Queridos Professores.
1 Primeiro dia de aula.
O vento frio soprava os cabelos das alunas que caminhavam até a escola, algumas iam de carro para poupar-se do vento. Patrícia, não muito diferente delas, dirigia lentamente pelas ruas de Miami, talvez até um pouco ansiosa para chegar logo na escola nova que trabalharia. Há um ano atrás, conseguira uma promoção de ser transferida para outra escola no estado, uma escola mais vívida, e que estava em falta de professores. Sem pensar muito nos contras da situação, agarrou-se na primeira oportunidade que teve, e aqui estava. Seus pais, que sempre a ajudara em muitas situações, disseram que ela precisava de um tempo para pensar, decisões precipitadas seria uma coisa muito ruim para tomar, porém Patrícia não deu ouvidos. Agora, no começo do ano letivo, ela começou a ficar apavorada. Não conhecia o sistema da escola, não sabia da onde começar a matéria, nem sabia aonde ficava o banheiro (que para ela era um lugar muito importante). Porém, levantou a cabeça, enxugou as lágrimas de criança teimosa e arrependida, e seguiu para a escola.
O portão estava cheio de alunos, alguns cumprimentando velhos amigos do ano passado, os mais novos liam algum livro da série Diário de um Banana, e o resto estava dentro da escola, conferindo os horários. Patrícia pegou a bolsa, tudo o que era necessário, e saiu do carro, ativando o alarme da BMW. Passou pela recepção, deixando as papeladas de sua transferência lá, e a moça que cuidava de tudo prometeu que devolveria tudo no final do expediente. Vanscrutte seguiu para a primeira sala de aula que lecionaria, nervosa, e muito ansiosa. Desde pequena, amava conhecer pessoas, novos ares, novos lugares, mas quase nunca conseguia se comunicar, o nervosismo não deixava. Não se deixando vencer, logo chegou na sala, e começara a se apresentar:
—Bom dia, alunos.— começou com o habitual, passando as mãos umas nas outras.— Meu nome é Patrícia Vanscrutte...— antes que pudesse continuar, um coral de risadas se fez ao fundo da sala.
—Chamando doutor Vanscrutte.— um dos alunos resolveu tirar sarro da moça.
—Qual o seu nome?— perguntou, se aproximando da cadeira do menino.
—Victor Cruz, do Brasil. Segundo ano de intercâmbio.— sorriu vitorioso.
—Então, Victor. Se continuar com piadinhas sem graça eu serei obrigada a lhe levar para a senhora Bluckman, lá poderá fazer a piadinha que quiser, só não te garanto que vai sair tão ileso quanto pensa.— foi a vez dela de sorrir.
Vanscrutte foi alvo de muitas piadinhas com seu sobrenome, desde que o episódio de Pica-Pau saíra. Com o passar do tempo, conseguira controlar o frio que dava na barriga, e revidar da melhor maneira possível. Isso não adiantou muito.
—Continuando. Vou lecionar História com vocês, porém não pretendo começar hoje. O que acham de uma gincana?
Os murmúrios surpresos tomaram conta da sala, fazendo a mulher revirar os olhos.
—Qual tipo de gincana?— perguntou uma loira, com cabelos que desciam até a barriga, olhos castanhos claros e um sorriso amigável.
—Digam o que mais sabem sobre o colega de trás, qualquer coisinha que saibam dele. Só não briguem, crianças.
Logo, a última aluna, que não tinha ninguém na cadeira atrás, ficou olhando a professora, como se não soubesse o que falar. Jasmine ficou ponderando sobre quem falar, ela queria participar da brincadeira, porém não tinha como:
—Me diga de algum professor seu. Isso pode ser interessante.— Patrícia falou, batendo o lápis na mesa. Ah, sim, como Jasmine não tinha pensado naquilo antes?
—Dwayne é o melhor professor de Educação Física que tivemos, e não é por ser bonito, é por ser... educado.— ela falava, receosa, na verdade ela não sabia o que falar.— Ah, professora, não sei muito sobre ele.
—Tudo bem. Parabéns pela tentativa.— Vanscrutte falou.
Enquanto isso, Dwayne dava aulas de educação física, ou pelo menos fingia. Odiava segundas-feiras com toda a força que há no seu ser, e não sabia explicar o real porquê daquilo. A escola que trabalhava há quase seis anos seria a receptiva do jogo de basquete do ano, o problema é que o avisaram tarde demais. Aproveitava que os alunos estavam distraídos, conversando entre si, mexendo no celular, ou lendo algum livro, para montar o planejamento dos primeiros três meses. Era pouco tempo, para muita sala. Estava a ponto de dar um grito de Hércules para aquela turma calar a boca, tentava se controlar ao máximo para isso não acontecer. Desistindo de se concentrar tanto ali, olhou para o lado, vendo um casal de gêmeos conversando sobre alguma nova professora:
—Provavelmente é da matéria de História, o senhor Strucks se aposentou ano passado...— a ruiva observou, enquanto mexia calmamente com o fio de cabelo.
—Beth, sejamos sinceros aqui, Strucks quase nem dava aula para a gente, não sei porquê não foi demitido.— Dwayne sentou mais perto deles, a fim de conversar mais sobre a professora nova.
—O que aconteceu?
—Temos uma professora nova, uma tal de Patrícia Vanscrutte, e estamos tentando descobrir qual matéria ela leciona.— Beth deu de ombros.
Dway gostaria de continuar a conversa com os gêmeos, porém uma Virgínia feliz até demais entrou na quadra, o chamando. Virgínia era a secretária/recepcionista da escola, e também uma das melhores amigas de Dwayne. Os dois sempre se deram bem, já que Dway era o típico cara que sempre precisa de uma opinião feminina para chegar em uma mulher, e, se não tivesse a opinião, chegava do melhor jeito que conseguia. Virgínia era como uma mãe para o homem, por mais jovem que ela fosse, sempre o ajudava. Hoje, como recompensa de ter ficado a última semana do ano passado ajudando a limpar a escola, a moça sairia mais cedo, assim como o resto do primeiro mês. Com a professora nova, Virg explicou que tinha alguns papéis para entregar para a novata, porém não a achara em lugar nenhum, e não tinha os horários de sua aula. Stone, educadíssimo como sempre, se ofereceu para entregar as coisas para a professora, e Virg foi embora, feliz e contente, afinal, não tinha deixado nenhum trabalho não terminado.
O resto do dia fora tranquilo, tanto para Dwayne, quanto para Patrícia. A moça constatara que eram alunos bagunceiros, porém conseguia pôr rédeas na situação. O homem ficou o período inteiro pensando se tinha visto alguma mulher estranha no colégio, entretanto, sua mente não ajudava. Logo, o sinal para os alunos se despedirem da escola bateu, deixando uma Vanscrutte suspirante, primeiro dia acabado. Esperou que todos os alunos estivessem ido embora para se levantar, seguiu até a sala dos professores, pronta para encontrar a recepcionista com os papéis em mão, mas não a viu ali. Deu de ombros, perdoaria o atraso da mulher, era o primeiro dia dela ali, não queria causar más intenções, principalmente com os outros funcionários. Andou um pouquinho mais para chegar até o quadro, neste estava anotado algumas informações importantes, e ela rapidamente pegou uma folha e uma caneta para anotar tudo. Distraída, nem percebeu um homem entrar pela sala, largar a bolsa com alguns objetos de Educação Física dentro no chão, e andar até ela.
"Miami está melhorando quanto às moças" Dway pensou, observando a bunda maravilhosamente redonda (para ele) da moça.
Se aproximou, sem fazer barulho algum. Limpou a garganta, não querendo interromper a concentração de Vanscrutte no quadro. Patty se assusta, virando mais que depressa, e quase caindo quando sua cabeça bateu no peitoral (próximo até demais) de Dwayne. O moço era muito mais alto que ela, o que a fez ter que erguer a cabeça para ver de quem tratava, e, meu Deus, que homem era aquele? Os braços fortes, com uma tatuagem enorme, pernas grossas, e um peitoral malhado, provavelmente tinha saído do WWE ou do cinema. Recuperando-se da respiração ofegante, resolveu se pronunciar:
—Posso ajudar?
—Patrícia Vanscrutte?— Dwayne escondia (não muito bem) a vontade de rir, tentou se manter sério, o que não conseguiu.
—Eu mesma. Por quê?— ela revirou os olhos. Até quando as piadas iriam? Droga, piadinhas sem graça são cansativas demais.
—Virgínia me pediu para entregar isso.
"Espera, eu não posso entregar isso assim", pensou. Dwayne pega a caneta da mão dela, sem perceber o quão bruto tinha sido, e anotou algo no verso da folha mais desimportante. Por fim, entregou-as para a dona, sorrindo do melhor jeito que conseguia.
—Meu nome é Dwayne Stone.— estendeu a mão, sendo ignorado alguns segundos por uma moça distraída com o que ele havia escrito.
—Ah, sim. Patrícia, mas pode me chamar de Patty.— o atendeu.— Espera, Dwayne, professor de educação física? Minha aluna falou de você nas aulas, não muito, mas falou. Parece que é muito querido pelos alunos.— tentava parecer formal, estava feliz em estar conseguindo.
—Por acaso, está indo para casa?— ele pergunta, tão inocente quanto uma criança.
—Estou, sim.
—Posso te acompanhar?— ele observa ela pegar três bolsas (uma média, uma pequena, e uma que parecia um estojo), logo depois ela aceita o convite.
Percorreram a escola em silêncio. Patrícia estava tímida demais para começar um assunto, e Dwayne poderia jurar que ela não queria começar um assunto, então a deixou quieta. Quando chegaram no estacionamento, a boca de Patrícia quase caiu no chão. Desde pequena, sempre fora apaixonada por carros, ainda mais pelos esportivos, seu sonho era comprar todos os carros que conseguira ao decorrer da vida, mas o salário de professora não ajudava muito. Totalmente ao que parecia o contrário de Dwayne. Ao lado da BMW de Vanscrutte, uma Mercedes 2017 prata descansava tranquilamente. Patrícia era louca para entrar em qualquer carro, principalmente se fosse uma Mercedes de 2017 PRATA.
—Gosta de carros?— Dway perguntou, desligando o alarme do seu carro.
—Não aja como se não estivesse vendo minha BMW.— ela sorri.
—Nos vemos amanhã?— abriram as portas quase simultaneamente.
—Espero que sim...
"Porquê, nossa, você acabou de humilhar meus ex-namorados com esses músculos", pensou a mulher, porém deixou só em pensamento mesmo, ela sabia o quão perigoso era mexer com o ego de um homem.
Antes de entrar na Mercedes, Dwayne sorri sedutoramente, e lança uma piscadela para Patty. Porém, tentando dar a de difícil, ela se mostra independente, arqueando as sobrancelhas. Stone termina de entrar no carro, e cinco segundos depois já estava virando a esquina.
Curiosa do jeito que era, ela entra na BMW, pega os papéis e fica tentando achar qual era o papel que ele tinha anotado. Eram muitos papéis, porém o que ela precisava estava por cima, praticamente. Um sorriso de incredulidade se formou em seus lábios, quem ele pensa que era para a seduzir desse jeito?
No verso do papel, junto com dois números de telefone (um de seu celular, e o outro do telefone residencial), estava uma letra feia falando: "Se você não me ligar, juro que vou te buscar na sua casa amanhã antes do expediente. Dway xx"
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