Queridos Amigos

12 Capitulo 12: Neve I


Notas iniciais
Olá! Peço desculpas aos que estão acompanhando a história, pois tenho demorado bastante para postar. Acontecem imprevistos que infelizmente afetam nossas agendas, muito obrigado à todos que estão acompanhando. Boa leitura!

Havia um grande e sofisticado hospital na Suécia. Fora dele estava frio, o céu vasto era pálido e a neve branca rodeava o lugar aos montes, maquinas de manusear gelo trabalhavam fora do mesmo. Dentro do edifício era pálido e gelado.

Em uma sala pequena, branca, impregnada de frieza e com pouquíssimas variações de cor além do branco doentio, duas pessoas conversavam. Um doutor de jaleco e uma bela moça jovem da Noruega.

— Muito bem – disse ele olhando uma série de folhas em uma prancheta – A senhorita oficialmente saiu da observação. Temos certeza absoluta de que a senhora está bem e não oferece riscos às pessoas à sua volta. Pode ter uma vida normal como qualquer pessoa saudável. Não vai precisar de remédios nem se preocupar com outra doença terminal no momento.

— Bem que isso poderia ter acontecido mais cedo – disse a moça com tristeza.

— Me desculpe, nós passamos mais de uma década tentando ajudar a senhorita, mas infelizmente era complexo demais para resolvermos o problema tão cedo.

— Eu sei! Não foi minha intenção constrange-lo, nem ao senhor, nem ao hospital. Só que... Meus pais... Minha infância... Minha vida... Dentro de pouco tempo vou ter que ir pra Noruega assumir os negócios da família e eu passei toda minha vida isolada em um quarto, sem ninguém poder encostar em mim...

O médico a olhou com empatia, mas ela coberta com um verniz de insensibilidade.

— Eu sei que a vida da senhorita foi dura. Eu me sensibilizo com o seu problema. Mas a senhorita ainda é jovem, tem a vida toda pela frente. Se quer uma dica, poderia tentar fazer algo que sempre sonhasse em fazer. Dinheiro não lhe falta, nem tempo, e agora tem condições e disposição, e ainda vai ter muito tempo livre para fazer o que quiser no futuro. Não há nenhum lugar que gostaria de ir? Algo que gostaria de fazer?

A jovem se encolheu em silêncio. Olhos azuis e claros olhando tristemente para baixo.

— Eu tenho uma prima. Ela já veio aqui algumas poucas vezes. Ela é da Alemanha. Nas poucas vezes que ela veio aqui ela me compreendia. Compreendia meu isolamento, minha solidão. Agora que eu finalmente posso encostar nas pessoas, queria abraçar ela pelas vezes que veio me visitar.

— Ah! Ótimo! Viaje! Leve sua irmã!

A moça franziu os lábios vermelhos de batom, cruzou os braços e baixou a cabeça.

— Talvez isso não seja uma boa ideia. Acho que ela não vai aceitar. Eu a afastei demais.

— Aquela moça a ama de forma incondicional. Não precisa se preocupar com isso.

A mais nova se acalmou um pouco, mas sem abandonar completamente o desconforto. Olhou o profissional de saúde com seus olhos frios e ao mesmo tempo sensíveis, manifestando certa gratidão.

— Obrigada doutor – disse se levantando.

Estava prestes a se virar como de costume, mas foi surpreendida pela mão estendida do médico que também havia ficado de pé. O mais velho queria cumprimenta-la, as pessoas não faziam isso com ela, por isso a jovem estranhou.

Ficaram defronte um para o outro, entre eles nada além da mesa médico, o homem estendendo a mão para a mesma e a moça olhando-o com drama nos olhos, estática. Ficaram assim alguns instantes, paralisados na sala branca e fria.

— Está tudo bem. Como eu disse, não oferece mais risco para ninguém, pode segurar a minha mão.

Ela engoliu seco, temerosa.

— Está tudo bem! – disse abaixando o braço – Não vou força-la a nada, aos poucos você deve se acostumar a interagir com as pessoas.

Ela baixou a cabeça em grata reverência, como costumava fazer.

Deu as costas para o médico e caminhou em direção a porta, a mão de dedos finos estava prestes a tocar a maçaneta redonda e dourada, quando de repente o médico a chamou.

— Elsa!

A bela jovem virou o corpo magro, os cabelos brancos estavam presos em uma trança única bem feita, o rosto alvo e imaculado manifestando certa inocência, os olhos azuis brilhantes expressando o respeito ao médico e os lábios vermelhos parcialmente abertos.

— Aproveite sua nova vida!

Ela sorriu para o mesmo como agradecimento, logo depois saiu.

Rapunzel ouviu o telefone tocar. Viu que era a mãe. Atendeu.

— Mãe? Oi! Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

— Sabe sua prima Elsa?

A loira logo se amedrontou.

— Ai meu Deus! O que aconteceu com ela? – disse já em desespero.

— Calma! Ela está bem! Na verdade nunca esteve melhor! Ela está totalmente curada e saiu de observação há poucos dias. Ela finalmente deixou a quarentena, e pode viver como qualquer pessoa normal!

— Ah! Graças à Deus! – disse ela alegre e aliviada.

— Enfim, ela me ligou agora a pouco. Disse que ela e a Anna estão vindo para Filótes. E querem ver você!

— Sério?!

— É! Ela me disse que quer agradecer pessoalmente à você por todo o apoio que você deu à ela naqueles tempos difíceis.

— Oh! – disse sorridente – Vai ser um prazer ver ela de novo e finalmente poder encostar nela!

— Ótimo! Eu falei pra ela que você estava vivendo na casa de um amigo nosso nessas férias. Também falei com Norte e perguntei se ele aceitaria acolher mais alguém da nossa família aí e ele aceitou. Elas chegam amanhã, assim que elas chegarem, mandaremos alguém busca-las e leva-las até você.

— Pode deixar mãe! Obrigada.

Mãe e filha pararam em um breve momento de silêncio pelo telefone.

— Sinto sua falta, filha.

— Eu também sinto da senhora, mãe.

— Mas você está mesmo bem aí? Não precisam de nada? Estão tratando você bem?

— Estou ótima mãe! Obrigada por se preocupar, até que as pessoas aqui são bem legais.

— Então está bem, vou desligar. Deus a abençoe.

— Obrigada! À senhora também. Tchau.

A loira desligou o telefone.

A alemã estava sentada sobre a mesa de madeira da cozinha de Norte. A luz fraca do céu entrava pelas janelas, que mostravam as grandes nuvens de inverno. Ao redor dela estavam os demais. À sua frente estava Merida, contra quem jogava xadrez, sendo as peças brancas, ao lado de ambas, de pé, na cabeceira da mesa, estavam Jack e Soluço assistindo à partida. Todos usavam moletons folgados e confortáveis.

Faziam um pequena competição.

— O que aconteceu? – perguntou a ruiva.

— Jack! Duas primas minhas vão vir pra cá – disse ela voltando-se para o russo.

O platinado parou em silêncio, os olhos azuis arregalados, sentindo uma pequena ponta de indignação.

— Ah! Fala sério! Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece?! Já não basta ter que acolher você três agora vou ter que acolher mais duas?! Vocês vão virar cinco?!

Todos sorriram ao ver a reação do platinado. Em outros tempos estaria sendo sincero.

— Relaxa! Elas são legais! Você vai gostar delas, uma delas em especial.

— Como pode ter tanta certeza?

— Uma teoria. Vocês são bem parecidos.

— Ah – gemeu – Quando é que vocês vão embora hein?!

— Nem nós sabemos responder isso – disse Soluço, sorrindo.

Alguns minutos se passaram. Merida e Rapunzel continuavam a partida de xadrez. Moviam as grandes peças de madeira sobre o vasto tabuleiro antigo.

— Você é boa! – disse a loira.

— Eu sempre joguei bastante com a minha mãe. Ela fazia questão disso – falou manifestando sua recordação desgostosa.

— Pois é, mas dessa vez eu ganhei. Xeque-Mate! – falou derrubando o rei negro.

— Ah! – surpreendeu-se a escocesa – Tá legal! Com essa é um empate, vamos pra uma terceira rodada!

— Ah! – disse Soluço se afastando de ambas – Vocês duas podem continuar aí. No início estava legal, mas agora perdeu a graça, não é uma competição se só vocês duas jogam.

— Eu concordo – disse Jack afastando-se e cruzando os braços.

Caminharam silenciosamente para a sala. Onde estava o piano antigo e caro por perto.

A ruiva e a loira os olhavam um tanto incomodadas.

Não tinham muito o que fazer, nem se sentiam na necessidade de conversar, algum tempo houvera passado e a mera sensação dos demais estarem presentes já era aprazível para todos.

As moças decidiram guardar as peças no tabuleiro. Sentaram-se na sala com os rapazes.

De repente, Soluço decidiu ir tocar no piano. Todos o olharam. Os dedos humildes e trabalhadores do rapaz começaram a passear suavemente nas teclas de marfim. O som fino e angelical do instrumento encheu de alegria o coração dos demais. Dentro de pouco tempo os outros três descobriram a música que o escandinavo tocava.

Rapunzel sorriu contente e logo correu para tocar ao lado de Soluço.

Jack e Merida ficaram satisfeitos ao vê-los tocando juntos. Foram até o piano, acercar-se dos dois, observando-os sorridentes, apoiando-se no instrumento, balançando as cabeças.

Os pianistas tocaram a música até o final. Quando terminaram, o russo e a escocesa os aplaudiram. Os aplaudidos fizeram reverência.

— Legal! Heart and Soul é uma música legal, mas me dá licença, deixa eu mostrar o que eu sei! – disse o platinado caminhando até o banco do piano, quase empurrando Soluço e Rapunzel.

Sentou-se e ajeitou-se sobre o mesmo.

Os três o observaram com ansiedade, apoiando-se sorridentes no grande instrumento.

De repente Jack começou a tocar. Os demais ficaram chocados.

— Flight of the Bumblebee?! – disse Rapunzel.

— O Voo do Zangão?! – disse Merida arqueando uma sobrancelha com verniz de alegria.

— Rymsky-Korsakov – prosseguiu a loira.

— Russo! – concluiu Soluço.

Os três se olharam e logo depois voltaram-se para o platinado.

— Olha cachos de neve, sem ofensa, mas essa música não parece fazer o seu estilo – disse a escocesa.

Jack a ignorou e disse sorrindo: “Olhem e chorem diante das artes do meu país meros mortais!”.

— Isso faz o seu estilo – prosseguiu a ruiva.

— Essa música é legal! – disse o norueguês – Mas prefiro Korobeiniki.

O russo começou a tocar a música dita pelo garoto de cabelos castanhos.

— Música folclórica, claro! – comentou Jack.

Poucos instantes depois, Merida falou: “Dance of the Knights!”.

— A Dança dos Cavaleiros de Prokofiev?! Nossa! Estou surpreso – disse com sarcasmo enquanto iniciava a música solicitada.

Próximo ao fim da terceira música, Rapunzel disse: “Gosto de Dance of the Sugar plum Fairy de Tchaikovsky, Dança da Fada Açucarada.”.

Jack começou a toca-la.

— Mas também amo March of the Toy Soldiers, Marcha dos Soldados de Brinquedo. Também de Tchaikovsky.

O eslavo bateu nas teclas do piano.

— Rapunzel, escolhe uma de cada vez! – reclamou o platinado.

— Desculpe – pediu sorrindo – Pode ser March f the Toy Soldiers mesmo.

O russo começou a tocar. Todos balançavam a cabeça acompanhando o ritmo da música. Quando terminou, aplaudiram-no. Jack atirou beijos para os lados como se houvesse uma multidão ao redor.

— Obrigado. Obrigado.

— Tá legal! Agora é minha vez! – disse a alemã correndo para o banco – Quero mostrar as belas músicas da Alemanha!

— Está bem então! – disse Jack – Eu sei que não vai ser tão bom quanto as músicas da Rússia, mas fique à vontade.

Rapunzel mostrou a língua para o russo enquanto sorria. O platinado sorriu de volta. Soluço e Merida apenas observavam pacientes.

Os dedos finos, delicados e femininos da loira começaram a acariciar as teclas do piano.

— Prelude, de Bach – disse Soluço – Essa música é mesmo muito bonita! É isso aí Jack, seu país encontrou um adversário à altura!

O platinado mostrou a língua para o mesmo, manifestando zanga infantil. Os três riram.

— Für Elise! – pediu Jack.

A loira imediatamente atendeu.

— Clássico de Beethoven! – comentou a pianista enquanto tocava.

— Du, Du Liegst Mir Im Herzer! – solicitou o escandinavo perto do fim da música anterior.

— Música folclórica! Claro Soluço! – disse a loira sorrindo, começando a tocar.

— “Você está mentindo no meu coração” ?! Está de coração partido Soluço?! – questionou Merida com ar de deboche.

— Você nem imagina – respondeu o mesmo.

Acompanhavam a música com gosto. Rapunzel terminou de tocar.

— Algum pedido Merida?

— Não sei... Que tal... Toccata e Fugue in d minor?

— Bach outra vez? É pra já!

Iniciou novamente outra música.

Os quatro se divertiam alegres escutando o belo som do piano tocando as mais sublimes músicas.

— Dá licença loira agora é minha vez! – disse Merida caminhando até o banco.

Rapunzel saiu recatadamente do mesmo.

A escocesa estralou os dedos.

— Sem ofensa, mas você não parece o tipo de pessoa que sabe tocar piano – disse Jack.

— Minha mãe me fez aprender.

— Ohn – disse o russo afirmando compreensão.

— Precisa ter algo a ver com a Escócia não é? Eu não lembro de nenhum compositor escocês. Só conheço russos, alemães, franceses e italianos... Espera! Já sei!

Começou a tocar. Jack não conseguiu segurar o riso.

Merida bateu com os punhos cerrados nos teclados fazendo o som dissonante. Apontou o dedo para o mesmo e disse: “Ei! Não é justo! Eu não fiquei rindo de você quando estava tocando!”.

— Desculpa! – disse ele ainda sorrindo – É que por essa eu não esperava! Pode continuar tocando, mas sério?! A trilha sonora de Coração Valente?!

— Olhe nos meus olhos e diga que não é uma música bonita!

O russo arregalou os olhos azuis. Ficou em silêncio e ergueu as mãos abertas em defesa própria.

— Tudo bem, não falo mais nada...

A escocesa voltou a tocar.

— Sem ofensas ruiva, mas não disse que não gostava muito desse filme e que ele tinha muitos erros históricos?! – disse Jack.

— Primeiro, se passa na Idade Média! Segundo, se passa Escócia! Terceiro, é um filme emocionante! Quarto, tem cavaleiros! Então para de reclamar! – disse enquanto tocava.

— Shhhh! – fez Rapunzel para o platinado enquanto ouvia.

Os quatro seguiram escutando a música em silêncio.

Merida suspirou satisfeita e silenciosa. Todos estavam com paz no coração. Aplaudiram-na.

— Agora é sua vez Soluço! – disse a ruiva de repente, voltando-se para o mesmo, levantando-se e caminhando em sua direção.

— Eu?! – respondeu um tanto assustado enquanto era empurrado pela escocesa para o banco – Mas eu já toquei! Fui eu quem comecei isso tudo pra começo de conversa!

— Tá, mas você não tocou sozinho nenhuma vez! – respondeu jogando-o no banco.

— Concordo – disse Jack, em vingança ao comentário de antes.

— Eu também quero ver você tocar! – disse a loira.

O castanho suspirou com o olhar baixo e cansado, pensando. De repente uma bela melodia lhe veio à mente.

— Essa não é uma música norueguesa, nem tem nada a ver com a Noruega, mas eu acho ela muito bonita.

Começou a tocar. Os três imediatamente se surpreenderam. Não a conheciam, mas sabiam que não era de nenhum compositor popular, pelo menos não entre os três.

Soluço logo terminou a música. Todos ficaram em silêncio.

— Que música é essa? – perguntou Rapunzel, surpreendida.

— O nome dela é Will of the Heart. Vontade do Coração. Tirei ela de uma anime! – disse sorrindo.

O aplaudiram.

Depois das músicas, pararam em silêncio e sorridentes, com paz na alma. Estavam pacificamente alegres.

Mais tarde, assistiram televisão.

Se divertiam assistindo uma comédia leve, mas de repente, surgiu o intervalo, para o desgosto de todos.

Alguns pegaram os telefones e logo desviaram sua atenção, mas Merida seguiu olhando o aparelho com o rosto belo e jovem apoiado na delicada mão fechada.

De repente passou uma propaganda do jornal local. A escocesa arregalou os olhos ao notar as imagens.

— Gente, olha! – disse apontando para a televisão.

Todos a obedeceram imediatamente e em silêncio.

A jornalista falava: “Há alguns dias atrás um ladrão foi denunciado e encontrado desmaiado no metrô de madrugada.”.

— É ele! Aquele cara que você nocauteou, Rapunzel!

A loira arregalava os olhos verdes.

A moça da televisão continuava: “A testemunha disse que encontrou o suspeito inconsciente no vagão do lado e que o mesmo havia acabado de lhe roubar um colar de pérolas.”.

— O que alguém com dinheiro o bastante para comprar um colar de pérolas fazia num metrô? – perguntou Soluço.

A jornalista seguiu: “Contudo a polícia descobriu que a testemunha que o denunciou também era ladra de joias, e ela também foi presa. A suspeita confessou o crime, mas disse que não agrediu o primeiro ladrão. Uma análise foi feita nas câmeras do vagão, e foi descoberto que uma moça loira e jovem foi responsável por nocautear o bandido.”.

Todos arregalaram os olhos. Viram as cenas embaçadas na televisão dos quatro interagindo com Flynn.

A mulher continuava a falar: “No vídeo é possível ver o marginal se aproximando dela e dos amigos, que tentam protege-la de um assédio, mas falham processo...”.

— Ei! – Merida se queixou franzindo o cenho.

Continuaram ouvindo a jornalista: “Mas logo depois a menina loira agride o bandido, quebrando-lhe o nariz e finalmente nocauteando ele, logo depois ela e os demais vão embora. Apesar da aparência chamativa dos quatro jovens, não foi possível identifica-los pelas câmeras de vídeo. É uma pena, pois eles são heróis, inclusive a menina loira, onde quer que estejam, esperamos que estejam assistindo isso, e em nome dos cidadãos de Filótes, queremos agradece-los!”.

Os quatro sorriram uns para os outros, se sacudindo, mas a propaganda não terminou: “O bandido não disse muita coisa além disso...”.

A cena cortou e mostrou Flynn envergonhado o cabelo bagunçado e um curativo no rosto. Jack, Soluço, Merida e Rapunzel fecharam o rosto e olharam com desprezo.

— O quê?! Não! Eu não fui nocauteado por aquela garota! Tá doido?! Onde um cara forte como eu ia ser nocauteado por uma garota como aquela?! Olhem o vídeo direito! Tinha um outro cara.

— Sim, os dois rapazes – disse o jornalista que o entrevistava.

— Não! Tinha outro cara! Um grande e forte! Ele me nocauteou!

Todos seguiam olhando Ryder com desdém.

— Idiota! – disse a ruiva enquanto assistia.

Pouco tempo depois era mostrado o mesmo sendo colocado no carro de polícia enquanto a jornalista concluía: “O suspeito terá que responder por crimes de assalto, assédio e violência.”.

— Parece que aquele cara nunca mais vai incomodar alguém de novo – disse Jack sorridente para Rapunzel, que respondeu com outro sorriso, embora o mesmo fosse um sorriso tímido.

A jornalista continuou: “Mudando agora para festas, a cidade de Filótes se prepara para o Natal! Algumas lojas já se enfeitavam para o natal, mas agora toda a cidade está sendo enfeitada com luzes de natal! E o primeiro dia de neve está quase chegando para termos mais um belo natal branquinho!”.

— Ai não! – disse a alemã se levantando com as mãos femininas nos cabelos loiros.

— O que foi Punzie?! – perguntou Merida sem entender, olhando-a de baixo.

— Já está quase chegando o primeiro dia de neve!

— E o que é que tem? – questionou Soluço.

— É que... – a loira curvou a coluna, baixando a cabeça, envergonhada, colocando a mão sobre o braço magro e delicado – Lá em casa temos a tradição de tricotar cachecóis antes do inverno, mas eu tinha me esquecido disso, e agora eu vou quebrar essa tradição...

Os três se olharam. Jack se levantou ficando de frente para a mesma.

— Eu acho que tenho a solução – disse o platinado.

— Tem certeza que o Sr. Norte não vai se incomodar com a gente usando o material de costura da mulher dele? – perguntou Rapunzel sorrindo, segurando as grandes agulhas de tricô enquanto trabalhava com as mesmas.

O russo havia direcionado os demais a mais um quarto velho, com uma cama de casal de enfeitados lençóis antigos, um armário grande e velho de madeira no canto da parede com papel enfeitado, cadeiras e prateleiras antigas espalhadas pelo cômodo sobre o tapete vermelho, cheios de macios novelos de lã e grandes agulhas brancas.

Todos estavam sentados em algum lugar do quarto, tricotando juntos enquanto conversavam.

— Claro que não! – disse Jack enquanto trabalhava em um cachecol azul com detalhes brancos – Meu avô tem outras casas, e guarda muitas coisas da minha avó com ele, além disso ele iria gostar de ver esse material todo sendo usado para alguma coisa, ainda mais sendo usado por vocês.

Passaram alguns instantes em silêncio.

— Punzie, seus pais não correm o risco de querer virem te buscar só pra praticar essa tradição? – perguntou Merida que tricotava um cachecol verde xadrez com alguns detalhes alaranjados.

— Claro que não! Meus pais devem estar agora tricotando sozinhos em casa, não deixariam de fazer isso por nada no mundo, teve uma vez que eu estava doente e tricotaram mesmo assim, além disso eles não iriam me buscar se eu não pedisse.

— E por que você não pede? – perguntou o escandinavo de forma inocente, trabalhando em seu cachecol também verde, mas com interessantes detalhes vermelhos.

Todos levantaram a cabeça surpresos, trocaram alguns olhares silenciosos, a resposta era clara.

— Desculpem – disse o mesmo ajeitando os óculos.

— O que você está fazendo? – perguntou Merida olhando o trabalho de Soluço – Que desenho é esse no seu cachecol?

— Na verdade são enfeites que eu vi uma vez em um Drakkar, um barco viking de verdade no museu e também em algumas espadas vikings. Estavam bem preservados, achei bonito e fiquei com eles na cabeça, então decidi passar para esse cachecol.

— Deve ficar muito bonito Soluço! – disse Rapunzel.

— Aí! Onde foi que você aprendeu a tricotar? – perguntou a escocesa.

— Meu padrinho, o nome dele é Hooligan, mas o apelido dele é Bocão, eu também o chamo assim. Meu pai pensou “Hum! Já que meu filho não presta para administrar a empresa então vou deixa-lo com Bocão para aprender a mexer com os tecidos e o material de fazer casacos” – disse imitando a voz do pai e posicionando os braços de forma pensativa enquanto olhava para cima e para o lado.

Todos riram.

— Ah, eu também aprendi à força – disse Merida olhando o trabalho com os olhos azuis – Minha mãe fez questão de me ensinar um monte de coisas, ela me ensinava quase todo dia quando nevava, depois das aulas de oratória.

— Oratória, piano, tricô... – disse Jack enquanto tricotava – Tem alguma coisa que sua mãe não te ensinou? – perguntou apontando a ruiva com a agulha.

— Eu não sei – respondeu de forma descontraída – Vamos descobrir... Mas e você? Não é comum ver rapazes tricotando, ainda mais rapazes como você.

O platinado fez careta para a ruiva.

— Eu cresci com três mulheres, alguma...

Todos concluíram a frase ao mesmo tempo, os outros três balançando a cabeça: “’ Alguma coisa eu tinha que aprender’.”.

Riram após isso. Jack olhou os três sorridente, balançando a cabeça.

Estava pálido no céu frio da Suécia, um grande avião branco estava prestes a decolar, ao redor dele haviam movimentos distantes de nobres homens trabalhando.

Elsa e Anna guardavam sua bagagem e se ajeitavam sobre os macios bancos cinzentos da primeira classe. A mais velha usava um suéter verde musgo no peito, de longas mangas pretas e capuz violeta. A mais nova usava um suéter preto, as mangas eram verde claro e tinha belos enfeites no mesmo. Usavam calças jeans e botas marrons. Bem protegidas contra o frio.

Elsa estava desconfortável, não era habituada a ter tantas pessoas assim ao seu redor. Sentia estar fazendo algo errado sempre que alguém a olhava.

— Relaxa – disse Anna sorrindo serenamente para a mesma.

A platinada sorriu para a mesma, a agradecendo. Alguns segundos se passaram, a ruiva olhou a mão feminina, bela e pálida da irmã deitada no braço da poltrona, há muito tempo não sabia o que era pegar na mão de sua irmã, a vontade lhe invadia, e aquele era um momento propício.

Levou sua mão rosada lentamente até as costas da mão de Elsa, que olhou sua tentativa pelo canto dos olhos. Sentiu-se impelida a fechar a mão, e assim o fez.

A notar a reação da mais velha, Anna recuou, e desistiu da ideia. Virou o rosto jovem e abatido para o lado, franzindo o cenho com tristeza.

Elsa olhou a irmã, sentiu-se culpada, mas estava habituada a não deixar que ninguém a tocasse.

Uma aeromoça bem vestida se aproximou de ambas, carregando uma garrafa de champanhe.

— As senhoras aceitam? – perguntou sorrindo.

— Sim! Obrigada! – respondeu Anna erguendo a taça e sorrindo para a mesma.

— Eu também! – disse Elsa fazendo o mesmo, mas com o rosto pálido abaixado e fechado – Obrigada.

— Você está nervosa? – perguntou a ruiva – Eu sei que a última vez que você voou foi quando viajou para alguns hospitais para... Enfim. Você não tem esse hábito...

— Informou o seu namorado sobre nossa viagem? – perguntou quase interrompendo, não queria falar sobre si mesma.

— O Hans?! Não, ele está viajando no momento, lá na Finlândia, visitando a família.

— Não acha que devia avisa-lo? Vocês começaram a namorar tem pouco tempo.

— Não, nós duas vamos ficar lá em Filótes apenas poucos dias. No mês passado, que foi quando os médicos disseram que voltaríamos para casa, Hans e eu combinamos de nos encontrar na Noruega neste mês que vem. Não vai fazer diferença ele saber que viajamos.

Elsa fungou.

— Talvez ele fique preocupado, mas tudo bem, faça o que bem entender. Ainda assim é melhor do que você querer casar com ele no mesmo dia.

— Dá um tempo Elsa! – Anna se enfureceu – Não acredito que ouvi você! Às vezes as pessoas já sabem o que querem. E outra, é amor verdadeiro!

— O que sabe sobre amor? – perguntou com certo desdém, olhando-a pelo canto dos olhos.

— Mais do que você! – respondeu ainda irritada.

Elsa a ignorou, deitou-se sobre a poltrona macia e cinzenta, e fechou os olhos, pronta para dormir. Havia sido a primeira vez que havia bebido, embora o sabor do álcool não lhe fosse agradável, esperava que a ajudasse a cair no sono.

Anna se entristeceu, amava a irmã, não queria brigar, mas as circunstâncias a levavam a isso.

— Desculpa Elsa, eu não queria brigar...

— Tá tudo bem Anna – respondeu de olhos fechados, recatada e elegante, mas frívola – Agora vá dormir, a viagem é meio longa.

A mais nova se silenciou, franziu o cenho, mas obedeceu. Ambas começaram a dormir.

Era manhã em Filótes, as nuvens pálidas cobriam o céu, e estava escuro na casa da família de Jack.

O russo acordou em sua cama, sentindo o frio agradável, mas dentro de pouco tempo se levantou.

Saiu do quarto, escovou os dentes e logo depois foi para a sala, para sua surpresa a televisão estava ligada em um volume baixo, e Merida e Rapunzel dormiam desconfortáveis sobre o sofá, cobertas com os lençóis grossos e macios.

O platinado desligou a televisão, colocou o controle sobre a mesa de vidro e caminhou até a loira, houvera descoberto dias antes que a escocesa tinha sono pesado.

— Rapunzel! – chamou mexendo-a – O que está fazendo aqui? Por que não está dormindo no seu quarto?

A alemã deu um breve espasmo, mas ficou ciente do acontecimento.

— Oi Jack! A Elsa chegou? – perguntou entorpecida pelo sono.

— Elsa?! Quem é Elsa?! Não! O que você e a Merida estão fazendo dormindo aqui na sala? E olha só, a televisão é de graça, mas tem quem paga!

— Ah, desculpa, é que eu queria estar acordada quando a minha prima chegasse, e a Merida não queria me deixar sozinha, então ficou aqui comigo, aí começamos a assistir TV.

O mais novo sorriu diante da situação.

— Vai pra cama Rapunzel, eu já estou acordado, então caso ela chegue eu mesmo a recebo.

— Tá bem! – disse, mas estava cansada demais para se levantar.

— Rapunzel! – chamou Jack.

— Só mais cinco minutos...

O platinado revirou os olhos sorrindo.

— Eu vou ter que carregar vocês pra cama mesmo?!

— Se você insiste... – disse a loira sorridente.

Jack agarrou a alemã, tentou levanta-la, mas era um pouco pesada para ele, todavia, conseguiu ergue-la sobre seu colo e caminhou um pouco cambaleante com ela.

Quando chegou na porta, encontrou-a fechada, bateu a cabeça na porta sussurrando: “Idiota!”.

Fez esforço para conseguir abrir a maçaneta com o pé enquanto segurava a amiga, levou um pouco de tempo, mas Rapunzel acordou e abriu a porta.

O platinado adentrou o quarto e deitou-a na cama, quase caindo sobre a mesma.

Logo depois saiu fechando a porta, abriu o quarto de Merida e logo depois a buscou. Fez o mesmo esforço e chegou a cair com ela do mesmo jeito sobre a cama, mas finalmente colocou ambas no devido lugar.

Fechou a porta da ruiva e logo depois ficou de pé, recuperando o fôlego.

Estava escuro, frio e silencioso na casa. Jack sentiu paz ao notar a calmaria.

Foi atrás de preparar o desjejum na cozinha, colocou a refeição sobre um prato e uma caneca brancos.

No terceiro andar da casa havia uma varanda grande e bela de madeira bem entalhada onde o russo ficava com o pai quando visitavam aquela casa, na sua época de infância, esperando o primeiro floco de neve cair, agora se dirigia para a mesma para ficar sozinho.

A porta da varanda havia estado trancada nos últimos tempos, mas fizera questão de destranca-la para fazer o desjejum na mesma enquanto esperava o primeiro floco de neve. Jack, suas irmãs e sua mãe tinham a capacidade de sentir o inverno chegar.

O russo colocou o prato sobre a varanda e começou a comer, olhava o vasto céu pálido, esperando a neve chegar, olhava também as belas casas e os prédios frios e distantes, cobertos pela neblina ainda densa, usava roupas de frio, meias e sandálias, saboreando seu café da manhã, sentia prazer estando ali.

Enquanto comia pensava.

“Tem sido bem divertido nos últimos dias. Quando chegaram aqui não esperava por nada disso. Pena que eles ainda não resolveram seus problemas, a Merida e o Soluço ainda brigam com os pais pelo telefone e ainda ouço Rapunzel cantar aquela música de vez em quando. Por um lado quero que eles estejam bem, por outro não quero que eles vão agora. Tem sido tão bom que mal tenho retornado às ligações da minha mãe. Acho que ela notou que tenho gostado mais de ficar aqui, mas ainda assim, sinto que ela não gosta que eu não a ligue de volta, nem atenda suas ligações. Droga! Eu sou um péssimo filho! Mas não posso dizer diferente dela... No que eu estou pensando?! Meu pai não gostaria que eu falasse isso dela, eu sei que ela me ama, mas ainda assim, quando estou perto dela sinto ela distante, indiferente. Esmeralda sabe que não tem a solução para os meus problemas, então nem tenta muito, Emma não sabe e nem precisa saber do nosso drama, embora suspeito que ela note um pouco. Eu não quero voltar pra casa, sinto falta do papai, e eu me sinto bem estando com a Merida, o Soluço e a Rapunzel. Mas isso não vai ser pra sempre, nada nunca é, o que vai acontecer quando isso acabar? Minha mãe me mandou pra cá com medo de que eu me matasse. Não me vejo com coragem o bastante pra isso, será que ela está certa? Eu não quero que isso acabe. O que vai acontecer quando isso acabar? Será que eu realmente...”.

De repente seu braço bateu no prato, derrubando a louça, quebrando-a ao cair no chão, fazendo seus estilhaços se espalharem pela grama bem aparada.

Seu rosto estava gelado e vermelho, havia se passado mais de uma hora enquanto pensava.

— Droga! – praguejou.

Soprou as mãos vendo o hálito virar neblina, logo depois pegou a caneca, desceu as escadas, lavou-a e saiu pela porta para buscar os estilhaços do prato.

Do lado de fora já havia uma pá e uma lata de lixo, então não precisou busca-las.

Colocou o capuz pois estava frio, agachou-se, começou a pegar os cacos e colocar sobre a pá, os pedaços eram pequenos e Jack não tinha pressa nenhuma para terminar.

De repente, enquanto o russo trabalhava, um carro surgiu da neblina pesada, era silencioso e se aproximava da casa da família de Jack. De repente o veículo estacionou diante da mesma, dele desceram duas moças jovens, carregando suas malas, uma delas agradeceu o motorista, que logo depois foi embora.

O platinado estava distraído e ainda pensativo, então não deu atenção.

As duas moças se olharam ao ver o rapaz agachado e encapuzado colhendo cacos no chão, de repente, o mesmo limpou as mãos nas roupas, seu trabalho estava finalizado.

— Com licença – chamou a moça mais velha, se aproximando do rapaz – É aqui que a Rapunzel está hospedada?

Ao ouvir o nome da amiga, Jack lembrou-se apenas do assédio de Flynn e dos abusos de Gothel, se dependesse dele, algo do tipo nunca mais aconteceria com Rapunzel, independente do gênero do agressor.

O russo franziu o cenho, seus olhos azuis se encheram de fúria poderosa e amedrontadora. Ergueu-se e se virou tirando o capuz, respondendo da forma mais hostil que já respondera alguém: “Quem quer saber?!”.

Mas ao virar-se, ficou espantado, pois a sua frente estava a moça mais bela que seus olhos já haviam visto. Elsa, de cabelos brancos, olhos azuis e pele alva, agora vermelha de frio, de beleza delicada.

Jack de forma não proposital abandonou a fúria de antes e arregalou os olhos azuis, que agora brilhavam como jamais haviam feito. Estava absorto com tamanha beleza e seu rosto jovem ficou mais vermelho.

Elsa também ficou perplexa ao vê-lo, não apenas por acha-lo belo, embora jovem, mas também por jamais ter visto alguém que também tivesse os mesmos tons de cabelo, pele e olhos.

Ficaram em silêncio olhando um para o outro.

No instante exato que seus olhos se encontraram, começou a nevar. Dentro de pouco tempo ficaram envoltos pelos brancos e belos flocos de neve que caíam.

Uma música inevitavelmente veio à mente jovem de Jack.

O coração bate depressa

Heart beats fast

Cores e promessas

Colors and promises

Como ser corajoso?

How to be brave

Como posso amar quando tenho medo de me apaixonar?

How can I love when I'm afraid to fall

Mas vendo você na solidão

But watching you stand alone

Todas as minhas dúvidas, de repente vão embora de alguma forma

All of my doubt, suddenly goes away somehow

Um passo mais perto

One step closer

Eu tenho morrido todos os dias esperando por você

I have died everyday, waiting for you

Querida, não tenha medo, eu te amo há mil anos

Darling, don't be afraid, I have loved you for a thousand years

Eu vou amar você por mais mil

I'll love you for a thousand more

O tempo está parado

Time stands still

Há beleza em tudo o que ela é

Beauty in all she is

Eu vou ter coragem

I will be brave

Eu não vou deixar nada levar embora

I will not let anything, take away

O que está em pé na minha frente

What's standing in front of me

Cada respiração, cada momento trouxe para isto

Every breath, every hour has come to this

Um passo mais perto

One step closer

Eu tenho morrido todos os dias esperando por você

I have died everyday, waiting for you

Querida, não tenha medo, eu te amo há mil anos

Darling, don't be afraid, I have loved you for a thousand years

Eu vou amar você por mais mil

I'll love you for a thousand more

E o tempo todo eu acreditei, que encontraria você

And all along I believed, I would find you

O tempo trouxe seu coração para mim, eu te amei por mil anos

Time has brought your heart to me, I have loved you for a thousand years

Eu vou amar você por mais mil

I'll love you for a thousand more

Um passo mais perto

One step closer

Um passo mais perto

One step closer

Eu tenho morrido todos os dias esperando por você

I have died everyday, waiting for you

Querida, não tenha medo, eu te amo há mil anos

Darling, don't be afraid, I have loved you for a thousand years

Vou te amar por mais mil

I'll love you for a thousand more

E o tempo todo eu acreditei, que encontraria você

And all along I believed, I would find you

O tempo trouxe seu coração para mim, eu te amei por mil anos

Time has brought your heart to me, I have loved you for a thousand years

Vou te amar por mais mil

I'll love you for a thousand more

Anna de repente olhou para cima, erguendo a palma branca e delicada da mão aberta, sentindo a neve alva e fina cair. Já havia visto flocos de neve incontáveis vezes na vida, mas por algum motivo aquela neve parecia estranha. Como se aquele fenômeno não fosse tão natural.

Elsa cobria o corpo do rapaz à frente dela, a ruiva teve que curvar-se para o lado para vê-lo, também ficou surpresa com a aparência do garoto, contudo notou algo que a incomodou. O brilho no olhar de Jack.

Hans não fora seu primeiro namorado, e já havia visto aquele olhar luminoso no rosto de outros pretendentes, mas nada se comparava à luz nos olhos daquele rapaz platinado.

Anna não gostou do que viu. Franziu o cenho sobre os olhos azuis.

Após alguns instantes em silêncio, a platinada tentou falar alguma coisa, mas o olhar do garoto lhe havia arrebatado o espírito, jamais fora olhada daquela forma por ninguém. Tinha que fazer um esforço.

— Ah... – falou Elsa tentando se libertar das amarras da situação – Eu sou...

— Elsa! Anna! – disse uma voz familiar para os três.

Todos voltaram-se para a porta da casa, onde estava Rapunzel, sonolenta, mas alegre por ver as primas.

Jack havia se esquecido totalmente das novas visitantes.

A alemã correu em direção as duas rindo alegre.

A norueguesa mais velha queria fugir da prima, impedir que a tocassem, mas ainda estava abalada por sua epifania recente, então não conseguiu sair do lugar, apenas ergueu as mãos de dedos finos, tentando evita-la, mas não conseguiu.

Rapunzel a abraçou com força, prendendo-a nos braços, erguendo-a.

— Estou realizando um sonho! – disse enquanto abraçava a prima, logo depois olhou Anna e correu para fazer-lhe o mesmo – Anna! Como é bom te ver de novo prima!

A germânica olhava alegre para as parentes escandinavas, a mais velha fazia um pequeno sorriso desconfortável, mas verdadeiro, a mais nova sorria alegremente para a loira, enquanto ficava contente por finalmente ver sua irmã ser tocada por alguém. O eslavo ainda estava assimilando os acontecimentos.

— Vejo que já conheceram o Jack! Venham! Eu vou apresentar vocês para o resto da turma! – disse puxando malas pesadas das mãos de cada uma, mas estava tão feliz que não sentia o peso, as duas irmãs começaram a segui-la, Jack ficava para trás – Vamos Jack!

O platinado colocou os cacos no lixo silenciosamente e logo depois as acompanhou atirando a pá para o lado.

— Soluço acorda! Quero te apresentar minhas primas! – disse entrando no quarto do mesmo, acendendo a luz, o castanho cobriu o rosto com o travesseiro, Banguela ergueu-se sobre as quatro patas – Você também Merida! Elas chegaram! – falou acendendo a luz do quarto da ruiva, que reagiu da mesma forma que o norueguês.

Minutos depois, Rapunzel colocou Jack, Soluço e Merida de frente para Anna e Elsa na sala. Todos exaustos, mas atendendo aos anseios da loira.

— Então pessoal! Essas são as minhas primas! – falou abraçando-as pelo pescoço e batendo de leve no ombro de ambas – Elas são da Noruega! Isso mesmo que você ouviu Soluço! Elas são do mesmo país que você! Essa gata aqui é minha prima Anna, ela não é bonita? – perguntou apertando-lhe as bochechas – Tem dezoito anos, divertida, inteligente, calorosa e alegre, só é um pouquinho ingênua! Vocês vão amar ela! – passou para o lado de Elsa, segurando-a pelos ombros, a norueguesa ruiva passou as mãos nas bochechas doloridas enquanto sorria – E essa outra gata linda é minha prima Elsa! Tem vinte e um anos, é serena, inteligente, calma, respeitosa, só um pouquinho desconfiada, mas com o tempo ela gosta muito das pessoas! – a loira de repente arqueou as sobrancelhas, sussurrou algo no ouvido de Elsa, os primeiros moradores da casa não ouviram, apenas notaram a platinada balançando o rosto levemente para os lados enquanto franzia o cenho.

— Tudo bem! – disse a germânica dirigindo-se aos amigos, primeiro foi até Merida – Essa daqui é a Merida! Escocesa, rebelde e impetuosa, mas leal e muito divertida, sinceramente acho que podem demorar um pouco para gostarem dela...

— Ei! – disse a escocesa, Rapunzel riu da brincadeira.

— Este aqui como eu já disse é conterrâneo de vocês! – disse segurando nos ombros magros de Soluço – Haddock! Mas podem chama-lo pelo apelido dele, Soluço. Nerd de carteirinha, meio teimoso de vez em quando, mas inteligente e muito sensível.

Banguela caminhava lentamente com a calda levantada sobre o chão de madeira, roçava o pelo preto na perna do dono. O escandinavo curvou-se para pega-lo no chão, mas Rapunzel foi mais rápida e o agarrou primeiro, para a surpresa do rapaz de óculos.

— Esse aqui é o Banguela, gato de estimação do Soluço! Ele é muito fofo! Mas não vão querer estar perto dele caso façam mal ao Soluço – falou enquanto abraçava o animal, que reagia alegre ao carinho recebido.

— Você apresentou o gato antes de me apresentar?! – disse Jack com ar de insulto.

— O mais legais são apresentados antes! – disse o norueguês brincando.

O russo fez careta para o mesmo.

— E esse aqui é o Jack! – disse segurando-o pelos ombros – Russo, meio brincalhão, rebelde e desafiador, mas ainda assim, respeitoso, sensível e altruísta! Aliás essa casa é do avô dele.

O platinado tentava olhar Elsa diretamente, mas a mesma se mostrava desconfortável diante do mesmo, então Jack não fez questão de insistir.

— Olha só... – disse Merida olhando do russo à norueguesa com os olhos azuis – Só agora caiu a ficha de que vocês dois tem as mesmas cores de cabelo, pele e olhos...

Após um momento em silêncio, com todos olhando o casal platinado, que se via um tanto ruborizado e desconcertados com a situação, Jack se pronunciou.

— Que tal apresentarmos um quarto para elas? Elas devem estar exaustas da viagem, e nenhum de nós teve uma noite longa. Que tal todos irmos pra cama?

— Eu concordo! – disse Elsa com recato.

Todos a olharam surpresos.

Dentro de poucos instantes, Jack e os demais indicaram-lhes um quarto. Ao apontar o banheiro, Elsa quase entrou no quarto do russo e logo depois escondeu o rosto, constrangida.

Todos voltaram para os aposentos e voltaram a dormir, menos Jack.

O eslavo estava deitado sobre sua cama, olhando o teto branco e frio, de forma inevitável pensava em sua nova hóspede, Elsa. Sentia seu coração batendo rápido ao ver a imagem da platinada em sua mente, seu rosto ruborizava e embora tentasse, não conseguia parar de pensar na mesma. Sentia um sentimento novo, e não importava o quanto tentasse, não conseguia dormir. Não podia negar, estava apaixonado.

De repente ergueu-se da cama e começou a caminhar pelo quarto, parando em diversos móveis, deliberando consigo mesmo de forma histérica e baixinho para ninguém ouvir.

— Ah! Qual é o seu problema Jack?! O que há com você?! Já não basta três mulheres platinadas na sua vida?! Por que você quer mais uma?! Seu pai casou e morreu! Quer acabar que nem ele? Se bem que assim eu poderia... – parou por um momento, tendo um instante de lucidez, balançou a cabeça de olhos fechados, tentando limpar a mente – No que eu estou pensando?! Já sei, vou ler a Bíblia! Isso deve me fazer parar de pensar nela.

Pegou a Bíblia na estante, abriu no capítulo que estava marcado e leu o primeiro parágrafo com um sorriso no rosto: “Cântico dos Cânticos 2, 5. ‘Sustentem-me com bolos de passas, deem-me forças com maçãs, oh! Que estou doente de amor...’”.

Fechou a Bíblia com força, os olhos azuis arregalados e assustados como se houvesse acabado de enxergar a alma de um conhecido morto.

Logo depois fechou os olhos, começando a chorar. Olhou para o céu com rosto lacrimoso.

— Me perdoe! – fez uma breve oração.

Guardou a Bíblia e logo depois começou a caminhar de um lado a outro do quarto.

— Meu Deus! E agora o que eu faço agora?! Eu não posso me apaixonar! Por que eu me apaixonaria?! O que eu tenho a ganhar com isso?! Mais responsabilidades?! Problemas?! Dor de cabeça?! Já não basta minha família?! Agora isso! Eu não quero ser padre, mas também não quero ser comprometido... E agora, o que faço?! Eu tô ficando doido! Olha só pra mim! Eu tô até falando sozinho!

Parou em silêncio, logo depois algo lhe veio à mente.

— Já sei! Santo Agostinho teve uma vida libertina antes de sua conversão, chegou até a ter um filho, certo dia, após se converter sentiu-se tentado, então tirou a roupa e rolou na neve do inverno rigoroso!

Olhou pela janela vendo a neve branca cair lentamente.

— Mas ainda não tem neve o bastante. Sem falar que eu não sairia nu por aí na vizinhança e em uma casa cheia de garotas... Já sei!

Saiu do quarto e foi para o banheiro. Desligou a água quente e encheu a banheira. Tirou as roupas e entrou na mesma de um só vez. Ficou um bom tempo com o corpo inteiro submerso na água.

Após alguns minutos, saiu da banheira com a água fria, chegou a soltar um grito baixo e desconfortável. Sua pele pálida estava agora azulada, seus dentes batiam de frio e seu corpo inteiro tremia, os cabelos alvos molhados e caídos sobre a testa.

— Deu certo! – comemorou em meio ao sofrimento.

Estava quase inválido, chegava a ser difícil sair da banheira e tirar a tampa da mesma para descartar a água gelada.

— Vamos lá Jack! Você é russo! Já sentiu mais frio do que isso! – reclamou consigo mesmo.

Pegou a toalha, cobriu-se com a mesma e foi para o quarto. Enrolou-se nas cobertas macias e quentes, sentindo o prazer das mesmas, assim, dentro de pouco tempo, conseguiu dormir.

Já era de tarde. Soluço havia acordado e saído de seu quarto para comer. Preparou uma refeição rápida, logo depois decidiu sentar-se sofá defronte à televisão para assistir enquanto comia.

Encontrou um desenho japonês que apreciava muito, e logo começou a assistir alegre enquanto se alimentava.

De repente, Elsa saiu do quarto, esfregando os olhos claros e cansados, usando o suéter que usava no avião para cobrir-lhe o corpo magro, também houvera colocado uma calça moletom folgada cinzenta. Seu rosto jovem e maduro estava desanimado como de costume.

A platinada também havia ido atrás de algo para comer.

De repente, Anna também saiu de outro quarto, havia feito o mesmo que Elsa, havia colocando uma calça moletom folgada, mas manteve o suéter confortável cobrindo-lhe o corpo magro.

Os olhos azuis das duas se encontraram enquanto caminhavam em direção à cozinha. A mais nova sorriu alegre para a irmã. A mais velha tentou retribuir o sorriso, mas não tinha tanto ânimo assim, então no mesmo instante os lábios esmoreceram. A ruiva se entristeceu ao notar aquilo, chegando a parar no caminho e ser deixada para trás pela irmã. A platinada sabia que feria Anna, não conseguia evitar, e não se orgulhava disso.

O rapaz no sofá as viu caminhando, não notou a tensão entre ambas, mas acompanhou-as com os olhos. Viu as irmãs preparem uma refeição rápida e no meio do processo não trocarem sequer duas palavras.

De repente, Anna e Elsa olharam o jovem assistindo.

— Soluço, não é? – perguntou a mais velha.

— O quê?! – respondeu o garoto de cabelos castanhos, virando o rosto sobre o sofá, olhando-as encara-lo com um prato e uma caneca na mão – Sim, esse sou eu, por quê?

— Podemos sentar aí no sofá? – perguntou Elsa.

— A casa não me pertence, e se vocês foram aceitas aqui, assim como eu, então suponho que tenham os mesmos direitos que os outros hóspedes.

As duas ficaram caladas, olhando-o.

— Podem vir! – chamou-as acenando.

As irmãs caminharam até o sofá, no meio do caminho, notaram Soluço mudar o canal no meio da programação.

— Por que mudou de canal? – perguntou Anna enquanto se sentava – O que estava assistindo?

— Era um conteúdo para maiores de dezoito anos? – perguntou Elsa com sugestivo ar de condenação.

O norueguês mais novo olhou-a de lado franzindo o cenho, encarou-lhe a face fria de olhos sérios.

A ruiva sentiu-se envergonhada pela acusação da irmã.

— Não! Era só um anime! – respondeu o mais novo com ar de ofensa.

— Um desenho japonês?! – questionou Anna tentando aliviar a situação – Qual é o problema?

— É que esse que eu estava assistindo é muito violento. Eu não sabia se isso iria incomodar vocês, então decidi não arriscar.

— Que bobagem! – disse a ruiva sorrindo – Eu adoro desenho japonês, qual você está assistindo?

— Sério?! – disse ele também sorrindo – Eu não me lembro o nome desse, na verdade, minha memória é meio ruim, eu nem sequer me lembro se já vi esse. Mas me fala! Que animes você curte mesmo?

— Conhecendo a Anna, certamente ela só assiste os românticos – disse a mais velha pouco antes de começar a comer em silêncio.

Ambos a olharam. Anna voltou o olhar para o mais novo um tanto envergonhada.

— E então? – perguntou Soluço sorrindo.

— A Elsa está certa! – disse a ruiva cobrindo o rosto e corando.

O garoto riu.

— Tá tudo bem! Eu também assisto alguns românticos, eu gosto bastante, mas também tem um pouco de romance em alguns animes violentos. Eu não sei o porquê, mas os casais só são consolidados no final.

— É verdade! – disse Anna – Eu não assisto, mas sempre vejo muitos desenhos bonitos feitos pelos fãs dos casais! Eu amo! Uma das minhas favoritas é daquele garoto loiro com a menina de cabelo azul!

— Esse é legal também! – disse ele alegre – Eu gosto muito de um casal de magos em que os dois tem cabelo ruivo, mas é uma pena que eles não sejam um casal canônico.

— E mangás, você lê?

— Eu não tenho muito tempo, tenho que estudar muito. A minha família tem uma empresa na nossa cidade natal, a Elsa é quem vai herdar, mas nossos pais queriam que nós duas aprendêssemos a gerir a empresa.

— Onde vocês nasceram?

— Na pequena cidade de Arendelle – respondeu Elsa com recato e frieza, ainda olhando a televisão.

— Eu nasci em Berk.

— Eu não conheço esse lugar – disse a ruiva.

— Fica em uma ilha afastada, é um lugar bem razoável pra se viver.

De repente, Baguela se aproximou, roçando o pelo preto e macio nas pernas dos três. A platinada olhou o animal, arqueou as sobrancelhas surpresa, não se recordava da existência daquele gato.

— Qual é o nome dele mesmo? – perguntou olhando-o.

— Banguela, por quê?

— Desculpe, é que eu estava muito cansada quando Rapunzel me apresentou ele, e eu me esqueci.

— Ele ficava só no meu quarto antes, mas agora, permitiram que ele saísse um pouco.

Elsa acompanhava o bicho de estimação com os olhos azuis. Os outros dois a olhavam curiosos, notando certo interesse em sua face fria.

— Quer pega-lo? – perguntou Soluço.

— Ele não vai me atacar?

— Eu não recomendaria tentar machuca-lo – respondeu o dono.

A platinada colocou o prato vazio sobre o braço do sofá. Agarrou lentamente a criatura e sentiu o pelo macio da mesma. Banguela demonstrou conforto no colo daquela mulher, e logo começou a ronronar.

— Ele gostou de você – disse ele.

Elsa chegou a abraça-lo.

— Onde conseguiu ele?

— Foi em uma viagem a Berk. Eu sem querer machuquei ele. Estava em casa à noite e ouvi um barulho estranho, quando vi um vulto, atirei uma pedra e acertei ele em cheio. Era só um filhote e deixei ele sangrando, me senti culpado e pedi para o meu pai para ficar com ele pelo menos até que ele melhorasse. Ele não queria, mas minha mãe o convenceu.

— Quem é seu pai? – perguntou Anna.

— Já devem ter ouvido falar dele. Chamam ele de Stoico, o Imenso.

— Espera! Seu pai não é aquele... – dizia Elsa, mas Soluço o garoto de cabelos castanhos a interrompeu.

— Herói de guerra?! Sim, é ele.

— Nosso pai chegou a conhece-lo – disse a ruiva.

— Sério?! Qual o nome dele?

— Agnarr, ele faleceu já tem quase cinco anos – disse Elsa, tristonha enquanto acariciava o gato.

— Ah! – disse Soluço, desconcertado – Lamento...

De repente Anna bateu de leve com o cotovelo no ombro da irmã, franzindo o cenho e gesticulando para o rapaz. A platinada não notou o constrangimento do mesmo. Imediatamente tentou deixar o assunto para trás.

— Mas então Soluço, você gosta de animais? – perguntou ela forçando um sorriso.

— Bastante! – respondeu o mesmo sorrindo com sinceridade para a mesma – Gosto de gatos, cães, cavalos.

— Mas gatos dão menos trabalho – disse a ruiva sorrindo.

— Você que pensa! Quando eu estou deitado e ele vem deitar em cima de mim é impossível de se levantar, é pior que a gata de Utgardaloki – falou sorrindo.

— Quem? – perguntou Anna.

— Ah, desculpe, é que eu gosto muito de...

— Utgardaloki, rei de Utgard, um reino onde os gigantes vivem – disse Elsa.

Os outros dois olharam a platinada em silêncio, perplexos.

— Mitologia – concluiu ele, olhando a mesma com estranhamento – É... Você conhece?

— Eu lia bastante quando era criança. Achava as histórias engraçadas.

— E você se lembra dessa história?

— Claro, Thor, Loki e Thjálfi, escravo de Thor, foram para a terra dos gigantes, lá eles foram desafiados e enganados. Em um dos desafios o rei Utgardaloki desafiou Thor a levantar sua gata, mas ela era tão grande e tão pesada que não conseguiu tirar as patas dela do chão.

— E olha que a arma do Thor é o poderoso Mjölnir!

Elsa fez um belo sorriso.

— Mas no final Thor descobriu que aquela gata era na verdade Jörmungandr, e que o barulho que ouviu quando ergueu o gato um pouquinho do chão era da própria terra, ou melhor, Midgard se movendo por causa da cobra que dava a volta ao mundo. Acho que a moral dessa história é dar o seu melhor independente de qualquer coisa, até porque mesmo “falhando” nos desafios, Thor, Loki e Thjálfi impressionaram os gigantes.

— É uma boa intepretação! – disse Soluço – O que mais você gosta na mitologia nórdica?

Anna e Elsa se olharam sorrindo.

— Trolls! – responderam juntas.

— Sério?!

— É! Nossos pais um dia nos deram uns bichinhos de pelúcia pequenos e muito fofos! Eles nos disseram que eram Trolls e que eram muito bonzinhos e inteligentes! – disse Anna.

O garoto riu.

— Engraçado porque na mitologia, em O Senhor dos Anéis e em jogos de fantasia eles são totalmente o oposto disso.

Riram juntos.

De repente as duas irmãs se olharam, os olhos azuis das consanguíneas se encontraram, notando o prazer que ambas sentiam no momento, e que há muito tempo não compartilhavam.

Soluço notou algo diferente no ar, sentiu que estava atrapalhando algo entre ambas.

— Gente... Eu já vou voltar para o meu quarto – falou se levantando.

— Não! Soluço! – disse Anna – Você estava assistindo antes de nós duas! Não queremos atrapalha-lo!

— Atrapalhando?! Não! É claro que não! Que bobagem! Eu que estou me atrapalhando, eu estava lendo um mangá no meu quarto, só vim aqui pra comer e depois voltar, mas acabei ligando a TV e me esqueci. Podem assistir o que quiser! Só vou ali lavar o meu prato. Aliás, podem passar um tempo com o Banguela! Depois é só abrir a porta do meu quarto um pouquinho que ele entra sozinho, só não se esqueçam de fechar ela depois...

O rapaz tentou pegar o prato sobre a mesa de vidro, mas de repente, Elsa o agarrou enquanto ainda segurava o mesmo. Anna viu aquilo surpresa.

— Obrigada Soluço! Nos desculpe por qualquer incômodo! Me desculpe! Por favor, me deixe lavar o seu prato, é o mínimo que posso fazer em agradecimento pela sua atenção.

— Eu não posso... – disse tentando recusar, mas a moça interrompeu.

— Eu terminei de comer e a minha irmã também! Eu sinto que não tenho ajudado muito as pessoas, e quero compensar! Deixe-me lavar os pratos!

Soluço observou Elsa com os olhos verdes confusos. A norueguesa por sua vez, olhava-o com os olhos sensíveis, mas sempre frios e com certa hostilidade, mas ao mesmo tempo era notável, que a mulher falava a verdade. No fundo, estava tentando ser gentil.

A irmã caçula seguia observando em silêncio, confusa.

Os dedos de Soluço lentamente soltaram o prato.

— Está bem! Obrigado! – falou sorrindo.

O rapaz deu as costas para as duas irmãs e caminhou em direção ao quarto deixando a televisão ligada. A platinada pegou a louça suja e caminhou até a pia da cozinha para lavar. A ruiva sentiu-se apertada e decidiu ir ao banheiro.

Anna era mais enérgica do que Soluço, então chegou no banheiro antes do mais novo.

De repente, Jack saiu do quarto, caminhou pelo corredor escuro, vendo as luzes brancas da sala e da cozinha acesas. Usava as mesmas roupas casuais de sempre, calças moletom folgadas, uma camiseta de mangas curtas e meias, ainda usava um edredom grosso e macio sobre os ombros para protege-lo do frio.

O escandinavo passou por ele.

— Já é noite? – perguntou o platinado com os olhos sonolentos.

— Quase lá! – respondeu o norueguês.

— Tem comida pronta? – perguntou brincando.

— Eu não sei, mas se tiver me conta, qualquer coisa vou estar lendo meus mangás!

— Eu passo! Obrigado!

— Eu não estava oferendo eles! – disse Soluço antes de fechar a porta.

Jack sorriu balançando a cabeça.

Logo depois caminhou até o banheiro, tentou abrir a porta, mas estava trancada.

— Tem gente! – respondeu uma amigável voz feminina no banheiro.

No momento, Elsa voltou-se para o banheiro enquanto lavava a louça, notou que era a outra pessoa platinada da casa.

O russo encostou-se bufando na parede, resolveu esperar.

Dentro de alguns instantes, Anna saiu.

— Oh! Você é o Jack não é?! Era você! Desculpe! – disse a ruiva olhando-o com um sorriso no rosto.

O eslavo olhou-a mudo por um instante, por alguma razão não se sentia confortável falando com a irmã da moça por quem havia se apaixonado à primeira vista. Olhou-a com os olhos azuis amedrontados e indecisos, mas logo depois lembrou-se de sorrir.

— Ah! Tudo bem! Não tem problema! E aí, o que está achando da casa? Confortável?

— Nossa! Bastante! Lá na Noruega também temos uma casa enorme como esta, e este lugar não está deixando nada a desejar!

— Que bom! E como é lá na Noruega? – perguntou com interesse, mais por querer saber da realidade da platinada do que por realmente se interessar pelo país, embora se recusasse a querer se interessar por uma mulher.

— Lá é lindo! Faz frio, e quando éramos pequenas minha irmã e eu adorávamos brincar na neve!

— Neve?! – perguntou Jack arqueando uma das sobrancelhas, agora com interesse real.

— É! Nós duas fazíamos bonecos de neve! Brincávamos de guerra de bola de neve! Quando nevava era nossa época favorita do ano!

— Jura?! – disse sorrindo com os olhos azuis arregalados e alegres – Eu também adoro neve! Eu brincava todos os anos com meu pai e minhas irmãs, era muito divertido também!

— Há muito tempo a Elsa e eu não brincávamos na neve, começou a nevar hoje, acho que esse ano eu posso tentar convidar ela.

— Sua irmã também gosta de neve?

— Ela?! Mais do que eu! – Jack ficou inevitavelmente satisfeito com a resposta.

— Então é uma boa ideia... Chame-a! Vocês vão se divertir!

— Obrigada!

A conversa houvera se tornado agradável, mas de repente, Elsa surgiu atrás de Anna, distante. O russo acabou olhando a norueguesa vestida com seu suéter. Inevitavelmente seu rosto corou e seus olhos azuis se arregalaram brilhantes. O banho frio não houvera apagado seus sentimentos por ela.

— Anna! Venha! Deixe-o usar o banheiro! Vamos assistir!

— Já vou! – respondeu olhando-a por cima do ombro.

A ruiva voltou-se para Jack, olhando-o de cima, e para sua surpresa e desgosto, aquele mesmo olhar de antes jazia em sua face jovem.

De repente o platinado notou o olhar da mesma sobre si. Se encaram por alguns segundos. Anna franziu levemente o cenho jovem, seus olhos azuis, antes amigáveis, tornaram-se levemente hostis.

Jack ficou pasmo, também franziu o cenho levemente para a mesma.

Uma sensação de rivalidade imediatamente surgiu entre ambos. A norueguesa lhe deu as costas, voltando-se para junto de irmã. O russo a encarou por alguns segundos, depois finalmente entrou no banheiro.

Passaram-se alguns segundos com o eslavo usando o banheiro e as irmãs de Arendelle assistindo televisão.

Estavam em silêncio, Elsa mais relaxada e Anna mais desagradada, devido à sensação de que alguém também tinha ambições relacionadas à irmã.

Poucos instantes depois, Rapunzel e Merida saíram quase ao mesmo tempo de seus quartos. Um segundo depois, Jack saiu do banheiro. Os três se encontraram no corredor.

— Boa noite Jack! – disse Rapunzel, mais alegre.

— Ainda não é noite Punzie.

— Boa quase noite Jack! – disse Merida com ar sarcástico passando pelo mesmo.

O platinado sorriu para a mesma enquanto a via caminhar.

— Ei! Jack! Eu tenho uma pergunta! – disse a loira.

— Manda!

— O que estava fazendo lá fora quando minhas primas chegaram?

— É que eu havia deixado um prato cair lá fora e tinha ido buscar os cacos.

— Como aquele prato caiu?

— Eu estava comendo na varanda do terceiro andar.

— Jura?! – disse alegre – Pois agora eu queria te fazer um pedido.

O russo suspirou, virando o rosto para o lado, olhando o chão enquanto sorria e colocava as mãos jovens na cintura magra.

— Manda de novo!

— Eu posso ir lá em cima na varanda? É que eu gosto de lugares altos, sabe?

— Sério?! – perguntou franzindo o cenho.

Fez que sim com a cabeça, em silêncio, os olhos verdes em sinal de súplica, uma súplica que não indicava uma ambição egoísta, mas uma necessidade.

Jack baixou as mãos, olhou-a com empatia e logo depois balançou a cabeça, fazendo que sim.

— Pode sim! Tem uma porta com trancas na varanda, mas a chave está no cilindro, é só girar – falou com tristeza, mas logo depois decidiu disfarçar – E também! Depois eu vou ter que falar com você, a Merida e o Soluço. Agora está nevando e vamos ter que conversar sobre quem vai tirar a neve em qual dia da semana!

Rapunzel sorriu.

O russo entrou no quarto sorrindo amistosamente para a mesma. A loira seguiu seu caminho.

As duas foram direto para a cozinha. Rapunzel viu as primas assistindo televisão na sala. Sorriu novamente com grande alegria.

— Então meninas! Como está a estadia de vocês aqui?

Elsa e Anna a olharam surpresas. Sorriram juntas.

— Está ótimo Rapunzel! Obrigada!

Merida pegava uma caixa de pizza na geladeira, houveram encomendado na noite anterior e a alemã fez questão de que deixassem para as primas. Então a pizza terminou inteira.

— Anna! Elsa! Venham aqui comer! – disse a ruiva – Tem pizza pra vocês!

— Jura?! – perguntou Anna com verniz de alegria, levantando-se e caminhando até a mesa – Eu quero!

— Obrigada! Mas acabei de comer! Estou satisfeita!

— Eu também acabei de comer, e estou fazendo o sacrifício! – falou a irmã caçula, voltando-se para a norueguesa mais velha, acabando de chegar junto à comida.

— Eu sei, mas mesmo assim, guardem pra mim! Depois eu como!

— Depois não vai sobrar, flocos de neve! – respondeu a escocesa, levando um pedaço à boca.

Elsa revirou os olhos, levantou-se e caminhou lentamente até a cozinha. Chegou e imediatamente pegou um pedaço.

As quatro jovens moças ficaram ali, comendo a pizza fria, mas ainda saborosa, todas usando roupas confortáveis e casuais para se proteger do frio.

— Não devíamos chamar os meninos? – perguntou Rapunzel.

— Deixa eles! Outro dia a gente compensa – respondeu Merida – Essa aqui é só das meninas!

— É verdade! – falou Anna sorridente enquanto segurava um pedaço – Só tem meninas aqui!

— Por que vocês estão acordando tão tarde? – perguntou Elsa notando o horário.

— É que a gente fica até de madrugada comendo besteira e falando bobagem, então a gente acaba indo dormir bem tarde – respondeu a escocesa.

— Isso faz mal à saúde de vocês – respondeu a platinada com verniz de frieza.

— Eita! Calma aí mamãe! Nós também comemos verduras e bebemos água! Só estávamos curtindo a vida – retrucou a cacheada.

Elsa apenas seguiu calada, enquanto comia delicadamente a pizza, segurando-a em seus dedos finos.

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— Então, como estão vocês duas? – perguntou Rapunzel – Elsa?

— Estamos bem Rapunzel! Obrigada! – respondeu a platinada sorrindo com os femininos lábios vermelhos.

— Vamos voltar para a Noruega daqui a alguns dias, Elsa vai assumir o comando da empresa do papai e da mamãe.

— Com o que os pais de vocês trabalham? – perguntou Merida.

— Temos uma fábrica de gelo – respondeu Elsa – Com negociantes pelo mundo inteiro.

— Nossa! Muita responsabilidade a aguarda – comentou a cacheada, e depois gemeu – Isso até lembra minha mãe! É chato não é?

— Não é muito agradável, mas eu vou cumprir o meu dever...

— Que coisa! Sinto saudades da Idade Média...

— Saudades de uma coisa que nunca viveu?! – questionou a outra ruiva.

— Exatamente, saudades do que eu nunca vivi! – respondeu a escocesa.

— Ela é apaixonada por essa época – disse Rapunzel sorrindo para as primas.

— Sabe, naquela época se a gente era uma camponesa, no máximo tínhamos que lavar roupa, cozinhar e trabalhar no campo, talvez cuidar de alguma taverna. Mas ainda assim, teríamos irmãos, maridos e filhos que nos ajudariam, além de viver em comunidade, não teríamos que nos preocupar com o futuro, no máximo, acordar cedo, trabalhar com a família, ir à missa, fazer festas religiosas e essas preocupações de hoje não existiam, é muita pressão! E se fôssemos nobres, dependendo da época, do país e do contexto não só não precisaríamos trabalhar como também não teríamos tantas responsabilidades quanto nossos maridos. A menos que você fosse uma nobre bem diferenciada, como por sinal já houveram várias.

— Mas não tinha violência, doenças, pobreza, fome e outras coisas naquela época?! – perguntou Anna.

— E em que época essas coisas não existem?! – questionou a cacheada – O mundo não ficou muito mais pacífico com o passar do tempo. Só ficou mais tresloucado, ignorante. Me pergunto o que as pessoas daquela época pensariam de hoje.

— É verdade! – disse Elsa, Merida olhou para a mesma sorrindo – A Idade Média foi uma época bastante rica culturalmente, a construção das Catedrais de arquitetura Gótica, a construção dos hospitais, universidades, abolição de práticas bárbaras das tribos pagãs, o advento de grandes filósofos e pensadores como Santo Tomás de Aquino...

— Grandes heróis! – falou a escocesa sorrindo para a mesma – Aí Rapunzel, eu já gostei dessa prima aqui!

— E belas obras de arte – concluiu a loira enquanto ria.

— Ah! Eu adoro aquelas pinturas de casais na Idade Média! – comentou Anna sorridente.

— Ah, eu também amo! – disse Rapunzel.

— São tão românticas! Quais você mais gosta?

— Eu amo, God Speed, o “Boa sorte, vá com Deus” de Edmund Blair Leighton.

— Eu também gosto muito das artes dele. Uma das minhas favoritas é Tristan e Isolda!

— Até que eu estou gostando desse papo – comentou Merida, apoiando a cabeça sobre a mão fechada enquanto comia outro pedaço de pizza, sorrindo, Elsa olhava a irmã e a prima conversando, sem grande interesse.

— The Accolade! “O elogio”!

— Nossa! É perfeita!

— Acho que essa eu conheço – disse a escocesa – Não acho que seja de romance.

— E La Belle Dame Sans Merci, “A Bela Senhora sem Piedade” de Frank Bernard Dicksee?

Merida riu e disse: “Gostei desse nome.”.

— Oh! É maravilhosa!

— Não sabia que você era tão romântica Punzie! – comentou a escocesa – Ainda mais levando em consideração o que você fez com aquele cara.

Todas se voltaram para a garota de cabelos cacheados.

— Que cara? – perguntou Elsa, preocupada.

— Você não contou à elas?! – disse a escocesa com ar de condenação.

— Não tinha porque contar – respondeu a alemã, sorrindo.

— Ah, mas isso não vai ficar assim, eu vou contar essa história para as suas primas agora! É o seguinte, uma noite, Rapunzel, os meninos e eu estávamos no metrô, e apareceu um babaca idiota que ficou assediando a Punzie! Aí ela deformou a cara dele! – falou com empolgação.

As norueguesas franziram o cenho, estranhando.

— Na verdade eu só quebrei o nariz dele... – falou tentando se explicar, um tanto constrangida e irritada pela hipérbole da amiga.

— Depois disso! – prosseguiu a escocesa – Ela...

— Merida, você está exagerando a história toda! – voltou-se para as primas – O que aconteceu depois foi que eu bati no queixo dele.

— Ela estilhaçou a mandíbula dele! E o cara engatinhou chorando e pedindo pela mamãe.

— Na verdade, ele só caiu desmaiado! – contou a loira.

— Depois descobrimos que ele era um marginal aqui na cidade e foi preso, e agora a Punzie é uma heroína local! – concluiu Merida.

— Merida, ninguém sabe que fui eu que nocauteei ele.

— Que nem os heróis fazem! Já viu o Batman falar com a polícia após deixar um criminoso inconsciente pra eles prenderem?!

— As pessoas sabiam que tinha sido o Batman.

— Mas não sabiam quem era ele, que nem não sabem que quem fez aquilo foi você!

A escocesa e a alemã se olharam sorrindo, Rapunzel se rendeu às brincadeiras e exageros da cacheada. Elsa estranhou o conforto entre ambas.

— Ela e os meninos tinham levado me levado para treinar na escola dela naquele dia.

— E depois disso ela continuou a treinar comigo na escola que eu frequento. Ela tem se mostrado uma ótima aluna. Se ela continuar assim nunca mais vai passar por algo parecido de novo!

A prima mais velha sentiu algo estranho no ar, suspeitou de algo, inclinou-se lentamente para a loira, franzindo o cenho.

— Você falou sobre aquilo pra ela? – perguntou sussurrando.

— Olha só, eu posso ouvir!

— Sobre o quê? Ah, aquilo? Falei, e não só pra ela, falei para os meninos também.

Elsa se afastou, deixando o corpo reto, ainda franzindo o cenho, os olhos azuis punitivos.

Merida não gostou daquilo.

— Qual é o problema?

— Tá tudo bem! – disse Rapunzel – É o jeito dela! Eu disse! Inteligente e desconfiada.

— Estou vendo – falou a escocesa olhando a platinada de cima a baixo com os olhos azuis debochados.

— Elsa, eu sei que quer me proteger, mas está tudo bem, eles estão cuidando muito bem de mim, e quando souberam do meu trauma não me trataram diferente por isso, eu não quero ser definida por aquilo, e também não quero que você me defina por aquilo.

As quatro se olharam em silêncio. Elsa olhou de Rapunzel para Merida com olhos claros agora mais amenos. Anna observava intimidada.

— Mas então, vocês tem namorado? – perguntou a norueguesa ruiva tentando mudar o clima na cozinha.

— Não, Merida?

— Também não. Embora minha mãe tente me fazer arranjar um na marra.

— Vocês deviam ir atrás de um. Eu arrumei um semana passada.

— Meus parabéns. Mas minha mãe quer que eu me case com algum dos filhos dos sócios dela. E eu?! Tô fora!

— Nossa! Mas você ao menos os conhece? São bonitos?

— Ainda que fossem, eu não quero namorar agora! Namoros trazem muita responsabilidades, deveres...

— Mas também têm coisas boas...

— Se têm eu não sei, só sei que nunca, nenhum cara despertou interesse em mim.

— E por que tipo de cara você se interessa?

— Eu não sei... Acho que pelos cavaleiros medievais das pinturas que você e a Rapunzel falaram. Os homens naquela época sim é que eram homens de verdade!

Todas riram. Merida fez bico e cruzou os braços.

— Nossa! Seus padrões são bem elevados! – comentou Rapunzel.

— Eu estou mentindo?! Eles eram homens de verdade ou não?!

— Mas você gosta dessas pinturas? – perguntou Anna.

— Algumas sim. Uma que eu gosto bastante é The Meeting on Turret Stairs, “O Encontro nas Escadas da Torre” de Sir Frederic William Burton.

— Ela é bonita mesmo – comentou Elsa.

— E você Elsa, não tem interesse em namorar? – perguntou a loira.

— Eu? Não... Na verdade, acho que nem sou capaz de me apaixonar por alguém! Eu também tenho muitas questões a resolver em casa – olhou de relance para a irmã – Nos negócios da família. Não tenho tempo para um relacionamento – falou com frieza.

As quatro moças seguiram conversando, falando de diversos assuntos, falando sobre relacionamentos, obras de arte e história entre outros, terminando de comer a pizza. Até que a noite finalmente chegou, os sons da mesma se tornaram altos.

Merida foi para o quarto, Anna também, Rapunzel foi até a varanda, e Elsa ficou sozinha na sala.

Jack lentamente abriu a porta do quarto, o olho surgindo da mesma. Estava com fome, queria ter saído antes, mas as norueguesas estavam na cozinha, não queria olhar a face ambas, muito menos da platinada.

Notou o silêncio, as conversas haviam sido cessadas, também não via ninguém caminhando pela sala cuja luz estava acesa.

Saiu lentamente do quarto, os pés descalços pisando na madeira fria. Caminhou em silêncio até a cozinha. Não havia visto ninguém.

Foi até a geladeira e pegou um pote verde escondido na mesma, onde ainda havia escondido pedaços de pizza. Logo começou a comer com desespero.

Quando o mesmo havia ido até a mesma, Elsa havia se levantado e dado a volta no sofá, indo até o grande piano antigo da casa.

A norueguesa estava triste, sentido a solidão sufocante, o que a incomodava, estava tendo uma prosa agradável há poucos minutos atrás, mas agora seu olhar estava baixo e a expressão abatida. Não gostava da sensação de estar sozinha. Decidiu pôr para fora através do que sabia fazer. Lentamente começou a tocar piano com os dedos delicados e os olhos fechados.

Quando ouviu o som, o russo se assustou, voltando-se para o mesmo imediatamente enquanto comia. Havia acabado de notar a presença de Elsa que não houvera o visto ali.

O garoto quis sumir no exato momento, mas a beleza de sua nova hóspede, que tocava piano com o rosto triste era tão chamativa que não se atreveu a tentar voltar para o quarto.

Lentamente seus pés descalços voltaram a caminhar, carregava consigo o pote com pizza dentro, comendo enquanto assistia.

Parou atrás dela a alguns metros, diante do sofá, assistindo-a. Elsa sentia catarse ao ouvir a bela música triste que tocava. Jack jamais imaginou que se sentiria tão atraído por um reino de tristeza.

Passaram-se alguns minutos, a norueguesa seguia a tocar piano de olhos fechados, seu corpo balançando devagar, dançando ao som da música triste. O russo já tendo terminado de comer, seguiu assistindo com os olhos azuis brilhando de admiração, mesmo de costas aquela moça o atraía.

Banguela caminhava serenamente pela sala com a calda peluda erguida, observava o casal platinado.

De repente Jack deu um leve passo para trás, estava tão cativado pela nova visitante que não notou o gato de Soluço caminhando silenciosamente atrás dele. Acabou pisar em sua pata sensível.

O gemido estridente do gato assustou ambos, que na hora arregalaram os olhos claros, saltaram os ombros e imediatamente a música foi interrompida. Elsa bateu no piano acidentalmente, fazendo um som momentaneamente dissonante.

Banguela saiu correndo da sala, foi até a porta do quarto de Soluço, arranhou a madeira dura com as garrinhas, implorando para entrar, logo foi atendido. O dono abrira a porta um pouco e o gato entrou correndo.

A moça olhava agora para trás, sentada sobre o banco defronte ao piano, o coração jovem e delicado estava acelerado devido ao espanto. Notou o rapaz parado atrás da mesma, também assustado com a mão jovem no peito vestido pela camisa fina, se recuperando do susto.

Os olhos azuis se entrelaçaram imediatamente, reluziam às luzes brancas da sala. Jack sentiu um arrepio de temor devido ao flagra, Elsa sentiu-se tímida por terem-na visto tocando piano enquanto apreciava o som da música.

— Oi... – disse o russo, acenando, pensando no que dizer – Me desculpe! Eu estou invadindo sua privacidade não é? Você não sabia que eu estava aqui. Perdão, não era essa a minha intenção.

A norueguesa logo notou o desconforto do mesmo, então se acalmou.

— Não, está tudo bem! – disse ela com frieza, a cabeça baixa, os olhos fechados enquanto saía do banco – Essa é a casa da sua família, fui eu quem vim tocar o piano sem pedir a sua permissão, nem saber se podia fazer isso. Eu é quem devo me desculpar.

O platinado ficou um tanto alegre ao ouvir aquilo, apesar da frivolidade na voz da mesma. Gostou de não ouvir de novo que a casa pertencia ao seu avô, mas à sua família, o que dizia respeito à ele também, também gostou de saber que ela não o culparia por sua presença ali.

Aos poucos sorriu, mas o mesmo se desfez ao notar a platinada passar por ele, de forma recatada e fria.

— Olha... Mas você toca muito bem! – disse nervoso, olhando-a, não tinha o hábito de estar apaixonado, nem de falar com mulheres que lhe despertavam interesse – Eu não gosto muito da Moonlight Sonata, de Beethoven, mas você toca tão bem que não consegui parar de ouvir...

— Obrigada – disse baixo, frívola e de costas para o mesmo.

Havia saído algumas vezes antes enquanto todos dormiam para ver a neve cair, como costumava fazer. Então pegou um casaco preto que havia deixado no porta agasalhos ao lado do portal e cobriu o corpo magro e alto com ele, calçou um par de botas de mesma cor perto do mesmo e assim a abriu a porta. O vento frio e alguns flocos de neve entraram com violência na casa balançando as roupas de Elsa que permaneceu estática, e um instante depois saiu pela porta.

— Espera! – disse Jack – Aonde você vai?

Ela não respondeu, o eslavo então correu para o quarto, vestiu seu moletom branco e calçou um par de botas. Saiu pela porta correndo e descendo as escadarias brancas de neve.

Viu Elsa parada de pé na neve, de costas para ele, em silêncio, iluminada pela luz branca que emanava da casa, acima dela caíam incontáveis flocos de neve, prendendo-se em suas roupas e cabelos, olhava para cima enxergando o céu escuro e frio e a neve gelada que caía da escuridão.

Estava comprazida ali no meio do frio, amava a neve, mas seu rosto permanecia insolúvel.

O russo a olhou em silêncio, preocupado e com os olhos azuis arregalados.

— Você está bem?

— Estou! – disse ela sem virar o rosto, Jack viu o hálito dela virar neblina quando respondeu – Só estou afim de ficar sozinha.

— Mas... Está frio aqui fora, e está nevando – falou enquanto os flocos de neve começavam a cobri-lo – Eu também adoro neve, mas não quer entrar e tomar um chocolate quente comigo?

Elsa mexeu o rosto para o lado, seu instinto a alertara de alguma coisa.

— Obrigada, mas não, e também, eu já vou voltar, só quero ficar sozinha no momento.

— Está tudo bem, mas escuta, você pode acabar pegando um resfriado, uma garota bonita como você não devia ficar sozinha na...

— Jack! – gritou voltando-se para o mesmo, o rosto vermelho, sua respiração virando espectro, o cenho alvo levemente franzido e os olhos azuis hostis, a escandinava já havia percebido o que acontecia com o platinado, que agora a olhava com o rosto jovem assustado – Escuta, agradeço você por acolher minha prima, minha irmã e eu na casa da sua família, nos oferecer comida quente, camas confortáveis e teto íntegro, mas... Eu não sei como dizer isso sem ofende-lo ou magoa-lo então vou ser curta e direta. Eu não estou interessada! E o problema não é você, ou sua idade, você parece ser um cara legal, gentil, educado, minha prima falou bem de você, e sinceramente eu o acho muito bonito, mas eu não estou interessada em um relacionamento! E agradeceria se me deixasse sozinha!

O mais novo sentiu o coração quebrar quando a ouviu, seu rosto bruscamente esmoreceu e seu olhar ficara abruptamente triste, mas imediatamente fez um sorriso surgir no rosto.

— Ah! Que bobagem Elsa! Eu não estou interessado em você! Eu só estava tentado ser legal! – falou gesticulando, sem jeito, não enganaria nem uma criança – Mas se quer ficar sozinha tudo bem! Só não fica aí até tarde!

Lentamente deu as costas para a mesma, caminhou em direção à porta com o rosto trêmulo e magoado. Elsa o olhava ainda franzindo o cenho, com a postura agressiva, quando o rapaz saiu e fechou a porta da casa, ela imediatamente soltou o corpo e o ar gelado nos pulmões, aliviada.

Mas de repente, notou algo inesperado. Sentiu-se ser observada, olhou para cima e viu. Rapunzel estava na varanda cheia de neve branca, iluminada pela luz dourada do quarto que dava para a sacada, observava a prima com o rosto fechado e cenho franzido. As duas começaram a se encarar. A alemã em cima iluminada pela luz quente da varanda e Elsa em baixo, na neve, iluminada pela luz branca do restante da casa.

Jack adentrava a casa, caminhava desajeitado pelo corredor estreito, queria chegar logo ao quarto, mas não conseguiu. Assim que se aproximou do mesmo, sua testa alva bateu contra a parede, suas mãos jovens tocaram-na, seus olhos lacrimejaram um pouco e de sua boca saiu gemidos de tristeza.

Sua lamentação durou menos de um minuto, logo depois separou-se da parede fria e decidiu entrar no quarto de Soluço.

Quando passou pela porta dos aposentos do escandinavo, Banguela chiou para o platinado, Soluço, que lia tranquilamente, se assustou, saltando os ombros, e o eslavo, em silêncio, pegou um mangá sobre a cama do norueguês e começou a ler, deitando-se também em sua cama.

— Decidi aceitar sua proposta de ler mangá – falou apenas.

— Você foi grossa com ele! – disse Rapunzel para Elsa, irritada.

A escandinava havia subido até o terceiro andar para falar com a prima no quarto que dava para a varanda. Agora estava sentada encolhida sobre uma cadeira de madeira, olhando a loira de baixo, pois ela estava em pé. Ambas iluminadas pela agradável luz dourada do cômodo.

— Não fui grossa! Fui sincera! – respondeu em defesa.

— É possível ser grossa e sincera ao mesmo tempo sabia?!

A platinada não respondeu, apenas fez careta olhando para o lado. A alemã continuou.

— Da mesma forma, é possível ser gentil e sincera ao mesmo tempo, você poderia ter tentado!

— E o que queria que eu fizesse?! Você me lembra a Anna! O Hans pediu ela em casamento no primeiro dia de namoro e ela já saiu dizendo “sim”! Eu deveria sair falando macio com qualquer cara que me aparece?!

— Ele é meu amigo e você magoou ele! Eu vi como o rosto dele ficou abatido quando ele saiu! Eu até fiquei chocada! Nunca tinha visto alguém tão alegre quanto ele tão infeliz! E outra, o que ele fez que te deixou tão zangada?! O cara que me assediou no metrô sentou do meu lado, me chamou de gostosa, passou a mão em mim e me segurou com força! O Jack fez algo parecido com você?!

Elsa mantinha o cenho alvo franzido o tempo todo, os olhos azuis se mantinham hostis e manifestava uma postura agressiva, contudo, imediatamente, a mais velha cedeu aos argumentos da prima.

Seu rosto esmoreceu ao mesmo tempo que seu corpo caiu com a coluna curvada, olhando triste para o lado e suspirando.

— Não! Ele foi respeitoso comigo o tempo inteiro! Não ficou perto demais de mim, não se referiu a mim com palavras baixas e nem sequer encostou em mim.

— Então? – perguntou Rapunzel, curvando-se para frente com os braços cruzados, o cabelo longo solto e caído para o lado direito de sua cabeça.

— Está bem! Você está certa! Me desculpe! Eu fui grossa! Mas essa não foi a minha intenção! Mas... Por favor, compreenda-me um pouquinho. Depois de mais de uma década de quarentena é a primeira vez que saio para viver normalmente e um cara vem direto pra cima de mim. É a primeira vez em toda a minha vida que um cara se interessa por mim. E isso pra mim é assustador... – falou baixando a cabeça.

Os olhos verdes da loira de repente se abrandaram. Rapunzel agachou-se, segurou as mãos da prima e a olhou nos olhos fechados, erguendo um pouquinho sua face.

Elsa abriu os olhos tristes e tímidos, viu a alemã sorrir para ela, que retribuiu com outro menor.

— Escuta Elsa, eu entendo, me desculpe, talvez eu esteja pressionando você demais, mas o Jack é meu amigo, e você magoou ele, e vai ter que pedir desculpas – falou calmamente.

— Eu sei... – respondeu a mais velha com vergonha.

— Está nevando, vai sair assim mesmo? – perguntou Rubi de braços cruzados, olhando a filha dar os toques finais em sua recatada aparência no quarto.

— Claro que vou! A neve daqui a pouco vai parar de cair! – falou colocando um casaco marrom.

— Olhe lá hein! Se a neve ficar mais forte você deve voltar pra casa, ou eu mesma vou até lá e busco você!

— Relaxa mãe, o meu namorado é responsável! Se ele ver que a neve vai piorar ele me traz o quanto antes pra casa! – falou saindo pela porta.

A mais velha começou a acompanhar a filha pela lentamente pela casa, usando suas confortáveis roupas casuais de frio.

— “Namorado” ?! – questionou – Estão saindo há apenas alguns dias e já está dizendo por aí que ele é seu namorado?!

— Ah, mãe! A senhora já viu ele! Ele não parece ser o cara certo pra compromisso?! Pra casar! – disse se aproximando da porta.

— Ele realmente parece ser um bom rapaz, isso não dá pra negar, mas ainda assim...

— Mas eu vi ele primeiro viu?! – brincou.

Rubi não falou nada, apenas lançou sobre a filha seu olhar cruel e punitivo em seus olhos azuis.

Esmeralda sentiu medo ao ver aquilo, seu coração estremeceu e sentiu sua alma gelar.

— Me desculpe... – sussurrou.

De repente, ouviu-se uma buzina do lado de fora. A mais nova abriu e viu um belo carro branco.

— É ele! Tchau! – falou correndo em direção ao carro.

— Tchau! Divirta-se! – falou sorrindo e acenando da porta para a filha, mas de repente quis perguntar algo – Esmeralda! – a filha parou, olhando-a – Qual é o nome do rapaz mesmo?

— Hans!

Notas finais
Nome da música: A Thousand Years - Cristina Perry Sim, a música de Crepúsculo, sem preconceitos, a música é boa. Muito obrigado aos que leram até aqui! Esperam que tenham gostado!