Querido diário não escalado...

2 Mudando de dentro para fora


24 de dezembro de 2015

Querido diário não escalado...

Como você sabe, hoje é véspera de natal e eu não tenho expectativa nenhuma para este ano, assim como foi ano passado e os anos anteriores e é assim desde a morte dela. Sabe, meu pai se esforça muito para tentar dar atenção as três filhas mulheres que ele possui, mas é difícil porque ele também sente muita falta dela e não quis nenhuma outra figura feminina ao seu lado, até então, pelo grande respeito e carinho que ainda sente. Acho que ele deveria se desapegar do passado e tentar seguir em frente, dando um passo de cada vez até conseguir caminhar de novo com suas próprias pernas, mas para os adultos as coisas sempre são mais difíceis, acredito que seja por causa da idade.

Não, espera! Eu ainda não te contei?

Ai, que mancada a minha.

Bom, eu tenho três irmãs.

Uma mais velha e uma mais nova, sou a irmã do meio.

Somos o tipo de escadinha perfeita: a mais velha se chama Maria de Lara de Costa e Lira e seus olhos e cabelos são castanhos. A do meio (eu), se chama Maria Lina de Costa e Lira e seus olhos e cabelos são castanho-avermelhados e levemente gateados, respectivamente. Por fim, a mais nova, Maria Luíza de Costa e Lira possui cabelos vermelhos cor de fogo e olhos verdes.

Repare a gradação de cores na escala da segunda geração da família Costa e Lira. Papai costuma dizer que se fossemos estrelas, seriamos a constelação do cinturão de Orion, as Três Marias. Sempre juntas e unidas.

Entretanto, isso deixou de ser verdade quando Lara começou a namorar e Luíza passou a pendurar posters do Justin Bieber e do Crepúsculo nas paredes do seu quarto. Tudo o que eu não queria ouvir era o quanto o idiota do namorado da Lara não dava o devido valor que ela merecia e o quanto o Robert Pato não sei das quantas brilha dentro e fora das telinhas do cinema. Então, para o bem-estar de minhas amadas irmãs e minha saúde mental (o que restou dela), eu passo a maior parte do tempo em meu quarto estudando para ser alguém na vida, meu mundo onde ninguém entra para não correr o risco de se arriscar demais e querer sair. Não me fechei para o mundo porque não amo minha família, me fechei para eles porque essa é a única forma que sei lidar com a dor.

Às vezes é necessário um momento de introspecção para organizar as coisas aqui dentro. E no fim das contas, não passo tão despercebida assim, eles gritam pelo meu nome quando minhas encomendas chegam a porta de casa e eu tenho que assinar a notinha. E ficam perguntando como eu faço tudo isso sem sair do quarto. O "tudo isso" deles é conseguir dinheiro, fazer os pedidos e pagar a conta sem nem mesmo por a cara na janela para ver se o segundo sol já chegou. São apenas bobinhos desinformados dos utensílios tecnológicos que possuímos: não sabem que posso ganhar dinheiro pela internet (meu blog super acessado) e manipula-lo sem nem saber qual sua cor, graças aos aplicativos dos bancos disponíveis para celulares, sem contar que nem é necessário ter uma idade verdadeira para isso, é só rechear a conta desses empresários com verdinhas que está tudo ótimo, perfeito e maravilhoso.

Voltando aos assuntos natalinos, terei de sair do meu mundinho por algumas horas para passar a ceia na casa dos meus avós paternos, não que isso seja algo ruim: eu amo meus avós, mas odeio meus tios. A única exceção é minha tia Elen, ela adora livros e História tanto quanto eu e sempre me dá livros como presentes de Natal e aniversário. No último Natal, ela me presenteou com o livro Carta de Amor aos Mortos, talvez porque ela tenha deduzido que eu iria me identificar com a vida da personagem Laurel e, em meu aniversário, fomos ao cinema e ela me comprou um livro sobre mitologia celta na livraria do shopping.

Meu avô, Télio, adora minha companhia porque gosto de ouvir suas histórias da época em que ele era escoteiro e depois virou chefe de cozinha em um navio da marinha mercante, conheceu vários países e serviu gente das mais granfinas até as das mais altas patentes. Já minha avó, Iná ou dona Iná, como é conhecida por todos, adora esportes e por isso se dá melhor com Luíza e Fernanda. Na última vez que vovó me viu, disse:

— Oh, Junior! O que tens feito ultimamente? Olhe a aparência de Lina, tão vampiresca que os maquiadores do Johnny Depp ficariam com inveja de tanta naturalidade em sua aparência melancólica. Você está bem, criança? — perguntou ela enquanto verificava atenciosamente meu rosto, olhos, boca, orelhas e olheiras — Minha filha, se pegar um pouco de sol fizesse mal, Deus não teria colocando-o no firmamento dos céus.

Calada eu estava, calada fiquei. Sabia que vovó se importava comigo, mas agora ela realmente estava preocupada, pois Lara comentou em particular, logo depois com dona Iná, que passo o dia inteiro "infornada" em meu quarto sem falar com alguém, só saio para ir a escola e volto rabiando. Agora terei de aguentar mais olhares cheios de pena e vazios de amor voltados para mim neste caloroso fim de ano.

Entretanto, como não quero mais demonstrar a frágil aparência que supostamente possuo, resolvi mudar drasticamente. Então, hoje, pela primeira vez eu saí de casa ao ar livre para fazer umas compras. Coloquei um jeans justo, camisa do Green Day, sandálias do Snoop e meu óculos de sol.

Primeiro passei no caixa eletrônico para sacar dinheiro, depois fui ao supermercado magazine da cidade. Comprei algumas futilidades necessárias na vida de uma mulher, visto que Maria de Lara e Maria Luíza não tiveram tempo de fazer as compras mensais da casa. Passei pelo balcão de maquiagem e aproveitei para comprar meu rímel e delineador que haviam acabado, tal como meu batom roxo. E, no caminho de volta para casa parei em uma farmácia. Uma das coisas mais úteis de uma farmácia é parar e verificar seu peso, pois descobri que as comidas tailandesas e indianas me deram 3 quilinhos como presente de Natal. Passei pelos corredores procurando o queria até encontrar: tinta preta-azulada para cabelos e laminas de depilação. CALMA! Não é isso o que você está pensando.

Quando cheguei em casa, vi minhas irmãs me encararem com seus olhares dizendo "como assim, tu saiu e ninguém filmou esse momento histórico?!?".

Subi direto para o meu quarto antes de começarem o falatório.

Passei para o meu banheiro particular limpo e cheiroso rasgando as sacolas. Peguei as duas caixinhas de tinta e, logo em seguida, meu notebook para pesquisar tutoriais de como pintar o cabelo sem pagar de Candido Portinari nas paredes do banheiro. Enquanto carregavam os vídeos no YouTube, peguei a lamina de barbear, tirei o plástico e o suporte da lamina, agarrei com meus dedos uma mecha do meu querido cabelinho. Elevei até o alto olhando pelo espelho a mecha, sem dó nem piedade passei a lamina por aqueles fios que caíram sobre minha testa em uma pequena ondulação formando o endereço de uma franja, continuei com o serviço até ter conseguido fazer uma franjinha acima da sobrancelha.

Não satisfeita ainda, fui até o quarto de papai pegar uma de suas tesouras de centro cirúrgico, voltei ao meu banheiro e amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo bem firme no alto a cabeça, sem pensar duas vezes comecei a cortar os fios quase rente ao pompom que os prendiam. Ao soltar o cabelo, obtive ótimos resultados: cabelos perfeitamente repicados.

Passado o momento de cortar o mal pela raiz, preparei a tinta segundo o tutorial e apliquei aos meus fios finos, curtos e lisos.

Pela parte da noite, eu já podia me declarar morena. Quando me olhei no espelho, realmente vi que algo havia mudado em mim. O tom preto combinou perfeitamente com a cor dos meus olhos e o corte valorizou meu rosto e as maçãs das minhas bochechas. Mas, não era só isso. Foi como se, fazendo isso, eu sentisse que era dona de mim e podia fazer qualquer coisa.

Depois de um banho calmo e relaxante, fui ao meu armário procurar uma roupa. Horas a fio procurando algo decente, escolhi um vestido roxo, cuja primeira e última vez que foi usado fora no casamento de nosso tio materno, Cleyton, há 3 anos atrás. Ele caiu perfeitamente em mim, com decote quadrado e alças brilhosas, realçou o pingo de luz pendurado em meu pescoço. Usei minha sapatilha azul aveludada, minha preferida, então, me olhei no espelho e mal pude me reconhecer. Algo de tirar o fôlego, me pegava várias vezes. Agora, estou dando os retoques finais na maquiagem antes que meu pai ou uma de minhas irmãs venham me chamar.

Me deseje sorte, pois irei precisar muito esta noite.

Aliás, estou feliz por te ter por perto sempre que necessito de alguém para desabafar.

Um Feliz Natal!

Com amor,

sua Lina.

Notas finais
Segundo capítulo... Conhecendo um pouco mais da Lina. Sinto cheiro de mudanças! Vocês também?