Notas iniciais
Primeira vez que escrevo sério e é apenas um one-shot, boa leitura!

Eu a conheci no museu de artes da cidade, mas não ia apreciar, eu ia odiar. Eu odiava (e ainda odeio) as esculturas feitas de lixo e os quadros que tinham apenas um quadrado rosa ou listras aleatórias. Qual era o motivo daquilo? Qual era a mensagem? Até hoje eu não sei. Ir ao museu era uma rotina para mim, mas nunca ia acompanhando, eu fazia mais do que desprezar a “arte” e apreciava coisas que mereciam ser apreciadas. Mas em uma das minhas sessões de ódio, eu notei uma garota que encava uma obra com uma feição de desentendimento e com sua visão voltada para o seu relógio a cada, eu não sei, 17 segundos. Eu não sei o motivo de me sentir atraído por ela, eu tinha apenas doze anos e ela tinha o cabelo bagunçado! Quem gosta de cabelos bagunçados? Claro, na época eu era assim. Eu combinei comigo mesmo que não podia assustá-la com as minhas bizarrices, então tentaria ter uma conversa normal pelo menos uma vez na vida. Elogiar seu vestido rosa ou perguntar o porquê de não estar usando o chapéu que estava segurando? Nervoso, eu pensei na primeira coisa que deduzi sobre ela quando a vi:

—Você está olhando para o relógio para saber quando tempo tem que ficar aqui para parecer culta?

— É quase isso. Você costuma fazer isso?

— Na verdade eu odeio esta parte do museu. Eu venho aqui para odiar. – Eu notei que ela abriu um leve sorriso no rosto, como que se oque eu havia dito fosse, de alguma maneira, charmosa (oque me prende em pensamentos até hoje, pois nunca irei saber o que aquele sorriso significava).

— Por que você odeia essa parte do museu?

— Tem uma placa na porta que diz que isso é uma sala de artistas, mas eu não vejo arte. Eu vejo esculturas com peças aleatórias e quadros com formas e mais formas que não expressam nada.

— Bem, nisso você tem razão. Que tal sair daqui e ver arte de verdade? Você parece um especialista nisso. – Fomos então à parte do museu onde havia arte de verdade, quadros de grandes pintores como Van Gogh e Leonardo da Vinci se encontravam no local. Ao chegar lá eu a levei para conhecer um dos meus quadros favoritos. Eram pessoas chicoteando outras, mas as que chicoteavam tinham as mesmas vestes as mesmas faces, quanto as que estavam sendo chicoteadas, elas eram coloridas e vestiam roupas muito diferentes de umas das outras. Perguntei, então, o que achara do quadro.

— Bem, acho que quer expressar o preconceito que a sociedade tem sobre qualquer coisa que é diferente.

— Eu apenas acho que tem haver com a escravidão devido à época. Isso que eu gosto de observar nas pessoas, todas tem diferentes interpretações sobre as coisas que observam, sejam mais desenvolvidas como a sua ou menos como a minha.

— Quem é você?

— Um garoto que vem ao museu odiar obras todos os dias, lê poemas de Charles Bukowiski e assiste filmes de época, mexe as mãos quando está nervoso e fala em inglês consigo mesmo constantemente. Quem sou eu? Conte-me você! – Eu não revelei meu nome, não gostava de pessoas novas sabendo dele. Depois de um tempo ela sussurrou:

— Um excêntrico.

— Eu ouço muito isso. Não me afeta tanto quanto deveria, já que na maioria das vezes isso significa que me acham maluco.

— Eu sou uma garota que não tem amigos e vem a lugares como esse tentar ser mais interessante aos olhos das pessoas e ser aceita. Quem sou eu?

— Uma pessoa normal. – Passamos o dia juntos, compartilhando e fazendo novos segredos, contando ambições e fracassos, do dia-a-dia até nossos desejos mais profundos. No fim do dia eu soube que tinha feito uma amiga que iria me acompanhar em meus sonhos e pensamentos para a vida inteira. Eu nunca soube o seu nome, mas eu a conheço mais do que ninguém, isso eu posso garantir. Desde hábitos e coisas que aprecia e não aprecia até expectativas para o futuro e muito mais, não saber seu nome faz tudo isso ser ainda mais especial, onde quer que ela esteja, eu espero que esteja realizada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!