Querida Sarada...
4 E agora? Vai?
Notas iniciais
– Quer me dizer algo? — Perguntei enquanto dirigia.
– Eu magoei o papai. — Respondeu enquanto olhava pela janela. — Eu pedi para dormir com ele e sem querer falei da mamãe.
Eu nada respondi. Sarada olhou para baixo e falou com voz embargada:
– Tio Naruto... O papai me odeia?
– Não. Com certeza não. — Respondi sem hesitar.
– Então por que ele me evita ou briga comigo? — Chorou. — O que eu fiz de errado?
Suspirei de maneira falha e afaguei sua cabeça ainda concentrado no trânsito.
– Sarada, ele perdeu a pessoa que ele mais amava no mundo e acha que ninguém entende como ele se sente.
– Eu também amava a mamãe! Ainda amo muito! — Gritou. — Eu também sinto a falta dela! Sinto falta da comida dela, do carinho, dos dias que ela me levava para a escola, do cheiro dela, dos beijos dela... Tudo...! — Soluçou.
Respirei fundo e sequei seu rosto após parar no semáforo.
– Por que não diz isso a ele?
– Ele não escutaria.
– Tente. Sasuke pode ser um cabeça dura e não escutar as pessoas muitas vezes, mas ele sempre escuta as pessoas que ele ama. Assim como você e a Sakura.
– Ele nunca me escutou. Nunca quis.
– Você acha?
– Tenho certeza. — Abaixou o olhar. — Toda vez que tento, ele está ocupado.
– Bem, ele trabalha muito...
– Não é só isso! — Soluçou. — Quando quero conversar, ele vai dormir.
Suspirei estacionando e destravei o cinto para poder abraçá-la.
– Eu sei que deve ser difícil, mas tente falar com ele, não tenha medo de levantar a voz. Ele também precisa escutar mesmo não querendo. — Afaguei sua cabeça. — Você ama o seu pai?
– Amo. — Fungou.
– Você fica chateada quando ele te diz essas coisas?
– Fico.
– Então vá falar com ele. — Apontei para o lado.
Quando ela olhou na direção que apontava, percebeu que estávamos em frente ao hospital que Sasuke trabalhava.
– Ele provavelmente vai demorar a chegar, mas... Tente conversar com ele. — Beijei sua testa. — Peça para a secretária dele deixá-la em sua sala.
– E se não der certo? — Perguntou receosa.
– Darei uma surra em seu pai. — Riu ela.
– Obrigada tio. — Desceu do carro. — Diga para o Boruto que desejo melhoras.
– Claro. — Sorri.
– Só mais uma coisa...
– O quê?
[···]
Saí do carro do tio e esperei ele ir embora. Depois disso, caminhei até a sala que meu pai ficava.
Eu posso ter só 9 anos, mas sei o que ele está sentindo.
No dia em que eu recebi a notícia que a mamãe morreu, eu o vi chorando em seu quarto.
Eu não sabia o que fazer. Eu queria falar com ele, mas fiquei com medo.
Ele chorava de um jeito doloroso e eu apenas fiquei assistindo tudo até ele perder a consciência. Corri para o meu quarto e chorei por causa dele e por causa da mamãe.
Eu não consigo entender! Ela estava tão bem, feliz e alegre, e do nada ela se foi.
Não consigo aceitar isso! O que a mamãe fez de errado? Por que ela teve que ir?
Eu queria ter passado mais tempo com ela, queria ver ela sorrindo para mim só mais uma vez.
Não sei o que mais dói. Ver o papai agindo dessa forma, ou a morte da mamãe.
Tio Naruto disse que ele está sofrendo porque perdeu alguém que ama. Eu sei que ele amava a mamãe, afinal, ele casou com ela.
Mas ela é a minha mãe! Eu também a amo muito. E ver o papai me tratando assim, eu me sinto culpada. Eu deveria ter nascido? Foi por minha culpa?
Eu tento me aproximar e ele me afasta. Por mais que seja doloroso, eu tento de novo e de novo. Mas ele ou grita comigo ou me ignora.
Eu queria dizer a ele, que por mais que ele me odeie, eu o amo. E queria que ao menos uma vez ele dissesse que também me ama.
Ou então nem isso. Só um abraço seria o suficiente.
Eu não queria machucar ninguém. Só queria que ele estivesse comigo.
Mesmo com o trabalho dele, eu queria que ficássemos mais tempo juntos.
Mamãe sempre me disse para ser paciente, mas eu já não aguento mais.
Quando eu vejo o Boruto e o pai dele, sinto inveja. Os dois se dão super bem, e por mais que meu amigo faça de tudo para chamar atenção do pai, o tio Naruto não se importa, ele acha divertido, mas corrige com amor.
Eu queria que o papai fosse mais como ele. Que me desse atenção, que cuidasse de mim e que me ensinasse ou me corrigisse quando fizesse algo errado.
Mesmo se alguém me batesse, ele não ligaria. Porque quando eu falei que o tio Naruto me bateu, o que era uma mentira, ele nem deu confiança.
Por mais que ele se irritasse comigo porque contei uma mentira, eu ficaria feliz se ele tivesse demonstrado preocupação ao menos uma vez na vida comigo. Mas acho que isso nunca vai acontecer.
– Sarada? — Uma tia de cabelo azul me encarou surpresa.
– Você é a secretária do meu pai? — Perguntei. Tinha um negócio pendurado no peito dela, estava escrito: Konan.
– Sim, mas ele não chegou ainda. — Veio em minha direção e se ajoelhou para ficar da minha altura. — Você não deve se lembrar de mim, mas eu te peguei quando você era deste tamanhozinho. — Fez um gesto com as mãos.
– Eu nunca fui desse tamanho.
– Foi sim. — Sorriu. — Você era miudinha, cabia na palma da mão.
– Não exagera. — Ela riu.
– Você tinha que ver a cara do seu pai, ele ficou todo bobo quando te viu pela primeira vez. Morria de medo de te deixar cair, e olha que ele já havia pegado inúmeras crianças menores no colo.
– Sério? — Sorri pequeno.
– Sim. Ele ficou muito feliz.
– A mamãe também?
– ... Sim. — Olhou para o chão sorrindo. — Você sente falta dela?
– Aham.
– E o seu pai?
– Ele não me dá atenção. Não consigo acreditar no que a senhora disse sobre o papai. Ele nunca me tratou com carinho.
Ela respirou fundo e pegou em minha mão enquanto levantava.
– Ele pode parecer uma rocha, mas acredite, ele tem o coração muito mole. — Sussurrou esta última parte.
– Mamãe me disse isso uma vez...
– Mães nunca mentem. — Me soltou após me deixar na sala dele. — Acredite.
– Obrigada, tia Konan. — Sorri e ela encostou a porta.
Andei mais para dentro da sala e sentei numa cadeira ali perto.
O relógio fazia " tic tac " e chovia lá fora. Por um instante achei que papai não iria vir trabalhar. Mas ele logo chegou com o casaco branco dele (jaleco).
– Papai.
– Sarada? — Ele quase tomou um susto. — Por que não está na escola?
– Eu queria te ver.
Ele não mostrou nenhuma reação, só suspirou e deixou suas coisas sobre a mesa.
– Vá brincar lá fora, eu tenho que trabalhar. — Ligou o computador.
Mexi na minha mochila e coloquei uma quantia de dinheiro em cima da mesa.
Ele arregalou os olhos e contou quanto tinha.
– 240 reais... — Balbuciou.
– Eu venho juntando isso tem um tempo. — Comecei a chorar.
– Sarada... — Ele estava com os olhos lacrimejando.
– É o valor que você cobra por consulta, né?
Ele veio até mim ainda surpreso e se ajoelhou. O encarei ainda chorando e perguntei:
– Será que agora o senhor tem tempo para mim?
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