Querido Enoch
1 Careless Whisper
Suffolk, 18 de julho.
Para Enoch Maple, de Ava Grace Sutton.
Querido Enoch,
Querido. Por tanto tempo você atendeu por esse adjetivo, carinhosamente dado por mim. Talvez as pessoas cujas mãos tocarão essa carta em seu trajeto pensarão: “Por que Céus ela enviaria uma carta, com tantos recursos mais rápidos?”, certo? Você também perguntaria se fosse o carteiro, ou a pessoa quem colocaria um selo no papel, já frágil de tantas lágrimas que nele caíram. Até eu, várias vezes, me fiz essa pergunta. Ah, querido, eles não sabem.
22 de julho. Você se lembra desse dia? Sim, aquele concerto do Evanescence, onde nos conhecemos. Eu tinha apenas 15 anos nessa época, estava feliz como nunca, e mais feliz ainda fiquei quando sua mão tocou a minha quando você pegou a minha tiara, que havia caído no chão. Eu jamais antes havia dito um “obrigada” com tanto sentimento, sinta-se privilegiado, se ainda se recorda disso.
27 de outubro. Lembra-se de quando nos encontramos pela segunda vez? Você estava incrivelmente cem vezes mais bonito. Acho que você não deve ter notado a minha cara quando o raio de sol refletiu em você, e querido, você brilhava. Talvez tenha sido o brilho dos meus olhos a ofuscar minha visão, mas seu cabelo preso num coque quase caindo me parecia a coisa mais preciosa do mundo. Você se lembra de quando eu disse que você parecia um prisma, e você me achou engraçada? Até hoje eu acho minhas piadinhas sujas totalmente ridículas, e elas são, mas eu arrancava sorrisos de você com elas, e nada mais me importava.
6 de novembro. Possivelmente, esse foi o melhor dia da minha vida, até agora. Um dia nublado, mas aquela chuva torrencial se dissipou com uma velocidade absurda, no segundo em que seus lábios tocaram os meus. Todo aquele céu cinza, monocromático, se abriu no arco-íris mais lindo que eu havia visto na minha até então breve vida, e nesse momento, me ocorreu que eu estava absurdamente, incondicionalmente, explicitamente, irrevogavelmente, fulminantemente, inalteravelmente, inevitavelmente apaixonada por você. E naquele 6 de novembro, eu soube que seria sua, e você seria meu.
25 de dezembro. Você se recorda do Natal que passou na minha casa? Lembra-se de como meus primos gostaram de você? Minha tia me perguntou se você era meu namorado, e indelicadamente, perguntou se você não tinha uma família. Ah, dessa eu faço questão de falar: você respondeu “Minha família é Ava Grace”. E sempre reafirmava que eu o havia salvado das garras da sua mãe, e dos gritos do seu pai. Enoch, eu não entendia, até conhecê-los, e ver que eu realmente havia feito um excelente trabalho ao tirar você daquela casa, e ter te posto sob minha proteção.
31 de dezembro. Rememora-se da véspera de Ano Novo que você passou na praia comigo? Lembra-se do escândalo que eu fiz para você ficar, quando seu pai quase te levou embora? Desde então, ele passou a não gostar de mim, e querido, eu nunca me importei. Você ficou tão lindo naquelas roupas brancas, e parecia tão radiante ao ver os fogos, que eu senti como se minha missão na Terra estivesse cumprida, e fiz uma promessa diante do meu Deus, de que jamais, em hipótese alguma, sob nenhuma circunstância, eu te abandonaria. E tenho mantido-a, firmemente. Você diria: “mas promessas não são sempre quebradas?”. Não. Não as minhas.
11 de janeiro. Provavelmente, esse foi o melhor aniversário da minha vida. Lembra quando você gastou seu primeiro salário em dois ingressos para me levar ao show da Taylor Swift? E foi ao show comigo, mesmo não gostando dela? Eu jamais vou te agradecer o suficiente por ter me dado o melhor presente que alguém poderia me dar. Assistir a Taylor cantar as minhas músicas favorita ao vivo, e ainda cantá-las ao seu lado. E quando voltamos para casa? Você me carregou todo o caminho no colo, pois meus pés estavam terrivelmente machucados, eu estava descalça e você disse que não iria se perdoar se eu os machucasse ainda mais.
2 de fevereiro. O meu primeiro dia de aula, e você segurou minha mão o tempo todo, e disse que se eu começasse a chorar no meio da aula, você viria me buscar e me levar para tomar um sorvete, e se eu fosse suspensa, você jurou de pés juntos que iria levar as advertências no meu lugar, e você nem estudava lá. Ah, querido, por pouco eu não fiz isso. Hoje, eu penso que deveria tê-lo feito. Eu deveria ter sido mais livre enquanto seus braços ainda estavam ao redor dos meus ombros. Eu deveria ter aceitado seu convite de me empurrar no balanço no parquinho ao lado do hospital, quando eu quebrei o braço, você se lembra? Você ficou comigo o tempo inteiro enquanto eu era atendida, e segurou minha mochila pelos 15 dias que se seguiram até eu tirar o gesso.
4 de março. Lembra do aniversário da Violet, minha amiga? Você me ajudou a fazer uma pulseira de presente para ela, e soldou o pingente com o carinho que faria se o presente estivesse sendo confeccionado para mim, e era isso que eu admirava em você, Enoch. Você não fazia distinção entre os homens, e tratava a todos com igual doçura, mesmo que eles o tivessem ferido. Você me ensinou muitas coisas, meu amor. Muitas lições, as quais eu passarei para meus filhos, e para os filhos dos meus filhos, se eu os tiver.
22 de abril. Turnê do James Bay, você se recorda? Você foi comigo, mesmo sem entender nada do que estava acontecendo, e me fazia rir quando não sabia a maior parte das letras e repetia apenas as últimas palavras de cada verso. Posso dizer que você aprendeu mais sobre James Bay em 9 meses comigo, do que em 20 anos de vida sem mim. Lembra, que foi nesse dia que eu te dei o primeiro presente? É, era um relógio. Eu trabalhei de baby-sitter por quatro meses para pagá-lo, e ontem, eu vi você na rua, e você o estava usando. Fico feliz que tenha gostado.
31 de maio. Lembra-se de quando chegou do trabalho e encontrou um bolo queimado e solado que eu havia feito para você? E você comeu duas fatias, ó Céus, nem eu aguentaria comer aquilo, mas você comeu; creio que não suportaria fazer tal desfeita. Você se recorda de quando você quebrou o braço no futebol, e eu fiz a sua barba? Eu fiz com a mão direita, cortei seu rosto todo, e olhando as feridas em volta do seu sorriso, pensei que você ia me expulsar da sua casa e dizer que nunca mais me deixaria tocar em você. Mas você não fez isso, Enoch. Pelo contrário, exibiu as cicatrizes para seus amigos, dizendo que eu tinha feito uma obra de arte na sua cara. Ai, Enoch. Você era maluco.
E você se recorda, de quando descobriu minha cor favorita, e me deu um esmalte? Eu fiquei tão feliz. Inclusive, eu o estou usando nesse momento. O esmalte que você me deu, o DNA de cor escarlate que se tornou meu favorito, me acompanhou dali em diante.
20 de junho. Era seu aniversário, e eu estava exultante no dia. Estava um dia ensolarado, e eu havia comprado uma camisa para você usar. Eu mesma trouxe um bolo, na Magnolia Bakery, e você quase chorou, dizendo que eu era sua heroína. Eu confesso que demorei para entender que você não estava me comparando com a Mulher Maravilha, ou a Natasha Romanoff. Você sabe que eu detesto comics. Eu sei, também, que você ama a confeitaria onde comprei seu bolo, por isso encomendei um bolo de chocolate com ameixa – seu favorito, vê como eu te conheço? – três semanas antes. Não, o bolo não foi feito um mês antes do dia 20, antes que você sinta vontade de vomitar. Lembre-se, eu sei de tudo sobre você, durante esses meses eu te virei do avesso, querido. Saiba que eu nunca esquecerei uma vírgula, qualquer coisa que tenha relação com você.
9 de julho. Lembra quando eu briguei com meu irmão de madrugada, e ele me chamou de catástrofe? Pois é, eu corri para sua casa, e você me abraçou enquanto eu chorava minhas mágoas. É, foi a primeira vez que você me viu chorar. Passou a me chamar de Catástrofe, só porque sentia prazer em me irritar, e o apelido pegou. Eu realmente acho que seja uma... Lembra como minha mãe tinha ciúmes de você? E o meu pai? Nossa, estava na cara dele “Olá, tenho ciúmes”. Meus irmãos achavam que você iria suplantá-los, e embora isso tenha sido uma ideia absurda e remota, foi origem de várias brigas, puxões de cabelo, e palavras atiradas ao vento de forma arbitrária. Enoch, eu jamais fui condescendente com você, nunca fui conivente com seus defeitos e nem você foi com os meus. Até hoje não entendo o porquê de acharem que eu trocaria todos por você. Bem, de certa forma, eu devo ter feito isso, mas não se culpe. De certo, eu tive motivos.
Lembra, Enoch, do quanto eu era ciumenta? Nossa, eu era quase possessiva. Mas mudei de comportamento quando me toquei que isso poderia te afastar de mim, mas é que meu corpo literalmente doía ao pensar na possibilidade de nunca te ver de novo. Lembra de como você ria das minhas manias? De lavar o cabelo à noite, falar palavrão, comer de 30 em 30 minutos, prender o cabelo com lápis, meu gosto por rímel. É assim que eu gostaria que você lembrasse de mim, Enoch: óculos grandes, cílios emplastrados de rímel e repuxados até a testa, sobrancelhas arqueadas, calça de flanela e algo comestível nas mãos.
15 de julho. Lembra-se daquela noite apocalíptica? Você havia chegado à minha casa. Eu estava me arrumando para ir jantar com você, e acreditava que aquela seria mais uma noite agradável, na qual você me colocaria na cama (porque eu sempre caía no sono no meio do caminho e chegava em casa dormindo), mas pela sua cara quando entrou, eu soube que teríamos problemas. E você mantinha um silêncio estranhamente fúnebre. Segurei suas mãos, e você certamente se lembra da minha reação quando você as puxou de volta, abruptamente. Olheiras fundas, cabeça baixa. Você estava arrasado, e eu não fazia a menor ideia do porquê. Você sussurrava, e aos poucos eu sentia meu estômago se revirar.
“Não dá mais para ficarmos juntos”, e antes da própria velocidade do som dessa frase o meu coração parou de bater por um minuto. Eu senti como se o chão tivesse se aberto sob meus pés, eu estava sendo arrastada para baixo, e não havia nenhuma mão para me puxar de volta. Como se eu estivesse prestes a morrer, as imagens, os beijos, os presentes, os risos, os abraços, as palavras se colapsavam sobre si mesmas na minha mente, e nenhuma saía da minha boca. Milhares de perguntas colidiam no meu cérebro, o qual estava girando em círculos. “Eu estou pedindo para que você vá embora”.
O quê? Foi como se eu tivesse sido atingida por um raio. As lágrimas mal desciam pelo meu rosto distorcido de dor, e a minha boca entreaberta segurava um grito, o qual não era solto pelo fato de eu estar sob completo choque. Você estava me abandonando. Como pôde? Eu estava me sentindo insipiente. Oca, vazia por dentro. No silêncio, quase dava para ouvir meu coração quebrando, e caindo em pedaços aos seus pés. Metaforicamente, eu me senti morta.
As promessas que você fez se batiam na minha cabeça. Fortuitamente, as minhas mãos foram parar no meu rosto, tentando em vão conter as lágrimas que atropelavam meu esforço de não deixá-las cair. Involuntariamente, eu soluçava. Esse era o primeiro estágio: a dor devastadora, que me cobriu como uma nuvem negra.
Segundo estágio: acromania. Aquela fase de fúria sobrenatural, quase demoníaca, que eu sentia crescer dentro de mim como uma metamorfose, em um espaço de dois minutos. Colérica, me virei para te encarar e eu juro, Enoch, eu quis matar você. Eu queria te destruir, te deixar em pedaços, te transformar em pó. Te causar dor. Uma antítese obscura, que colidia frontalmente com tudo que eu havia feito a seu favor, e com a pessoa que eu me tornei por sua causa. Você estava ali, parado ao lado da janela por onde a luz da Lua entrava, estoico, tão cheio de honra, nem sequer chorava, e ver aquilo despertou o monstro que havia em mim.
Eu entrei em desespero. Te dei um tapa. Dois, três. E você deixou que eu descontasse a minha raiva em você, como uma espécie de mártir incompreendido, e aquilo me fez virar um lobo. Eu queria que você morresse, eu desejei que você morresse. Os filósofos naturalistas explicariam com clareza o fato de eu ter deixado a irracionalidade me consumir. Mas a clareza, ela não existia, não naquela hora, quando eu queria te arranhar até me tirar completamente de você.
Me arrependo disso. Me arrependo dos tapas, dos gritos, e do vaso de rosas brancas, azuis e vermelhas – que você mesmo me deu – que eu atirei em você enquanto você descia a escada. É que, subitamente, eu não mais me importava se você se machucaria, ou não. Meu irmão disse que você levou pontos na cabeça, aquilo atingiu você? Me perdoe. Eu não queria ver você, não queria ver ninguém. Só queria que as lágrimas levassem embora aquela sensação terrível de substituição.
No final das contas, você nunca me traiu, nem estava apaixonado por outra. Você só estava cansado, e eu, egoísta, não vi isso. Veja, eu não estou sendo condescendente, eu estou assumindo um erro que cometi, e não estou te isentando de culpa. Você errou, também, em neglicenciar o fato de eu ter movido céus e terra para te fazer feliz. Você foi omisso em relação ao fato de eu ter mudado o eixo de rotação da Terra para te ver sorrir, e sim, eu tenho plena consciência de que eu fiz isso.
Talvez você ainda me ame. Talvez você ainda sinta um resquício de sentimento – gratidão, paixão, enfim – quando se lembra de mim. Talvez, talvez, nos encontremos novamente, daqui a cinco, dez anos, quando estaremos ligeiramente mais velhos. E mais uma vez, você será perfeito para mim, e eu, perfeita para você.
Saiba que você foi um dos capítulos mais belos e importantes que eu já escrevi na minha vida, Enoch. Saiba que, mesmo depois de nós termos virado um contra o outro, o mundo dá voltas incompreensíveis. Se essa carta chegar a você, quero que saiba que você pode me encontrar em qualquer lugar do mundo. Na Índia, no Brasil, na África. E quando – quando — você me encontrar, daqui a anos, ou meses, eu serei a de olhos verdes, no fim da fila.
Eu estou indo embora. Ganhei uma bolsa na faculdade de Jornalismo. Lembra, quando você me disse para dar ouvidos ao meu coração? Estou orgulhosamente seguindo seu conselho. Eu te amo, e para sempre, você estará nas minhas orações. Eu nunca soltarei sua mão. Prometi, não prometi? Mesmo que eu não a segure fisicamente, vou compartilhar o meu anjo da guarda com você. Até o meu último dia, você será o desalinhado mais lindo do mundo para mim.
Como Robert Langdon diria em Anjos e Demônios, que os anjos o guiem em sua busca sublime. De sua rainha escarlate, adeus.
Perpetuamente sua,
Ava Grace.
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