03 de abril

Eu estou tão cansada! Estou morrendo de sono! Mas, por causa de Sophia, minha psiquiatra, e minha mãe, meu anjo da guarda (sente a ironia?), cá estou eu, escrevendo nesse maldito diário.

Tive um dia cheio hoje. Minha mãe decidiu deixar tudo para cima da hora, então hoje, na folga dela, corremos para o shopping, à procura de alguma bomboniere onde poderíamos encontrar não só nossos chocolates favoritos, mas também alguma coisa para dar de presente à família.

Meu pai não tem muita frescura. Eu escolhi algo grande, de chocolate normal, e a minha escolheu quase a mesma coisa para ele. Para ela eu escolhi bombons recheados porque eu sabia que eram os seus preferidos.

E, é claro, não poderia deixar de me autopresentear. Sendo assim, comprei uma bela caixa de bombons trufados, já sentindo a água na boca só de olhá-los. Saímos de lá rindo, com as mãos cheias de sacolas e rumando para o supermercado, onde compraríamos os ovos de páscoa para meus primos, tios e avós.

Nossa casa era bem longe de grande parte do resto da família. Por causa do trabalho do meu pai, tivemos de morar mais perto do centro, o que facilitou para a minha mãe arrumar um bom emprego como jornalista.

O resto da família, salvo alguns primos e tios que moravam no litoral, morava no interior, em chácaras herdadas de algum ancestral próximo o suficiente para eles ainda se lembrarem do nome.

Era engraçada a árvore genealógica da minha família e como eles haviam mantido suas raízes. Grande parte havia se casado com gente próxima, da própria cidade berço de todos nós. Meu pai e minha mãe eram de lá, embora tenham se mudado para o centro bem novos — o destino os uniu em um arraial na cidade natal deles anos depois.

Eu, por outro lado, me apaixonei por um cara estúpido, enganador e psicopata. Escolhi me envolver com a única pessoa que não batia bem da cabeça. Eu ainda não consigo encaixar as peças, sabe? Ainda me pego pensando na época em que ele me abraçava, beijando meu pescoço e dizendo o quanto eu ficava linda de azul.

Não conseguia esquecer o sabor de seus lábios em meu paladar. Ele tinha gosto de canela e hortelã.

Eu passei a odiar esses sabores.

A sensação de seu toque em mim, sendo dos momentos bons ou dos ruins, causavam arrepios na minha pele. Eu odiava tanto ele agora! Eu só queria vê-lo apodrecer no inferno. Tenho certeza de que nem o diabo quer alguém assim no inferno.

Vou acabar por aqui, fechar você e guardá-lo, porque estou sentindo meu estômago revirando, e tenho certeza que de, antes que eu conte até dez, vomitarei.


Foi isso o que ele deixou para mim além das cicatrizes no corpo e na alma.