Quem vai ficar com Celso?
12 Capítulo 12 - A Reação da Noiva
Notas iniciais
Já fazia dois meses que as férias haviam terminado. Eduardo parecia mais calmo. Parecia que havia descansado muito bem. E isso era ótimo. Ele tinha virado um menino bom. Efeito colateral de fugir da realidade. Fumar maconha é parecido. Só que sair de férias é mais barato. Às vezes.
Dona Elisa, em contraste, estava preocupada. Aquela história de novo avô, antigo pai, tinha mexido bastante com ela. Priscila tentava compreender. Mas era meio difícil. Pelo visto, sua mãe estava perdendo uma pessoa importante. E bem, talvez ela sentisse isso, se essa pessoa importante para sua mãe tivesse sido presente na vida dela.
Pelo visto, Otávio também estava perdendo alguém importante. Porém, essa pessoa já estava doente há anos. Apesar de a mesma estar agora em escalas piores.
Isso o afetava um pouco. Porém só um pouco, pois lá estava ele, com a cabeça sobreposta na sua mochila, abraçando Priscila de lado; e esta com a cabeça sobre o peito dele, passando o braço sobre Otávio, apreciando seu namorado pentear seus fios com os próprios dedos. Ele era tão fofo!
Estavam no jardim da universidade.
– Estou indo agora. Tenho aula de Artes agora. — ela diz, tentado se levantar. Mas antes que pudesse, Otávio a puxa para perto novamente.
– Aula de Artes não é importante, Pri! Fica aqui!
– Você é louco? Eu tenho que ir! — e tenta se erguer, e é puxada outra vez. — Ei!
– Você não vai embora!
– Claro que vou. Já fiquei tempo demais com você!
– Meia-hora; grande coisa.
– Não foi só meia-hora! Você sabe que eu não posso perder aula! — ela reclama, ao menos se sentando. Ele a imita, endireitando-se.
– Você sabe que a gente não pode ficar junto em casa! Precisamos aproveitar aqui!
– Ta! Mas eu não posso perder aula! Eu nunca perdi uma aula sequer desde o começo do ano! Não posso perder agora!
– Você tem um recorde de presença? — diz ele, com sarro.
– Tenho, e aí?
– Não importa. É só uma vez!
– Mas uma vez já acaba com tudo, não é?
– Chata! — conclui, deitando-se de volta. — Vai lá com eles, vai. Aposto que esse seu interesse na aula tem a ver com algum cara, que não sou eu.
– Que fofo! Você ta com ciúmes! — Priscila aponta, com uma forçada voz infantil, apertando uma das bochechas dele.
– Eu não to com ciúmes. Aposto que deve ter um monte de cara bonito nesse curso. Só isso justifica esse seu interesse todo nisso.
– Só tem gente feia no meu curso. De bonita só eu.
– Ah, ta. Então fica aqui.
– Você está assim porque está de aula vaga. Quem vai se ferrar sou eu!
– Você não vai se ferrar só porque perdeu uma aula de Artes. Que dramática!
– Se eu vou matar aula, você também vai. — ordena.
– Quê?
– Você hoje não vai às duas últimas aulas.
– Eu não posso faltar!
– Por que não?
– Porque é importante.
– A minha aula também é muito importante e você acabou de me fazer perdê-la.
– Mas é diferente!
– Diferente? Por que é diferente? O que sua faculdade tem que a minha não tem, hein?
E a briga continuou. No final, nem um, nem outro foram às últimas aulas.
***
A conversa com os pais não foi nada fácil. Ele tentou de toda forma explicar. Entretanto, seus pais simplesmente não o quiseram ouvir. Diziam que era coisa de menino, esse romance aí. Que ele deveria cravar os pés no chão e olhar melhor para a mulher que tanto o amava.
Como sempre fazia antes de descer do carro, Celso refletiu um pouco sobre o que acabará de ocorrer e o que possivelmente se sucederia dali a alguns minutos.
Decidiu que, após tentar conversar com seus pais, deveria conversar com sua suposta noiva. Contar-lhe a verdade, pois ela era uma boa garota. E embora Celso tivesse se apaixonado pela outra irmã, sentiu que era um ultraje dispensá-la como se a errada fosse ela.
Errada... — sussurrou em seus pensamentos. Como aquela palavra soava? Errada. Pessoa que estava errada. Ele sabia exatamente a quem cabia tal expressão. Sentiu-se profundamente envergonhado. Mas tudo já estava tão confuso! Como consertar as coisas sem deixar ninguém machucado? Era impossível. Agora tinha de escolher a quem machucar. Na realidade, as escolhas que havia feito acabariam por machucar todo mundo.
Seria daquele jeito. Ele se casaria com quem gostaria. Porém, estes nunca poderiam se voltar para a família. Não poderiam voltar a ver seus pais. Ao menos por uns anos. Voltariam depois de décadas, quando a ferida cicatrizasse, para mostrar os filhos que nasceriam daquela união um tanto incorreta. A irmã deixada talvez não mais conseguisse olhar o casal com os mesmos olhos, se é que seria capaz de encará-los. Os pais perdoariam, brincariam com as crianças e perguntariam do tempo que se passara. Talvez tocassem no assunto dos fatos que causaram o afastamento, talvez o reclamassem pela insolência, talvez nunca mais fossem querer ver aqueles dois desgraçados, talvez o mandassem matar! Não. Também não chegava a tanto. Não é como se ele tivesse sequestrado uma das meninas. Ela veio porque quis. E porque o amava. E ele estava tentando acertar as coisas porque a amava também.
Saiu do carro num ímpeto de coragem e bateu a porta, que ao abrir, trouxe de dentro exatamente a pessoa com quem ele queria dialogar.
– Celso? — expressa a menina com surpresa na voz. Estava com os cabelos soltos, e com um simples vestido branco de manga curta que chegava aos joelhos. — O que faz aqui sem avisar? Aliás, porque passou tanto tempo sem vir aqui?
– Podemos falar em particular?
***
A notícia atingiu a menina como uma bomba. Ela estava atônita. Sem saber o que dizer ou o que fazer. Estavam atrás da casa, num belo e pequeno quintal, com vasos que decoravam a paisagem e um banco de madeira, que permitia um gesto romântico, apesar daquela situação estar longe de se assemelhar a coisa parecida.
Os tijolos que faziam a base da casa, naquele ângulo, pareciam um pouco gastos, embora limpos. A garota estava sentada no único assento disponível, sobre o cimento que tinha acima de si, as plantas verdes que davam cor ao cinzento. Entretanto, se havia alguém sem cor, era a garota. Pobre garota. Pensou que ele lhe vinha com boas notícias, ou simplesmente com uma visita agradável. Mas o que ele dizia? "Estou apaixonado pela sua irmã", "Como assim?", ela lembrou-se de perguntar. Ele apenas disse que assim era, e que não conseguia esquecê-la. Que pretendia assumi-la, em vez da noiva predestinada. Pediu umas desculpas esfarrapadas e ainda quis saber a que horas podia conversar com seus pais, para dar a maldita novidade.
– Isso não pode estar acontecendo — exclamou novamente, ainda sem reação. Limpou do rosto uma lágrima qualquer, torcendo para que a sombra que o rapaz jogava em cima dela, o impedisse de notar aquela sua fraqueza de mulher: um choro que logo se sobressairia pelos olhos castanhos.
– Desculpe. — repetiu Celso.
– Desculpe? Desculpe?! — remenda ela, sentindo-se desta vez, não triste ou decepcionada, mas enraivada, com um profundo desejo de quebrar a catado miserável à sua frente. Ergueu o corpo e se projetou para o combate. — Como você ousa? Como você ousa me pedir desculpas? Eu não sabia que alguém conseguia ser tão cara de pau!
– Desculpe, eu não sabia...
– Você não sabia o quê? Que eu iria ficar irritada? Pensou que eu iria ficar feliz porque você chegou aqui e disse: "Olha, garota feia, eu não gosto de você, eu gosto mesmo é da sua irmã. Desculpa aí. Quem sabe se eu não ficar com ela agora, algum cara olhe pra você e te peça em casamento por vontade, em vez de por obrigação dos pais?". Você é idiota ou o quê? Eu te odeio! Eu te odeio! — brada, aproximando-se dele e batendo em seu peito, enquanto Celso a tentava conter com os braços, praticamente sem sucesso. — Eu te odeio! E quando ficar sabendo, meu pai vai te odiar, minha mãe vai te odiar, a empregada vai te odiar, os vizinho vão te odiar, os cachorros da rua vão te odiar! Todo mundo vai te odiar e mandar você pra um lugar de onde você nunca deveria ter saído: o inferno! — diz, por fim, oferecendo-lhe a última pancada.
– Tudo bem. Eu vou embora por ora, mas eu vou voltar pra...
– Voltar? O que te faz pensar que vai poder entrar nessa casa outra vez? Assim que você passar por aquela porta, eu vou contar tudo para meus pais, e você nunca mais vai poder sequer passar por esse bairro. Seu cretino!
– Cretino? Eu? — Celso se manifesta, já cansado dos desaforos — Quando eu te disse que queria casar com você? Me desculpe, querida, mas eu prometi aos meus pais, e aos seus, inclusive, que iríamos nos conhecer, mas nunca falei com todas as letras que era exatamente com você que eu me casaria. — a mulher prostrou-se a chorar. Droga — Me desculpe. Mas é a verdade. Eu amo a sua irmã. Eu não poderia me casar e viver uma vida inteira com outra pessoa. Me perdoe, mas simplesmente não posso fazer isso comigo. — ele conclui, virando-se para sair por onde entrara.
– Por que você é tão mau? Por quê? Por que ela? — ela clama, quase pedindo compaixão.
– Eu não sei! — e vira-se outra vez para ela — Só é assim. Eu amo ela. Eu não sei porquê, eu simplesmente amo ela.
– O que ela tem, afinal, que eu não tenho? — questiona.
– Não é essa a questão. A questão é: simplesmente é ela a minha pessoa. É com ela que eu quero ficar. É apenas isso. Não é algo que você não tenha. Aliás, você é uma pessoa maravilhosa, só que você não é ela. E é ela que eu amo.
– Mas por que de repente?
– Não foi de repente. Eu já gosto dela há um tempo.
– E por que só trouxe isso a tona agora?
– Eu tentei antes, mas não consegui.
– Seu covarde!
– Eu não sou covarde.
– É! É um covarde miserável. — ele tentou acalmá-la, mas ela não se permitia a isso — Tem algo mais, não é? — suspeita.
– O quê? Não!
– Tem, não é? Eu sabia! É claro que tem alguma coisa. O que é?
– Não tem nada!
– Então por que você está com essa cara de culpado?
– Eu não estou com nenhuma cara de culpado! Você está vendo coisas! — ele blefa, claramente nervoso.
– Me diz o que é!
– Não!
– Então tem algo. Me conte, por que quando alguém descobrir será bem pior.
– Está bem! — brada Celso, ainda a contragosto. A menina também se assusta um pouco, ainda desacreditando se ele iria mesmo revelar o tal segredo. — Eu conto. Mas por favor, pelo menos por enquanto, não conte nada a ninguém.
– Não sei. Uma hora todos irão saber.
– Mas eu quero ser a pessoa que conta. Por favor. Eu sei que não mereço pedir isso, ainda mais nesse momento, que acabei de dar uma má notícia. Mas ao menos por enquanto, não conte nada.
– A coisa é tão grave?
– Eu não sei. Nem sei se é verdade. Mas eu não sei o que fazer!
– Fala de uma vez, Celso!
– Eu acho que engravidei sua irmã! — diz ele, falando firme, porém baixo, com uma calmaria que os doentes têm por natureza. Como se falar aquelas palavras doesse.
– O quê? — diz ela, ainda digerindo a frase.
– Eu acho — e respira fundo — que eu engravidei sua irmã.
– Vocês já chegaram a tal ponto? — diz ela, ainda mais espantada pela descoberta que acabara de lhe sobrevir.
– Eu não quero ser grosso, mas não somos mais crianças.
– Eu tenho nojo de você! — expressa com uma forte expressão facial. — Nojo! — grita.
– Não grite! Alguém pode te escutar! Por favor.
– Como você pôde? Estava noivo de mim. E tanto faz se você me amava ou não. Não conseguiu nem esperar a nossa separação, e já foi dormir com a minha irmã? Que espécie de bicho é você? Porque homem está claro que não é!
– Me desculpe. Foi o impulso. Eu gosto da sua irmã de verdade. E no momento, eu não pensei em nada disso.
– Não pensou? Você não pensou? É claro que não! Tudo que você queria era se esfregar com qualquer uma que aparecesse. E essa maldita teve de ser logo a minha irmã. Eu tenho nojo de você! Nojo!
– Não fale assim da sua irmã!
– Quem é você pra falar de mim? O sujo defendendo o mal lavado. Você não tem vergonha, não?
– Por favor, se acalme! Você está fugindo do foco! Por favor, me ajude com isso! Descubra se sua irmã está realmente grávida! Foi por isso que te contei. Vamos deixar essa briga para depois, agora só descubra se ela realmente está grávida!
– Minha irmã não está grávida! — diz ela por fim, irritada com o rumo da conversa.
– Como você sabe?
– É simples. Ela tem um problema no sistema reprodutor. E a não ser por tratamento, minha irmã não pode ficar grávida.
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