ela podia estar voltando?

- Voltei meio louca, é isso que está pensando? Pois eu chamo isso de liberdade, Alberto!

Clarice abraçou Alberto. Até dele ela percebeu que sentia falta. Ele fazia parte de seu passado.

- Abraços, Clarice? Tá louca mesmo!

Clarice pegou sua mala e entrou no prédio. Era só subir seis andares e estaria onde tudo começou. Não estava preparada.

Mas Clarice era impulsiva. Sabia que ao tocar na campainha de sua casa todos os fantasmas do passado voltariam. Todos que ela lutou para se libertar.

- Boa tarde, Dona Lurdinha. – Clarice cumprimentou a velha ao seu lado enquanto subiam no elevador.

- Desculpe, mas te conhe... Clarice! Que roupa é essa menina?

- Pareço tão selvagem assim?

- Você não costumava ser assim. Jesus amado, nem parece a mesma menina.

- E nem sou a mesma, Dona Lurdinha. Essa é minha versão melhorada.

A velha fez uma expressão de confusão e chegou abrir a boca para dizer alguma coisa, mas desistiu. Clarice falava umas coisas nada a ver às vezes, mas nem se importava com as expressões confusas das pessoas. Não mais.

Apartamento 6. Apartamento em que que viveu seus últimos dezoito anos. Que estranho ela ter que apertar a campainha da própria casa. Mas ela nem tinha mais a chave.

A porta abriu depois de uns minutos. Uma mulher com rugas na testa de tanto fazer careta encarava a garota na sua frente. Ela não acreditava no que via em sua frente.

- Voltei. – Clarice apenas disse, dando seu melhor sorriso falso. – E voltei antes do natal. Gostou do presente, mamãe?

Notas finais
Reviews?
(no próximo capítulo um card da Clarice ♥)