SIM

PRIMEIRO ANO DE CASAMENTO

Liam estava nervoso.

Não era seu casamento, ele não era o noivo, mas era o casamento da sua irmã, sua irmã mais nova, sua irmãzinha gêmea, sua... sua outra metade, aquele que o completava, que estava sempre ao seu lado e seria estaria, que tinha passado por tantas coisas na vida que ele nunca conseguiria ao menos imaginar, perdido tantas pessoas que amava que deveria ter se fechado para o mundo, mas que não, continuou vivendo.

Julie estava viva.

Julie estava viva.

Liam via isso na forma como ela se analisava no espelho, passava as mãos pelo vestido, alisando as dobras — ela estava nervosa e ele ficava nervoso por ela estar nervosa. Era um ciclo vicioso. E perigoso.

Liam não gostava quando Julie estava nervosa, porque ela era mais idiota do que normalmente era e sempre fazia algo que se arrependeria. Talvez o simples fato de ter concordado com o pedido de casamento fosse a idiotice da vez.

—Você está nervosa — afirmou ele.

—Sério, Liam? — Julie arregalou os olhos para ele através dos espelhos. — O que você acha? — zombou.

—Que sim.

—Que não! — exclamou ela, virando-se para ele com uma imitação muito boa de espanto, como se nunca tivesse passado pela mente dela que ela poderia estar nervosa. Liam acreditava nela para acreditar nisso. — Eu não estou nervosa, eu sou... Eu sou a calmaria em pessoa.

—Que tal não se casar? — sugeriu ele. — Adiar indefinidamente essa...

—Boa tentativa, mas não. Ou me caso hoje ou hoje. Hoje é o dia do meu casamento.

Liam suspirou. A resiliência de Julie com certeza era admirável. Não importava que a conhecesse antes mesmo de nascer, ele sempre ficava numa mistura de surpresa e um sentimento de que era certo, porque aquela era sua irmã e ela era maravilhosa.

—Você está linda — comentou, emocionado.

Julie sorriu para ele e bateu seus quadris juntos, o monte de saias abaixo deixando-a lenta e sem força para fazer um estrago significativo e derrubar Liam no chão.

—Quem está pronto para me levar ao altar? — questionou Julie, levantando as mãos, como se estivesse indo ao parque e não ao próprio casamento.

Por um momento, Liam viu os braços magros e longos tremendo, e então sua irmã bateu seus quadris de novo, com mais força e mais rapidez do que normalmente fazia, colocando mais força e rapidez para que fosse tal rápida ou forte quanto normalmente era, e brincou:

—Não vá chorar.

Liam já estava.

Asher não conseguia parar. Seus pés não conseguiam parar, ele apenas não conseguia parar. Ficar parado significava pensar e pensar significava pensar mais do que já pensava e ele já tinha muito no que pensar mesmo andando em círculo.

—Ela não vai vim — murmurou angustiado. — Ela não vai vim.

—É, ela não vai vim — concordou Charles, revirando os olhos para ele. — Como se Julie fosse perder a oportunidade de ter dar um fora em público e depois ir comer o bolo sozinha.

Asher parou. Respirou. Exalou. Tentou inspirar mais uma vez, apenas uma, mais uma... Acalme-se, ele se forçou. Ela vai vim, ela vai vim, ela não iria faltar.

Julie não era de recuar e, se ela tinha algum problema com ele, ela diria na sua cara.

Mas, ainda sim, foi um peso a menos para os seus pés, um aperto menor nos seus pulmões e maior espaço para respirar, quando viu Beatrice entrando na igreja num vestido rosa claro (Julie recusava-se a influenciar sua filha a vestir rosa e contribuir para a segregação dos gêneros ou dar mais poder aos papéis sociais que ditavam que garotas deviam vestir rosa, mas... Bea recusava-se a não vestir rosa. Asher recusava-se a não tê-la como sua florista/daminha/o-que-fosse, Julie recusava-se a mudar sua opinião, e eles chegaram ao meio termo que dizia que a cor seria rosa claro. E as rosas jogadas pela grama azul.)

Beatrice estava linda.

Era.

Como a mãe.

Asher olhou ao redor, para o fato de Julie ter mais convidados do que ele (como?), e desafiou qualquer um a falar ou apontar para a perna da sua filha, e então sorriu para ela, que parou na sua frente sem saber para onde ir.

—Como está a minha princesa?

Beatrice piscou, seus olhos grandes brilhando, úmidos. Ela parecia... um pouco assustada. Asher conseguia entender o sentimento de estar sendo alvo de tantos olhares — ele era aquela pessoa que estava em pé em frente a outras, perguntando-se se seria ou não abandonado no altar.

—Bem — a voz de Bea saiu fina, um esguicho.

Asher sorriu, abaixando-se para estar na mesma linha de visão que ela.

—Muitas pessoas, não é? — perguntou. Beatrice assentiu, a cabeça para cima e para baixo, como um boneco de mola, e Ash teve que resistir ao impulso de fazê-la parar, porque ele estava ficando com dor no pescoço só de olhá-la. — Que tal comermos bolo assim que Julie chegar?

—Verdade? — Bea sorriu, parando. — Pomete?

—Eu prometo — assentiu Asher.

O sorriso que ela lhe deu mostrava as covinhas em suas bochechas e Asher queria apertá-las como Julie deve ter se sentido tentava a fazer quando o viu.

—Você já é o meu papai? — questionou ela.

—Não se Julie não vim — resmungou. Cadê Julie?

Asher sempre pensou, em todos os casamentos que não foi, que era florista entrando e então a noiva. No ensaio no dia anterior ao menos foi isso.

Julie estava atrasada.

Novidade.

Ou havia desistido.

Igualmente (não) provável.

Beatrice olhou para ele sem entender, confusa, inclinando a cabeça como Julie fazia, numa pergunta silenciosa.

—Mamãe? Ela não disse que viria? Ela sempre cumple com suas pomessas.

Asher sorriu e passou a mão por cima dos cabelos dela — era tão bom ser jovem e inocente e esperar o melhor dos outros, ver sempre o lado bom e acreditar em promessas... e então a música estava tocando e Julie entrando e Beatrice o olhou como se dissesse "eu te disse".

Mas, talvez, apenas talvez, não fosse algo da juventude, apenas algo que se conquistava, porque Julie sempre cumpria com suas promessas.

—Preparada?

Julie assentiu, séria.

Levantou os braços para cima, as pontas dos dedos alcançando o céu, e depois tentou tocar na ponta dos dedos dos pés, escondido abaixo de todas aquelas camadas e mais camadas de saias.

Num pulo, lá estava ela de pé, os braços formando um círculo enquanto girava o tronco de um lado para o outro com os pés firmes ali, e anunciou em sua melhor voz dramática:

—Vamos quebrar uma perna.

—O quê?! — Liam arregalou os olhos.

—É "boa sorte" nos teatros — explicou, esticando os braços a sua frente enquanto curvava o corpo também naquela direção.

—Eu preferiria "vamos fazê-lo se arrepender" — murmurou Liam.

Julie franziu a testa para seu irmão, perguntando-se quem era ela, embora já soubesse.

—Você está me chamando do quê? Por que Ash se arrependeria? Eu sou um ótimo partido. Ele deveria se sentir honrado por eu tê-lo concedido a oportunidade de ficar ao meu lado.

Liam assentiu.

—Papai teria gostado dele.

Julie balançou a cabeça, negando, embora sorrisse.

—Nah — disse. — Papai não gostaria de ver sua filhinha com alguém. Ninguém é bom o bastante para ela.

—Ele não teria — resmungou Liam.

—Shiu! — repreendeu Julie. — Deixe-me pensar que por uma vez papai se comportaria e agiria como um pai. — Ela fechou os olhos e balançou a cabeça, como se ouvisse uma música. — Eu gosto disso.

—Estou feliz por você — disse Liam. — Muito feliz. Obrigado por me deixar levá-la ao altar.

—O que? — Julie sorriu, enlaçando os braços deles juntos. — Eu te prometi uma vez, não? Eu sempre cumpro com as minhas promessas.

—É? — Liam levantou uma sobrancelha apenas porque podia e ela não e porque ela não tinha cumprido sua promessa. — Eu não me lembro de estar lá quando você se casou pela primeira vez.

—Oficialmente. Segundo a lei. Tecnicamente. — Julie empurrou-o levemente. — Não force a barra.