Quer casar comigo?
25 Não
NÃO
QUARTO ANO DE NAMORO
—Ela pode se chamar Iffigen? — Asher insistiu. — Beatrice Madeleine Harrison Iffigen?
Julie balançou a cabeça.
—Não. Verdadeiramente não. Isso é horroroso. Mas, hipoteticamente, eu posso deixar que ela se chame Beatrice Madeleine Iffigen Harrison.
—Qual a diferença? — questionou Asher.
—A diferença — respondeu ela — é que o último sobrenome é o que normalmente as pessoas usam. E Beatrice usará o meu. Eu serei Julie Agnes Harrison Ro... desculpe erro. — Julie deu de ombros. — É o costume — desculpou-se. — Eu serei Julie Agnes Iffigen Harrison.
—Você quer dizer — balbuciou Asher. — Hipoteticamente?
Julie sorriu, como se contasse um segredo, e pediu:
—O anel.
—O anel — repetiu ele. Ela queria... — O anel? — Ash sentou-se, os olhos arregalados e desfocados e subitamente alerta. — Você está falando sério?
—Você já me viu brincar? — Julie sorriu.
Asher suspirou, voltando a descansar sua cabeça aonde ela devia. Claro que Julie não falava sério. Quando ela havia falado? Aquela garota era o que quer que fosse ambulante.
—Eu estou falando sério — insistiu Julie. — Mesmo.
—Mesmo?
—Mesmo.
—Você está...
—Sim.
—Mas...
—O anel — pediu Julie novamente, levantando a mão esquerda. — Antes que eu desista.
—Não, não, não, não. — Asher se pôs em pé num instante e saiu correndo pelo apartamento. Onde tinha colocado? — Ah! — exclamou, dando meia volta no caminho para o banheiro e indo para a cozinha. — Aqui — disse sem fôlego ao voltar para o sofá. — Aqui está...
—Uma coisa — interrompeu ela.
—Eu sabia! — exclamou ele, sentindo-se triunfante. — Eu sabia! — repetiu, vitorioso. Até que percebeu o que isso significava e seus ombros caíram, em derrota. — Não sei por que ainda acredito em você.
Julie lhe deu um olhar não impressionada.
—Nós dois sabemos porquê.
—Não, Julie. Eu não sei.
Ela revirou os olhos.
—Eu só queria saber o que eu ganho me casando com você — disse, inocente, piscando os olhos e fazendo biquinho. Ela era adorável, como Asher podia dizer não a sua áurea adorável?
—Claro, tudo para você é sobre ganhar.
—Quem gosta de perder? — retrucou. — Vamos, Ash. Por que você quer casar comigo? Você só não está fazendo isso porque estamos namorando há... há uns cinco, seis anos, certo? E por que todos pensam, você está pensando, que o próximo passo é casamento?
—Você está com medo? — questionou Ash, surpreso, piscando algumas vezes para ter certeza se era real e aquela era Julie.
—Eu não tenho medo, Iffigen — zombou ela. — É apenas um receio legítimo de estar sendo pedida em casamento por motivos... estúpidos.
—Okay, certo, um momento. Eu... — Asher não sabia o que dizer. Por que ele queria casar com Julie? — Eu quero me casar com você, porque... Bem, eu quero.
—É um ótimo motivo — comentou ela.
—Julie, você é impressionante, eu te acho o máximo. Inteligente, bonita, engraçada, que luta pelo que quer e acredita. E você sente o mesmo por mim.
—Eu não sei do que você está falando.
—Eu gosto de você e você gosta de mim e estamos namorando há um tempo, e talvez o próximo passo seja um casamento, mas eu quero me casar com você muito antes de estarmos namorando a um tempo. Eu quero estar com você. Dormir com você, acordar com você, fazer tantas refeições quanto possível ao seu lado. Quero te chamar de minha esposa e ouvir você dizer o mesmo...
—Esposa? — provocou Julie, sorrindo.
—Eu quero você, Julie. Foi algo que sempre quis. E eu sei o quanto um casamento é algo importante para você, eu me lembro do que você disse, e eu quero me casar com você por causa disso. E quero que você aceite se casar comigo por causa disso, porque você sabe que vai ser definitivo, que você vai me amar para sempre mesmo que não acredite em para sempre, que eu também seja uma das pessoas que você diz "de hoje e adiante".
—São ótimos motivos — disse Julie, a voz embargada. — Desde quando você tem motivos tão bons assim? Com quem você aprendeu argumentos tão convincentes?
—Com uma ótima advogada que eu conheço.
—Ela é muito boa — concordou.
—A melhor — disse Ash. — Então, Julie, agora sai o sim que eu tanto quero ou vou ter que continuar tentando?
—Você vai continuar tentando? — perguntou Julie ao invés de responder.
—É claro que sim. — Asher sorriu. — Você não ouviu que eu penso o mesmo que você de casamento? Que eu te quero ao meu lado de hoje e adiante?
—Eu acho que... — Julie pensou, realmente considerou tudo que ele disse. Era agora. Ou talvez não ainda. Ela podia escolher. Ela gostava de poder escolher. — Eu acho que agora seria um bom momento para dizer sim.
—Então você vai dizer?
—Sim.
—Ótimo. — Suspirou Asher. — Você pode dizer de novo?
—Você quer casar comigo, Asher Iffigen? — questionou ela.
—Sim — respondeu ele sem hesitar, apressado, as palavras pulando para fora como o seu coração. — Eu quero. Eu com toda certeza quero.
Julie riu, feliz, sorrindo tanto que nunca imaginou que um dia conseguia. Essa era a resposta que queria, a que procurava, mesmo que não soubesse.
—Obrigada.
Julie podia contar nos dedos o número de vezes que disse obrigada.
Ela nem precisava de dedos para dizer quantas vezes foram verdadeiros, sinceros agradecimentos.
E, ainda sim, ela não teve dúvidas de que aquelas palavras, eram as certas.
Principalmente quando Asher sorriu, a abraçou, a amava tão obviamente, tão completamente, tão de hoje e adiante e quantos dias viessem depois.
—Então... — Asher afastou-se antes que se perdesse e Julie esquecesse o que perguntou, o que aceitou. Ela não era confiável. — Será que você pode pegar o maldito anel agora?
—Hum, bem, não.
Asher gemeu, batendo sua cabeça contra a dele sem parar, sem realmente machucá-la.
—Qual é o problema agora? Você nasceu para me perseguir, para retirar toda a alegria da minha vida? Você é meu buraco negro pessoal ou minha antimatéria? — Ratinhos começaram a guinchar e Ash desistiu de se torturar para ver Julie tentando não rir, tentou não sorrir ao vê-la tão feliz, porque se fingia de irritado. — O que foi?
—Desde quando você é um nerd? — zombou ela.
—Desde que eu comecei a namorar uma — retrucou ele.
Julie riu abertamente.
—Você é um idiota — disse suavemente. — Deixe-me terminar. Eu já disse sim, não disse? Eu só não posso pegar esse anel. Eu tenho um acordo com Liam e quem casar primeiro leva o...
—Ah! — exclamou Asher, arregalando os olhos. — Era isso? — Julie assentiu. — Abra.
—Hum?
—Eu sei disso.
—Ah.
—E eu pedi a Liz.
—Oh.
—Então, Julie Agnes Harrison — Asher inclinou-se para ela mais uma vez, batendo suas cabeças juntas e não se afastou, colocando a mão em cima da caixa que ela segurava e abrindo-a, nunca desviando os olhos dos dela — você aceita esse anel?
Julie o encarou com a mesma determinação e certeza, nenhum pouco curiosa de como era seu anel, porque o conhecia muito bem, porque era o anel que queria desde que... sempre. E principalmente desde que entendeu o que ele significava.
—Sim.
Era o anel da sua mãe.
Era o anel que seu pai deu a ela.
Era a única lembrança da sua vida antes de ir para o orfanato, de conhecer Liz, de se apaixonar profundamente por ela.
E cair.
O anel era um emaranhado de fios retorcido num padrão rebuscado, ele era delicado e simples, e na sua simplicidade estava sua beleza.
E na pedra obdsiana no meio, é claro.
Julie o achava lindo.
E agora ele era dela.
O anel era dela.
O anel que era da sua família, da família do seu pai, que seu pai deu a sua mãe, que Asher pediu para dar a ela... agora era dela.
Julie olhou para o seu dedo, virando-o de um lado para o outro e percebendo que a pedra obdsiana que faltava, que ela tinha "pegado emprestado para nunca mais devolver", agora era... Julie aproximou o rosto do seu dedo anelar, seus olhos fixo no local em que uma pedra deveria ter, e que tinha, mas não que não era uma pedra negra de lava fria, era algo mais... simples.
Asher moveu-se, desconfortável. Julie não tinha dito nada desde que disse sim, olhando nos seus olhos, tão fixos nos deles, tão concentrado nele, que Ash sentia-se... a única pessoa daquela sala. Porque ele era. E, mesmo que não fosse, Asher sabia que teria o mesmo sentimento, porque Julie o olhava daquele jeito.
E, então, ela desviou os olhos dos deles e contemplou o anel, virando o seu dedo de um lado para o outro, movimentando sua mão, olhando para aquele anel de todos os ângulos possíveis e inimagináveis, e parou no ponto em que deveria ter uma pedra.
—Eu não sabia o que colocar no lugar -explicou-se Asher. — Liz disse que era uma pedra negra, eu pensei em comprar algo, para colocar no lugar, para não ficar vazio, mas... Eu não sabia o que. Nada seria tão bom quanto o original.
—Nada seria tão bom quanto o original — concordou Julie num murmúrio, apenas para si, flexionando os dedos, colocando a mão estendida, as pontas dos dedos em direção ao chão, e ficando satisfeita ao ver que ele não caiu, que aquele anel poderia ter sido feito para si... se não fosse para a sua mãe e elas tivessem o mesmo número. — Mas está quase. Obrigada.
Agradecimentos duas vezes num mesmo dia? Asher esperaria que o mundo acabasse se Julie não tivesse viajado durante sua crise de sexualidade e impedido essa catástrofe.
—Não tem de que. — Ele sorriu. — Foi uma... por que você está tirando o anel? — questionou.
—Vamos fazer sexo — anunciou Julie, como se anunciasse que aquele era um belo dia. Um belo dia para fazer sexo. — E eu não estou me sentindo confortável em usá-lo nesse momento.
—Hum? — Os olhos de Asher arregalaram-se antes que ele pudesse obrigá-los a fazer isso, numa reação voluntária e assustada. E normal. — O que você disse?
—Vamos fazer sexo — ela disse, passando uma perna sobre sua cintura e sentando-se sobre ele. — Agora.
—Hã? — balbuciou Ash. — Não, não, não — pediu, agarrando suas mãos e impedindo que ela deslizasse para longe. Muito longe.
—Por que não? Hoje está um belo dia.
—É noite — apontou Asher. — E eu prometi que não faríamos isso hoje.
—É um bom momento para isso — comentou. Falando do tempo. Novamente.
—E só por que é um bom momento você quer fazer sexo?
—Preciso de um bom momento para fazer sexo com você.
—Ora, obrigado. — Ash revirou os olhos. — Me sinto maravilhoso agora. Um pedaço de mau caminho. Que se perdeu do caminho de ser mau.
—Pela primeira vez — terminou Julie tardiamente, sorrindo para ele. — Vai ser minha primeira vez nisso, Iffigen. E toda garota quer que seja especial. Toda pessoa — reconsiderou ela. — E eu quero que nossa primeira vez um com outro seja.
Asher estava sem palavras, era a coisa mais linda e romântica que Julie tinha dito. Naquela noite. E talvez em todas as outras, embora ele conseguisse pensar em algumas (se tentasse) melhores. Fazer um top cinco. Não, três.
E ele tinha uma cantada perfeita para esse momento.
—Julie, querida. — Asher sorriu, entrelaçando suas mãos juntas, impedindo-a que se afastasse, que se aproximasse ainda mais, porque aquele não era o momento. Não se ela estava tirando o anel. — Quando nós fizermos sexo, esse será um bom momento, esse dia será especial.
Julie sentou-se na cama. Que não era cama. Apenas um colchão. Não, um sofá. Não, Asher. Tanto faz. Ela balançou a cabeça, tentando limpá-la.
—Eu preciso beber água – murmurou, anestesiada, seus olhos em algum ponto acima da cabeça de Asher.
Asher soltou suas mãos, ajeitou-a em suas pernas, tocou sua testa, sentiu algo, tudo, ela – não tudo, apenas ela errada.
Ele queimava – ele, Asher; ele, sua mão; ele, ela.
—Ei, o que ouve?
Julie balançou a cabeça, quase caindo no processo de sair das pernas dele.
Asher olhou para Julie, para o fato de suas pernas estar um pouco trêmulas, seus braços envoltos de si, ela se encolhendo, e sua nuca e a ponta das suas orelhas vermelhas.
—Você está constrangida? — percebeu Asher, embora sua voz tenha soado completamente surpresa. Por tudo que ele já disse na vida e de mais desenvergonhado, ela estava constrangida por isso?
—É que... — Julie se virou, enfrentando o que sentia, e esfregou o nariz, num ato tímido e constrangido que só fazia quando realmente estava tímida e constrangida. Era fofo. — Foi tão bonito — chiou ela.
—Você está falando sério? — perguntou, assombrado. Isso é o que precisava para envergonhá-la?
Julie estreitou os olhos para ele, ofendida por aquele choque, pelo seu comportamento. E levantou o dedo, pronta para reclamar, para bater nele, mas Asher segurou seu dedo e puxou-a para ele, rindo suave e alegre e tão feliz, abraçando-a tão delicadamente que poderia ser um sonho, que poderia ser um fantasma, mas ela se sentia tão segura e tão livre e aquele abraço era tão certo.
—Eu te amo — disse Asher num suspiro, num sopro, no seu ouvido, e Julie deixou que ele dissesse aquelas palavras, se deixou ouvir, não porque precisava, não porque não sabia, mas porque era certo. E porque algumas palavras precisavam ser ditas.
—Eu também te amo.
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