Querida Nevasca
2 Capítulo 2: Noite das melhores amigas.
Notas iniciais
• Narrador: Karoline (OBS.: neste capítulo, será a única narrando)
[10:00 — Sábado, cada da Karoline]
Finalmente, sábado! Eu estranhamente acordei bem animada, talvez por ter resolvido as coisas com a Margot antes de ir dormir, ou simplesmente por não ter que acordar cedo para ir a aula. De qualquer forma, eu planejava sair de casa; não queria ficar mofando ali, sem fazer nada em pleno final de semana e ainda mais com a chuva que estava caindo. Assim que acordei, antes mesmo de levantar da cama, chamei Nevasca no WhatsUp*. (*nome inventado*)
Por fim, decidimos que iríamos a pizzaria mais tarde, e que em seguida iríamos até a casa de Débora. A história sobre nossa amizade com ela renderia um livro, mas resumindo, foi na fila da padaria de um mercado próximo de casa; num sábado em que faríamos um churrasco no meu quintal. De qualquer forma, o que importa é que provavelmente íamos beber muito e acabarmos jogadas no chão de sua casa, rindo e com tudo em nossa volta um tanto quanto embaçado. Isso sim é um "rolê" de qualidade!
Assim que terminamos de fazer nossa programação de sábado, me levantei e fui em direção a mesa da cozinha, afinal, em dias sem aula eu fazia questão de apreciar um bom café-da-manhã; sem ter que sair correndo sem nem sequer engolir direito. Peguei um achocolatado para tomar com meu leite geladinho, passei manteiga em um pão e o cortei em tirinhas... Bem, pode parecer estranho, ou na verdade seja, mas isso me lembrava de quando eu era criança e de quando minha mãe ainda era viva. Ela que tinha essa mania de fatiar o pão, e dar pra mim tudo cortadinho.
De qualquer forma, meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho dos trovões que caía lá fora. A chuva se intensificou do nada, e seu barulho se tornou estrondoso.
— Nossa... — Disse em voz alta, espantada. — ...Eu nem sabia que havia previsão de chuva hoje, e olha como está isso!
Realmente, eu não contava com que chovesse, mas mais inesperado ainda foi receber mais de 43 mensagens de Margot em menos de um minuto.
—
Nevasca estava desesperada! Eu sabia que ela tinha medo de chuva, mas nunca a vi assim. Ligamos chamada.
— Ham, Margot? "Tá" aí?
Era meio difícil reconhecer ela na imagem ali do celular. Estava tudo escuro, mal conseguia afirmar se realmente tinha alguém ali ou se estava simplesmente fazendo papel de trouxa.
— Sim, estou.
— Mas, não te vejo. — Disse, movendo meu rosto para tentar encontra-la.
— Espera...
Nisso, pude ver que a mesma se desenrolou de um cobertor grosso e foi até uma das janelas de sua casa, a abriu e voltou ao notebook.
— Desculpa, fechei todas as janelas e portas daqui. — Respondeu, com voz triste.
— Sem problemas. Está com muito medo? Onde estão seus pais?
— Sim, sabe que não gosto desses barulhos. — Disse, apontando o céu por através da janela. — Meus pais? Bem, eles não estão. Foram para a cidade vizinha, visitar minha avó... Sabe como é, agora que meu avô morreu, não querem deixar ela sozinha por lá.
— Ah sim, entendo. E não vai ter problema sair hoje?
— Então, supostamente eles voltarão ainda hoje, mais tarde. Já mandei mensagem perguntando, mas como lá o sinal é ruim, ainda não receberam. O jeito é esperar chegarem, e então te dou uma resposta. Espero que dê certo. — Disse, colocando as mãos no rosto. — Que frio...
— Certo, qualquer coisa a gente marca pra outro dia. E sim, o seu frio é evidente com um cobertor dessa grossura. — Disse, rindo.
— Para de rir. — Respondeu ironicamente, rindo. — Não precisa desmarcar, vamos esperar.
Ao terminar de dizer a frase, pôde-se ouvir um alto barulho de trovão. Margot se estremeceu ao outro lado da tela, pegou o cobertor que a cercava e o puxou em direção ao seu rosto, o cobrindo enquanto soltava um gritinho. Não me contive, e comecei a rir.
— É... Enquanto dorme fica linda, e com medo fica fofa. Tem algum momento em que tu não fica bem? — Disse.
Nevasca instantaneamente corou, tirou a coberta da face e deu um sorrisinho, dizendo "boba". Passamos horas e horas conversando, praticamente o dia todo; e já passava das 15:00 quando Margot concluiu:
— Karol... Meus pais ainda não me deram sinal de vida, estou preocupada.
— Nadinha? — Perguntei.
— Não. Pior que eu tento ligar e mandar mensagens, mas não consigo.
— Já tentou ligar no telefone de sua avó?
— Ela não tem! — Gritou.
— Como assim, não tem?! — Gritei um pouco mais alto, espantada.
— Digamos que ela é um pouco chata pra essas coisas, e prefere se manter afastada de tudo e todos. Tipo, um agente secreto tentando se manter secreto, sabe?
— Excelente comparação.
Ela fez que sim com a cabeça, e continuou.
— O que faço agora?
— Tente se manter calma, deve estar tudo bem com eles. Talvez tenham parado em algum lugar por causa da chuva forte, e por isso se atrasaram!
Tentei a manter o mais positiva possível, por mais que no fundo eu também estivesse com receio. Continuamos conversando sobre diversos assuntos: colegial, futura profissão, sobre uma possível viagem para outro país que gostaríamos de fazer juntas; bem, tempo vai e vem. Olhei pro relógio, e quando vi, já era 19:00 da noite.
— Amiga... — Margot olhava pro relógio. — ...Acho que hoje o "rolê" não vai acontecer.
— Tudo bem, fica tranquila. Eu já tinha dito que se fosse preciso, marcaríamos pra outro dia. Mas, e agora, o que vai fazer?
— Não sei...
Ficamos um tempo em silêncio, uma olhando pra cara uma da outra sem saber ao certo o que dizer.
— Quer vir em casa? — Margot perguntou.
Aquilo de certa forma me pegou de surpresa. Por mais que eu e Nevasca fôssemos super amigas, que ficam grudadas uma na outra, fazia muito tempo que eu não dormia em sua casa ou vice-versa... Acho que, a última vez foi quando eu tinha meus 12 anos.
— Não tem problema, por você?
— Nenhum problema. Ué, por quê teria? Já fez isso antes.
Concordei com a cabeça, e disse então que iria, mas só pra não deixar ela sozinha já que tinha tanto medo de chuva. Ambas sabíamos que isso era conversa fiada, e que eu estava bem empolgada por dentro. Disse que iria desligar a chamada então, para que fosse pegar minhas coisas; e foi o que fiz.
Separei meu pijama, peguei algumas coisas essenciais e umas "porcarias" para comer de madrugada, pois como de costume, provavelmente iríamos ficar conversando até tarde e sentiríamos fome. Coloquei tudo em uma mochila, avisei meu pai e saí segurando meu guarda-chuva pela porta em direção a casa de Margot, que antes mesmo de eu chegar até lá, a mesma já me esperava de pé na entrada.
— Nossa, que recepção encantadora. — Abracei minha amiga com um sorriso no rosto, ainda enrolada na coberta. Entramos em sua casa e fomos em direção a sua sala.
Sua casa tinha o mesmo cheiro do qual eu me lembrada, eucalipto. Não sei se devido ao produto que sua mãe limpava os tacos de madeira do chão, ou então simplesmente por algo ali ter um cheiro semelhante a isso; mas é e sempre foi tão bom entrar lá e sentir esse aroma. Decidimos que iríamos fazer uma coisa que a uns quatro anos não fazíamos: "a noite das melhores amigas!".
Foi então que pegamos um monte de travesseiros, jogamos no tapete da sala, Margot me deu um cobertor igual ao dela e nos sentamos no chão para assistirmos filmes de terror, um atrás do outro, e cheias de coisas pra comermos em nossa volta. Era como reviver o passado! Eu não fazia ideia do quanto sentia falta disso, e só pude perceber nesse momento.
As horas foram passando, e mais conversávamos do que prestávamos atenção nos filmes; hora ou outra focávamos nossa atenção na tela da TV, mas Nevasca vivia assustando e se agarrando a mim, e não sei por que, mas até que gostava disso. Chegou um momento em que ela acabou dormindo apoiada em meu ombro, estávamos bem próximas e eu podia sentir sua respiração ofegante, seu rosto quente encostado a mim e o cheiro doce de sua pele. Eu estava vidrada naquela menina, não conseguia parar de olhar pra ela, pra sua boca rosada; eu não sabia explicar o que estava acontecendo ali, só não queria tirar meus olhos dela.
De repente, senti uma vontade enorme de beijá-la. Meu corpo queria, mas minha mente exitava; aquilo não era certo. Minha melhor amiga, dormindo, do meu lado... Era um misto de sentimentos dentro de mim. Eu a olhava pra ver se a mesma continuava de olhos fechados, ou se por algum momento não ameaçava acordar e me tirar da cabeça aqueles pensamentos, mas nada! Ela permanecia imóvel. Comecei a fazer carinhos em seus cabelos louros, o que fez com que ela se mexesse um pouco parecendo ter gostado, pois se acomodou mais ainda em meus braços. Continuei tentando pensar em um motivo plausível pra eu estar assim, mas nada fazia sentido, era como se estivesse cega... Cega... De amor?
Não, não era possível, era apenas coisa da minha cabeça. Eu devia estar em minha semana de TPM, e juntou com a carência de não ficar com alguém por um bom tempo. Era a única explicação, ou, pelo menos era nisso que eu queria acreditar... De qualquer forma, permaneci olhando pro filme por mais que não quisesse, por mais que minha vontade mesmo fosse de acorda-la e dizê-la sobre tudo o que estava passando na minha mente aquela hora.
Num piscar de olhos, Margot acorda e começa a passar os dedos em minha mão, acariciando-a enquanto permanece com teu rosto baixo. Sem falar nada, eu retribuo seus carinhos; até que sou surpreendida por um beijo. Sim, um beijo! Quente, úmido e... Da minha melhor amiga? Cada vez mais aquilo parecia perder totalmente o sentido.
Assim que separamos nossos rostos, nossos olhos foram de encontro um com o outro e nossas respirações se entrelaçaram. Soltamos sorrisos, nos aproximamos mais e trocamos mais um selinho. Aquilo era bom, de certa forma. Nevasca parou, me encarou e disse:
— É, quem diria que essa seria a melhor noite das melhores amigas, hein?! — Ela me abraçou e soltou uma gargalhada enquanto dizia.
Que o que ela disse era um fato mais do que verídico, era inegável. De longe aquela noite ficaria marcada para nós duas, independente do que aconteceria depois disso; e tendo isso em mente, apenas continuamos ali, vivendo aquele momento como se ele fosse infinito... Como se nós fôssemos infinitas.
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