Querido Diário
2 Capítulo 1 - TEORIA DOS PAIS SEM NOÇÃO
Isabella Marie Swan. Um nome único pra uma garota única – segundo meu pai -, mas nunca encarei isso como um elogio ou uma forma de me sentir “especial”.
Quer dizer, sou uma garota simples de 17 anos que está na metade do colegial, até aí eu sou normal, pois se continuar virão títulos e mais títulos de meus pais: cientistas do prêmio Nobel, Oscar, Guinness, Emmy, Física, todas as revistas e jornais diários com cada descoberta mais útil que a outra... E o pior, a MINHA cara está estampada em uma dessas revistas, o que os deixa intrigados por terem uma filha inútil pro progresso da ciência. Eles nunca me chamaram de inútil, mas sei que é assim que me chamam mentalmente.
Como se não fôssemos avançados o bastante! É 3785, poxa! Já temos carros flutuantes, celulares Samsung por 5 centavos, os chineses já dominaram e redominaram o mundo, o ser humano já evoluiu prahomo cyberneticus –mistura do organismo humano com microchips -,homo hybridus –com mutações genéticas que facilitam a incorporação de nanotecnologia – e ohomo machinus –máquinas fazem parte de 40% de alguns de nós.
Agora somos muito felizes com nossa nação computadorizada. Menoseu.
Hoje tudo é tecnologia, ciência, matemática e pesquisas sobre a história. Por incrível que pareça, depois de Saturno colidir com a terra, perdemos documentos e arquivos importantes que contam toda a história do mundo. Na teoria dos chineses, éramos descendentes de esquilos, e na dos meus pais é que evoluímos de uma espécie chamadaHomo Sapiens,predominante desde o século X.
Voltando ao assunto inicial: eu estouferrada.E pior: é a quinta vez na semana que eu tenho minha cara estampada numa revista no outdoor mundial de todo o universo com tequila nas mãos e batom borrado. Sou conhecida mundialmente como “noia festera malcriat”, no idioma do antigo catalão da era 2000, que significamenina festeira e mimada.Meu maior inimigo é Ultrasyvicht, o chinês filho dos Yankaleenesies, os maiores cientistas chineses de toda a galáxia, já que os espanhóis criaram a porcaria da viagem de cruzeiro pelas constelações do céu. Quem mora nesses cruzeiros são apenas os Jsuiklakees, os milionários de terno e gravata. Algumas jovens interesseiras da minha idade se casam com coroas de 90 ou 100 anos. Fontes antigas alegam que a vadiagem nunca mudou, nem mesmo com outros tipos de evolução humana. Ridículo.
A sociedade é dividida em: Jsuiklakees –milionários executivos -,Aparakatas –cientistas renomados (meus pais) -,Calophites –resto da população (pessoas pobres que se oferecem como cobaias e que na maioria das vezes morrem) -,e no meu caso, IQCPF –Incrédulos que não Contribuem Para o Futuro.
Por eu não fazer parte desse ridículo vínculo social Aparakatas, sou a “rebelde”, “exilada” e “anti-social”.
--- Isabella Marie Swan, não acredito que está denovo em uma revista! Já é a quinta vez só esse mês, e olha que ele acabou de começar! – minha mãe berrou e eu apenas cruzei os braços.
--- Mãe... – falei apenas, não pretendia acabar a frase.
--- Somos premiados! Estamos trabalhando em uma coisa séria, nem tudo é parábola! – meu pai disse tirando as enormes lentes de contato. Cruzei os braços fazendo pouco caso e dobrei as pernas.
--- Pai... – falei entediada.
--- Você está uma moça feita, precisa contribuir pro nosso futuro! Não entende que se pararmos agora talvez nunca continuemos?
--- Mãe...
--- Você precisa de um emprego Aparakata, ou se quiser continuar com essa vida sem nexo apenas trabalhe pra se tornar uma Jsuiklakees — disse meu pai começando a arrumar a pasta maior que ele mesmo em cima de uma escada rolante.
--- Pai...
--- A vida está cara, pagar cursos e faculdades pra você já não adiantam! Ainda não saiu do colegial e está com dezessete anos, já passou da hora de planejar sua vida! Preguiça é pecado!
E ira também, pensei em responder.
--- Mãe...
--- Por isso suba e se arrume, vamos pro laboratório e você irá estagiar, assim como Ultrasyvicht — falou meu pai sentando no grande zíper alto de sua pasta, e quando chegou ao chão, dobrou-a até ficar do tamanho de uma moeda.
--- Pai... PAI! — gritei de olhos arregalados quando processei o que ele dissera.
--- Isso mesmo, suba agora Isabella Marie Swan! — minha mãe falou aparecendo na sala ao lado dele, de braços cruzados. Bufei.
--- Prefiro quando me chamam assim por elogio — falei já de costas e empurrei a escada rolante até ela alcançar o segundo andar.
--- Queremos isso pro seu próprio bem, Isabella — Charlie disse e se virou.
Quando coloquei a senha em meu quarto, entrei e me atirei dentro de umaroupanova que ganhara semana passada.
Estagiar? O que eles querem que eu seja? Um rato de laboratório? Vem com essa! Pra que evoluir DENOVO? Eles são simplesmente loucos! A filha deles não sou eu, e sim a ciência! Isso não é possível!
--- Droga!- esbravejei chutando um puff branco que estava em minha frente com tanta força que minha sapatilha voou pela janela.
---Quando descer, traga a Rosie!- ouvi minha mãe gritando pelos meus brincos rastreadores.
Rosie? Não, era só o que faltava!
--- Não vou levar a Rosie! — gritei de volta.
--- Então pode esquecer seu tablet dobrável! — meu pai gritou.
(...)
À minha frente estão meus pais sorrindo e cumprimentando todos, enquanto eu estou aqui, atrás dessa geringonça redonda cheia de fios espalhados dentro de um tubo que é 2x a minha altura, e pra piorar, pesa pra c...
--- Olá Swan — ouvi a voz de Ultrasyvicht falar meu sobrenome, mas saiu mais como um "Chuan" pelo seu sotaque meio chinês misturado com americano.
--- Ultrasonico — falei pra provocar. Ele odeia que eu o chame assim, mas não vou falar seu nome verdadeiro até ele conseguir falar o meu nome certo.
Ele forçou um sorriso e viramos o corredor.
--- Sabe o quemeuspais vão fazer hoje? — disse dando ênfase ao meus.
--- Não estou interessada em saber — disse indiferente, mas de fato, eu não queria mesmo. Ele sorriu franzindo o cenho e empinando o nariz, querendo levar ar de superior.
--- Eles vão finalizar a sua máquina do tempo, e eu irei voltar pra 2013 — disse orgulhoso de si e eu revirei os olhos.
--- Sabe que a maioria das cobaias morrem em testes, não sabe? — falei.
--- Não vou morrer, porque meus pais estarão me monitorando a cada segundo — disse ainda mais orgulhoso.
--- Pelo que eu sei, a câmera de Andrew Carlssin se perdeu pelo tempo e ele ficou preso em 2002 — falei normalmente e ele parou, me encarando com fúria. Não tenho medo de um chinês idiota.
Continuei andando e quando meus pais abriram a porta pra mim, chutei as rodinhas da maca que segurava o aparelho Rosie e acenderam-se chamas em baixo delas, fazendo-a flutuar baixo. Empurrei um pouco e coloquei-a em cima do palco redondo que havia no meio da sala. Desliguei as chamas e desci dali, me pondo ao lado de meus pais.
--- Escute tudo Bella, tudo é importante — meu pai sussurrou pra mim empolgado e eu assenti e apertei tanto meu punho que senti o anel que usava diminuir o tamanho.
--- A teoria das máquinas do tempo dada por Albert Eistein é falsa, pois acabamos de criar um instrumento capaz de diminuir a massa... — não prestei mais atenção, meus olhos estavam fixos no chinês animado em minha frente.
Como eu queria ter um poder da mente pra poder fazer seu cérebro explodir, falei mentalmente. Não sei se ele é puxa saco dos pais, que são incrivelmente simpáticos ou porque quer se tornar o imperador da China.
Não sei porque esse palhaço vive competindo comigo. Ele sabe que eu não me importo e não preciso de ciência pra nada. Mas mesmo assim ele insiste em me encher a paciência.
Com a evolução esse povo ficou ainda mais competitivo e doido pra ser reconhecido por qualquer diabos de invenção maluca.
--- Eu me ofereço como cobaia — ouvi a voz irritante de Ultrasyvicht e me dissipei de meus pensamentos. Tomada pelo ódio que sentia dele e de toda merda de ciência, levantei o braço.
--- O que foi, Bella? — minha mãe perguntou com os olhos brilhantes e eu fiz a minha maior cara de indiferente pra Ultrasyvicht.
--- Eu me ofereço, acredito ser qualificada o suficiente – falei sem ter a mínima idéia do que estava falando. Precisei me controlar pra não me jogar no chão de rir da cara ridícula de Ultrasyvicht, que, depois de ter sido confrontado, tentava manter a pose de indiferença.
--- Isso não é justo! – ouvi ele murmurar e logo um dos cientistas fez um sinal pra mim e pra meus pais e se juntaram em um canto da sala, cochichando.
Dei uma piscadinha pra meus pais e coloquei as mãos nas costas, sorrindo. Eles sorriram-me de volta, com certeza entenderam meu sinal de “brincadeirinha”.
Se essa cara de chinês derrotado fosse um emprego, eu concerteza amaria trabalhar.
Logo os cientistas voltaram e Ultrasyvicht me encarava como se a qualquer momento meu cérebro fosse explodir com seu olhar mortal. Discretamente mostrei-lhe meu dedo do meio.
Os cientistas, graças aos céus me aprovaram pra ir à tal experiência falsa.
Meus pais amaram tanto a brincadeira que me deram até um contrato pra assinar. Logo, começamos a planejar minha falsa ida à 2013. De tão animada que estava e com a cara de chinês patético de Ultrasyvicht como motivação, até dei algumas dicas. Logo o bando de cientistas saíram da sala e restaram apenas eu e meus pais.
--- Filha, temos uma surpresa pra você – minha mãe veio em minha direção com as mãos pra trás e meu pai estava sorrindo ao seu lado. A curiosidade e a surpresa me atingiram como uma corrente de ar.
--- O que é? – perguntei curiosa tentando espionar.
--- Fecha os olhos e erga as mãos – ela disse e eu obedeci. Quando senti a tela retina na ponta de meus dedos, abri os olhos abruptamente.
--- Um tablet dobrável com tela retina! – falei surpresa e puxei-o de minha mãe agarrando o mesmo.
--- Nem preciso perguntar se gostou – meu pai riu e virou-se de costas, indo pra sua mesa.
--- Você merece pelo seu esforço – minha mãe virou-se também indo sentar na bancada. Uni as sobrancelhas ainda agarrada ao aparelho.
--- Que esforço?
--- Você se ofereceu pra ser cobaia em uma experiência – meu pai disse como se fosse óbvio e colocou suas enormes lentes.
--- Vocês sabem que aquilo foi só pra irritar o Ultrasyvicht né?
--- Irritar ele? Oh não querida, você não nos disse nada – minha mãe se fingiu de inocente.
--- Você assinou um contrato Bella – meu pai relembrou e eu comecei a suar frio.
--- E a piscadinha? E a risada? Aquilo foram sinais!
--- Da próxima vez você deve ser mais específica filha. Você assinou um contrato, não pode voltar atrás – minha mãe disse olhando pra algum papel prendendo o riso.
--- Você ainda ri? – falei e coloquei delicadamente o tablet em cima da geringonça Rosie e marchei até a frente de sua mesa – sabia que muitas pessoas morrem nessas experiências?
--- Filha, muitas pessoas morriam nessas experiências – meu pai falou e mamãe colocou uma mão na boca como se fosse espirrar e deu um risinho olhando pro lado – os tempos mudaram. A tecnologia evoluiu, já criamos uma bateria que pode demorar anos pra descarregar. Se você entrar em perigo tiraremos você de lá – falou e voltou a olhar pros seus papéis.
--- Como é que é? Vão arriscar a vida da própria filha de vocês? E se eu morrer, não vão se sentir culpados? – falei de olhos arregalados, incrédula nas barbaridades que estava ouvindo.
--- Não estamos arriscando sua vida. Aliás estamos orgulhosos de você finalmente fazer alguma coisa na vida.
--- Ah claro, ser uma Calophites é muita coisa, uau, estou rica! – ironizei mas nem consegui dar um sorriso pra dar mais sarcasmo por causa da fúria que me consumia.
--- Todos começam de baixo – papai deu de ombros.
--- Filha, vai na lanchonete, esfria a cabeça e toma um refrigerante. Depois você volta que vamos te passar as instruções da viagem.
--- Querem saber? Vou mesmo! – falei pegando meu tablete já marchando até a porta e parei e olhei pros dois, que nem notavam minha presença – talvez seja a minha última ida a lanchonete mesmo né?!
--- Manda um abraço pra Charlotte – falou minha mãe sem me olhar, referindo-se a moça que oferece os lanches. Bufei e bati a porta com toda a minha força, mas ela infelizmente fechou-se lentamente por causa da droga do sensor de força que meu pai instalara.
Ignorei os olhares de pessoas e as vozes me perguntando o que tinha acontecido e cheguei a lanchonete, sentando de frente pra grande janela de vidro que ia do teto alto até o chão.
Catei meu celular e liguei pra minha tia Victoria, contei toda a história e mandei ela vir me buscar, mas ela estava no set de gravações gravando um filme que só terminaria em algumas semanas. Todos de minha família são reconhecidos pela mídia ou tem algum talento especial, exceto a Bella-ovelha-negra.
Meus pais são dois sem noção. Tudo bem que a taxa de pessoas Calophites caiu muito porque teve chuva de dinheiro na praça, mas mesmo assim não deveriam arriscar a vida da própria filha.
Aliás nem isso eu sou, sou só uma pessoa atrapalhando o trabalho deles. A verdadeira filha deles é a ciência e a Rosie, a maldita Rosie!
Eu trato essa máquina tão mal que quando eu for mandada pra 2013 tenho certeza que ela vai me mandar pros infernos e dar PANI quando eu quiser voltar.
Essa foi a pior coisa que meus pais fizeram pra mim desde que eu nasci.
Peguei meu tablet lindo e perfeito e abri o bloco de notas, afim de inaugurá-lo ou apenas escrever meu testamento. Arranquei a canetinha fora, quero digitar nessa maravilha com minhas próprias mãos.
“Estou revoltada demais pra escolher nomes, então vou chama-lo de Diário.
Pois bem:
Querido diário,
Mais uma vez meus pais aprontaram pra mim. A ciência revirou a cabeça deles num giro de 720º e eles acabaram esquecendo que devemos cuidar de nossa família. Eu sou a filha deles. Posso pular a cerca uma vez ou outra, ok eu pulo sempre, mas ainda sim sou filha deles! O sangue deles corre em minhas veias!
Uma vez li uma frase que dizia que todos os cientistas são malucos, e acabei acreditando nessa hipótese quando presenciei os dois rindo da minha desgraça. Meus pais são lunáticos por ciência. Juro que se eu não for irei quebrar todas as coisas ligadas à ciência que lá tiverem. Não estou bancando a mimadinha, apenas acho que as pessoas são capazes de sobreviver sem ciência ou tecnologia. Taí, é uma ótima ideia pra pesquisar naquela época de poucos recursos. Quem sabe eu não mudo o sistema desse mundo de vez?
Enquanto estou viva e tenho uma companhia que vai me entender (você), vou trabalhar na minha mais nova (e única) invenção: A teoria dos pais sem noção.”
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