Querido diário não escalado...

3 Capítulo 3 - Aqui jaz a história triste de uma perda irreparável.


Notas iniciais
Recomenda-se que seja lido ao som da música Menos de um Segundo, da banda Rosa de Saron.

Sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Querido diário não escalado...

Aqui jaz a história triste de uma perda irreparável.

Foi como um pesadelo, daqueles que não se pode acordar.

Uma fração de segundos atordoada e enegrecida.

Sufocante.

Os dois carros seguiam pela avenida principal.

Velocidade média permitida.

Podia ver tia Elen dirigindo seu Fiat Uno, segura e tranquila de que voltaria para seus filhotes de akita e sua querida filha, Karine.

Papai seguia logo atrás, com sua Mercedes deslizando pelo asfalto plano e frio, molhado pela fina garoa que caia naquela madrugada de Natal.

Voltávamos para nossas casas, nossas vidas de costume. Ou, pelo menos, era o que pensávamos.

A noite penetrava densamente pelos vidros do carro, assim também como a luz dos postes que oscilavam de metros em metros.

Num fone de ouvido, a letra da música soava no inconsciente de meu cérebro, enquanto o outro pendia em meu ombro.

Paramos no sinal.

60 segundos... 40 segundos.... 25 segundos... 15 segundos...

10 segundos

Pisa no acelerador.

9 segundos

Da a marcha.

8 segundos

Avançar lentamente para frente

7 segundos

Ela olha pelo retrovisor de seu carro e sorri para nós. Sorri para mim.

6 segundos

Acena com uma das mãos e arruma os cabelos.

5 segundos

Ao ver que retribuímos com sinceros sorrisos e acenos, a sua reciprocidade lhe permite mandar beijos que não alcançam a pele, mas o coração.

4 segundos

Olha para o sinaleiro: Vermelho

3 segundos

Laranja

2 segundos

Verde

1 segundo

Ela avança segura de que está fazendo o certo.

Recosto a cabeça no banco do carro e fecho os olhos por fração de segundos, me permito concentrar na música.

Menos de um segundo e eu já perco o ar...

O carro parou. Estranho o porquê de ele ter parado no meio da pista. Franzi a testa com as sobrancelhas, e olhei para minhas irmãs. Estava tudo vazio, incompleto. As coisas não estavam mais se encaixando. Parecia que o mundo estava girando em câmera lenta. Fernanda com as mãos no rosto, chorando, gritando e se debatendo. Maria Luiza estava em um telefone, falava nervosa e descompassadamente.

Quase um minuto, quero te encontrar...

Procuro por papai que está fora do carro com as mãos na cabeça desesperado.

É um sentimento que preciso controlar...

Então, tudo se encaixa novamente. Eu a vi. Arremessada para fora do carro. Estirada ao chão úmido, frio e sem vida. A chuva agora caia com mais intensidade, não era mais garoa, era tempestade. Senti uma dor invadir meu peito. Formigamento nos olhos, descontrole do queixo e respiração ofegante. Não quis estar ali. Corri até ela. Agarrei-a nos braços e gritei seu nome.

Tia Elen.

Tia Elen.

Tia Elen.

Porque você se foi...

As lágrimas misturaram-se a chuva e meu vestido roxo pintou seu sangue. Tirei o cabelo de seu rosto.

Não olhei para os lados.

Não olhei para papai.

Fernanda.

Luiza.

Só olhei para cima e desejei que em algum lugar naquela imensidão do universo, alguém não permitisse que minha estrela cadente partisse. Mas ela se foi. E ali, em mim, jazia seu corpo molhado e vazio. Tão vazio quanto eu a partir daquele momento.

Não está aqui...

E, assim, foi um infeliz natal e luto ano novo.

Com amor,

sua Lina.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.