Quente e amargo

1 Capítulo único


Quente e amargo

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Sorveu o líquido quente e escuro da xícara de porcelana, permitindo que o barulho produzido por seus lábios ao sugar a bebida soasse alto. Não havia ninguém ali para condená-lo por isso. Sorriu satisfeito para si mesmo, estar sozinho fora a melhor coisa que lhe acontecera em anos.

Ir a uma cafeteria desacompanhado, em plena tarde de sábado, poderia ser, no mínimo, desconfortável para uma boa parcela de seus amigos e conhecidos. Mas, para ele estar, finalmente, sozinho, sem ninguém para o culpar a cada movimento ou suspiro que dava, era prazeroso tal qual um orgasmo.

“Que roupa horrível!"

“Não sente dessa forma!”

“Está na hora de cortar esse cabelo.”

“Oh, que nojo, não faça esse barulho ao beber o café!!”

Apertou a xícara quente entre as mãos, aquecendo as pontas dos dedos. Não lhe restava dúvida alguma, depois de viver no inferno, uma tarde silenciosa era um paraíso na Terra.

Mas conquistar a paz foi doloroso. Se fechasse os olhos com força ainda poderia ver e ouvir os pratos lançados contra a parede e os gritos dirigidos a ele. Ah, o silêncio era magnífico.

Sua rebelião durou três meses, antes passara quatro anos vivendo sob o cárcere de salto alto e cabelos loiros. Pensar nos anos de humilhação e repressão gerava uma onda de sensações que percorriam toda sua espinha e abriam buracos em seu estômago. Se pedissem para que resumisse tudo pelo que passou diria apenas: Quente como o inferno. Aqueles quatro anos condensaram-se em noites em que a luxúria o aquecia e dias em que as chamas chicoteavam suas costas, castigando-o apenas por ser ele mesmo, e quem brandia o chicote era o próprio diabo de batom. No entanto, apenas depois que a névoa de ilusões dissipou-se de seus olhos pode ver que, independente do momento, ela fazia de si o que bem entendesse, como se tudo não passasse uma grande piada: a noite você goza e de dia eu gozo de você.

“Ela me ama, apenas quer o melhor para mim.”

Riu para si mesmo ao lembrar da justificativa que usou durante todos aqueles anos. Como pode acreditar em tamanho absurdo?

Não poderia negar, o gosto amargo da relação, a tão pouco tempo findada, ainda estava em sua garganta, difícil de digerir. Ao menos poderia ficar sozinho, com seu café forte e um pedaço grande de bolo bem doce.

Suspirou e fitou intensamente o líquido preto entre suas mãos, completamente aquecidas por segurarem há tanto tempo a porcelana. O café era quente e agradável, um pequeno prazer do qual não imaginava viver sem, mas se mal preparado tornava-se uma bebida incrivelmente amarga e aos desavisados uma queimadura dolorosa tomaria conta da língua e toda a boca.

Aproximou novamente a xícara dos lábios e soprou, sem pressa, bebericando com cuidado o líquido levemente amargo para que não se queimasse. Não cometeria o mesmo erro novamente.

Notas finais
Espero que gostem e não deixem de comentar, saber a opinião de vocês faz toda a diferença.
Nos vemos em breve.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!