Quem é você, Tiffany?
10 Em choque
Notas iniciais
– STUART, ISSO É INACEITÁVEL! – gritava minha mãe, ao ler pela milésima vez o ‘reprovado’ chamativo do meu boletim de notas finais. – Você reprovou seu último ano na escola, Stuart! O que vou fazer com você?
Ela me olhava irritada, batendo os pés rapidamente no chão, enquanto me encarava, sentado na cadeira da cozinha. Pois é, eu havia repetido meu último ano, mas eu estava sempre ocupado. Tentei recuperar com as provas finais, mas não deu certo. Eu faria novamente o último ano, e queria que ela entendesse isso.
– Grace, isso é algo comum. Eu estou em minha fase de crescimento, e é totalmente normal passar por dificuldades como essa – explico para ela.
Ela joga as mãos para o alto, como se pedisse uma ajuda ou algo assim.
– Stuart, isso NÃO É algo completamente normal. Sabe como uma reprovação pode prejudicá-lo no futuro? – gritou ela, suspirando e abrindo a boca em forma de um O.
Revirei os olhos. Ela nunca entenderia. Ninguém nunca me entendia, afinal de contas. Apenas Tiffany concordava comigo. Ela sabia que eu estava sempre certo. Porque ela é minha amiga de verdade, e sei que posso confiar nela para qualquer coisa.
– Grace, pode relaxar, por favor? – falei para ela, respirando de uma maneira que ela me acompanhasse.
Ela suspira uma, duas, três vezes, até se acalmar. Ela puxa uma cadeira e se sentou na minha frente. Seus olhos estão fixos em mim. Não havia jeito de me desviar de seu olhar inexpressivo, nervoso e sem vida.
– Sabe, eu queria dar uma VIDA à você. Desde o divórcio com seu pai, você nunca me deu uma oportunidade. Vive me chamando de Grace, Grace, Grace. Não sabe como isso me magoa – disse ela, alternando o olhar entre mim e suas próprias mãos. – Eu sempre quis ser mãe. É um sonho. Quando May nasceu, foi tudo tão empolgante! E depois veio você, e minha felicidade apenas aumentou. Seu pai e eu éramos muito felizes, mas...
– Acho que estamos falando sobre a escola, não é mesmo? – falei, não querendo ouvir sobre a vida medíocre que levávamos antigamente. Aquilo sim era vida. – Bem, já esclareci minha parte. Agora basta que você entenda, simples assim.
Novamente, ela abre a boca em forma de O, e franze a testa.
– Simples assim? Simples assim? – ela ri debochadamente. – Stuart, você REPROVOU seu ano letivo inteiro. Vai ter que refazê-lo. Enquanto todos os seus amigos estarão na faculdade, você estará fazendo o terceiro ano de novo. Será que parou para pensar em você mesmo?
Eu nunca tinha tempo de pensar em mim mesmo. Eu estava ocupado demais pensando em como tudo estava fora do lugar; uma desordem.
Meu celular apitou enquanto ela olhava fixamente para mim. Péssima hora para que isso fosse acontecer.
Abri o celular e li a mensagem de Tiffany.
‘E então, preparado para a faculdade?
Suspirei ao digitar:
‘Não vou. Repeti. Boa faculdade para você. ’
Um ano havia se passado e eu ainda não sabia quem era a verdadeira Tiffany. Um ano é muito tempo. Eu esperava que até lá nos já nos conhecêssemos pessoalmente, mas parece que eu estava completamente errado. Não sei ao certo se ela sente vontade de me conhecer, mas sei que quero conhece-lâ. Quero ver com meus próprios olhos se ela é tudo aquilo que imaginei. Ou não.
‘O quê? Você repetiu?’
‘Pois é, repeti. ’ – respondi.
‘Não acredito em você. ’
‘Acredite. ’
Grace pigarreou. Olhei para ela, suspirando e preparando os ouvidos para ouvir aquele sermão que somente ela sabia dar.
– Estou dando uma bronca em você e você simplesmente decide conversar com alguém através de mensagens na minha frente? Sou sua mãe, Stuart, e mereço respeito.
Mais uma mensagem. Ignorei Grace para lê-la.
‘Porque não prestou mais atenção na matéria do ano todo, Stuart? Você perdeu um ano de faculdade! Qual é o seu problema?’ – ela parecia realmente brava.
– Ei! – gritei quando Grace pegou meu celular e começou a ler minhas mensagens.
– Tiffany? Quem é Tiffany? É o sobrenome de Addie?
Fazia tempos que Addie e eu não conversávamos. Na verdade, eu não a via mais na escola, nem em lugar algum. Ela havia desistido de toda a nossa amizade por causa de Harry Thomaz. A decisão havia sido dela, e eu respeitaria. Além do mais, eu tinha Tiffany.
Um apito. Peguei meu celular em um movimento rápido.
– Tiffany é minha melhor amiga agora. Addie é passado.
Olhei sorridente para o celular, mas a mensagem que li foi o pior que eu poderia esperar.
‘Olha, Stuart, chega. Não dá mais pra agüentar isso. Eu sei que você deixou de estudar para conversar comigo. Eu sei que você fez isso, não fez? Olhe, vou enviar uma mensagem para você hoje. Desculpe.’
Fiz uma expressão de desentendido enquanto levantava e caminhava em direção ao meu quarto. Grace xingou baixinho. Pude ouvir seus xingamentos enquanto sentava rapidamente no computador. Alguns minutos depois – dez ou quinze aproximadamente – o computador ligou, e li a mensagem que recebi de Tiffany.
‘Querido Stuart,
Fiquei realmente surpresa quando disse que reprovou de ano. Nunca imaginei isso de você. Acho que passamos do limite. Eu e você. Você e eu. É melhor pararmos por aqui. Não quero que se zangue comigo nem nada disso. Estamos fazendo isso pelo seu bem, okay? Um ano é muito tempo. Foi o tempo que você perdeu. Sinto muito por tudo. Quem sabe um dia nos encontremos.
Com amor,
Tiff.’
Pisquei algumas vezes, tentando acordar caso fosse algum sonho. Mas não era. Isso não era um sonho. Isso era a realidade. Tiffany iria parar de falar comigo, assim, de uma hora para outra.
‘Amo você.’
Foi a última mensagem que recebi dela.
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