Quem é você?

7 Último capítulo - Isso é tudo pessoal...


Fevereiro de 2015;

Já faz algum tempo que o Guilherme descobriu os cortes no meu braço, ele, como um bom namorado, brigou comigo no começo, mas foi de preocupação, eu entendo. Ele também contou aos meus pais sobre os cortes, meu pai fez pouco caso, disse que eu estava era tentando chamar a atenção deles, mas minha mãe se preocupou e tentou me levar em uma consulta com um psicólogo, mas, pra quê? Do que ia adiantar? Me recusei e disse que não faria mais aquilo, eles acreditaram. Ainda bem.

E lá vou eu, novamente, andando pela mesma rua do ano passado, a caminho da mesma faculdade, com as mesmas angústias, não é fácil. O Guilherme tinha um ensaio com a banda dele hoje, eles estão fazendo muito sucesso, é ótimo ver a felicidade estampada no rosto de quem a gente ama.

Cheguei! Fui direto para o painel e vi a mesma cena, mas com pessoas diferentes dessa vez, umas rindo e gritando de felicidade, outras chorando e se jogando no chão, mas não estou preocupada com nenhuma delas. Corro meu dedo até a página quase no fim, PEDAGOGIA, corro novamente meu dedo até o V, Valentina, Vescinslando (que nome é esse gente?), ali está, Victória, fui aprovada, mas não estou feliz, nem um pouco.

Cheguei em casa, somente minha mãe estava me esperando, meu pai saiu, também não me importa para onde ele foi, desde que seja para bem longe de mim. Ela me olha com uma cara de "me conta logo, porra".

— Passei...

— Que bom minha filha, não disse que você era inteligente, meu orgulho, e quando é a matrícula?

— Semana que vem, eu vou arrumar toda a papelada para levar.

— Que bom meu anjo, e você está feliz?

— Estou — era mentira, obviamente era mentira — vou subir.

— Vai lá meu anjo.

Cafofo, se você pudesse falar, o que você diria? Provavelmente diria, para de chorar criatura, vive a sua vida, não a vida que os outros querem que você viva, e tira essa pizza de uma semana debaixo da sua cama, ela tá cheirando mal. Gente, é mesmo, a pizza, que nojo.

E você banheiro? Que já me viu fazendo as maiores loucuras, me cortando com uma lâmina e tudo? Você provavelmente concordaria com o cafofo, diria que eu sou doida, te sujei todo de sangue, e que eu faço muita bagunça quando eu saio do banho, hahaha.

Liguei para o Guilherme para contar a novidade, ele estava ensaiando na casa do Victor.

— Oi meu amor, o que me contas?

— Passei no vestibular pra pedagogia.

— Que bom meu amor, e você está feliz?

— to.

— não tá não, tá mentindo, te conheço.

— (...)

— Eu já te falei, essa é a sua vida, a sua felicidade, seu futuro, quem tem que decidir isso é você, e não a sua mãe, seu pai, seu cachorro.

— Eu não tenho cachorro.

— Hã? Ah! Eu sei né?

— Mas eu preciso fazer isso, por eles.

— É você quem sabe, não vou te obrigar a nada.

— Só liguei para te contar e dizer que eu te amo.

— Eu também te amo meu amor.

Escuto também meu pai e minha mãe conversando mais ao fundo.

— Viu meu amor, precisava chamar nossa pequena de burra?

— Hum, ela deveria estar cursando direito, isso sim, não pedagogia, não é meu sonho para ela.

— Mas é o meu e ela vai ser muito feliz, pode contar com isso.

Feliz? Como vou ser feliz? Não estou fazendo o que eu amo. Por que eles insistem tanto em controlar minha vida?

Março de 2015;

Já fui entregar as papeladas pra matrícula, as aulas começam daqui á uma semana, não quero ir, mas...

Não gosto disso, é totalmente insuportável.

Uma semana depois, lá estou eu, caminhando, vejo muitas pessoas alegres caminhando em direção á faculdade, eu não me sinto assim. Chego, procuro minha sala e sento em uma cadeira ao fundo. Muitas pessoas já se conhecem e já montaram seus grupinhos, que patético. As demais não falam umas com as outras, que mundo é esse? Tive que me apresentar para a turma, coisa de criança de primeira série! E tive que mentir que gostava do curso! Mentiras! Mentiras! Mentiras! Eu não gosto disso.

Ao final da aula, me deu um grande alívio aquilo ter acabado, mas amanhã teria que aguentar de novo.

Cheguei em casa, minha mãe estava sentada no sofá.

— Como foi a aula, filha?

— Boa.

— Você parece triste, aconteceu alguma coisa?

Não chora Vicky, não chora.

— Nada não. Vou subir.

Cafofo, você já me viu chorar tantas vezes, mais uma não irá importar não é?

Uma semana aguentando aquele mundinho, as pessoas não falavam comigo e eu também não fazia questão de falar com nenhuma delas. Elas não significavam nada para mim.

Chega! Já chega, me cansei. Saí correndo da sala, percebi que todo mundo me olhava e ria. Saí correndo daquele lugar, meus pais iriam ficar muito bravos comigo, não, já chega, cansei de ter que viver a vida de outras pessoas, se não for nessa vida que irei ser feliz, será na próxima, sim, acredito em vidas futuras.

Cheguei no parque onde costumava ir, procurei pelo Duque, ele não estava lá, nunca mais vai estar. Nesse momento estou odiando meus pais por não me deixarem ser quem eu sou. Vou também até a casa do Guilherme, está fechada, ele deve estar ensaiando, ligo para o celular dele, ninguém atende.

Um vazio toma conta de mim, só tem dor ali dentro, não existe mais amor, alegria, nada, só dor.

Lembro de como o acidente do Daniel foi horrível, lembro da Renata... Espera, R., foi a Renata que me deu aqueles presentes? Mas eu pensei que ela havia ficado pobre, será que ela se sente do mesmo modo que eu me sinto nesse momento? Com dor de não ter mais o meu irmão e amor da vida dela? Guilherme, me desculpa Gui, eu vou te amar pra sempre, não esquece não. Eu só quero a sua felicidade, você vai achar alguém que te ame como eu amei.

Cheguei em uma ponte, ela é alta e lá embaixo eu estou conseguindo avistar várias pedras, é isso, minha dor se acaba aqui, pode essa ser a dor de outras pessoas, mas elas vão melhorar. Adeus, gente, adeus mundo.

POV Lucia (mãe da Vicky)

— Sentimos muito senhora, foi encontrada uma mochila com os documentos da sua filha junto ao corpo.

— Eu não acredito, como isso foi acontecer?

Estava abraçada ao meu marido, estou vivendo a mesma dor pela segunda vez, mas agora, quem provocou essa dor fui eu, eu não, nós, meu marido também. A carinha dela sempre disse que não queria aquilo. Nós forçamos, volta filha, volta e seja feliz como você entender.

Meu marido não demonstra emoções, deve estar com remorso, os olhos dele estão arregalados, isso é demais pra nós dois, eramos pais de um casal lindo, agora estamos sem nenhum dos dois. Vejo o Guilherme mais ao fundo, ele chora muito, amava minha filha de verdade, nós o julgamos demais, desculpa Gui, estamos fazendo você sofrer essa dor também, desculpa também minha filha, por fazer você sofrer durante tanto tempo. Tire fotos bem bonitas do céu meu anjo, mamãe ficaria muito orgulhosa de uma filha fotógrafa, pena que é tarde.

Alguns anos depois;

Já fazem alguns anos que a minha vicky se foi, cinco aos para ser mais precisa, decido sair de casa, está um dia lindo, caminho pela rua e vejo uma praça, engraçado, ela já está aqui á seis anos segundo a placa de inauguração, mas nunca tinha vindo aqui.

O que posso contar a vocês? Meu marido e eu estamos bem, apesar das brigas, estamos nos reerguendo, Renata reapareceu, está linda, se casou com um rapaz super simpático e tem um filho, o nome dele é Daniel, é lindo. Guilherme também se casou, com uma moça muito querida e juntos eles tem um casal de gêmeos, Breno e Valentina, lindos demais.

— QUACK QUACK

O quê? hahahaha, dois patinhos aqui, que lindinhos, devem ser um macho e uma fêmea, os dois parecem ser muito amigos, parecem ser patinhos muito felizes, não sei o porque, mas fiquei com vontade de nomear os dois, ele vai se chamar DUQUE e ela VICTÓRIA.

— Te amo filha!

— QUACK (te amo mãe).

FIM

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