Quem É Você?

3 O Segundo (bem sucedido?) Encontro


Era uma noite excelente para sair: chuvosa e fria.

Eu tinha combinado de pegar Hillary às 21 horas, e eu sabia que ela estaria me esperando pontualmente na esquina, na hora que combinamos.

Então, terminei de abotoar minha camisa, vesti minha capa preta, e saí.

Um ajudante do hotel com guarda-chuvas me acompanhou até o carro.

Dei a direção do ponto marcado com a Hillary para o motorista.

Olhei a chuva lá fora, os pingos escorrendo rápidos como fugitivos pelo vidro.

Aquilo era algo realmente interessante. O poder que a água tinha de transformar tudo a volta, e de ao mesmo tempo se adequar às superfícies.

De repente, aquilo me pareceu muito mais interessante do que a Hillary, e da nossa provável noite de sexo selvagem até o amanhecer...

- Siga em frente, por favor. – eu disse para o motorista.

- Mas o senhor não ia para...?

- Eu mudei de ideia.

Imediatamente, no instante em que passávamos por uma mulher loira com saltos extravagantes, eu disquei o número dela:

- Mudança de planos. – eu disse, no telefone. – Vou ficar em casa.

- Por quê? – ela perguntou.

Eu odiava porquês...

- Não estou afim. – eu disse, e desliguei, antes que outros porquês viessem.

Buscando pelo papel que permanecia guardado em meu bolso desde aquele dia, dei a nova direção para o motorista.

Em poucos minutos, estávamos em San Marco, na Bienal de Veneza.

E eu comecei a justificar para mim o porquê de estar ali. Novamente, o porquê parecia me perseguir, e eu me senti como um pingo de chuva fugitivo.

Mas felizmente, fui salvo por uma bela guia de olhos azuis:

- Posso aiutarti, signore?

Se fosse qualquer outro dia, eu provavelmente teria oferecido o triplo do que ela estava ganhando ali para que fosse jantar e dormir comigo.

Mas era aquele dia.

O dia em que eu a encontraria novamente.

E não era uma questão de destino. Era apenas a minha vontade prevalecendo sobre as demais, como sempre.

Ao contrário do que podia parecer, eu não estava sendo impulsionado por algo misterioso. Eu sabia bem o que estava fazendo e o que conseguiria com isso.

Rapidamente, eu adentrei a sala em que as obras da Accademia estavam expostas. Eram nove artistas – ou melhor, alunos de artes – os escolhidos.

O nome dela estava lá, naquela imensa lista. Digo imensa, porque eu jamais consideraria que tantos alunos assim teriam mérito para expor suas obras na Bienal de Veneza.

Olhando ao redor, não a avistei em lugar algum.

E eu não precisava me preocupar muito, na realidade. Não precisaria me esconder dela já que não podia me ver.

Então, decidi fazer a avaliação das obras de arte.

Avaliei cinco obras. Um quadro com pintura a óleo de um mar azul... Clássico, mas nada que um estudante comum de artes não pudesse fazer. Pelo menos não era abstrato como o segundo quadro: uma mistura de vermelho, laranja e roxo aterrorizante. A terceira obra foi a melhorzinha: uma escultura de anjo feita em mármore. Mármore não era fácil de manusear, mas também tornava qualquer escultura medíocre em uma bela obra de arte.

A quarta avaliação foi bem complicada: se tratava de um quadro imenso, com uma figura estranhíssima pintada. Parecia a mistura de um homem atormentado com um monstro maníaco, em tons de marrom... Definitivamente, uma figura horrível. Mas realmente impressionante.

O quinto quadro quase me fez gargalhar. Era uma tentativa de Picasso, porém sem quase nenhuma geometria e proporções erradas. A única coisa que valia a pena era a combinação de cores. Fora isso, era um absurdo.

E com essa conclusão, constatei que havia acabado de arrumar um terceiro passatempo favorito.

Ate, é claro, encontra-la.

Eu não sei dizer o que chamava tanta atenção para ela, porque estava rodeada por pessoas.

Mesmo assim, eu conseguia ver os cabelos vermelhos soltos, cobrindo suas costas.

Me aproximei um pouco, para observar melhor, e então vi que as pessoas tinham os olhos cobertos por vendas.

- Interessante, non è vero?

Eu olhei para o lado e dei de cara com Vincent, o amigo esquisito.

Droga. Pensei. Será que ele se lembraria de mim? Fazia quase um mês...

Talvez responder casualmente fosse a melhor opção:

- Muito. – respondi.

E me virei, fingindo olhar outras coisas.

- Sabe o que eu acho mais incrível nas obras da Gina?

Ele disse e se colocou entre mim e os outros quadros, me impedindo de ver.

- O quê? – eu perguntei.

- Eu acho que ela faz as obras significarem muito mais do que uma experiência visual ou estética. – ele se aproximou e segurou minha lapela. – Você pode sentir a obra de arte... Entende?

E minhas suspeitas se confirmaram.

Não era possível que isso estivesse acontecendo comigo... Eu tinha cara de gay, por acaso?

Tudo bem... Eu era um homem de classe, com uma aparência excelente... Mas daí a ser homossexual havia um enorme abismo.

- Eu acho que você poderia sair da minha frente. – eu disse para ele, e o amigo esquisito (que agora eu sabia ser gay) arregalou os olhos.

- Me desculpe, eu não queria irrita-lo, mas... Tenho certeza que a Gina vai adorar saber que você está aqui... Gina!

E quando eu vi, era tarde demais.

Resumindo:

Eu tinha ido até lá para vê-la;

Eu não queria que ela me visse, e, obviamente, eu tinha todos os fatos da realidade ao meu lado para que isso não acontecesse;

Ela tinha um amigo que, além de ser gay e ter dado descaradamente em cima de mim, era um grande delator.

Sair correndo não era uma opção para um Malfoy. Bom, pelo menos não agora, que a pequena Weasley estava bem a minha frente.

- Olá, Alex. – ela me cumprimentou, e eu fiquei me perguntando no que haveria de tão especial nesse cara aí que eu tinha inventado para que ela... Bem, lembrasse dele.

- Oi, Gina. – eu respondi.

Ela sorriu, e seus olhos quase alcançavam os meus.

- Que bom que você está aqui.

- Eu não poderia perder esse evento, não é?

- Hum... Não é nenhuma Florença, mas ainda assim é Veneza. – ela riu de si mesma.

Eu fiquei a olhando por um tempo, sem saber o que pensar disso.

Não era possível que ela se lembrasse com detalhes daquela conversa de um mês atrás. Bom, tudo bem, eu lembrava, mas eu era Draco Malfoy, com toda a carga genética de memória fantástica e observação para além da compreensão humana.

E não era possível que ela estivesse... Zombando de mim.

- Para ser bem sincero, algumas obras são... Bem, interessantes.

Ela me olhou como se eu fosse um monstro ou algo assim, e eu quase pensei que estivesse me vendo de verdade.

- Você não pode estar falando sério. – ela disse, mas logo sorriu. – Quer saber? Venha ver as minhas obras.

Ela esticou a mão para mim, e eu fiquei um pouco paralisado.

- Na verdade... – comecei.

- Ah, venha logo! – ela disse e tateou meu braço até encontrar a minha mão.

Eu poderia dizer que havia uma sensação estranha naquele toque, já que meu braço estava ligeiramente dormente, mas acho que o mais estranho era ser tocado por uma mulher que não estava indo para a cama comigo daqui a duas horas. E que não era minha mãe, é claro.

Weasley me levou até suas obras, que estavam cobertas por panos pretos. Era impressionante como ela sabia o caminho até elas, mesmo passando por várias pessoas. Ela sabia a exata distância entre uma coisa e outra. Mesmo não sendo a sua casa.

- Você precisa colocar a venda. – ela disse e entregou uma para mim.

- Eu gostaria de ver, se você não se importar. – eu disse.

- Você poderá ver logo. – ela comentou e puxou a venda das minhas mãos. – Mas antes você vai ver como eu vejo.

E então, finalmente entendi qual era o motivo daquilo.

Ela não podia ver, e queria que as pessoas se sentissem como ela. E eu queria dizer para ela que não adiantava nada, porque eu passaria por todo o processo com o consolo de saber que logo, logo estaria vendo. E não era o caso com ela.

Weasley terminou de amarrar a venda em meus olhos e... Eu estava cego.

- Ok. – ela disse e segurou minha mão. – Agora, você precisa sentir, ok? Eu vou te guiar até a minha primeira obra.

Ela me puxou de leve para o lado e eu não pude evitar sorrir de nervoso.

- O que foi? – ela perguntou.

- É estranho, você sabe, ser guiado por uma pessoa cega.

Eu não podia mais vê-la para saber a sua reação, e isso me deixou desesperado por um momento. Eu realmente gostaria de saber o que ela estava...

Até que a minha mão tocou numa superfície lisa, coberta por uma substância gelatinosa. Era fria e boa de sentir, e então Weasley guiou minha outra mão. Toquei o vidro, liso, porém com partes em relevos variados. Continuando a tatear, percebi que havia uma forma no vidro, uma pintura. E eu estava quase chegando à conclusão do que era, quando ela perguntou:

- Podemos ir para a próxima?

- Eu posso ver?

- Você já viu...

- Você me entendeu. – eu disse, impaciente.

- Entendi. Mas que tal você tentar sair um pouco do você está acostumado a fazer e seguir o caminho que eu, como artista, estou propondo agora?

Você quer dizer: te obedecer? Um Malfoy obedecer a uma Weasley?

Mas eu não era mais um Malfoy. Bom, pelo menos, ela achava que não.

E desse modo, eu poderia seguir o que ela pedia, para ver até onde ia todo o talento que ela imaginava ter. Eu já podia prever que, no final, quando eu pudesse realmente enxergar, veria algo desastroso.

Então deixei que ela me guiasse para outra de suas “obras”.

Era uma escultura maciça. Seria de madeira? Não... Era frio demais para madeira. Talvez cera...

Comecei a tatear para tentar encontrar um sentido na forma. Estava me parecendo um amontoado de formas geométricas, de mesma textura. Eu queria ver, mas não tanto quanto queria ver a primeira. Porém, algo me surpreendeu: ela estava solta no ar. Não havia nada que a segurasse à estrutura base.

- Curioso, não é? – Weasley me perguntou, e eu me perguntei como ela poderia saber o que eu tinha percebido no momento. – Próxima?

Eu assenti.

A terceira e última escultura era, como minhas mãos notaram, um livro. Um livro de páginas abertas, e eu podia manuseá-las como eu quisesse. Cada uma possuía uma textura diferente, essa era a única forma que eu tinha de saber se seria uma história interessante ou não.

Sem sinopses, sem recomendações ou críticas (não que eu acreditasse muito nelas, mas...). Apenas a sensação variada das páginas.

O livro era grande e denso... Algo que me deixava curioso e com vontade de arrancar a venda.

Será que haveria alguma história ali?

Começando a ficar profundamente... Frustrado com aquilo, larguei o livro na base.

- O que você achou?

Ouvi a Weasley perguntar, mas eu estava longe.

Longe... Talvez numa realidade apenas idealizada por mim. Numa realidade em que eu imaginei estar um dia, mas que nunca realmente eu havia alcançado.

E aquilo estava criando uma confusão mental que eu não gostava.

Então percebi que estava na hora de ir.

- Ei, Alex? – ouvi a Weasley chamar, mas continuei a andar. Ela não poderia me seguir, a não ser que fosse realmente um ser sobrenatural – coisa que estava começando a parecer.

Algumas pessoas olhavam para mim, sabendo que eu era o Alex, mas eu pouco me importei. Menos ainda com ela. Por que eu deveria me importar?

Ela era uma Weasley. E Malfoys não se importavam com ninguém, muito menos com Weasleys. Mesmo que eles fossem cegos. Mesmo que eu estivesse momentaneamente fingindo ser outra pessoa.

E mesmo que ela estivesse tentando correr atrás de mim, e eu sabia que poderia cair ou qualquer coisa assim. Mesmo que fosse tão linda com aquela saia preta comprida, esvoaçando com o vento da rua, quando ela saiu para a praça, em meio à chuva, a minha procura.

Ok. Talvez por esse único motivo, eu ia parar. Porque ela estava realmente linda, e se havia uma coisa que um Malfoy apreciava era uma linda mulher. De preferência, sem roupas.

Então, eu fui até ela e a puxei para debaixo de uma marquise.

- Eu já sabia que você era meio maluca com toda essa história de “sentir esculturas”, mas sair no meio da chuva sem saber para onde ir?

Eu a cobri com minha capa. Pelo menos ela poderia se aquecer um pouco apesar da chuva e do frio.

Eu estava mais irritado do que imaginara.

- Ah, então é isso. Você ficou incomodado com a minha arte. – ela afirmou, enquanto tentava secar o rosto.

- Sinceramente, eu não sei se posso chamar aquilo de arte.

Ela arregalou os olhos.

- Você não pode estar falando sério. – ela disse, novamente.

E eu sorri. Era tudo o que ela sempre dizia.

- Pense o que quiser. – respondi e fiquei a observando, enquanto ela parecia refletir, olhando na minha direção.

Seguindo a minha voz.

Será que ela não reconhecia minha voz? Bom... Eu acho que não reconheceria a voz dela como a voz da Weasley. Eu mal me lembro de ouvi-la falar em Hogwarts.

- O que você viu nas obras?

- O que eu vi? Não vi nada!

- Você me entendeu. – ela disse.

- Entendi. – eu inspirei fundo. – Mas novamente eu digo: eu não vi nada. Nada que fizesse sentido.

- Você não conseguiu ver o sentido?

- Não tinha sentido!

- E arte precisa ter sentido?

- Você não está me perguntando isso.

- Estou sim. – ela disse, com aquela segurança que, de repente, aparecia. – E quer saber o que eu acho?

Fiquei quieto, esperando pelo seu discurso.

- Eu acho que você está extremamente incomodado com o fato de ter encontrado uma obra de arte que você não entende. E, além disso, acho que você entendeu sim. E sentiu muito mais coisa ao tocar aquelas obras do que vendo muitas outras maravilhas por aí. Foi por isso que você saiu correndo. Porque quando as pessoas saem correndo assim é porque ficaram com medo do que estavam sentindo.

Como aquela garota cega conseguia enxergar tão bem?

- E você quer saber o que eu acho? – eu perguntei. – Que você tem sentimentos fortes por mim.

- O quê? Eu mal te conheço! – ela arregalou os olhos novamente.

- É sim. Porque quando alguém sai correndo no meio da própria exposição, e sai para rua com toda essa chuva atrás de alguém que ela não consegue nem ver... É porque tem sentimentos fortes por essa pessoa.

Ela ficou quieta, procurando por palavras, o rosto vermelho como um pimentão.

E então eu tive certeza de que também estava certo.

- Você quer saber o que eu acho?

- Aposto que você vai me dizer de qualquer jeito.

Ela me ignorou:

- Eu acho, Alex Villard, que você é muito... Irritante!

E então ela saiu, caminhando até a entrada do prédio da Bienal, sendo ajudada pelo segurança.

E eu dei uma gargalhada imensa.

Eu devia estar mesmo em outra realidade: uma realidade maluca em que a Weasley era uma estudante de artes cega (e que pelo jeito tinha uma grande noção de espaço) que havia acabado de expor suas obras na Bienal de Veneza e que parecia ter “sentimentos fortes” por Draco Malfoy, quem ela pensava ser Alex Villard, que tinha acabado de agir como um idiota deixando-se abalar por obras de arte táteis, e que por um momento (ou dois) tinha achado a Weasley linda.

E agora? O que será que viria para complementar o enredo?

Ah... Sim. É claro.

Ela estava com a minha capa.

E se havia uma coisa que estava escrita na minha capa, não era Alex Villard.

A minha única chance para não ser descoberto: que um dos seus poderes mágicos não fosse saber ler etiquetas sem alto relevo.

Notas finais
Para quem gostou do segundo encontro, só digo uma coisa: espere ansiosamente pelo terceiro!

Um agradecimento especial para a Ádria, que comentou: Obrigada! Fiquei muito feliz que você esteja gostando!

Obrigada a todos por me permitirem compartilhar as minhas palavras!