Quero ouvir eu te amo
2 Essas são minhas lembranças
Notas iniciais
Meu sono naquela noite não foi muito produtivo. Fui dominada por uma insônia angustiante, daquelas que você prevê que ficará acordado pela madrugada toda. E quando eu pegasse no sono, aposto que receberia um cutucão da mamãe, dizendo que era hora de trabalhar. Olheiras roxas, dor de cabeça e mau humor matinal.
Talvez eu pudesse montar uma tenda com as palavras “Madame Vívian”, porque o que aconteceu durante a minha noite foi exatamente isso.
— Hora de acordar, meu amor. — Mamãe chamou. Na verdade ela não me cutucou. Aquilo foi apenas uma carícia maternal. Um exemplo de pessoa delicada é a minha mãezinha.
Pestanejei muitas vezes antes de abrir os olhos por completo e deparar-me com o rosto mais adorável do mundo. Depois, assenti levemente. Só com minha mãe eu não tinha mau humor de manhã.
Após ficar arrumada e descer as escadas, deparei-me com uma mesa farta de café da manhã. Juro por tudo que é mais sagrado que daria pra quatro pessoas se alimentarem gulosamente.
— Nossa! Temos visitas? — zombei.
O que ouvi em seguida foram as gargalhadas da mamãe. Soavam tão boas que eu a acompanhei rapidamente.
Assim era minha rotina. Pelo menos de segunda a sexta. E eu sempre gostei da companhia da minha mãezinha. Não trocaria nem por mil amigas. Temos uma relação de paz e eu só quero que continue assim até que a morte nos separe.
Hoje o dia estava nublado. Meu clima favorito. E as pessoas do município continuavam no mesmo comportamento. Coisa que eu estava acostumada faz tempo.
Eu gostava do Jardim 25 de Agosto, que é onde eu moro. Principalmente da Praça Humaitá que tinha uma pequena feira que tem artigos de artesanatos, roupas e acessórios em geral.
Gostava também do meu trabalho. A algazarra das crianças sempre era contagiante. Algumas delas queriam ultrapassar a aprendizagem do curso, irritados por ainda estarmos estudando slides. Era só eu passar uma atividade em aula, envolvendo desenhos no programa Paint, que eles ficavam animados e mostravam a sua “arte”. Ops, nem todos ficaram animados.
— Algum problema, Fernanda? – perguntei a uma aluna minha branca como leite, que estava fazendo um bico enorme para o computador. Como se ele visse isso.
De início ela não respondeu, vergonhosa. Começou a mexer no cabelo nervosamente, escolhendo as palavras certas para responder-me.
— Eu não sei desenhar direito, tia. Nem no computador e muito menos na vida real.
Eu ri bastante com a confissão da garota. Lembrou-me exatamente o jeito que eu chamava as professoras até a quarta série. E ri mais ainda com o termo “vida real”. Mexer em um computador não fazia parte de um sonho, ou fazia?
Definitivamente não.
— Você quis dizer que não sabe desenhar bem nem no computador e nem no papel, certo? — corrigi.
Ela corou imediatamente, me causando uma série de sorrisos. Desde o primeiro dia de aula Fernanda causava essa impressão em todos. Todos viam sua timidez ou seu jeito... doce de ser. Diferente de mim, que só me mostrava quieta nos primeiros dias escolares. E isso me fez lembrar novamente de Michael.
Se eu tivesse um temperamento parecido com o da minha aluna não exigiria uma declaração dele, certo? De qualquer forma, haveria probabilidades de não sermos próximos, por causa da introversão. Meu destino não estava ligado ao de Michael. Nunca esteve e nunca estará. Ele era só um amigo. E eu sou uma idiota depravada por ainda pensar nessa minha parte do passado.
— É. — Fernanda tirou-me dos meus estúpidos devaneios.
Eu não poderia responder “te entendo, porque também desenho mau”. Afinal, eu herdei um dom habilidoso com o desenho, graças ao meu pai. Porém, isso não era o fim do mundo. Tive colegas com problemas de coordenação nessas horas. Pra falar a verdade, elas simplesmente não tinham o dom e pronto. E treinando com o tempo os desenhos davam bons resultados.
— Sei. Quer ajuda? — ofereci.
Um sorriso de uma criança pra mim é basicamente um presente.
Coloquei minha mão direita sobre a mão que ela estava mexendo no mouse e a ajudei a fazer um círculo no topo da “folha” do programa. A lua cheia. Em seguida, cliquei em várias partes da “página” criando pontinhos naturais de luzes, que eram as estrelas. Finalizamos com a coloração do desenho. Apenas a paisagem simples da noite. Algo fácil de fazer, um dos meus primeiros rascunhos de infância.
Fernanda ficou insatisfeita com o número de estrelas e começou a clicar agitadamente no mouse. Deixei-a sozinha. Admirei sua empolgação e logo vi que ela estava arriscando umas retas para desenhar aqueles bonequinhos que pareciam palitos de fósforo. Não sei por que, mas isso me gerou uma lembrança que veio da época em que papai ainda vivia.
— Hmm. Vivian, quando você tornar-se uma mocinha, desenhará muito bem. — adivinhou. E ele estava certo.
Espero não tê-lo decepcionado, pois pra mim o desenho é um lazer e não uma atividade para levar a sério, ou seja, como profissão.
Com extrema curiosidade, decidi prender-me um pouco ao desenho de Fernanda. Sei que não era o certo, porque o resto das crianças aguardava a avaliação do trabalho.
Ela ainda estava criando os mesmos bonequinhos que pareciam palitos com pernas e braços. Zangava-se e apagava o boneco, buscando uma perfeição que só se adquire com o tempo. Certamente, uma menina apressada. Suas expressões causavam um divertimento profundo em mim. Mordia a língua, colocava a mão no queixo para pensar e entortava a boca.
E finalmente a “obra de arte” ficou pronta. O fundo azul, a lua redonda e as estrelinhas permaneceram no desenho. Ela acrescentou um casal de bonequinhos – que dava a impressão de ter sido bem feito — e fez um coração rosa no espaço entre os dois.
Primeiramente, admirei o desenho. Depois, engoli em seco. O coração rosa me deu outra lembrança. Muito diferente da primeira. Algo que começou como rosas regadas no jardim e terminou como rosas sufocadas pelos espinhos.
André Henrique da Silva Oliveira. Branco, olhos azuis escuros. E teatralmente educado, gentil e amoroso. Era o que eu pensava antes de receber em troca uma traição. Ser traída com apenas quatorze anos de idade não é algo muito maduro e comum. O legítimo esbarrão. Uma coincidência de muitos filmes, de muitos livros. A ajuda com as matérias. André realmente era um asno na questão de estudar. E eu como uma boa e tola apaixonada o ajudei em todas elas. Cada detalhe, cada conta de matemática. Ele não dava orgulho em nenhuma matéria. Até prefiro ocultar a parte dos desenhos.
Um exemplo? A professora resolveu fazer uma espécie de revisão. A maioria era sobre a História do Brasil. Perguntas fáceis, do mesmo nível de todos saberem que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. O motivo? Relembrar os tópicos muito importantes e ajudar os que não possuem muita afinidade coma matéria.
— Vamos lá então, André. Quem assinou a Lei Áurea? — li a primeira pergunta.
Nossa, que fácil. Até os desinteressados em História deviam saber que foi a Princesa Isabel. Desde a quinta série a professora martelava esse assunto nas nossas cabeças. Se bem que ele era novato na escola. Isso não era desculpa. As escolas ensinam de formas diferentes, porém o conteúdo era o mesmo.
— Er... Não me lembro agora, Vivi.
O cara sibilava o meu nome de forma encantadora. Apaixonada, eu relevei a sua burrice. Coisa que não deveria ter feito.
Voltei a concentrar-me na atividade, enquanto ele cobriu seus lindos olhos azuis com o rosto, esfregando-o. Parei pra assistir a cena.
Logo após retirar as mãos, eu fiquei cheia de pena dele. Só assim reparei que ele estava cansado, muito cansado. E abatido. Olheiras arroxeadas — as minhas ficavam marrons com o tempo — de quem não têm tido boas noites de sono. Fiquei preocupada.
Comecei a divagar se ele estava com problemas familiares, insônia ou fazendo coisas “pesadas”.
— Com sono? – perguntei, tentando ajudar.
André suspirou profundamente e virou seu rosto angelical em minha direção. Achei que o problema era verdadeiramente complicado, pois ele só assentiu com a cabeça. Agora posso dizer que foi ignorância.
Estava quase terminando, quando o vi pegar o lápis e ler a primeira questão. No outro segundo, colou descaradamente do meu caderno. Olhei pra ele numa mistura de surpresa e confusão.
— Desculpe. Ontem estava tentando solucionar um cubo mágico e fiquei tão viciado que fui dormir tarde.
A raiva interna apoderou-se de mim. Eu me sentindo preocupada, bancando a psicóloga, pra descobrir que ele não dormiu porque não conseguiu parar de brincar num brinquedo geométrico e caótico? Fingi que não o peguei copiando todas as respostas dos exercícios. E quando vi seu sorriso de agradecimento, não resisti. Afoguei a raiva.
— Ei! Professora! — um dos meus alunos chamou-me a atenção com uma cara emburrada.
Ao me dar conta, o tempo da aula de Informática estava quase acabando e eu não havia dado uma olhada sequer no restante dos desenhos, a não ser o de Fernanda. Pedi para o garotinho emburrado esperar, dizendo que iria checar por ordem alfabética. Ri com sua resposta. Um sorriso inocente. Ainda bem que não tinha nenhuma semelhança com o André. Aquela junção de lábios fechados era pura falsidade.
As crianças foram ótimas. Cada desenho fascinava-me de algum jeito. Porque todos eles significavam um momento, um sentimento. Porque revelavam seus desejos e aflições.
Os seres humanos adultos costumam subestimar a inteligência das crianças. Poucos enxergam a essência ou a capacidade dos pequenos. André era ruim na escola, mas conquistou com o passar do tempo dons esportivos inigualáveis. Pena que não se interessava no esforço escolar. Não tenho notícias dele, mas tenho certeza de que não ingressou a fundo na carreira de esportes, senão estaria famoso — algo que sempre quis ser — e apareceria regularmente na televisão. E como uma viciada em entretenimento, eu saberia.
Dispensei os alunos e fui para casa almoçar. Não prestei muita atenção no caminho, porque o final da minha história com o canalha do André ficou impregnada na mente. Assim que tive a decepção com o Michael na infância, mudei de escola. E depois que sofri de novamente com o “capetinha dos olhos azuis” não suportei e troquei de novo.
25 de novembro de 1991. Esperando por André na entrada da escola. E estupidamente animada pelo beijo que tinha recebido no dia anterior. Ele me agradeceu — um gesto de final de ano — e logo após ter tascado um beijo na minha boca, saiu e deixou-me plantar embasbacada. Como a mágoa que absorvi por Michael tinha cessado, apostei piamente nesse “relacionamento”. Porém, fui exagerada.
Eu não analisei verdadeiramente os fatos. Usada como explicadora escolar, carregadora de mochila – o coitadinho sempre estava com a mochila pesadíssima — e beijada somente por ter feito as coisas anteriores e etc.
Um selinho. Nada mais que um selinho.
A pré- adolescente aqui fantasiou coisas inexistentes. Coisas que não aconteceriam nem se eu pudesse ter o melhor relacionamento do mundo. Porque o homem trouxe defeitos também. Não estou salvando a pele das mulheres. Sei dos meus defeitos. Dependendo da situação torno-me uma pessoa seca, indiferente. Tenho um perfeccionismo absurdo, exijo tudo nos conformes.
A decepção com André não começou quando eu o esperei toda saltitante na escola. Ela já tinha existido há tempos, e eu queria me fazer de cega e burra.
— Vivi! — meu amorzinho do ensino fundamental chamou-me de longe.
Aí que vocês entenderão onde está a lembrança. André chegou com um cartãzinho em forma de coração rosa. Óbvio que ele era comprado diretamente de uma papelaria. O que continha dentro é que subitamente despertou um interesse em mim. E esse interesse esvaziou quando li o conteúdo do cartão.
VOCÊ É UMA BOA AMIGA, VIVI. OBRIGADO PELA AJUDA ESSE ANO, OK?
DEDÉ
Amiga?
A palavra perfurou meu peito. Pior que na pré-escola. Pior que nas palavras de Michael. O atrevido ainda ousou colocar tudo em letras maiúsculas?
O idiota estava na minha frente, esperando a minha reação. Era hora de dizer “você é um falso, cretino, babaca...”
— A-h-h, obri-ga-ga-do. — Gaguejei entristecida. Eu queria chorar mais me controlei desesperadamente.
André não percebeu o meu nervosismo, é claro. Era um idiota. E é até hoje, não importa o que ele faça. Mesmo que ele doasse milhões de reais pra caridade. E ele nunca faria ou fará isso. Porque agia como um egoísta e mesquinho.
Errou quem imaginou que a minha raiva dele perdurou por causa do cartão. No recreio, o vi de mãos dadas com uma garota do mesmo tom de pele dele, com cabelos lisíssimos. Odeio ser vítima, mas reparei certo preconceito nele. Suas “colegas desejáveis” possuíam o mesmo tom de pele de André ou eram até mais claras. Será que eu fui a escrava?
Reações comuns. Choro. Falta de apetite. Falta de sono. O desejo de querer morrer, de querer rasgar-me a pele inteira.
Agora estou aqui, andando na calçada cinzenta, perto de casa. Vazia por dentro, sem vontade de chorar. Comendo um salgadinho entupido de gordura e bebendo um refrigerante light. Costumo me alimentar bem, mas é que bateu uma vontade de...
Ei! Alguém trombou comigo e fez a minha Coca-Cola sujar minha blusa branca e NOVA!
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