Notas iniciais
Ahan! Eu sabia que sua curiosidade seria maior! Curte aí...

Ovos mexidos e bacon frito. O cheiro bom invadiu o quarto de Anne Stayce, revelando que o café-da-manhã já estava pronto. Abriu os olhos e continuou imóvel em sua cama, fazendo o mesmo ritual que faz toda a manhã: respirando fundo, Anne observa tudo ao seu redor, nos menores detalhes, e tenta recordar-se de como estava na noite anterior e se houve alguma mudança. Ajuda a aumentar sua percepção, sua memória visual e seu senso de observação detalhista — ou pelo menos foi isso que aprendeu nas aulas de teatro.

À frente de sua cama, instalada na parede, sua TV, que ganhou do seu pai, continuava ligada, desde a noite anteiror. Na parede direita, seu armário e um grande espelho ocupavam espaço, ao lado de vários posters de artistas de Blues, Jazz e Rock alternativo. Na parede esquerda, uma enorme estante estava suspensa, cheia de livros e mais livros: Desde terror, romance, poesia e principalmente de análises pscicológicas — seu objetivo era fazer faculdade de pscicologia. Seu quarto era pintado com cor de madeira antiga, dando um toque obscuro ao lugar.

Após tomar conhecimento do seu ambiente, lembrou que aquele seria o primeiro dia de aula do ano. Anne não conseguia entender como o verão havia passado tão depressa.

Saiu da cama e foi direto ao banheiro. Alguns minutos depois, ela desceu até a cozinha usando as primeiras roupas que havia encontrado em seu armário: Um jeans rasgado e uma blusa preta — de sua banda favorita, Hozier — que visívelmente era maior do que ela, e com o tênis surrado nos pés.

– Vai voltar a dormir ou quer mendigar na rua? Por que, se quiser, tenho um chapéu dos anos setenta que sua avó usava, ótimo pra combinar com esse desastre que está vestindo — Ironizou Mary, mãe de Anne, que recebeu uma língua como recompensa. O pai de Anne era militar, e vive viajando a serviço do país, logo Mary cuida de Anne em tempo integral. Ela se esforça pra ser uma boa mãe, e mesmo sendo do tipo moderna, é muito difícil cuidar de sua filha "sozinha".

– Não enche mãe. Já tô puta só de saber que tem aula hoje.

– Primeiro: sabe que não gosto quando fala palavrões. Segundo: olhe pelo lado bom, esse vai ser seu último ano no colegial — Anne já estava sentada na mesa, servindo-se lentamente. — Ei, você sabe que já está atrasada, né? — Um carro vermelho buzinou três vezes na frente da casa.

– Ah, não... — Anne bateu a cabeça contra a mesa, com seu drama habitual. — Foda-se, eu como no camimho — ela, apressadamente, colocou dois pães na mochila e saiu correndo, deixando sua mãe sem se despedir.

– Thau pra você também... — Mary falou sozinha.

***

Anne encontrou o carro esporte vermelho da Sra. Filigan, e a cumprimentou pela janela do motorista:

– Bom dia senhora Filigan — seu sorriso era gentil.

– Bom dia Anne. Pronta pra estudar?

– Bem, pronta mesmo não tô, mas... — A Sra. Filigan acenou um "thau" com as mãos para Mary, que também acenava da janela. Desde que Anne e sua filha, Bethe, se conheceram, Norma Filigan sempre buscara ela, para ir ao colégio.

– Aaaaanne! — Uma voz histérica soou do banco de trás do carro — entra logo, animal!

– Espera aí, ô coisa. — Anne entrou no carro e se deparou com Bethe, usando um vestido rosa bem chamativo. — Mas por que diabos você se produziu assim? — Seu olhar era de repulsa ao analizar o exagero de maquiagem.

– O que foi? não gostou? Achei que deveria dar uma mudada no visual. Minha vizinha me ajudou — disse, passando a mão no cabelo.

– Ela deveria ser presa. Você tá igual um palhaço.

– Nossa, falou a expert em moda. Olhe no espelho querida: tá parecendo um louca maltrapilha.

– Pelo menos eu não...

– Dá pra parar com isso meninas? Ou vão me deixar louca antes de chegar no colégio — A sra. Filigan saiu do meio-fio e dirigiu devagar até a avenida principal, onde acelerou de vez.

***

Quando chegaram ao seu destino, a Sra. Filigan deixou-as no estacionamento e entrou no colégio — Ela trabalhava na biblioteca do prédio. As meninas ficaram escoradas em um carro qualquer, colocando as conversas em dia, e observando as pessoas, atrás de alunos novos.

– Amiga, acho que temos carne nova no pedaço — Bethe cutucava Anne, chamando sua atenção para o jovem de jaqueta preta, bem distante, escorado em uma moto antiga, mas muito estilosa — provávelmente item de colecionador. Usava calças jeans com correntes penduradas e botas escuras do exército. Usando óculos escuros Rayban, seus cabelos ondulados e bagunçados criavam uma imagem perfeita de perigo e sensualidade. Sua barba cerrada, mal feita, completava sua "beleza indomável" — era como se ele não se importasse com qualquer requisito de vaidade, e exatamente isso criasse nele uma aparência tão bela e exótica. Bethe o observou atentamente — ela e todas as meninas que não tinham qualquer tipo de problema na visão -, desde quando o sinal tocou, até ele se dirigir a entrada principal. Foi quando ele trocou um rápido olhar com Bethe, que foi o suficiente pra garota ficar pertubada por dentro.

– Amiga! Você viu? Você viu, né? Me diz que viu!

– Quem? O cara novo? É, percebi que metade da escola também viu. Pra mim é só um cara bonitinho.

– Você tá é com inveja dele ter olhado só pra mim — Bethe franziu o cenho, visívelmente irritada pelo desinteresse da amiga.

– Ah, claro. Super... — Anne pegou a mochila de cima do capô e se dirigiu até o colégio, seguida por Bethe.

***

Anne e Bethe não tiveram dificuldades em encontrar sua nova sala de aula.

Turma B 103.

O professor de História, Sr. Jeff, estava sentado sobre sua mesa, de frente para a porta, cumprimentando formalmente todos os alunos que entravam.

– Bom dia, srta. Stayce. Bom dia srta. Filigan.

– Bom dia professor — responderam juntas, encontrando a sala quase cheia, com apenas três carteiras disponíveis. — Nossa, os alunos estão muito pontuais esse ano — Comentou Bethe.

Sentaram-se e conversaram com alguns alunos que não viam desde o verão passado. Depois de alguns minutos, o Prof. Jeff iniciou sua aula, enquanto fechava a porta.

– Bem crianças, acho que todos aqui me conhecem. Mas, para os que ainda não me conhecem, sou o professor Jefferson Velt. Mas podem me chamar apenas de jeff, ou "querido professor gatão". Fica à critério... — a sala inteira gargalhou. Não pela piadinha sem graça, mas sim pelo fato de ser ridículo pensar em chamá-lo de "gatão", sendo ele um homem de 30 e poucos anos, mas com aparência de lá seus 50, com roupas antigas e uma calvice que dava motivo de inúmeros apelidos entre os alunos, como: tobogam de mosquito; Pouca telha; Salcichão ambulante, professor Xavier, cabeça de ovo, Lex Luthor do subúrbio, e etc.

– Em nossa primeira aula do ano, eu gostaria de, primeiramente, saber como foram as... — Um bater de porta interrompeu o Sr. Jeff, que ao atendê-la, saiu da sala por um instante e voltou acompanhado por um rapaz de jaqueta preta e óculos escuros.

– Temos um novato em nossa classe. Turma, eu lhes apresento o Sr. Lewis Miller — um cochicho generalizado tomou conta da sala, formando um uníssono barulhento. — Pessoal, silêncio! — Ele bateu duas vezes com o apagador no quadro. — Muito obrigado. Sr. Miller, pode se sentar ali, atrás da srta. Stayce. "Que porra! O único lugar na classe tinha que ser justo atrás de mim? Porco dío!" , pensou Anne.

Com um andar determinado, Lewis Miller se encaminhou até sua carteira, enquanto todas as meninas da sala observavam-o descaradamente.

– Prazer, me chamo Bethe — ele mal havia se sentado, e ela não perdeu tempo.

– Prazer. Como ele disse... — indicou o professor com o seu nariz — meu nome é Lewis Miller. Mas exijo que me chamem de Mill.

– Você é quem manda... Mill — sua euforia e excitação era exageradamente chata e irritante, mas mesmo assim, ele se mantinha interessado em suas palavras — ou pelo menos, fingia que estava.

– Ah, já ia esquecendo, essa é minha amiga...

– "Não preciso ser apresentada", é meu nome — interrompeu Anne. Mill apenas sorriu. Bethe olhou pra ela com a pior cara de mal que conseguia fazer.

– Desculpa minha amiga, ela é meio nervosinha — Bethe se desculpou. Suas palavras foram recitadas entre os dentes, como um código secreto, dizendo: "Vou acabar com você, sua vaca!"

– Relaxa, é...? — Mill inclinou sua cabeça.

– Bethe.

– Ah, claro: Bethe. De qualquer forma, foi um prazer conhecê-la também... Anne. — Bethe engasgou. Anne arregalou os olhos de surpresa. Mas duraram apenas dois segundos, o suficiente para ela se recompor. "Isso foi só um truque de mágica barato... Ou um chute muito certeiro. Nada de mais.", respondeu para si mesma.

– Nossa! como você fez...? — Bethe foi interrompida pelo professor:

– Vão namorar ainda, ou já posso dar minha aula?

– Talvez os dois... quem sabe? — Bethe respondeu baixo, piscando para Mill e se virando na carteira, de frente para o Professor.

"Mais fácil do que eu imaginava...", pensou Mill, com as mãos atrás da nuca, escorregando as costas na carteira, de forma relaxada, quase que deitado.

***

À alguns quilômetros de distância dalí, naquele mesmo instante, Meggie Alborn dirigia seu carro BMW preto, à 140 quilômetros por hora, na estrada Valt 76. Seus olhos, atentos como os de um falcão, lagrimávam, ao lembrar de sua mãe e sua irmãzinha, naquela maldita noite de inverno.

"Vou acabar com você, Miller!", pensou Meggie, pela milésima vez, repetindo diversas vezes por todo o caminho, como se fosse seu mantra.

Em sua mão direita, segurava uma pistola Glock semi-automática, sobre seu colo.

Ao longe, na beira da estrada, uma placa verde, simples e antiga, dizia:

"Bem-Vindos a Brighan City".

Notas finais
Não tô afim de comentar... Mas se você acha que é superior a mim, comenta.