Lá estava eu novamente, observando-o enquanto dormia. Como eu era ridícula! Fazia meses que o eu via praticamente todos os dias no ônibus, sentava ao seu lado, meu Deus, falávamos tantas bobagens! E no entanto, eu não havia tido coragem de falar pra ele o que sentia. Com freqüência ele dormia em algum momento do trajeto de uma hora que fazíamos todos os dias até o Campus da Universidade numa cidade vizinha, e eu ficava observando, sua respiração ritmada, a face angulosa, os lábios finos, os olhos sorridentes.

Eu achava que éramos amigos, mas qualquer pessoa que se aproximasse um pouco de mim eu considerava um amigo, até porque não era todo mundo que tinha disposição pra tentar iniciar uma conversa comigo, eu, a menina tímida que passava 90% do tempo em silêncio, lendo um livro ou apenas olhando o turbilhão de estrelas pela janela. Mas ele era o tipo de pessoa que conhecia todo mundo, todos o consideravam como um amigo, por ser tão simpático e extrovertido fazia com que todos sentissem que o conheciam, mas não era bem verdade. Sabia tudo sobre todos, mas tudo que sabíamos sobre ele eram antigas aventuras que ele adorava contar, como as vezes que quase foi preso, as viagens que fazia com seus amigos (cinco ou seis adolescentes sem carteira de motorista dirigindo loucamente pelas cidades vizinhas), coisas que tinham acontecido ha muito tempo e não diziam muito sobre sua personalidade ou como se sentia, os poucos que sabiam essas coisas pessoais eram os que ele realmente considerava seus amigos, e eu queria ser um deles. Bem, na verdade eu queria ser mais que uma amiga, mas acho que vocês já entenderam isso.

Ele fazia o quinto período de Letras Português e eu o primeiro, ou seja, não estudávamos juntos, mas até que nos víamos muito pelos corredores, por ambos estudarmos no bloco de Letras Português, que era bem pequeno, diga-se de passagem...

Sempre que eu o via meu coração palpitava loucamente, algo que eu tinha que aprender a controlar. Ele não foi o primeiro garoto por quem me apaixonei, claramente tive uma vida cheia de amores platônicos. Nunca falava muito com os garotos de quem gostava, muito menos sobre os meus sentimentos. Eu os amei secretamente. Falando assim até parece um pouco poético, mas na verdade é uma droga! Tenho certeza que desperdicei muitas chances de felicidade por causa dessa maldita timidez.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.